tuberculose

Os relatos sobre a tuberculose acompanham várias etapas da evolução da Humanidade. Chegou a ser encarada como castigo divino, hipótese negada por Hipócrates, na Grécia antiga, que lhe concedeu o caráter de doença natural e, pela sua condição de desgaste físico do corpo humano, lhe deu o nome de tísica (do grego phthisikos). Em 1839, Johan Lukas Schönlein, professor de medicina alemão, aproveitaria o termo «tubérculo», dado ao nódulo lesional por Sylvius de le Böe, para fazer vingar a nova designação de tuberculose.

A partir do século XVI, a tísica começou a ganhar uma preocupante dimensão por toda a Europa. A doença explodiu nos séculos seguintes e tornou-se a principal causa de morte nos países europeus e na América do Norte. Era conhecida por peste branca e atingia grandes níveis de contágio. A tuberculose refletia os aspetos visíveis dos problemas sociais e económicos decorrentes da Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, que gerou uma maior aglomeração populacional nas cidades, dando origem a precárias condições sociais, com níveis muito baixos de higiene; isto numa época em que os centros urbanos não possuíam redes de esgotos e os despejos eram feitos em plena rua, facilitando um elevado número de contágios.

Em Portugal, a doença era já considerada um flagelo no século XIX. Nos hospitais de Lisboa era a segunda causa de internamento, a seguir à pneumonia. Numa época de fracos recursos científicos, era pouco o conhecimento sobre a forma de tratar os enfermos: “[…] recorria-se aos opiáceos (xaropes e injeções de morfina), ao creosoto, à pomada de iodeto de potássio nas axilas, às sanguessugas, às sangrias, ao bálsamo de peru e ao musgo da Islândia” (MALTEZ, 2012 , 432).

Sem os recursos farmacológicos necessários para combater a doença, os médicos voltavam-se para duas medidas muito recomendadas por essa altura: o isolamento – que levaria à construção de sanatórios (Sanatórios) – e a necessidade de oferecer boas condições alimentares e climatéricas, adequadas ao repouso físico e psíquico. O tratamento pelo clima (climoterapia) começava a ser frequente, um pouco por toda a Europa, e alguns países já tinham estâncias climoterapêuticas para tratar tuberculosos. Este método, embora incerto, era muito aconselhado pelos médicos, que acreditavam no alívio dos sintomas através de determinadas condições climatéricas.

Foi neste contexto que a Madeira começou a adquirir um importante significado no âmbito do tratamento da tuberculose, numa altura em que se tornara já um importante ponto comercial do Atlântico. “Em meados do século XIX, o clima estável e ameno da Madeira era considerado pela climatologia médica europeia – em particular a inglesa – como o mais eficaz para a cura da tuberculose” (MATOS, 2012, 6).

Também por esta altura surgiram trabalhos pioneiros sobre a influência benéfica do clima do arquipélago no tratamento da tuberculose, contribuindo para que a Madeira passasse a ser referenciada como estância de turismo terapêutico. Além da menção de alguns médicos ingleses, também os portugueses se dedicaram a este estudo. Francisco D’Assis Sousa Vaz (1797-1870) obteve o seu grau de Doutor dissertando na Faculdade de Medicina de Paris sobre A influência salutar do clima da Madeira no tratamento da tuberculose pulmonar. Francisco António Barral (1801-1878), da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, publicou em 1854 o primeiro trabalho científico sobre O clima do Funchal e a sua influência no tratamento da tuberculose. Mourão Pita (1837-1907), da Escola Médico-Cirúrgica do Funchal. apresentou à Faculdade de Medicina de Montpellier, em 1857, Du climat et de son influence therapeutique dans le traitement dês maladies chroniques en general et en particulier de la phthisie pulmonaire, livro que publicaria dois anos depois.

Estes estudos contribuiriam para divulgar as terras madeirenses pelos vários cantos do mundo e trariam ao arquipélago algumas figuras ilustres, conhecidas não só no país, como também internacionalmente. “Pela Madeira, passariam ao longo dos anos, importantes figuras da nossa sociedade, como Júlio Dinis, António Nobre, Feliciano de Castilho, Bulhão Pato ou Raul Brandão e destacadas personalidades estrangeiras, como o Príncipe Nicolau Maximiliano, a Imperatriz Isabel de Áustria (Sissi), Paul Langerhans, Anatole France ou Bernard Shaw, todas vítimas da tuberculose” (MALTEZ, 2012, 433, 434).

O clima montanhoso e marítimo, as temperaturas amenas, a flora em abundância e a constante exposição solar, além das boas condições de higiene da ilha, eram particularidades divulgadas um pouco por toda a parte, contribuindo para a reputação da Madeira como centro de tratamento pulmonar.

Esta procura pelo clima terapêutico do arquipélago começou a ser cada vez mais evidente na segunda metade do século XIX, face ao número crescente e preocupante de casos de tuberculose. Em pleno século XX, era evidente a necessidade de construir estabelecimentos para tratar os pacientes, bem como outras infraestruturas para receber os acompanhantes. A este facto, somava-se o aumento do número de infetados entre os residentes.

O Hospício da Princesa Dona Maria Amélia, inaugurado em 1862 e considerado o primeiro sanatório português, era uma referência para o tratamento da tuberculose. Tomando este exemplo e olhando o cenário que se apresentava no país, o Governo autorizou a formação de empresas particulares para construir sanatórios, sobretudo para doentes ricos, mas impondo a condição de serem tratados um determinado número de pobres. Assim, nasceram mais estabelecimentos hospitalares no arquipélago.

Nos anos 30, a Madeira contava com mais três espaços para cuidar dos doentes tuberculosos: o Sanatório dos Marmeleiros, que recebeu os primeiros doentes em 1930 e estava destinado aos pobres; a Quinta de Sant’Anna, que atendia pacientes moradores na ilha com diferentes manifestações da tuberculose; e o preventório, que atendia as crianças e procurava, essencialmente, evitar contágios no seio familiar.

No final do século XIX, alguns acontecimentos contribuíram para uma melhor compreensão da tuberculose. Em 1816, Laennec inventou o estetoscópio. Em 1865, o médico francês Jean Antoine Villemin demonstrou, a partir de experiências em coelhos, que a tuberculose era uma doença contagiosa transmissível, causada por um agente inoculável, pondo assim fim à teoria hereditária. A 24 de março de 1882 (data em que passou a celebrar-se o Dia Mundial da Tuberculose), o bacteriologista Robert Koch anunciou a descoberta da bactéria causadora da tísica (bacilo de Koch).

À luz destes dados, foi mais fácil chegar a novas e eficazes formas de combate à doença, atingindo-se no início do século XX a fase da vacinação. O primeiro sucesso foi desenvolvido pelos bacteriologistas Albert Calmette e Camille Guérin, em 1906. “Os primeiros ensaios com a estirpe obtida (Bacilo de Calmette e Guérin ou BCG) decorriam em Paris, na maternidade de charité, em 1921, onde foi aplicada a uma criança cuja mãe falecera de tuberculose. Provada a inocuidade da vacina, o Instituto Pasteur de Paris pôs à disposição dos médicos todas as doses que necessitassem, comprovando-se rapidamente a sua eficácia pela descida da mortalidade nos recém-nascidos vacinados” (MALTEZ, 2012,  451).

Em Portugal, a vacinação começou em 1928 pelo doutor Élio de Vasconcelos Dias e depois por Aníbal Magalhães Bettencourt, a partir das estirpes trazidas do Instituto Pasteur de Paris e preparadas no Instituto Câmara Pestana. Por esta altura, a Assistência Nacional aos Tuberculosos (ANT), organismo do Estado, procurava adotar por todo o país um plano de ação mais forte contra a doença, que passava pela abertura de hospitais-sanatórios, privilegiando as zonas de altitude ou junto à costa, já que eram consideradas favoráveis para o tratamento dos pacientes, devido às condições climatéricas.

A ANT determinou também a construção de preventórios – com especial incidência para a vigilância dos filhos dos doentes, para evitar contágios – e de dispensários – atuavam na vigília aos adultos que poderiam estar doentes, realizando exames clínicos e radiológicos que, como já foi descrito, foram também implementados no Funchal.

O esforço no combate à doença passou a ser efetuado com maior eficácia a partir do momento em que os avanços científicos mundiais permitiram encontrar recursos mais certeiros para o tratamento e para a prevenção da tuberculose. A chegada de medicamentos modernos e a generalização da BCG melhoraram o panorama da tuberculose e, de uma forma geral, registou-se uma diminuição dos casos da doença, em Portugal e na Europa.

A melhoria das condições de vida da população foi igualmente um importante passo neste combate, ao contrário do que acontecia nos séculos anteriores. Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), no desafio da reconstrução, os países europeus encontraram caminhos mais eficientes e conseguiram debelar a crise económica em que estavam mergulhados. Como consequência, construíram-se bairros sociais, permitindo melhores condições de habitação, e tornou-se mais fácil o acesso a uma alimentação equilibrada, fatores importantes no combate à tuberculose.

Na Madeira, a luta contra a tuberculose foi veementemente assumida pelo doutor João Francisco de Almada (1874-1942). Além do seu trabalho como diretor clínico do Hospício Princesa Dona Amélia e das Casas de Saúde Câmara Pestana e do Trapiche, foi um dos fortes impulsionadores do Sanatório, inaugurado a 8 de dezembro de 1940, e que a partir de 1942 veio a receber o seu nome. Esta instituição, moderna e bem equipada, tanto admitia doentes pobres, como pensionistas que podiam pagar pelas acomodações.

Também ao seu esforço se deve a construção do Dispensário AntiTuberculoso do Funchal, construído no Campo da Barca e inaugurado em dezembro de 1933, altura em que a Câmara Municipal do Funchal lhe conferiu o título de Cidadão Benemérito, afirmando ter sido ele “o madeirense que mais eficaz e abnegada acção desenvolveu na propaganda contra a tuberculose” (Centenário, 68).

Agostinho Cardoso (1908-1979) é outro nome da medicina associado ao trabalho efetuado no arquipélago, na área da tuberculose. Foi nomeado, em 1933, o primeiro diretor do Dispensário, que mais tarde veio a receber o seu nome. Assumiu a direção do Sanatório João de Almada e a ele se deve a organização e o funcionamento deste estabelecimento. Agostinho Cardoso foi igualmente um dos principais promotores do Preventório Santa Isabel e de todo o trabalho efetuado no Centro de Diagnósticos e de Profilaxia, com vista à prevenção, divulgação científica e propaganda popular sobre a doença. Foi nomeado subdelegado da Subdelegação do Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos no Funchal.

O Centro Dr. Agostinho Cardoso, no Campo da Barca, veio a ser o eixo coordenador da organização antituberculosa no arquipélago, que assenta no Programa Nacional de Luta Contra a Tuberculose, mantendo os métodos de diagnóstico e vacinação necessários à vigilância e controlo da doença.

De acordo com dados divulgados, em 2013, pelo Instituto de Administração da Saúde e Assuntos Sociais da Madeira, a região apresenta uma quebra no número de casos de tuberculose pulmonar. Entre 1995 e 2013, registou-se uma diminuição na ordem dos 59,4%. A Organização Mundial de Saúde coordena, atualmente, programas de combate a esta doença social que, ao longo dos últimos séculos vitimou todas as camadas da população, incluindo cientistas, escritores, poetas, músicos, pintores e monarcas.

Bibliog.: impressa: Centenário do Hospício da Princeza Dona Maria Amélia, Lisboa, 1962; COSTA, Renato Gama-Rosa, “O Sanatório João de Almada e o Armamento Anti-tuberculoso em Portugal (1934)”, Islenha, n.º 54, jun. 2014, pp. 135-148; MALTEZ, Fernando, “Tuberculose”, in MALTEZ, Fernando e ALMEIDA, Ramalho de, Histórias de Doenças Infecciosas, s.l., s.n., 2012; MATOS, Campos, “Hospício da Princesa Dona Maria Amélia – O primeiro Sanatório Português”, Islenha, n.º 50, Funchal, jun. 2012, pp. 5-22; GUEVARA, Gisela Medina, As relações luso-alemães antes da primeira Guerra Mundial. A questão da concessão dos sanatórios da Ilha da Madeira, Lisboa, Edições Colibri, 1997; VERÍSSIMO, Nelson, “A questão dos sanatórios da Madeira”, Islenha, n.º 6, 1990, pp. 124-143; VIEIRA, Ismael Cerqueira, “O pioneirismo da Madeira no tratamento da tuberculose em meados do século XIX”, Ler História, n.º 61, 2011, pp. 85-103; digital: IASAÚDE, IP-RAM – http://iasaude.sras.gov-madeira.pt/(acedido em Fevereiro de 2015).

Ana Londral

Cátia Teles

(atualizado a 05.01.2017)