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Assinatura de D. Guiomar Vilhena, 1768. Arqui. Rui Carita.

A “ilustríssima senhora” D. Guiomar Madalena de Sá Vasconcelos Bettencourt Machado e Vilhena, como então era referida, foi a grande terratenente da Madeira no final do Antigo Regime, administrando 48 capelas vinculadas, entre inúmeras outras propriedades rurais e urbanas. Mulher educada e informada, a partir de 1766 assumiu os negócios da família, que ampliou com novos navios e propriedades, chegando a exportar mais de 50 % dos quantitativos globais do vinho da Madeira e mandando levantar no Lg. da Sé um imóvel para a administração da sua casa comercial, afrontando os comerciantes estrangeiros na Ilha e, inclusivamente, por meios jurídicos, os Ingleses. A sua atividade levou-a a escrever pessoalmente para os ministros do governo de Lisboa, entre outros. Assumiu ainda os negócios da confraria de S. José da sé do Funchal (Confrarias; Sé do Funchal), dos pedreiros e carpinteiros da cidade, cujas atas de eleição assinava como juiz da confraria, situação perfeitamente inédita no espaço nacional de Setecentos, onde não se conhecem registos de outras mulheres à frente de confrarias de homens e de casas comerciais de grosso trato.

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Casa Comercial de Dona Guiomar Vilhena, Fotografia de Joaquim Augusto de Sousa, 1876. Arqui. Rui Carita.

Filha do morgado Francisco Luís de Vasconcelos Bettencourt (1681-1741) e de sua mulher, Mariana Inês de Vilhena (c. 1680-1755), nasceu em 1705 e foi batizada a 24 de maio desse ano, sendo padrinho o bispo do Funchal, D. José de Sousa Castelo Branco (1654-1740) e madrinha D. Maria de Almeida, “mulher do governador da Ilha Duarte Sodré Pereira, que assistiu ao batismo, como seu procurador, e como tal assinou” o assento (ARM, Registos Paroquiais, Sé, Batismos, liv. 20, fl. 143v.). Já existia uma irmã mais velha, Inês António Maria Xavier Vilhena (1700-c. 1750), que professou no convento da Esperança de Lisboa e um irmão, Francisco José de Vasconcelos (1702-1723), falecido prematuramente, sem deixar descendência.

As irmãs mais novas, D. Leonor Josefa de Vilhena (1707-1778) e D. Inácia Maria Rosa de Sá Vilhena (1710-?) casariam com importantes morgados da época e “homens da governança” do Funchal, respetivamente, Luís António Esmeraldo Teles de Meneses, guarda-mor da saúde e Mendo Brito de Oliveira, capitão-mor (Ordenanças), descendendo dos primeiros o futuro 1.º conde de Carvalhal, depois herdeiro de grande parte dos seus vínculos. Teve ainda uma outra irmã, Maria Madalena (1719-1725), que faleceu precocemente.

Mais novo do que D. Guiomar era também João José de Vasconcelos Bettencourt (1715-1766), familiar do Santo Ofício, fidalgo de Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, que se casou, em 1758, com Leonor Henriqueta de Mendonça e, em 1765, com Antónia Joana Correia Henriques, não deixando descendência. Terá tido problemas de saúde recorrentes, chegando a deslocar-se a Londres por esse motivo, pelo menos em 1759. No ano seguinte, na mesma cidade, foram editadas duas peças musicais do mestre de capela da Sé, António Pereira da Costa, que João José pagou. Nos últimos tempos de vida e após o falecimento da mãe, em 1755, sua irmã Guiomar teria já assumido a liderança da importante casa senhorial e comercial.

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Fontanário de Embrechados. Arqui. Rui Carita.

A déc. de 60 do séc. XVIII corresponde a um longo braço de ferro entre o Gov. João António de Sá Pereira (1719-1804), futuro barão de Alverca, e as principais famílias insulares, personificando aquele na Madeira as ideias iluministas do gabinete do marquês de Pombal. Terá liderado a contestação ao governador um meio tio-avô de D. Guiomar, João José Bettencourt de Sá Machado (1707-1781), padre que, embora mulato e filho de uma escrava, frequentou a Universidade de Coimbra, sempre acompanhado de um criado branco, e que João António de Sá Pereira não hesitou em desterrar para a costa norte. A casa do irmão de D. Guiomar, João José de Vasconcelos Bettencourt, e depois a da própria cobravam a comenda dos marqueses de Angeja, tendo D. Guiomar intercedido pelo dito padre junto do 3.º marquês e 4.º conde de Vila Verde (1716-1788), capitão-geral da armada real e presidente do Erário Régio que, por sua vez, interveio a favor do mesmo clérigo junto do governador, tal como o próprio secretário de estado Aires de Sá e Melo (1690-1786), tio por afinidade de Sá Pereira. Todavia, não conseguiram obter grandes resultados. A família Vasconcelos Bettencourt liderava, assim, um grupo de gente esclarecida e a quem, por certo, já não seriam estranhas as ideias das nascentes lojas maçónicas internacionais.

A família de D. Guiomar era possuidora de inúmeros bens que os avós e o pai ampliaram, alargando o património ao continente e aos Açores. O pai, e.g., chegou a adquirir propriedades ao convento da Esperança de Lisboa, provavelmente quando ali professou sua filha mais velha, tal como o avô, Francisco de Vasconcelos Bettencourt, o Velho (c. 1610-1694), adquirira a quinta de N.ª S.ª do Loreto, com “aparatosas casas de moradia”, foros e águas, a que o morgado veio a vincular uns “panos de rás, para outrossim andarem em morgado” (ARM, Juízo…, cx. 2, n.º 9, fls. 7v.-8v.). A vinculação de um bem móvel a um morgado indicia a alta qualidade dos “panos de rás” em questão, devendo tratar-se de um importante conjunto de tapeçarias flamengas do séc. XVI. A família dedicava-se, desde Quinhentos, ao comércio do açúcar e depois, ao longo de Setecentos, também do vinho.

Francisco Luís de Vasconcelos era, nos inícios do séc. XVIII, o detentor do maior número de licenças de comércio para o Brasil; em 1726, e.g., enviou para aquele espaço 200 quintais de bacalhau e 50 barris de farinha, depois de ter prevenido o abastecimento da Ilha, tal como deliberado na vereação camarária de 24 de janeiro de 1725. Mais tarde, sendo já D. Mariana Inês de Vilhena viúva e querendo enviar idênticas mercadorias para o mesmo destino, o juiz do povo embargou a operação, dada a falta de mantimentos na terra. O irmão de D. Guiomar, João José de Vasconcelos Bettencourt, assumiria também os negócios da família com o Brasil, havendo registo de mercadorias enviadas para lá em 31 navios, entre 1737 e 1766, que, conjuntamente com o comércio então feito com outros destinos (Inglaterra, América, Europa do Norte, Mediterrâneo e continente português), totalizaram a movimentação de 52 embarcações.

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Vista Geral do Palácio de D. Guiomar Vilhena,c. 1760. Arqui. Rui Carita.

A liderança da família, entretanto, parece ter cabido a D. Guiomar Madalena de Sá e Vilhena, como assinava, a quem o pai privilegiou no seu testamento, sugerindo tratar-se da filha dileta: “deixa a sua filha D. Guiomar a melhor peça de ouro ou prata, que tiver e que valha para cima de duzentos mil réis”, no ano em que faleceu, em 1741, legando a D. Inácia, mulher de Mendo de Brito de Oliveira, uma no valor de 150$000 réis, sem fazer qualquer referência especial aos restantes filhos (ARM, Registos Paroquiais, Sé, Óbitos, liv. 10, fl. 254v.). Idêntica leitura permite fazer o testamento da mãe, que, em 1755, num breve testemunho, declara ter dedicado a todos os filhos “igual amor”, instituindo-os por seus herdeiros, tanto nas legítimas como nas terças, mas não deixando de acrescentar: “só com a distinção de que a minha filha Dona Guiomar terá de mais que os outros, um valor de dois mil cruzados, que escolherá das minhas joias, nas que lhe parecer” (Id., Juízo…, cx. 160, n.º 2, fl. 3; Id., Registos Paroquiais, Sé, Óbitos, liv. 13, fl. 55).

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Palácio de D. Guiomar Vilhena. Arqui. Rui Carita.

Até à morte do irmão, a 12 de novembro de 1766, o percurso de D. Guiomar parece ter sido caseiro e recatado. Todavia, não o foi, certamente, uma vez que se apresentou de imediato na sé do Funchal para assumir a direção da confraria dos carpinteiros e dos pedreiros, que movimentava importantes verbas, assinando pessoalmente as atas de eleição, algo que o pai nunca fizera e o irmão somente uma vez. Com o falecimento da mãe, em 1755, e o casamento do irmão, em 1758, altura em que este terá saído da casa dos pais, fixando residência mais acima, na R. das Mercês, D. Guiomar mandou levantar um oratório pessoal em sua casa, tendo obtido, para o efeito, um breve do papa Clemente XIII, datado de 25 de junho de 1759, e um despacho do bispo D. Gaspar Afonso da Costa Brandão (c. 1710-1784), de 18 de janeiro de 1760.

O breve papal refere que o oratório constava de “altar levantado e mesa, construído de paredes firmes, livre e separado de todos os usos domésticos, ornado e paramentado com os ornamentos e mais coisas necessárias para nele decentemente se poder celebrar e dizer missas” (APEF, Oratórios, cx. 1, Processo do Oratório de Dona Guiomar Madalena de Sá e Vilhena, fls. 2-4). Os pais e o irmão já tinham o seu oratório na residência da R. do Castanheiro, pelo que o novo pedido parece indicar estar-se perante a construção de raiz da obra em apreço. D. Guiomar mandou também levantar todo um novo corpo neoclássico para residência, pois o importante edifício que chegou até nós, infelizmente totalmente vazio, é uma construção de raiz da segunda metade do séc. XVIII. Por volta de 1800, tendo a morgada já falecido, o “Palácio de D. Guiomar” (Palácios) ainda era assim referido na planta de Agostinho Marques Rosa, da Biblioteca Pública e Municipal do Porto (BPMP).

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Casa de D. Guiomar Vilhena. Arqui. Rui Carita.

Nos anos seguintes, os bens de D. Guiomar incluíam propriedades na Lombada do Loreto; no Arco da Calheta; na Lombada da Ponta do Sol; a Quinta das Virtudes, em São Martinho; a fazenda do Arcipreste, em Santo António; as terras de Água de Mel, em São Roque; as das Neves e do Palheiro Ferreiro, em S. Gonçalo; montados de gado no Estreito de Câmara de Lobos e no Campanário; duas capelas no convento de São Francisco; a magnífica capela do Santíssimo, na matriz de São Pedro, pertencente ao vínculo de João de Moura Rolim; e o último engenho de açúcar da Madeira, na Ribeira dos Socorridos. Juntava-se ainda a este património uma série de propriedades nos Açores e no continente. Também pertencia à morgada a antiga Quinta das Angústias, hoje Quinta Vigia (Quinta Vigia), cuja residência reconstruiu, vindo a falecer no local, em 1789; nela foi levantado o chamado Mirante de D. Guiomar, sempre assim referido ao longo do séc. XIX nas cartas do porto do Funchal. Eram seus vários outros imóveis, nomeadamente o grande edifício da R. do Capitão levantado em 1775 no então Lg. da Sé, para sede da sua casa comercial e de outros comerciantes ingleses, edificação que acolheu depois a Câmara Municipal do Funchal, entre os finais do séc. XVIII e os meados do XIX, vindo a ser demolida em 1913 (República).

Seguindo as pisadas do pai e do irmão, bem como as da mãe, D. Guiomar dedicou-se ao comércio de larga escala e numa dimensão muito pouco normal para o seu sexo e para a sua época. Assim, entre 1780 e 1799, a exportação da Casa de Dona Guiomar deve ter ultrapassado a cifra das 103.704 pipas de vinho, contando-se, entre elas, 48.673 destinadas aos portos da Ásia. Em alguns destes anos, a Casa de D. Guiomar chegou a ser responsável por mais de 50 % do total do comércio externo do vinho da Madeira. Com efeito, a 13 de novembro de 1784, D. Guiomar Madalena de Sá e Vilhena intitula-se “a proprietária da maior casa comercial do Funchal”, num requerimento onde declara que lhe tinham sido apreendidas várias fazendas despachadas para a ilha de São Miguel com o pretexto de não se encontrarem seladas, não obstante ter pago os respetivos direitos. Nesse requerimento a que anexou vários documentos, queixa-se do juiz e oficiais da Alfândega e pede uma devassa ao procedimento dos mesmos (AHU, Madeira e Porto Santo, n.º 150).

Em 1784, e.g., quando uma nau portuguesa da Índia e a galera Flor do Funchal não conseguiram efetuar totalmente um carregamento de 700 pipas de vinho que D. Guiomar pretendia transportar para Calcutá, o governador autorizou o fretamento de um bergantim para conduzir as restantes vasilhas e emitiu o respetivo passaporte. Uma vez que só podiam navegar para Oriente os navios reais, este explicou o seu procedimento para Lisboa, alegando que se tratava de uma das duas casas comerciais mais respeitáveis, sendo a outra a de Pedro Jorge Monteiro, com quem tomara posição idêntica.

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Casa de Guiomar Vilhena in Heraldo da Madeira, 27/01/1907. Arqui. Rui Carita.

D. Guiomar aproveitou para agradecer, imediatamente, ao secretário de Estado Martinho de Melo e Castro, referindo que “nem o meu sexo, nem a minha capacidade é próprio para executar uma profissão, que depende de maiores talentos; mas como vossa excelência tão benignamente protege a todo o comércio nacional devo eu confiar na mesma benignidade, que as luzes de que eu me considero destituída, as suprirá o amparo de vossa excelência, dignando-se de ser o meu protetor” (AHU, Madeira e Porto Santo, nº 712). Nessa sequência, em 1788 e em sua casa, foi passada procuração judicial ao comerciante Charles Murray, então cônsul britânico na Madeira (1772-1801), em conjunto com Thomas Horne e José António da Fonseca, para a defesa da comercialização do vinho da Madeira em Lisboa e “em qualquer outra parte”, figurando D. Guiomar à cabeça da lista de 22 comerciantes, na sua maior parte estrangeiros, que nela reconheciam poder e delegavam funções (Ib., Ibid., n.º 883).

D. Guiomar chegou mesmo a defrontar os interesses ingleses, nomeadamente por meios jurídicos; e note-se que uma contenda com o mesmo grupo custara a vida ao juiz do povo do Funchal poucos anos antes. De facto, aquela disputa resultou numa das raras referências que temos à prevalência da justiça nacional e regional de então face aos interesses ingleses. O caso envolveu o marinheiro Jacques Wilson, da fragata de guerra Race Horse, assassinado no caminho da Pontinha, por baixo da capela de Santa Catarina, na noite de 19 de outubro de 1783. O incidente implicara sete elementos portugueses e pelo menos um inglês, que servira de testemunha e tinha ficado bastante ferido: Guilherme Wayte, piloto da galera inglesa Belisário, como referiu Inácio Xavier de Sousa Pizarro ao ministro Martinho de Melo e Castro, a 14 de julho do ano seguinte.

O cônsul britânico no Funchal e o geral, em Lisboa, conseguiram pressionar a Chancelaria Régia, recebendo o governador, D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho, uma carta sobre o incidente, “que pela sua atrocidade e por ser feito contra um vassalo de uma nação amiga e aliada desta corte”, requeria que os culpados fossem de imediato transferidos para a cadeia do Limoeiro, em Lisboa, “pois na Ilha poderiam vir a escapar à justiça”, como tinham referido os ingleses e transcrevera a Chancelaria Régia (ARM, Governo Civil, liv. 518, fls. 8-10). No entanto, o processo fora prontamente levantado pelo juiz de fora do Funchal, tendo-se apurado que o autor da “perigosa facada no oficial inglês” tinha sido José Joaquim, logo preso e entregue a Francisco Peixoto da Silva, mestre do bergantim N.ª S.ª do Livramento, “paquete das Ilhas”, e enviado para Lisboa (Id., Ibid.). A chegada à cidade foi imediatamente comunicada por Inácio de Pina Manique ao ministro Martinho de Melo e Castro, mostrando o cuidado que o assunto mereceu à corte.

Os restantes implicados no caso, tripulantes da galera N.ª S.ª do Monte, de que era senhoria D. Guiomar, que logo disponibilizou defesa para os seus marinheiros, permaneceram no Funchal, aguardando a conclusão do processo. Assim, não seguiram na galera que saiu do porto a 11 de novembro seguinte, nem chegaram a ser encaminhados para Lisboa. O governador fora preciso na sua resposta, enviando cópias dos autos e citando não entender as questões levantadas pelo “cavaleiro Hort”, cônsul geral britânico em Lisboa, nem o seu requerimento, afirmando que não “houve influências particulares na sua soltura”, pois que nem o agravo do cônsul britânico no Funchal para o corregedor tinha tido provimento (ARM, Governo Civil, liv. 518, fls. 8-10). Não podemos deixar de sentir a preciosa influência de D. Guiomar por detrás do desenrolar destes acontecimentos e mesmo junto do governador, tendo ela requisitado os serviços de todos os notários do Funchal para a sua casa, não deixando, por isso, muito espaço de manobra ao cônsul britânico.

A morgada e comerciante, no entanto e de uma forma geral, mantinha as melhores relações com os negociantes ingleses, designadamente, com Thomas e Arthur Ahmuty, possuidores de uma firma de exportação de vinhos que se tinham estabelecido no prédio de D. Guiomar, pagando anualmente 5% do custo da obra, então orçada em cerca de 25.000 cruzados. Ou com John Leacock, que chegou ao Funchal como aprendiz de comerciante de vinhos, em 1741, estagiando na firma de John Catanach, tendo-se estabelecido depois e residido numa das casas de D. Guiomar, na R. do Bispo, com Thomas Magrath. Este, vice-cônsul da Dinamarca em 1769 e cônsul em 1771, era importador de géneros da Noruega e foi caixeiro despachante de D. Guiomar, a partir de 1784, sendo cônsul da Suécia em 1805.

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Casa de Guiomar Vilhena. Arqui. Rui Carita.

Existe mesmo a informação de que, em 1782, D. Guiomar ofereceu um jantar em sua casa a William Hickey (1749-1830), aliás, referido pelo próprio nas suas memórias. O memorialista inglês relata que fora apresentado a D. Guiomar por Luís Barreto, natural de Bombaim e que seguia viagem com ele, contando que fora depois convidado para um “muito bom jantar, servido com uma série de deliciosos vinhos, particularmente um malvasia” que a proprietária lhe assegurara ter a idade dela, “que eram 70 anos”, e ter sido feito pelo seu pai a partir de vários “vintage”, sendo um licor indubitavelmente precioso (HICKEY, III, 1919, 3). Esclareça-se que D. Guiomar não tinha 70 anos à data, mas 77, e que Hickey se veio a tornar um admirador incondicional dos vinhos da Madeira, habituais a bordo dos navios em viagem para a Índia.

Os últimos anos de vida de D. Guiomar foram passados na sua já referida Quinta das Angústias, por si parcialmente reconstruída (Quinta Vigia), por certo, sobrelevando o antigo mirante que ficou com o seu nome e que mantém uma série de pormenores arquitetónicos ao gosto dos meados e finais do séc. XVI. O mirante terá sido erigido para servir de “posto de vigia e de comando para os empreendimentos” marítimos da morgada (BARROS, 2001, 41), controlando dali as entradas e saídas dos seus navios. Alguns anos depois, em 1841, escrever-se-ia que a quinta possuía um dos “melhores edifícios desta cidade” (CÂMARA, 1841, 41). Todavia, considerando que a mesma teve vários grandes proprietários e que foi perdida praticamente toda a documentação da casa Carvalhal, principal herdeira do património imobiliário de D. Guiomar, quase propositadamente delapidada pelo 2.º conde (1831-1888), torna-se muito difícil abordar o assunto. A título de exemplo, na planta do comandante Skinner, datada de 1775, mas editada em Londres em 1791, a Quinta das Angústias ainda não figura com o corpo neoclássico, que não consta igualmente na planta de Agostinho Marques Rosa, que terá sido, em grande parte, decalcada da outra. Em contrapartida, na planta do brigadeiro Reinaldo Oudinot (c. 1747-1807), levantada na sequência da aluvião de 1803 e onde se apresenta o novo projeto para a “cidade das Angústias” (Urbanismo), esse corpo já surge indicado. Mantemos, assim, a ideia de que a obra neoclássica foi levantada pela “ilustríssima senhora” morgada.

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Castiçal de D. Guiomar Vilhena, John Carter, 1772. Arqui. Rui Carita.

Após o falecimento de D. Guiomar, a sua casa comercial, privada da orientação e do empenho da própria, tornou-se rapidamente desastrosa. Com efeito, o organismo acumulara dívidas incomportáveis e, com a morte da morgada, fora esbulhado das principais propriedades agrícolas que lhe davam suporte, tendo elas sido herdadas pelo sobrinho e, depois, pelos herdeiros sobrinhos netos. As dívidas à Fazenda ascendiam, entretanto, a 50.000$000 réis e, em fevereiro de 1791, consumava-se a penhora dos bens livres de D. Guiomar.

Joias de Dona Guiomar
Lista das Jóias de D. Guiomar Vilhena. Arqui. Rui Carita.

O testamenteiro, P.e Manuel de Jesus, quase sempre o seu braço direito, desde 1772, e também de João de Carvalhal Esmeraldo (1733-1790), sobrinho de D. Guiomar, em 1787, foi constrangido a depositar na tesouraria da Junta da Real Fazenda um valioso espólio de 262 peças, entre joias e inúmeros objetos de ouro e prata, tais como relógios, colares, anéis, brincos, relicários da Índia, bandejas, jarros e castiçais, no valor de 22.827$600 réis.

Depositou, ainda, entre outros, 61 escrituras respeitantes a prédios urbanos e rústicos comprados por D. Guiomar, na quantia de 45.373$719, tal como 41 escrituras relativas a juros e dívidas ativas, no valor de 14.649$256 réis, e a carta de partilhas do irmão Francisco Luís de Vasconcelos Bettencourt. O antigo administrador tentou, entretanto, que não se procedesse de imediato à execução, comprometendo-se a saldar parte da dívida através de prestações anuais, mas, ao retirar-se para Lisboa, indicava desligar-se do assunto, dedicando-se a outras atividades. Em breve, seria o Juízo dos Resíduos e Capelas a processar o testamenteiro e os legatários pelos atrasos no cumprimento dos encargos das 48 capelas, tendo o coronel Luís Vicente de Carvalhal Esmeraldo (c. 1752-1798), então herdeiro, procurado demarcar-se da situação; aliás, tentou embargar a partida para Lisboa do P.e Manuel de Jesus. Nesse caso, o testamenteiro ainda conseguiu de Roma o perdão para os atrasos, mas o mesmo não se passou com as dívidas à Fazenda. Os principais prédios de D. Guiomar acabaram por ir à praça pública, bem como parte das joias e o que restava recolheu a Lisboa, em setembro de 1801, englobando essa remessa “os panos de rás”, muito provavelmente as tapeçarias que, em 1694, o bisavô da morgada vinculara ao morgadio do Loreto.

Do incomensurável espólio móvel de D. Guiomar, com centenas de peças de prata, tapeçarias, entre outros, praticamente nada ficou perfeitamente identificável, salvo o conjunto de peças de prata formado por seis castiçais e três sacras que deixou em testamento à igreja de N.ª Sª do Monte e que encomendara em Londres, entre 1772 e 1773, ao prateiro John Carter. Resta, felizmente, o mirante da Quinta Vigia, o edifício neoclássico que ali mandou levantar e a capela onde por certo rezou. Em ruínas, ainda se mantém, altaneira, a residência da R. do Castanheiro, mas, face ao adiantado estado de degradação, provavelmente, não por muito mais tempo.

Bibliog. manuscrita: ANTT, Junta e Provedoria da Real Fazenda do Funchal, códs. 761, 771 e 1632; APEF, Oratórios, cx. 1, Processo do Oratório de Dona Guiomar Madalena de Sá e Vilhena; AHU, Madeira e Porto Santo, n.os 147, 150, 701, 706, 712, 883, 4804, 4805 e 4833; ARM, Juízo de Resíduos e Capelas, cxs. 2 e 160; ARM, Arquivos Particulares; ARM, Câmara Municipal do Funchal, t. 9, livs. 1259, 1293, 1353; ARM, Governo Civil, liv. 518; ARM, Registos Paroquiais, S. Pedro, Óbitos, liv. 8; ARM, Registos Paroquiais, Sé, Batismos, liv. 20; ARM, Registos Paroquiais, Sé, Óbitos, livs. 10 e 13; ARM, Registos Notariais, liv. 997; BNB, cartografia 1090203, FERNANDES, Mateus (III), Cidade do Funchal, 1567/1570; BPMP, cota PP 190/CE, Agostinho José Marques Rosa, Planta da Cidade do Funchal Capital da Ilha da Madeira, c. 1800; IGP, cota 539, Reinaldo OUDINOT  (dir. e execução final), Planta da Cidade do Funchal Capital da Ilha da Madeira em que se Representão as Ruinas Causadas pelo Aluvião de 9 de Outubro de 1803; impressa: Heraldo da Madeira, Funchal, 27 jan. 1907; BARROS, Bernardete, Dona Guiomar de Sá Vilhena. A vivência singular de uma mulher no século XVIII, Funchal, SRT, CEHA, 2001; CÂMARA, Paulo Perestrelo da, Breve Notícia sobre a Ilha da Madeira ou memórias sobre a sua Geografia, História, Geologia, Topographia, Agricultura, Commercio, etc. Offerecida a Sua Magestade Fidelissima a Sra. Dona Maria Segunda, Lisboa, Typ. da A. das Bellas Artes, 1841; CARITA, Rui, História da Madeira, vol. V, Funchal, SER, 1999; Id., “A Confraria de S. José da Sé do Funchal e a Família da Ilustríssima Dona Guiomar de Sá Vilhena”, Islenha, n.º 27, 2000, pp. 60-70; CARITA, Rui e TRUEVA, José Manuel de Sainz, Itinerário Cultural do Funchal, Funchal, CMF, 1997; GUERRA, Jorge Valdemar, “A Quinta de Nossa Senhora das Angústias. Em torno dos seus proprietários”, Islenha, n.º 14, 1994, pp. 113-136; HICKEY, William, Memoirs of William Hickey, 3 vols., London, Hurst & Blackett, Ltd., [1919]; SKINNER, “Plan of The Town of Funchal by Capt. Skinner, 1775”, in JOHNSTON, William, Geo-hydrographic Survey of the Isle of Madeira with the Dezertas and Porto Santo Islands, Geometrically taken in the Year 1788, London, W. Faden, 1791; SOUSA, João José Abreu de, O movimento do Porto do Funchal e a conjuntura da Madeira de 1727 a 1810. Alguns aspectos, Funchal, DRAC, 1989; TRUEVA, José de Sainz, “Igrejas, Casas, Fortalezas e Capelas Brasonadas da Ilha da Madeira e Porto Santo”, Atlântico, n.º 11, outono de 1987, pp. 182-196; VERÍSSIMO, Nelson, “A caminho da Índia, William Hickey no Funchal”, Diário de Notícias, revista, Funchal, 8 jun. 1997; VIEIRA, Alberto, História do Vinho da Madeira. Documentos e textos, Funchal, CEHA, 1993.

Rui Carita

(atualizado a 03.10.2016)