vieira, manuel luíz

Fig. 1 – Manuel Luís Vieira. Fonte: http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=31975&type=Imagem
Fig. 1 – Manuel Luís Vieira. Fonte: http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=31975&type=Imagem

Realizador, diretor de fotografia, argumentista, produtor de cinema e fotógrafo profissional, Manuel Luíz Viera (Funchal, 21/06/1885-Lisboa, 23/08/1952) começou a interessar-se por fotografia no final da década de 10. Principiou a trabalhar em fotografia e em laboratório, tendo feito as suas experiências cinegráficas iniciais em 1919, atividade que viria a estender na Empresa Cinegráfica Atlântida, com um laboratório que gozava de elevadas capacidades de revelação de película. Apesar de não possuir máquina de filmar, torna-se fotógrafo profissional.

Francisco Gouveia, seu primo, funda no Funchal a empresa Madeira Film (1922), onde Vieira assume funções de operador de câmara, adquirindo a sua primeira máquina de filmar à Pathé Frères, de Paris (1924). Filmou curtas-metragens documentais, de cariz cultural e etnográfico, tais como Festa de S. Pedro na Ribeira Brava, Festas Desportivas pelos Ingleses do Cabo Submarino ou Chegada dos Aviadores Moreira de Campos e Neves Ferreira ao Funchal (1925), antes de se estrear na realização de filmes de ficção.

Fundou a Empresa Cinegráfica Atlântida (1926), através da qual produziu três obras fundamentais na sua carreira, que se constituíram como obras de referência no panorama do cinema português. Com argumento, produção, realização e direção de fotografia da sua autoria, rodou Calúnia (1925-1926), O Fauno das Montanhas (1926) e Indigestão (1926). Calúnia é uma produção da Empresa Cinegráfica Atlântida, marcando o lançamento de Vieira como realizador, produtor e argumentista; situa-se no género cinematográfico dramático, estando na origem da trama a enfatização de alguns aspetos do quotidiano madeirense, tais como a busca da fortuna na América do Norte, envolta numa história de amor que ultrapassava os constrangimentos e os preconceitos relacionados com as diferenças de estratos sociais, que eram bem vincados à época.

É uma longa-metragem tecnicamente bem executada, especialmente no que diz respeito à imagem, tendo ainda, pormenores técnicos de referência em relação à trucagem, culminando num grande equilíbrio técnico-artístico. Além de ter ultrapassado barreiras técnicas que à época pareciam intransponíveis, como a realização de uma perseguição automóvel, Vieira apresenta um filme cuja montagem lhe confere grande ritmo, acompanhando a qualidade técnica da narrativa, da imagem e da representação dos atores, que eram maioritariamente seus familiares. Calúnia estreou no Teatro Circo do Funchal (22/02/1926), voltando a ser exibido no mesmo local (23/03/1926), onde foi também exibido o documentário Desafios de Futebol Entre o Clube Olhanense de Portugal e Alguns Clubs do Funchal, realizado no ano anterior (1925). Embora não haja uma certeza efetiva, há registos de que o realizador apresentou uma segunda versão do seu filme, que terá sido melhorado; é muito provável que seja esta a versão que se encontra na Cinemateca Portuguesa. O filme estreou no continente no Éden Teatro de Lisboa (11/05/1926), colhendo boas críticas por parte de profissionais da área e dos espetadores. Entretanto, o cineasta já estava em rodagens dos seus dois filmes seguintes, filmados simultaneamente, O Fauno das Montanhas e Indigestão.

O Fauno das Montanhas representa um marco importante na história do cinema português, sendo o primeiro filme nacional do género fantástico. Nesta película, Vieira revela as paisagens e os encantos do panorama natural madeirense; a fotografia, da autoria do cineasta, ajudou a sublinhar as qualidades naturais da Madeira, rompendo com a narrativa fílmica do seu anterior trabalho. O filme estreou no Teatro Circo (11/05/1927), sendo que, à época, apenas contou com três exibições públicas. Indigestão é um filme cómico, que se desenrola num ambiente do fantástico. Por lacunas de registos, não é possível determinar o número de exibições, supondo-se que serão as mesmas que o filme anterior.

Após a realização destas três longas-metragens, Manuel Luís Vieira retomou a produção e realização de documentários. Pouco depois da estreia dos seus filmes, parte para os Açores, acompanhando a Banda Municipal do Funchal numa digressão artística. Encontrava-se no Faial quando, a 12 de outubro de 1927, a aeronave tripulada pela atriz de Hollywood Ruth Elder e pelo seu instrutor de voo George Haldeman, que fazia a ligação entre Nova Iorque e Paris, se despenha a 350 km da costa. Partiu em seu socorro um petroleiro holandês, que se encontrava ao largo da ilha; Vieira conseguiu entrar a bordo do petroleiro com todo o seu equipamento, fazendo uma reportagem do resgate da atriz e do seu instrutor de voo. Cerca de um dia e meio depois, os cinemas das grandes capitais, exibiam a reportagem captada pelo cineasta madeirense, que poucos dias depois, a 26 de outubro, conseguiu estreá-la em Paris, agora em formato de documentário, com o nome O Resgate de Ruth Elder.

Ainda nos Açores, realiza, entre outros documentários, Cultura do Chá e dos Ananases na Ilha de S. Miguel (1927) e A Caldeira das Furnas (1927). De volta à Madeira, realiza Reconstituição de Aspetos da Vida Madeirense e Revelação de Costumes Populares (1927), obra importante no património e na exposição da etnografia local e em 1929 estreia Tosquia de Ovelhas no Paul da Serra, sempre sob a alçada da sua produtora, a Empresa Cinegráfica Atlântida. A convite de Francisco Correia de Mattos Junior, acaba por mudar-se do Funchal para Lisboa, com o propósito de ser operador de imagem, bem como diretor e técnico de laboratório da Mello & Castello Branco, uma empresa que estava a começar a investir em cinema. Esta mudança permitiu-lhe abrir horizontes, com novas oportunidades e um público-alvo mais diversificado e mais amplo. Desta parceria resultaram inúmeras obras, a primeira das quais foi Cavalaria Portuguesa (1929).

É a partir deste momento que Vieira assume efetivamente a função de diretor de fotografia na produção de filmes e documentários realizados por outros cineastas. Ao serviço da produtora Mello & Castello Branco, realiza a proeza, até então inédita, de filmar a partir de um avião, para o filme A Castelã das Berlengas (1930); vários críticos cinematográficos consideram as imagens aéreas o pormenor mais interessante do filme. Maria do Mar (1930), realizado por José Leitão de Barros, é o próximo filme em que Vieira desempenha o cargo de diretor de fotografia. Nesta película, é também operador de câmara, tendo de contornar diversas barreiras técnicas impostas pela narrativa requerida pelo realizador.

Por volta de 1934, concebeu o objetivo de realizar a adaptação cinematográfica de O Reposteiro Verde, de Júlio Dantas, mas o projeto não avançou, por motivos desconhecidos. Desde que se radicara em Lisboa, Vieira volta diversas vezes à ilha da Madeira, onde deixa o seu legado com a realização de diversos documentários, entre os quais Tapeçarias de Flores (1936); Terra Nostra (1936); Serra e Mar (1937); e Bailados Populares Madeirenses (1937).

Torna-se colaborador efetivo do Jornal Português (1938-1950), mantendo-se como operador da série Imagens de Portugal e realizando várias curtas-metragens em Portugal; na maioria das vezes, desdobrava-se entre a direção de fotografia, a realização e a produção, mostrando um pouco da multiculturalidade nacional em obras como Alcácer do Sal (1936); Pastores (1936); Paisagens Minhotas (1936); Fogo de Artifício no Funchal (1936); Castelo de Leiria (1936); Tosquia de Ovelhas (1937); O Estuário do Sado (1937); Óbidos Medieval (1937); Lavoura nos Campos do Ribatejo (1937); Viagem Presidencial aos Açores (1938); Margens do Tejo (1938); Manobras da Força Naval – Exercícios em Agosto de 1939 (1939); A Colheita da Azeitona (1941); entre muitas outras. Manuel Luís Vieira torna-se operador de imagem da Missão Cinegráfica às Colónias Portuguesas (1938), participando em diversos documentários, tais como Viagem de Sua Excia. O Presidente da República a Angola (1939), realizado por António Lopes Ribeiro; As Festas do Duplo Centenário (1940), realizado por António Lopes Ribeiro; Angola uma Nova Lusitania (1944), realizado por António Lopes Ribeiro; Centenário do Descobrimento da Guiné (1948); e O Hospital-Colónia de Rovisco Pais (1948); entre outros.

Além de documentários, durante este período também dava o seu contributo em obras ficcionais, de que são exemplo Feitiço do Império (1941), realizado por António Lopes Ribeiro, com direção de fotografia de V. e de Isy Goldberger, filme ficcional de propaganda do colonialismo português rodada na Guiné, em Angola e em Moçambique; Inês de Castro (1945), realizado por Leitão de Barros, com direção de fotografia de Vieira e de Heinrich Gartner; Camões – Erros Meus (1946), realizado por Leitão de Barros, com direção de fotografia de Vieira e Francesco Izzarelli; entre outras obras.

A obra de Manuel Luís Vieira é extensa, constituindo um registo histórico da cultura popular regional através do documentarismo etnográfico, ao qual dedicou grande parte da sua vida. O seu notável profissionalismo e talento valeram-lhe algum destaque internacional. André Débrie, fabricante de máquinas de filmar, escreve-lhe uma carta (1930), em que afirma: “Conclui-se de tudo o que dele sabemos e vimos que o Senhor Manuel Luís Vieira pode ser classificado entre os bons operadores de tomadas de vistas da hora atual” (MOUTINHO, 2013, 25).

Entre outras, Vieira recebeu uma apreciação do Diretor da École Téchnique de Photographie et de Cinématographie de Paris, dizendo, essencialmente “O Chefe dos Trabalhos Técnicos da Secção Cinematográfica e eu próprio examinámos alguns filmes por si executados e podemos assim verificar que o Sr. Manuel Luiz Vieira possui a competência requerida pela prática da cinematografia profissional” (MARQUES, 1997, 25). Manuel Luís Vieira foi o mais importante realizador madeirense do século XX, tendo conseguido ultrapassar os limites regionais que a geografia lhe impôs, e divulgando a cultura e a etnografia do arquipélago através do seu talento e olhar documentarista.

Obras de Manuel Luís Vieira: Chegada dos Aviadores Moreira de Campos e Neves Ferreira ao Funchal (1925); Desafios de Futebol Entre o Clube Olhanense de Portugal e Alguns Clubs do Funchal (1925); Festa de S. Pedro na Ribeira Brava (1925); Festas Desportivas pelos Ingleses do Cabo Submarino (1925); Calúnia (1925-1926); O Fausto das Montanhas (1926); Indigestão (1926); A Caldeira das Furnas (1927); Cultura do Chá e dos Ananases na Ilha de S. Miguel (1927); Reconstituição de Aspetos da Vida Madeirense e Revelação de Costumes Populares (1927); O Resgate de Ruth Elder (1927); Cavalaria Portuguesa (1929); Tosquia de Ovelhas no Paul da Serra (1929); A Castelã das Berlengas (1930); Alcácer do Sal (1936); Castelo de Leiria (1936); Fogo de Artifício no Funchal (1936); Paisagens Minhotas (1936); Pastores (1936); Tapeçarias de Flores (1936); Terra Nostra (1936); Bailados Populares Madeirenses (1937); O Estuário do Sado (1937); Óbidos Medieval (1937); Lavoura nos Campos do Ribatejo (1937); Serra e Mar (1937); Tosquia de Ovelhas (1937); Margens do Tejo (1938); Viagem Presidencial aos Açores (1938); Manobras da Força Naval – Exercícios em Agosto de 1939 (1939); A Colheita da Azeitona (1941); Centenário do Descobrimento da Guiné (1948); O Hospital-Colónia de Rovisco Pais (1948).

Bibliogr.: impressa: MARQUES, João Maurício, Os Faunos do Cinema Madeirense, Funchal, edição do Correio da Madeira, 1997; MOUTINHO, João Viale, Manuel Luiz Vieira, um Cineasta Madeirense – Vertigem do Mudo ao Sonoro, Funchal, edição da Die4Films, 2013; PINA, Luís de, História do Cinema Português, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1987; SANTOS, A. Videira, Para a História do Cinema em Portugal I, Lisboa, edição da Cinemateca Portuguesa, 1990; digital: Portal da base de dados de cinema da Universidade da Beira Interior (página sobre Manuel Luís Vieira): http://www.cinept.ubi.pt/pt/pessoa/2143689390/Manuel+Lu%C3%ADs+Vieira (acedido a 23/02/2015); Portal do Instituto Camões (Lista das obras de Manuel Luís Vieira): http://cvc.instituto-camoes.pt/cinema/personalidades/per073.html (acedido a 15/02/2015).

Raul Tiago da Silva Gonçalves dos Santos

(atualizado a 07.07.2016)