torre bela, viscondes e condes de

O 1.º visconde de Torre Bela foi o diplomata Fernando José Correia Brandão Bettencourt Noronha Henriques, nascido na freguesia da sé, a 21 de fevereiro de 1768. Era filho do morgado António João Correia Brandão Bettencourt Noronha Henriques (1737-c. 1780) e de D. Ana Rosa Vilhena Carvalhal Esmeraldo (1736-c. 1780), vindo a herdar um importante património nas freguesias da Calheta, Câmara de Lobos e Funchal. Na casa dos Correia Henriques tinham-se concentrado vários morgados para além do da capela da Boa Hora, no sítio da Torre, de onde tomaram o título, em Câmara de Lobos, nomeadamente, o dos Brandões, padroeiros da igreja e hospício do Carmo, que fora administrado pelo genealogista Henrique Henriques de Noronha (1666-1730), e o morgado da capela da Alegria, em São Roque, etc., sendo considerada a mais rica casa madeirense, logo depois da casa que viria a ser instituída por João José do Carvalhal Esmeraldo e Vasconcelos de Atouguia de Bettencourt de Sá Machado, 1.º conde de Carvalhal (1778-1837), de quem, aliás, era parente próximo, como quase todos os grandes morgados madeirenses.

O futuro visconde de Torre Bela estava na Madeira por volta de 1790, quando assumiu o posto de coronel do regimento de milícias da Calheta e se devem ter iniciado as obras de uma das suas residências no Funchal, na R. dos Ferreiros, ainda hoje com as suas armas. Mas a 22 de outubro de 1792 estava em Lisboa, onde casou com D. Emília Henriqueta Pinto de Sousa (1775-1850), filha do secretário de Estado Luís Pinto de Sousa (1735-1804), visconde Balsemão. A partir dessa data, só muito pontualmente esteve na Madeira, como se vê pela reclamação com data de 4 de agosto de 1799, na qual os elementos da junta governativa se queixam que os comandantes dos três regimentos de milícias da Madeira estavam todos fora da ilha (AHU, Madeira, 1098). Desde fevereiro de 1799 que Fernando José Correia Henriques se encontrava na Suécia como ministro plenipotenciário (ibid., 1036); anteriormente, desempenhara as mesmas funções em Hamburgo. Por volta de 1808, seria citado como um dos elementos da população civil a ter em conta para os contatos dos comandos ingleses numa futura ocupação da ilha, efetivamente realizada nos finais desse ano. O informador deveria ter sido Thomas Murdock de Cumloden (1758-1846), que se encontrava em Londres desde 1803 e que trabalhara na Madeira, desde 1798, com Thomas Gordon de Balmaghie (c. 1748-1809), criando a firma Newton, Gordon & Murdoch, mas que não estava a par do que então se passava no Funchal.

Assim, o futuro visconde de Torre Bela deslocou-se ao Funchal para ver as obras de construção da sua casa, nos inícios de 1803 (ARM, Governo…, 197, fl. 30), mas já tinha saído da Madeira, com o referido futuro conde de Carvalhal, em fevereiro de 1804, na fragata Andorinha, e seguiu depois para Berlim (ibid., 203, fl. 7v; AHU, Madeira, 1445).

Os interesses económicos da família, entretanto, tinham ficado na ilha, a cargo do irmão Henrique Correia de Vilhena Henriques (1769-c. 1830), protagonista de um caricato incidente que não agradou à antiga nobreza insular: no final do verão de 1803, o morgado não se terá apeado do cavalo quando passou perante o palanquim do governador José Manuel da Câmara (c. 1760-c. 1820), perto da Qt. do Descanso, em Santa Luzia, pelo que este mesmo o mandou prender de imediato, na Fortaleza do Ilhéu, a pior prisão do Funchal. A corte de Lisboa foi de imediato alertada e não aprovou a posição do governador, mandando o visconde da Anadia (1755-1809), sobrinho do antigo governador da Madeira, João António de Sá Pereira (1719-1804), libertar imediatamente Henrique Correia (AHU, Madeira, 1363 e 1364; ARM, Governo…, 197, fl. 41v).

O diplomata Fernando José Correia Henriques seria agraciado com o título de visconde de Torre Bela a 17 de julho de 1812, altura em que deve ter mandado colocar a pedra de armas com coronel de visconde no seu palácio da R. dos Ferreiros. As relações da família haviam-se ampliado à Rússia, para onde a Madeira exportava vinho, pelo menos desde 1791 (GOMES, 1985, 298-304) e, em fevereiro de 1814, o governador Florêncio José Correia de Melo informava o conde das Galveias, no Rio de Janeiro, que o imperador da Rússia enviara de presente a Henrique Correia de Vilhena, irmão do visconde de Torre Bela, um magnífico anel de brilhantes pelos serviços prestados no estreitamento das relações comerciais entre a Rússia e a ilha da Madeira. Em anexo, transcreve mesmo a carta do conde de Romanzof, em francês e em nome do czar, “mon maître”, enviando o anel para Henrique Correia (ARM, Governo…, 198, fl. 22v; AHU, 3373 e 3374).

A família Torre Bela cultivara uma série de relações internacionais e, em 1814, um dos seus elementos assumia uma atitude inédita na ilha. Relata o governador Luís Beltrão de Gouveia, para o Rio de Janeiro, que D. Vicência de Freitas, filha de uma irmã do visconde de Torre Bela e viúva do tenente-coronel Francisco Anacleto de Figueiroa, por sua vez primo de D. Antónia Basília de Brito Herédia, mulher de D. António de Saldanha da Gama (1777-1839), então ministro português na Rússia e futuro conde do Porto Santo, contraíra matrimónio com o súbdito inglês George Day Welsh, que cremos ser natural dos Estados Unidos, estando presente na ilha pelo menos desde 1808. O casamento ocorrera a bordo de uma nau inglesa, ao largo do Funchal e segundo o rito anglicano, visto o bispo do Funchal e o núncio de Lisboa se terem negado a conceder as necessárias licenças. Os nubentes haviam embarcado na nau e passadas quatro horas voltaram ao porto casados. Acrescentou ainda o governador Luís Beltrão que “nem o Visconde, nem outros poucos parentes aprovavam tal casamento e suas circunstâncias” (ARM, Governo…, 198, fls. 30v-31; AHU, Madeira, 3388), parecendo a citação de “outros poucos parentes” indiciar que “outros”, pois eram muitos, teriam aprovado. A filha do casal, D. Ana Figueiroa Welsh, veio a casar com o célebre morgado das Cruzes, Nuno de Freitas da Câmara Leme do Carvalhal Esmeraldo Lomelino (1820-1880), sendo este par responsável, em parte, pela reforma do parque do Museu da Quinta das Cruzes, tal como conhecemos hoje.

O leque de relações internacionais dos Torre Bela está também patente no facto de, em 1811, por ocasião do falecimento do duque de Davaray, marechal de França que se encontrava no Funchal, o corpo do mesmo ser depositado no carneiro da família Torre Bela, na igreja de Santa Luzia. Embora não tenhamos conseguido identificar qualquer marechal de França com este título, no final do ano de 1824, D. Manuel de Portugal e Castro (1787-1854) e o bispo D. Francisco José Rodrigues de Andrade (1761-1838) presidiram à solene transladação do corpo. O visconde de Torre Bela, que veio a prestar serviço como diplomata em Hamburgo, Estocolmo, Berlim, Viena e Nápoles, faleceu nesta última cidade, a 31 de outubro de 1821, sendo depois transladado para a capela da Boa Hora (SAINZ-TRUEVA, 1987, 196), não sendo fácil estabelecer a relação de todos estes locais com o citado duque de Davaray, uma vez que foi depositado no carneiro dos viscondes, em Santa Luzia, quando o próprio visconde foi transladado para Câmara de Lobos.

O governador Portugal e Castro tinha sido avisado, a 4 de outubro de 1824, da chegada de uma gabarra francesa para efetuar a transladação, a La Nantaise, que entrou no Funchal no dia 26 de outubro seguinte. A 29, o corpo e a lápide foram transladados de Santa Luzia para a sé, onde se fez, no dia seguinte, “solene ofício e se celebrou uma missa de Pontifical” a que assistiram os quadros superiores militares “e a que concorreram todas as pessoas distintas por nascimento ou por empregos”. Em seguida, o corpo foi conduzido em procissão até ao escaler do governo e deste até à gabarra francesa, com todas as honras militares devidas ao seu posto de marechal (ARM, Governo…, 725, fl. 131; 714, fl. 118v; AHU, Madeira, 7932 e 7933).

O 2.º visconde de Torre Bela foi João Carlos Correia Brandão de Bettencourt Henriques de Noronha, filho sucessor do 1.º visconde. Nasceu a 17 de novembro de 1794 e acompanhou o pai a Berlim, onde, em 1802, com dispensa de menoridade, assentou praça na Legião de Tropas Ligeiras. Foi depois autorizado a frequentar a Academia Militar de Berlim, onde fez o curso de cavalaria, saindo cadete a 28 de setembro de 1816. A 30 de julho de 1816 já o pai obtivera licença para que o filho o acompanhasse até Viena como adido militar da delegação portuguesa, privilégio que agradeceu ao conde da Barca (BUM, Arquivo…, B-18, 28.3); o mesmo acontecendo para a delegação de Nápoles, no Reino das Duas Sicílias, sendo promovido a alferes a 14 de abril de 1818. Com o falecimento do pai em Nápoles, no ano de 1821, voltaria a Lisboa, sendo promovido a tenente a 13 de abril de 1823.

Cavaleiro da Ordem de Cristo, o tenente João Carlos de Noronha era ajudante de campo do infante D. Miguel (1802-1866) quando se deu o pronunciamento da Vilafrancada, a 27 de maio de 1823. Foi nessa sequência que lhe foi renovado o título de 2.º visconde, por dec. de 14 de julho desse ano, dado por D. João IV. Viria a envolver-se igualmente na Abrilada, a 30 de abril de 1824, tendo depois que sair do país, tal como o infante D. Miguel. Regressaria, no entanto, em 1828 e, a 8 de março de 1833, seria promovido a capitão e graduado major, a 1 de janeiro de 1834, sendo dos poucos morgados madeirenses que apoiou o absolutismo.

Ao longo dos anos de 1828 e 1829, o governo de D. Miguel ainda encontrou algum apoio na Rússia, onde o governo do czar Nicolau se identificava, até certo ponto, com o de D. Miguel, embora a aliança entre ambos deva ter acontecido mais por interesses pontuais estratégicos do que por simpatia pelo governo de Lisboa. O czar confrontara-se com a Inglaterra e ao apoio mencionado não terá sido estranha a ação do filho de João Maurício Correia Henriques (1777-1831), tio do 2.º visconde de Torre Bela, ajudante de campo de D. Miguel. Com efeito, o primo do 2.º visconde, José Maurício Correia Henriques (1802-1874), depois visconde e conde de Seisal, era o representante português em São Petersburgo na época de D. Miguel. O 2.º visconde de Torre Bela participaria, entretanto, nas operações do Cerco do Porto, pois como oficial de confiança de D. Miguel, chegou a sair de Coimbra, onde se encontrava o rei, para conferenciar com o futuro marechal Saldanha, no Porto, mas sem resultados. Com a derrota das forças absolutistas, a 11 de agosto de 1834, pediu a demissão, saindo de novo do país.

Tinha casado, a 25 de maio de 1824, com sua prima-irmã D. Isabel Joaquina Correia de Atouguia e Vasconcelos (1799-1833), tendo nascido em Lisboa uma filha do casal, em 1825, que faleceria dois anos depois. Em Berlim, a 18 de março de 1829, quando regressava a Lisboa para incorporar as forças de D. Miguel, nascia mais uma filha, Filomena Gabriela Brandão Henriques de Noronha (1829-1925), que veio a ser 3.ª viscondessa de Torre Bela. Casando em St. John’s Wood Westminster, a 15 de setembro de 1857, com Russel Manners Gordon (1829-1906), com autorização régia de D. Pedro V, dado o falecimento da mãe em 1833 e o pai não ter voltado a casar, fora-lhe concedido o título de viscondessa de Torre Bela, por dec. de 11 de setembro desse ano (ANTT, Registo, 11, fl. 46).

No final de 1859, passava pela Madeira a arquiduquesa Carlota de Saxe (1840-1927), depois imperatriz do México, a qual, partindo o marido para a América Latina, passou a residir na Qt. Bianchi, hoje incorporada no complexo do Casino. Nas memórias que escreveu, Un Hiver à Madère 1859-1860, publicadas em Viena, em 1863, cita que uma das suas primeiras deslocações foi à Qt. do Monte, onde foi recebida, juntamente com o marido, por Mrs. Gordon, “velha inglesa muito simpática, cujo filho casou há pouco tempo com uma portuguesa, filha do visconde de Torre Bela” (apud NASCIMENTO, 1951, 88-101), parecendo assim que teria conhecido o visconde em Viena.

Russel Manners Gordon, nascido na Qt. do Monte, a 23 de novembro de 1829, filho de Diogo David Webster Gordon e de Teodósia Arabela Pollock, assumiria o título de 3.º visconde consorte pelo seu casamento. Mais tarde, por dec. de 6 de setembro de 1894 e em recompensa pelos serviços diplomáticos desempenhados, especialmente em Berlim, foi elevado a 1.º conde da Torre Bela. O embaixador Russel Manners Gordon interessou-se pela fotografia e terá sido consultor de firmas alemãs e inglesas para assuntos de lentes de máquinas, havendo referência de ter sido amigo do fotógrafo Vicente Gomes da Silva (1827-1906) e, provavelmente, de João Francisco Camacho (1833-1898), aparecendo na visita régia de 1901 como um dos fotógrafos amadores.

Os condes de Torre Bela tiveram duas filhas e um filho, James Murray Kenmure Correia Gordon (1865-c. 1930), em princípio, 4.º visconde e 2.º conde da Torre Bela, títulos que não foram, entretanto, oficialmente revalidados. James Gordon foi um diplomata português, como o pai, falecendo solteiro em Berlim e sem descendência. Os condes de Torre Bela fixaram-se no Funchal, no final da vida, habitando o palácio do Lg. do Colégio, demolido em 1940, vindo a falecer aí o conde, a 6 de abril de 1906, e a condessa, a 9 de agosto de 1925. Os interesses da casa Torre Bela foram assim transferidos para a irmã de James, Isabel Constance Gordon (1863-c. 1945), que passou a usar o título de condessa de Torre Bela.

Esta condessa de Torre Bela foi uma das mais distintas figuras da vida social madeirense das décs. de 30 e 40 do séc. XX, com ativa participação na manutenção e restauro do antigo património edificado da família, como havia feito a cunhada, sendo uma das personalidades que, em 1939, assumiu publicamente a defesa da manutenção do pilar de Banger (BRÁS, 1939). Tornou-se lendária a festa que deu no seu palácio do Lg. do Colégio, por volta de 1939, nas vésperas de ter que entregá-lo à vereação camarária de Fernão Ornelas (1908-1978), que o expropriara para abrir a depois R. Marquês do Funchal (CALDEIRA, 1964, 171). A condessa ter-se-ia despedido dos seus convidados e fechado pessoalmente as portas, retirando-se, em princípio, para a Qt. da Alegria, onde passava o verão. Tendo casado, em primeiras núpcias, com o barão Charles van Beneden e, em segundas, com Joseph Gabriel Edward Francis Bolger (1858-c.1920), a representação da antiga casa Torre Bela passou para o filho Dermont Francis Bolger.

Uma parte do espólio relacionado com a Madeira desta importante família, como o retrato do genealogista Henrique Henriques de Noronha, os uniformes de fidalgo da casa real do último conde de Torre Bela e alguns quadros a óleo, foi doada ao Museu da Quinta das Cruzes, no Funchal, nos finais do séc. XX e nos inícios do XXI. Algumas aguarelas e guaches, com destaque para a grande obra de Andrew Picken (1815-1845) representando a Qt. do Monte, foram leiloadas no Funchal, em 1986, tendo a CMF adquirido uma parte da mesma coleção. Curiosamente, nessa grande pintura datável de 1840 figuram o que parecem ser os filhos do casal Diogo David Webster Gordon e Teodósia Arabela Pollock, e assim, o futuro conde de Torre Bela.

Bibliog.: manuscrita: AHU, Madeira, 1036, 1098, 1363, 1445, 3373, 3374, 3388, 7932 e 7933; ANTT, Registo Geral de Mercês, D. Pedro V, 11; ARM, Governo Civil, 197, 198, 203, 714 e 725; BUM, Arquivo Conde da Barca, B-18, 28.3; impressa: BRÁS, Paulo Sá, “Pilar de Banger que Deus haja”, Re-Nhau-Nhau, 30 jul. 1939; CALDEIRA, Abel Marques, O Funchal no Primeiro Quartel do Século XX, [Funchal, Tip. da Emp. Madeirense Editora], 1964; CARITA, Rui, História da Madeira, vols. 6 e 7, Funchal, SRE, 2003 e 2008; id., “Andrew Picken e a Madeira”, Atlântico, n.º 10, 1987, pp. 109-110; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses, Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, [c. 1983-1987]; GOMES, José Luís de Brito, “A Madeira e a Rússia, Considerações à Margem duma Carta Interessante”, Atlântico, n.º 4, 1985, pp. 298-394; [LEOPOLDINA, Maria Carlota Amélia], Un Hiver à Madère 1859-1860, Vienne, Imperiale et Royal de la Cour de l’État, 1863; NASCIMENTO, Cabral do, “A Arquiduques Carlota e as suas Impressões de Viagem”, Arquivo Histórico da Madeira, vol. 9, n.º 2, 1951, pp. 88-101; Obras de Referência dos Museus da Madeira: 500 Anos de História de um Arquipélago. Catálago da Exposição, [Lisboa], Instituto dos Museus e da Conservação, Ministério da Cultura, 2009; RODRIGUES, Paulo Miguel, A Política e as Questões Militares na Madeira. O Período das Guerras Napoleónicas, Funchal, CEHA, 1999; SAINZ-TRUEVA, José de, “Heráldica de Prestígio em Rótulos de Vinho Madeira”, Islenha, n.º 9, 1991, pp. 62-69; id., “Igrejas, Casas, Fortalezas e Capelas Brasonadas da Ilha da Madeira e Porto Santo”, Atlântico, n.º 11, 1987, pp. 182-196; SILVA, Fernando Augusto da, e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., ed. fac-simile, Funchal, SRTC, 1998.

Rui Carita

(atualizado a 23.01.2017)