trapiche (casa de saúde são joão de deus)

Após adaptações  das casas existentes foi inaugurada a Casa de Saúde do Trapiche, na quinta do mesmo nome, em 10 de agosto de  1924 com 40 doentes incluindo 38 transferidos do Manicómio Câmara.  A  construção do pavilhão de S. José em 1928 e por 1932-1935 da capela e os edifícios centrais permitiu o aumento dos doentes  e  assistência de melhor qualidade.  A construção do pavilhão de S. João de Deus em 1938  e o de Santo António em 1950-1954 permitiram melhorar mais e aumentar dos 122 doentes, em 1930, para  194 em 1940, 361 em 1950  e  405 em 1960, atingindo 492 em 1970 e  506 em 1976, número máximo.

DCIM102GOPRO
Casa Saúde S. João de Deus

Os tratamentos  evoluíram  de acordo com o modelo criado por S. Bento Menni na Espanha, em Portugal e no México e com as praticas das Casas da Ordem Hospitaleira. A higiene, alimentação, ocupações utilitárias e de lazer, a hidroterapia e calmantes: morfina, escopolamina e brometos associados à humanização e pastoral da saúde foram de início as práticas mais comuns. Nos anos 40 do séc. XX introduzem-se os convulsivantes, sistocardilcardiozol, eletrochoque  e insulinoterapia; e por 1950 os psicofármacos: cloropromazina, serpasil, os antidepressivos e neurolépticos, sempre associados à ergoterapia e ocupações ao ar livre. A benzodiazepinas, o valium, o librium, os antipepressivos, os antipsicóticos, os  psicofármacos de segunda geração continuaram a ser incrementadas.

A Casa contou sempre com clínicos  competentes, sendo o primeiro diretor clínico o Dr. João Francisco d’Almada (Santana, 1874-Funchal, 1942), de 1924 até ao seu falecimento em 1942. Foi sócio fundador da Associação Irmãos de S. João de Deus e presidente da União Familiar, uma de gestão e outra proprietária  da Casa, o qual foi coadjuvado por William Clode (1932-1942. O segundo diretor clínico até 1969, o psiquiatra Aníbal Augusto de Faria (São Vicente, 1901-Funchal, 1972), da universidade de Coimbra e especializado em psiquiatria na de Lisboa, introduziu as terapêuticas de eletrochoque, insulina e psicofármacos. Sucedeu-lhe Armindo Saturnino Pinto Figueira da Silva, de 1969 a 2001, que se distinguiu no tratamento dos alcoólicos em unidade aberta, a partir de 1979, na desinstitucionalização e na reabilitação psicossocial. O seu sucessor, José Vieira Nóbrega Fernandes deu continuidade a essas orientações até 2010 em que José Paulo Abreu o substituiu. Neste ano  foi nomeado  para esta função o atual  diretor, Luís Filipe Fernandes.

A enfermagem esteve a cargo dos Irmãos até cerca de 1980 em que os primeiros enfermeiros  não Irmãos começara a trabalhar na Casa. Hoje dispõe de quatro psiquiatras, um neurologista, um gastroenterologista e um médico de medicina interna. Dos outros  146 colaboradores, contam-se 37 técnicos incluindo 3  psicólogos, 28  enfermeiros, 1 gestor de empresas, 1 técnico de serviço social, 1 técnico de recursos humanos, 1 educador social, 1 farmacêutico, 1 nutricionista e um animador  de atividades e da pastoral. Dispõe ainda de 2 telefonistas, 6 administrativos, 5 cozinheiros, 2 técnicos manutenção, 3 responsáveis de serviços gerais, 1 cabeleireira e cerca de  70 auxiliares e alguns voluntários.

A Casa assiste doentes   psicóticos, maníaco depressivos, psicopatas,  grande número de alcoólicos  e oligofrénicos frequentemente por sequelas  do álcool das mães na gravidez e de casamentos entre consanguíneos.  Estas patologias, os excessos de álcool e a corrente da degenerescência ou incurabilidade e a pobreza ocasionaram internamentos longos e por toda a vida, tendência que só se começou a inverter pelo fim dos anos 1970, no tempo de Saturnino, pelas correntes  de desinstitucionalização,  porta aberta e giratória  e da psiquiatria comunitária. Medidas inovadoras reduziram o número de doentes para 374 em 1980; e, dez anos depois, em 1990, para 274, continuando ainda a descer até 2000. A implementação  do paradigma de reabilitação psicossocial envolvendo cerca de  60 pacientes em treinos nas atividades de vida diária, maior  autonomia e empoderamento em cinco unidades redimensionadas; e os  novos medicamentos e tratamentos de alcoólicos  em programa curto estabilizaram o número de doentes à volta de  270-280 até hoje.

O antigo pavilhão de S. José foi substituído em 1980-1984, por um grande edifício que alojou os doentes agudos; lavandaria nova, anfiteatro de 200 cadeiras para cinema, encontros e espetáculos; e um gimnodesportivo. O local do bar foi convertido em ateliê e construído  o Bar Panorâmico com biblioteca anexa por 1992-1995. Nos anos 2001-2010  criaram-se unidades redimensionadas de  gerontopsiquiatria,   pacientes estabilizados e  autónomos, cinco unidades de reabilitação psicossocial, “Caminho” com 14 pacientes, reabilitação psicossocial avançada “Elvira” e “Lucena” para 8 a 12 cada uma; a “Coragem” de 20 em reabilitação intermédia e “Estrelícia” em apartamentos fora da casa de saúde.

Nos últimos 10 anos, e apesar da crise,  as instalações e  equipamentos foram renovados. Abrangeram um elevador  para servir seis pisos e nove unidades; a cozinha, portaria e receção, rede informática, lavandaria, mobiliário, etc. Foi inaugurada a 12 de dezembro de 2014, totalmente requalificada,  a unidade de pacientes agudos, incluindo acessos,  esplanada do bar e o claustro de S. João de Deus. Após  medidas adequadas de formação pontual, jornadas e encontros, formação contínua sobre reabilitação, alcoologia,  família, áreas assistenciais especializadas, formação de pós graduação, animação e pastoral da saúde, a Casa recebeu este ano a creditação da EQUAS. Na área da  interação com a vizinhança e outros parceiros  a Casa manteve desde o início uma relação interativa de ajudas recebidas e dadas, sendo a última no temporal de 20 de fevereiro de 210 em que acolheu 150 pessoas.  O pessoal e vizinhos têm colaborando  na ajuda às obras da Ordem Hospitaleira de  Nampula, Timor, etc. Os voluntários, a associação de família “Entrelaços”,  inúmeros parceiros sociais   e  estagiários de entidades formativas têm-se envolvido na dinamização das interações casa/ambiente social. O desenvolvimento de uma política de gestão e de formação dos recursos humanos têm  incrementado a fidelização e o envolvimento  dos colaboradores na participação  na Missão de Hospitalidade segundo os valores e a ética da Carta de Identidade da Ordem Hospitaleira.

Bibliog. impressa: SILVA, P. Fernando Augusto da, Paróquia de Santo António, 1.ª ed. 1929, Funchal, Funchal Typografia “Esperança”, 1929, pp 201-202; e FSA 2.ª ed. 1997, p. 130; GAMEIRO, oh Aires e Manuel Maria GONÇALVES, oh, História da Casa de Saúde S. João de Deus na Madeira: Os Irmãos de S. João de Deus e os alienados: Dos antecedentes a 1960, vol. i, Esfera do Caos Editores, Lisboa, 1914; manuscrita: Arquivo ARM, [ARM, livro JGDFUN Secretaria,.] 1920,  Sessão Ordinária do mês de Maio, 6 Reunião [28 de maio], folhas 17v a 29 e v,  n.º 1282-130; AHDF, (Arquivo dos Bispos); Arq.  OH, Lisboa; Arq. OH, Funchal.

Aires Gameiro

(atualizado a 14.06.2016)