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Agostinho de Ornelas de Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura nasceu no Funchal, a 14 de março de 1836 e distinguiu-se na cultura, nas letras, na diplomacia, na política e na ciência. Membro da antiga nobreza portuguesa, embora cioso dos pergaminhos nobiliárquicos de que era herdeiro e que honrava, desprezava os títulos e as honrarias. Foi um espírito liberal e aberto ao progresso e às letras e um eminente cultor das ciências. Filho do morgado Aires de Ornelas de Vasconcelos, que foi governador civil do Funchal, e de Augusta Correia Vasques de Olival, frequentou o Liceu Nacional do Funchal e, tendo concluído com distinção o curso secundário, tirou o curso de Direito em Coimbra. No ano em que concluiu a licenciatura, 1857, foi nomeado, por decreto de 18 de novembro, segundo adido à legação de Washington, de que tomou posse em junho do ano seguinte, permanecendo no posto até fevereiro de 1859.

Em 1884, foi publicado no Porto, por iniciativa do seu autor – seu irmão, bispo do Funchal e arcebispo de Goa –, um volume intitulado Obras de D. Ayres de Ornelas Vasconcelos, que incluía uma extensa biografia do bispo, com sabor clássico e da autoria e lavra de Agostinho de Ornelas. O volume continha os diversos escritos do prelado, nomeadamente a sua dissertação de doutoramento, intitulada Reforma das cadeias em Portugal. Aproveitando o ensejo, Agostinho de Ornelas Vasconcelos incluiu na mesma publicação um documento memorialístico sobre a penitenciária de Filadélfia, escrito durante o período em que exerceu o cargo na capital americana, tendo então percorrido longamente aquele país e visitado as suas instituições mais célebres.

Prosseguiu a sua carreira diplomática em Berlim, onde exerceu intermitentemente a função de encarregado de negócios na ausência do respetivo embaixador; em 1863 ascendeu a primeiro adido e foi colocado sucessivamente no Rio de Janeiro e em São Petersburgo, cargos que não exerceu por motivos de doença. Seguiu-se a nomeação, a 26 de abril de 1865, para secretário de legação em Viena de Áustria, sendo logo de seguida transferido para Londres, onde permaneceu até dezembro de 1867.

Por decreto de 27 de setembro de 1886, após alguns anos de interregno da carreira diplomática, é nomeado ministro plenipotenciário em Madrid. Não chega a exercer este cargo, pois, por decreto de 30 do mesmo mês, é nomeado para a direção política do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Por decreto de 17 de novembro de 1891, ascende a diretor geral dos negócios políticos e diplomáticos do mesmo ministério. A 6 de setembro de 1894 é nomeado ministro plenipotenciário para a Rússia, cargo de que toma posse a 10 de novembro daquele ano e que conserva quase até a data do seu falecimento 6 de setembro de 1901 (em Niedervalluf, na Alemanha).

Desempenhou com honra e mérito várias missões diplomáticas espinhosas, como a participação nos trabalhos da convenção relativa à contenda de Moura, que lhe mereceu a Grã-Cruz de Carlos III de Espanha, e foi um dos representantes de Portugal na célebre conferência da Haia de 1899, em que se estabeleceram os primeiros tratados sobre leis e crimes de guerra e sobre a resolução pacífica de controvérsias internacionais. Na política, destaca-se a eleição de deputado pela Madeira nas legislaturas, geralmente curtas, de 1869, 1870, e 1871 a 1874. Nas Cortes, destacou-se nas suas intervenções, por serem corretas na forma e na urbanidade de trato. Não sendo um daqueles tribunos de arrebatamento era, contudo, um orador fluente e conhecedor dos assuntos que tratava, o que lhe merecia a atenção e o respeito da câmara, também quanto ao conteúdo, especialmente quando tratava perante as duas câmaras de assuntos do padroado da Índia e das missões ultramarinas.

Versado em várias línguas, incluindo a língua do Lácio, pôde versar-se em diversas ciências e nas letras, o que, aliado a uma prodigiosa memória, fez dele um dos espíritos mais cultos do seu tempo. Dedicou-se à tradução em verso do Fausto de Goethe, trabalho em que o seu escrúpulo de fidelidade ao original terá provocado imperfeições na forma.

Em 1892 publica Memória sobre a residência de Christovam Colombo na Ilha da Madeira, a qual foi incluída no volume Memórias que a Academia Real das Ciências de Lisboa publicou por ocasião do centenário de Colombo; este trabalho literário foi uma das causas que determinaram a sua eleição para membro daquela Academia. Representou Portugal nas festas do centenário de Colombo em Madrid. Pela sua imensa carreira diplomática e pelo seu lavor literário, possuía imensas condecorações, de que se destacam as Grã-cruzes de Carlos III, de Espanha; de S. Gregório Magno, de Roma; da Coroa e de S.to Estanislau, da Prússia; grande oficial da Legião de Honra; comendador e cavaleiro de S. Tiago; comendador da ordem de Alberto o Valoroso, da Saxónia; da Águia Vermelha, da Prússia; da Imperial rosa, do Brasil, além de outras.

Obra de Agostinho de Ornelas de Vasconcelos: Memória sobre a residência de Christovam Colombo na Ilha da Madeira (1892).

Bibliog.: AUGUSTO, Fernando, e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1965; CLODE, Luís Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses – Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; MONTEIRO, Manuela (coord.), Dicionário de Biografias, Porto, Porto Editora, 2001; FREITAS, Alfredo Vieira de, Era uma vez… na Madeira, lendas, contos e tradições da nossa terra, Funchal, edição do autor, 1964; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & comentários para a História Literária da Madeira, III volume, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1953.

Miguel Fonseca

(atualizado a 04.01.2016)