vinho

A temática do vinho na História tem provocado o empenho de muitos nos últimos anos. A segunda metade do século XIX foi o momento de consciencialização dos investigadores para a importância científica, social, económica, cultural e histórica do vinho. Os estudos científicos adequaram-se ao combate da praga e espicaçaram a curiosidade, permitindo a publicação de textos de diversa índole. Em muitos dos casos, o recurso à História era o necessário alento para levantar os ânimos, enfraquecidos com o combate às doenças para fazer com que a cultura assumisse a adequada dimensão na sociedade e na economia.

O vinho Madeira é considerado, desde tempos muito recuados, indispensável na garrafeira dos apreciadores. Não é preciso ser escanção para reconhecer e apreciar as suas qualidades aromáticas e gustativas, basta apenas um pouco de atenção no momento de o beber. Os epítetos proferidos por poetas, escritores, políticos e viajantes, que tiveram a possibilidade de o provar e apreciar, poderão ser um caminho para isso. Todos ficaram deslumbrados com os aromas e sabores e ninguém se escusou a tecer-lhe os maiores elogios. Prende‑o à ilha uma tradição de mais de cinco séculos e reflete-se nele a época de esplendor e os momentos de crise.

O vinho é um tema de referência da Historiografia Madeirense. Os ingleses foram entre todos estrangeiros os que lhe dedicaram mais atenção. A posição hegemónica na exportação e consumo ditou a necessidade de conhecimento. Todo o esforço de divulgação da História do vinho traduziu-se em inúmeras publicações, sob o formato papel e digital, que continuam a merecer a atenção do público. Idêntica dedicação esteve presente ao nível museológico, ficando ao dispor dos interessados espaços específicos das empresas e instituições do sector. O vinho marcou épocas de prosperidade,  com evidentes os reflexos no quotidiano e na arte, na arquitetura urbana dos séculos XVIII e XIX e em alguns museus.

Na atualidade, é cada vez mais evidente o interesse pelo estudo do vinho. A atenção do público e comunidade científica é grande. Já na segunda metade do século XIX, momento definido por uma conjuntura de crise da viticultura europeia, deparamos com igual euforia editorial sobre a temática da vinha e vinho. Aqui somos confrontados, para além das discussões sobre as soluções económicas e técnicas, com estudos descritivos da realidade e História da cultura e comércio do produto.

A Historiografia do vinho

O vinho assumiu uma dimensão importante nas ilhas, nomeadamente nas economias da Madeira e Tenerife, a partir do século XVII. Por força disso, encontrámos, na Madeira, conjunto variado de textos que procuram traçar a História ou fazer o ponto da situação do problema vitivinícola, entre finais do século XIX e princípios do presente. É de considerar a obra de D. João da Câmara Leme, o Conde de Canavial, o mais destacado estudioso e conhecedor dos problemas políticos e enológicos madeirenses, na segunda metade do século XIX. O Pe. Fernando Augusto da Silva diz-nos que a História do vinho da Madeira está por fazer. A monografia que pretendia realizar não era histórica, mas antes uma enciclopédia à maneira do Elucidário. Assim o entendeu ao traçar, em o Elucidário Madeirense , um esboço da história em diversas entradas, no que muito se aproxima o Pe. Eduardo Pereira. Estamos perante trabalhos com grande impacto junto do público, mas que pouco avançam em relação à informação já recolhida por Paulo Perestrelo da Câmara e Álvaro Rodrigues de Azevedo. O escrito de A. R. Azevedo atem-se mais aos documentos do arquivo local, às deambulações históricas e políticas mas, mesmo assim , é de considerar, por ser um primeiro esboço de história local em que o vinho tem lugar de relevo. Se a isto juntarmos a monografia de J. Reis Gomes e algumas referências avulsas e parcelares, temos feito o inventário da bibliografia sobre o vinho, até à década de setenta. Hoje, felizmente que o panorama é distinto e contam-se já inúmeros trabalhos. O vinho é um tema de referência da Historiografia Madeirense. Os ingleses foram, entre todos estrangeiros, os que lhe dedicaram mais atenção. A posição hegemónica na exportação e consumo ditou a necessidade de conhecimento. Aqui destacam-se as monografias de Henry Vizetely, André L. Simon, Ruppert Crooft-Cooke e as publicações recentes de Noel Cossart e Alex Liddel.

A partir de 1976,  o processo autonómico permitiu a valorização do vinho da Madeira. A regionalização das competências atribuídas à Junta Nacional do Vinho, com a criação do Instituto do Vinho de Madeira (1979), conduziu a uma diferente valorização do produto e das tradições a ele ligadas. Desde 1978, a Direcção Regional de Turismo iniciou a evocação da festa das vindimas, que tem permitindo um momento de diversão e divulgação do vinho. Em 1980, no âmbito da festa, teve lugar no salão nobre do Teatro Municipal do Funchal uma exposição sobre o Vinho da Madeira, que foi uma oportunidade para recolha de materiais relacionados com a vinha e o vinho que se encontravam ao abandono. Daqui resultou a consciêncialização dos empresários ligados ao setor, para a necessidade de valorização da cultura material relacionada com o produto. Foi neste contexto que a Madeira Wine Company repensou as caves de S. Francisco, adaptando-as à condição de espaço-museu aberto ao público. Entretanto, o IVM recuperou a cave das instalações para um espaço museológico, inaugurado a 18 de setembro de 1984. Tudo isto é corolário de um trabalho de valorização da componente cultural do vinho. O núcleo museológico do IVM tornou-se num espaço de divulgação do Vinho da Madeira e ponto de encontro de interessados no tema. O Museu do IVM apostou na promoção da História e cultura do vinho, de que se destaca a edição de Contributos para uma Rota do Vinho de Madeira (1997) e o Vinho na História e Património da Cidade do Funchal (2000).

A partir de 1976,  o processo autonómico permitiu a valorização do vinho da Madeira. A regionalização das competências atribuídas à Junta Nacional do Vinho, com a criação do Instituto do Vinho de Madeira (1979), conduziu a uma diferente valorização do produto e das tradições a ele ligadas. Desde 1978, a Direcção Regional de Turismo iniciou a evocação da festa das vindimas, que tem permitindo um momento de diversão e divulgação do vinho. Em 1980, no âmbito da festa, teve lugar no salão nobre do Teatro Municipal do Funchal uma exposição sobre o Vinho da Madeira, que foi uma oportunidade para recolha de materiais relacionados com a vinha e o vinho que se encontravam ao abandono. Daqui resultou a consciencialização dos empresários ligados ao setor, para a necessidade de valorização da cultura material relacionada com o produto. Foi neste contexto que a Madeira Wine Company repensou as caves de S. Francisco, adaptando-as à condição de espaço-museu aberto ao público. Entretanto, o IVM recuperou a cave das instalações para um espaço museológico, inaugurado a 18 de setembro de 1984. Tudo isto é corolário de um trabalho de valorização da componente cultural do vinho. O núcleo museológico do IVM tornou-se num espaço de divulgação do Vinho da Madeira e ponto de encontro de interessados no tema. O Museu do IVM apostou na promoção da História e cultura do vinho, de que se destaca a edição de Contributos para uma Rota do Vinho de Madeira (1997) e o Vinho na História e Património da Cidade do Funchal (2000).

Formas de ver e estudar o vinho

Na atualidade, é cada vez mais evidente o interesse pelo estudo do vinho. A atenção do público e comunidade científica é grande. Já na segunda metade do século XIX, momento definido por uma conjuntura de crise da viticultura europeia, deparamos com igual euforia editorial sobre a temática da vinha e vinho. Aqui, somos confrontados, para além das discussões sobre as soluções económicas e técnicas, com estudos descritivos da realidade e História da cultura e comércio do produto. Assim, podemos definir dois tipos de publicações, de acordo com a posição em que se coloca o autor: 1. Os estrangeiros, nomeadamente os ingleses, procuravam divulgar junto dos consumidores, o historial do vinho que corria diariamente à mesa; 2. Os nacionais que, motivados por conjunturas de crise, intervêm no sentido de apresentar soluções, indo ao encontro de causas políticas ou económicas. Assim, quando a crise se situava na esfera comercial, surgiram tratados em favor do protecionismo e na área da produção, com soluções miraculosas para debelar a crise. A segunda metade do século XIX foi o momento de consciencialização para a dimensão científica social, económica, cultural e histórica do vinho. Os estudos científicos adequaram-se ao combate da praga e espicaçaram a curiosidade de todos e permitiram a publicação de inúmeros trabalhos. Em muitos dos casos a recorrência à História foi o necessário alento para a aposta, debelar das doenças e fazer com que a cultura voltasse a assumir a adequada dimensão na sociedade e economia. Sucederam-se exposições, congressos e estações vitícolas e enológicas, associadas a publicações periódicas especializadas.

No caso das ilhas, é na Madeira que encontramos a maior produção bibliográfica de autores nacionais e estrangeiros. O vinho havia conquistado uma dimensão inusual, pelo que justificava a desmesurada atenção. Disso fizemos eco, num estudo onde compilamos o que de mais importante se publicou. Nos últimos anos, toda a atenção tem sido dada ao setor comercial, com trabalhos para o século XVIII. É por isso que faz falta um estudo sistemático da cultura e do produto final que contemple os cinco séculos de História. Também subsistem algumas dúvidas para alguns campos que reputamos de grande interesse. Em primeiro lugar, no que concerne à diversidade de castas, não temos informação segura sobre o início da sua presença na ilha e a dimensão que cada uma assumiu no cômputo da produção. A isto acrescem as dificuldades em conseguir definir, de forma precisa, as técnicas de vinificação e os tipos de vinho mais comuns que deram fama ao Madeira. Para certa literatura, tudo se reduz à Malvasia e, de modo especial, à da Fajã dos Padres.   A análise da realidade vitivinícola não poderá esquecer a estrutura produtiva e as formas de evolução. Há que ter em conta o grupo de mercadores que serviram de suporte ao mercado do vinho e dele tiraram o maior rendimento. O estudo das casas comerciais é um tema ainda em aberto que deve ser merecedor da nossa atenção, tendo em conta a disponibilidade de alguns e importantes arquivos empresariais. Os estudos no âmbito da História da Empresa têm aqui um campo que aguarda a atenção do historiador.

A par disso, não deverá esquecer-se a envolvência do vinho na sociedade e as implicações daí resultantes. Assim, no caso da Madeira, é comum definir-se um modelo de criação artística e urbanística, influenciado pelo vinho, que levou alguns a definirem para o Funchal uma cidade do Vinho. A propriedade do termo é discutível mas não impede de consideramos as relações do vinho com a arte e mesmo com o quotidiano insular. A sociedade madeirense de oitocentos é herdeira do impacto provocado pela dominância da vinha e vinho, faltando estudos que a valorizem. A um nível restrito, poderá partir-se para um novo tipo de abordagens. Primeiro, a arte do vinho, lavrada em gravuras, avulsas ou ilustrativas de livros e rótulos. O rótulo, para além da expressão plástica, pode ser também um espelho da época através das temáticas dominantes e mensagens escritas. O levantamento das referências que mereceu na literatura torna-se imperioso. Em prosa ou em verso, o vinho é uma constante que está ainda por descobrir.

O Vinho ganhou raízes nas ilhas, graças à necessidade dos primeiros povoadores, mas cedo se espalhou a fama da qualidade, fazendo com que acompanhasse as rotas comerciais do Novo Mundo e dos tradicionais mercados europeus. Fama e comércio foram sinónimo de interesse científico e editorial. Daqui resulta que a Madeira se apresenta como um caso raro na Historiografia da Vinha e do Vinho. O vinho foi e continuará a ser uma referência importante na definição da ilha e da labuta de cinco séculos das gentes. As ilhas ficarão para a História como uma referência do percurso histórico do vinho entre o mundo antigo e o novo.

A Vinha

A área vitícola ocupava em 1865 cerca de 19% da terra arável e distribuía-se pelas vertentes Norte e Sul nos terrenos mais propícios. Os efeitos da filoxera fize­ram-se sentir de forma rápida. A área ocupada pelas vinhas, no ano de 1883, não o nega. As estatísticas oficiais falam de apenas 353ha, que passaram, em 1885, para 769ha. Nos anos quarenta, a área vitícola ocupava 50% do solo cultivado no Sul, dominado por Câmara de lobos, Estreito, Campanário, e 30%, no Norte, com as freguesias de Seixal, Porto Moniz, Ponta Delgada, Arco de S. Jorge.

A atividade vitícola até ao século XIX resumia-se a estas técnicas. A enxofração só surgiu após a doença do míldio. Durante séculos, repetiu-se a mesma rotação monótona das tarefas agrícolas marcadas pela cava com adu­bação, poda, esfolha, culminando o ciclo com as vindimas. A tendência para o aproveitamento das terras de vinha no período de setembro a maio para a cultura de produtos hortícolas, tais como semilhas, feijão, aboborei­ras, é uma tradição que não se perdeu não obstante terem existido recomendações das autorida­des contra isso como sucedeu em 1817 com a Junta de Melhoramento da Agricultura.

Antes da filoxera, a cultura fazia-se geralmente em cavalos da própria casta desenvolvendo-se de seu pé, pois raras vezes se procedia à enxertia. A partir da segunda metade do século XIX, foi necessário recorrer a cavalos resistentes de herbemont, jacquez, riparia, para enxertar a casta desejada. A primeira indicação sobre a enxertia da vinha surge já em 1768. A videira, depois de plantada, só atingia o nível adequado de produção, ao fim de três anos e passados quinze anos entrava na fase de decadência. Assim, quando consideramos as crises da viticultura, é necessário ter em conta a situação.

Era comum o uso de latadas ou corredores, no Sul, como suporte das videiras, enquanto no Norte se fazia em balseiras ou embarrados. Dos 400 m para cima, temos a vinha de pé e embarrados. A primeira referência às latadas surge em 1461, em que o infante D. Fernando ordenava a manutenção do dízimo da madeira delgada que se põem nas latadas e vinhas e tapaduras. A segunda aparece em 1492, quando se refere a necessidade de restauro do caminho de S. Francisco que o tabelião Afonso Lopes tinha um lugar de vinha e latada e casas de morada… para a quall hé muyto necessario trazer madeyra para repairo da dita latada….

A forma de cultivo da vinha acarretava elevados encargos. Em 1815, em representação ao monarca no Brasil refere-se os custosos trabalhos com as vinhas: Exige ela outro trabalho muito arriscado, que é a condução das madeiras para latadas, e corredores quase todas elas cortadas, em três ou quatro légoas de distância dos lugares cultivados, e pelo meio da escarpa das rochas, onde a maior parte dos homens vão cortá-las amarrados com cordas. Numa representação da Câmara (1811), aparecem as latadas e corredores como meio de segurar as vinhas dando-se conta do elevado custo do sistema, pois precisava de constante renovação das madeiras: Estas vinhas são surpreendidas sobre latadas, e corredores, formados de canas sobre estacas de madeira, e tudo entre si ligado por atas de vimes, tudo exposto ao rigor das estações, e portanto é curta a sua duração, e precisão de ser renovadas todos os anos as porções danificadas, o que induz o colono a mais uma anual despeza. As mesmas vinhas cuja duração é de poucos anos precisão ser substituídas por novas plantações, que também são de mais uma despeza anual.

Quanto à vinha de pé, temos algumas referências. As balseiras são referenciadas pela primeira vez, em 1759, em ofício do Governador José Cor­reia de Sá, sobre a necessidade de promover a cultura. Depois, numa sentença de 1853 sobre uma demanda entre um senhorio e um colono, em que o primeiro pretende cortar dezoito pesse­gueiros, um damasqueiro, quatro figueiras, quatro enxertos de ameixoeira, duas laranjeiras é refe­rido que todas ou quase todas essas árvores, estão sustentando parreiras, as quais correm o risco de se perderem cortadas as árvores, com o que o colono sofreria grave prejuízo. O uso das árvores como suporte das vinhas é uma das caraterísticas da cultura da vinha, no Minho, e a sua presença na Madeira tem a ver com a participação minhota no povoamento do arquipélago. Hoje, a tradição desapareceu da Madeira mas ainda persiste no Minho.

No Porto Santo, mercê das condições geológicas e climatéricas, o terreno de vinha reduz-se à área do litoral, nomeadamente na vila Baleira, numa área que se estende da Calheta ao Espírito Santo.

O momento de afirmação da cultura da vinha aconteceu na segunda metade do século XVI, de modo especial as três últimas décadas. O mercado do vinho adquiriu importância, quando os canaviais deixaram de ser rentáveis. São inúmeros os registos que confirmam a mudança de culturas. Em 1571, Jorge Vaz de Câmara de Lobos decidiu plantar o chão das laranjeiras de malvasia para dar mais proveito. Já em 1587, a terra de João Gonçal­ves em Santo António, que havia sido de vinha, estava com canavial de soca de um ano. Na ver­dade, a união ibérica alterou a geografia do mercado açucareiro e a Madeira viu de novo a possibilidade de exportar açúcar. Mas, nem sempre foi assim, pois, em plena euforia de cultura açucareira no século XVII. Outro fator que condicionou a substituição de culturas prende-se com as pragas. Nos inícios do século XVII, o bicho atacou a cana, tornando impraticável a cultura. Martim Afonso reclamava, em 1612, da sorte, uma vez que a fazenda não era de grande pro­veito. O agricultor madeirense foi tomando consciência da nova realidade e a vinha acabou por assumir a importância desejada na agricultura e economia da ilha.

Os conventos do Funchal, nomeadamente de Santa Clara e Encarnação, eram detentores de bens fundiários em toda a ilha. No caso do da Encarnação, o número de foros em vinho é mais reduzido, quando comparado com os demais produtos ou com o de Santa Clara. Os dotes das noviças, as doações particulares alimentaram o seu património, ao longo dos anos. Os dados e um documento que faz a relação das adegas do convento  evidenciam a realidade. Assim, em 1667, o convento de Santa Clara tinha adega em Santo Antó­nio, Câmara de Lobos, Estreito, Campanário, Ribeira Brava e S. Vicente com um total de 104 tonéis.

A partir do levantamento dos testamentos dos séculos XVII e XVIII disponíveis no Arquivo Regional da Madeira, é possível saber qual o investimento indispensável para a cul­tura da vinha e o sistema fundiário. Na Madeira, é necessário distinguir um sistema de dupla proprie­dade, conhecido como contrato de colonia. Com a cultura da vinha, expressava-se da seguinte forma: o proprietário pleno detinha apenas o espaço, enquanto o colono era o dono das ben­feitorias necessárias ao aparecimento dos vinhedos, isto é, paredes, pés de vinha, latadas, loja e lagar. É possível saber-se o valor das benfeitorias que aparecem nos inventários para a posse dos legítimos herdeiros. O colono recebia, muitas vezes, a terra e ficava com o encargo de erguer paredes, plantar as videiras, construir latadas e o lagar, a troco de metade do mosto saído à bica do lagar. O senhor limitava-se a assistir à vindima e à par­tilha do mosto e, em muitos dos casos, nem sequer estava presente, nem se fazia representar pelo feitor, ficando o colono com o encargo de o conduzir às lojas do centro da freguesia ou do Funchal.

Quase todos se apresentam com lagar, construído de acordo com as possibi­lidades económicas de cada um. Assim, temos as lagariças de pedra, o cocho, o lagar de pedra e fuso. Os lagares e a casa implicavam, para a maioria, um avultado investimento. Sendo assim, podemos afirmar que todo o investimento necessário à cultura de vinha era quase sempre da responsabilidade do colono. Era ele quem atribuía a mais-valia ao terreno com as ben­feitorias para que as culturas medrassem. Daqui resultava uma situa­ção de duplo favorecimento do proprietário, que retirava rendimento, sem qualquer investimento e vinculava o colono à propriedade, através de um contrato regido pelo direito consuetudinário. O sucesso da instituição, conhecida como contrato de colonia, deverá estar precisamente na teia de relações e interdependências que estabeleceu.

O investimento inicial assumido pelo colono, em terras de senhorio, era elevado, podendo ultrapassar quinhentos mil réis, distribuídos entre as paredes de retenção de terras, as parrei­ras, a latada e corredor de canas e vimes e o lagar com casa ou palheiro. O valor mais elevado incidia no levantamento de paredes e parreiras. No Norte da ilha, uma das caraterísticas das latadas era a necessidade de construir sebes ou bardos para proteger as vinhas do vento e da ressalga. Para isso, usa-se a urze, tal como se pode verificar no litoral, entre o Seixal e a Ribeira da Janela.

A casa e o lagar só adqui­riram outro valor quando são, em simultâneo, morada do colono e, portanto, de construção mais cui­dada, podendo ficar por apenas $800 réis, como foi o caso do lagar de Manuel Gonçalves em Campanário, ou ultrapassar os trezentos mil réis, como sucedeu com a casa e lagar que Domingos da Silva Pinto havia construído na fazenda de Francisco Figueira no Estreito de Câmara de Lobos. Estamos perante um lagar de grandes dimensões, tendo em conta os custos de trabalho com o pedreiro e carpinteiro. O valor assinalado para as parreiras plantadas era de 372.580 réis.

Na avaliação do lagar, é preciso ter em conta a capacidade, forma de construção, dis­ponibilidade de apetrechos e a cobertura que o protegia, a presença de utensílios, como a tina e funil. A dificuldade em encontrar referências ao vasilhame, poderá ser indício de que o mosto seguia diretamente para o Funchal. Em 1664, Manuel Moniz apresentou no inventário da fazenda na Ribeira Seca cinco tonéis, avaliados em 5.000 réis. Já em 1752, Romão Figueira declara apenas dois barris no valor de 1.000 réis.

O maior investimento do viticultor/colono estava no arranjo das terras, no plan­tio, enxertia e cuidados a ter com a vinha. Temos informação sobre os bacelos e enxertos. Em 1692, os bacelos eram avaliados em 6 réis cada, situação que se manteve em 1742, uma vez que um milheiro equivalia a 6.000 réis. Os enxertos são a 50 réis, por pé. A extensão de vinhedos pode ser deduzida a partir do número de milheiros de parreiras dadas a inventário. Em 1748, Antónia de Freitas, casada com João Rodrigues, tinha, em S. Marti­nho, terras de benfeitorias do capitão Francisco da Cunha, com 43.600 parreiras. Estamos perante um dos maiores investimentos de um colono.

O colono era ainda onerado com a obrigação de um outro conjunto de benfeitorias, imprescindíveis à laboração da faina vitivinícola. A construção de paredes, o plantio das videiras, o erguer latadas e construir lagares estão incluídas no conjunto de obrigações que constituíam o primeiro investimento do colono. A despesa em latada é reduzida, o que deverá ser prova do uso da vinha de pé. Diferente era, todavia, o caso de Maria Pereira, no Campanário, que, para 24.232 parreiras, se viu obrigada a investir 45.000 réis na construção de latadas a que se somam mais 65.000 réis de paredes. A última despesa dependia do local onde estava o terreno. O valor mais elevado resultava do trabalho de preparação do terreno para o plantio dos bace­los, com a construção de paredes.

O investimento na cultura da vinha teve lugar a partir dos séculos XVII ou XVIII, revelando que ainda existiam terras por aproveitar e que se procurava conquistar para a vinha. A afirmação da vinha foi, assim, resultado de uma usurpação do terreno ocupado pelos canaviais abandonados e, acima de tudo, pela conquista dos baldios situados em zonas com condições apropriadas à cultura. Acresce, ainda, que os dados disponíveis revelam uma aposta preferencial na vinha e do crescimento da economia vitícola, a partir da segunda metade do século XVII. Era a vinha que valorizava o espaço agrícola e todas as tarefas e benfeitorias que conduzissem à sua afirmação eram, por consequência, valorizadas. Daí que não seja estranho a presença em inventários de referências à vinha e benfeitorias correlativas.

Poucos são os elementos, como vimos, que nos dão uma imagem aproximada do incremento da cultura da vinha, ao longo dos séculos XVIII/XIX e mesmo em período antecedente. Os dados disponíveis são avulsos e mais seriam necessários para se formar uma ideia do incentivo dado à cultura. Apenas temos à mão o regimento de 1774,  para o Porto Santo, e as instruções do Corregedor e Desembargador António Rodrigues Veloso de Oliveira, em 1782, onde refere a necessidade de diversificação das culturas, de forma a evitar o sistema de monocultura da vinha e a consequente dependência dos mercados externos. O regimento de agricultura de 1774 dá conta das medidas tomadas no incentivo da policultura, como solução para mais uma crise de seca e fome, ao mesmo tempo que se tentava acabar com o abandono e alheamento dos proprietários com a extinção do contrato da colonia. Daqui resultou que o plantio de vinhas não foi esquecido e, no ano de 1784, temos referência ao envio de bacelos da Madeira. O Sargento-Mor da ilha, ao mesmo tempo Inspector de Agricul­tura, Pedro Telles de Menezes, apropriou-se delas, plantando-as, nas suas terras, , em detrimento de outras mais apropriadas, o que levou  a Junta a solicitar, ao vigário local, informação sobre o mesmo como a mais cautela e segredo possível.

Com o Governador J. A. Sá Pereira, lançou-se mãos da diversificação de culturas, facto repetido em 1782, mas nunca foi possível destronar a predominância da cultura da vinha que, com o apro­ximar do fim do século XIX, se tornava cada vez mais solicitada pelos mercados externos e, por isso rentável. A mudança aconteceu na segunda metade do século XIX, com o avolumar da crise vitícola resultante das diversas conjunturas desfavoráveis da produção geradas pelo fator patológico-botânico (oídio em 1852, filoxera em 1872, míldio em 1912). Os agricultores madeirenses obrigaram-se a aceitar a substituição da vinha por outras culturas como a cana ou por experimentar novas como o tabaco, chá e bicho-da-seda. A vinha não ficou no esquecimento do colono e a necessidade da água-pé para as festanças de Natal e as longas noites de inverno levou-o a procurar outra forma de cultura, sob cautela do bicho, com o ensaio de bacelos americanos resistentes. Uma nova fase relançou a cultura da vinha da ilha. As atividades da Comissão Anti-filoxérica (1882/1883) e da Comis­são de Auxílio à Agricultura [1888/1890] evidenciam a aposta na reconversão agrícola da região durante o período de crise.

A história das castas que deram nome ao vinho Madeira não está ainda devidamente esclare­cida. Sabemos apenas que o Infante D. Henrique mandou vir de Creta a celebrizada Malvasia. Todavia, os colonos que estiveram no início do povoamento da Madeira, maioritariamente da região de Entre-Douro-e-Minho, não podem ser alheios aos primórdios da cultura na ilha, habituados que estavam ao seu convívio e consumo. A cultura da vinha tem tradição em Portu­gal, sendo a região Norte uma das áreas privilegiadas.

A filoxera, a partir de 1872, condicionou a viticultura madeirense, pois caso se pretendesse manter os vinhedos, deveria socorrer-se das castas americanas, como produtores diretos ou cavalos porta enxertos. O Governo criou dois viveiros, um no Torreão e outro no Ribeirinho, evidenciando a aposta na reposição das vinhas. Em 1883, foram distribuídos mais de 60.000 bacelos americanos das mais distintas variedades: riparia, jaquez, hebermont, rupestris solonis, taylor, clinton, ebimbro, york madeira, a que se juntaram, depois, outras como cunningham, viale, elvira, othelo, cineree, back pearle, gaston bazile, etc. Algumas serviram de cavalos para enxertia das castas tradicionais outras conquistaram o lugar, como foi o caso do jacquez, herbemont, cunningham e vinho americano, tornando-se em produtoras por excelência. Ganharam fama os jacquez de S. Vicente, Seixal, Porto Moniz, Ponta Del­gada, Arco de S. Jorge, e o vinho americano do Porto da Cruz. No Sul, nomeadamente em C. de Lobos, persistiram as antigas castas enxertadas em cavalos americanos.

No século XX, estabeleceram-se medidas de reposição das cas­tas tradicionais. Em 1909, o Governo estabeleceu um regulamento, no sentido de erradicar as castas americanas num prazo de oito anos. Acontece que a situação não mudou e, em 1935, insiste-se no arranque das videiras americanas, a partir de 30 de março de 1936. Uma vez mais, ninguém cumpriu a ordem, chegando até nós a presença e fama do vinho americano.

Para fazer cumprir a medida de reposição das castas primitivas, a Junta Geral estabeleceu, a partir de 1945, vários campos experimentais de videiras na Madeira e Porto Santo. Como corolário disto tivemos, desde 1954, a renovação das castas do Porto Santo, com barba­dos vindos da Madeira. As diversas castas assumem particularidades que as dife­renciam de idênticas na Madeira. Daí a adjetivação de Porto Santo que normalmente se asso­ciava a Tinta, o Boal e o Moscatel. Somente a partir de 1978 ficou assente o plano de reconversão das vinhas da Madeira, no sentido de reconstituir o aspeto vitícola anterior ao oídio e à filoxera.

O panorama vitivinícola madeirense foi dominado por uma diversidade de castas, que hoje se torna difícil identificar, por falta de estudos ampelográficos. São quatro as que se destacam, sendo o Sercial a primeira casta em qualidade, ficando a Malvasia no segundo nível. Seguem, em terceiro lugar, o Boal e o Bastardo e em quarto, o Tinta negra mole. Sem classificação, ficam as Canaria, Peringó, Moscatel, Ferral e Negrinha.

A malvasia é a casta que deu nome ao vinho da Madeira e está presente desde os inícios da ocupação. A tradição anota que foi o Infante D. Henrique que mandou vir os primeiros bacelos do Mediterrâneo. A Malvasia é originária de Napoli-di-malvazie na ilha de Monia, junto da costa oriental de Moreia, donde foi trazida para a Madeira. Aqui, desenvol­veu-se em áreas específicas do litoral na vertente meridional, estendendo-se pela Fajã dos Padres (Campanário), Paul do Mar, Jardim do Mar, Arco da Calheta, Madalena, Sítio do Lugar (Ribeira Brava), Anjos (Canhas). Os testemunhos de vários visitantes dos séculos XV e XVI apenas anotam a presença da malvasia. Somente em 1687, Hans Sloane diferencia três variedades de uvas: branca, vermelha, muscadínea ou malvasia. A mais famosa surgiu na Fajã dos Padres, mas a área de cultivo estendia-se ao Paul do Mar, Jardim do Mar, Arco da Calheta, Madalena, Sítio do Lugar (Ribeira Brava), Anjos (Canhas).

De entre as variedades de superior qualidade, que deram nome ao vinho Madeira, sobressai a Malvasia, com as variantes cândida, roxa, babosa e propea, que mereceu a atenção dos mais afamados apreciadores do vinho – os ingleses – que no teatro, com Shakespeare, ou nos últimos desejos (morte do Duque de Clarence em 1495) nunca a esqueceram. Existem várias variedades de malvasia. A mais recente é apelidada de S. Jorge, área onde incide a maior produção. Na ilha, a mais conhecida foi a Malvasia cândida ou fina, Algumas não merecem a aprovação de todos os especialistas. Batalha Reis, em conferência realizada no Funchal, em 1905, contraria a opinião corrente ao condenar a malvasia babosa por se desfazer em mosto e ser pouco doce.

A Fajã dos Padres, propriedade dos Jesuítas na ilha, foi um dos lugares por excelência de produção da casta, tendo merecido a atenção dos comerciantes. A produção no século XVIII nunca excedeu as 80 ou 100 pipas e a de superior qualidade era, no século XIX, de apenas 200 pipas. Ainda hoje continua a ser uma raridade.

Por ser tão considerada, a vinha surge, com frequência, em testamentos e encargos pios. Nos encargos e foros do Convento da Encarnação do Funchal, sabe-se da presença da casta na cerca do convento e terras foreiras de Câmara de Lobos e Porto Novo. O Sercial, não tão conhecido como a Malvasia, pertence ao grupo das castas generosas de superior quali­dade e é referido como de primeira qualidade, antes mesmo da Malvasia. Este terá sido importado do Reno, sendo conhecido no continente como Esgana cão. A área de cultivo é definida pelo Fun­chal, Câmara de Lobos, Fajã dos Padres, Campanário, Paul do Mar, Fajã (Ponta do Pargo). Quanto ao Boal, a videira foi importada da Bretanha, espalhou-se pela vertente meridional: Campanário, Câmara de Lobos, Santo António, Estreito de C. Lobos, Paul do Mar, Fajã (Ponta do Pargo).

A Tinta negra mole, hoje a casta mais importante para o fabrico de vinho Madeira, cuja produção acontece em toda a ilha, mas que tem em S. Vicente no Estreito de Câmara de Lobos a principal área de produção,  foi trazida de Espanha para o reino e Canárias e, daí para a Madeira. O Verdelho é uma das castas que melhor produz na ilha, situando-se a área de cultura nas zonas altas. Na segunda metade do século XIX, alcançou um lugar destacado na viticultura madeirense, ocupando dois terços do vinhedo. Algumas das castas com que se faz o vinho Madeira são consideradas e valorizadas pela raridade e excelência dos vinhos. São elas: o Bastardo, Listrão e Terrantez. O vinho da última continua a ser considerado um verdadeiro néctar dos deu­ses.

Eduardo Grande (1854) evidencia, a partir de meados do século XIX, o aparecimento das castas americanas, que chegaram à Europa pela fama da resistência ao oídio, mas que foram transportadas nas raízes das larvas de outro mal, isto é, a filoxera. A situação implicou uma mudança radical no espetro vitícola da ilha. As cas­tas tradicionais europeias tornaram-se improdutivas com o oídio ou definharam com o ataque da filoxera às raízes. Os produtos químicos não resolveram cabalmente o problema e só com o recurso às castas americanas, vindas diretamente dos EUA ou através da Europa, con­seguiu-se assegurar a reposição dos stocks de vinho e corresponder à solicitação do mercado de consumo interno e externo. Apenas para o século XX se torna possível fazer uma ideia da importância assumida pelas diversas cas­tas no conjunto da produção de vinho.

O quadro dos valores médios da produção em litros para o quinquénio de 1935-1939 evi­dencia a dominância do jacquez com 40% do total. A dominância das castas americanas ocorre nos concelhos do Norte, com especial destaque para S. Vicente, enquanto as europeias têm uma incidência particular no Sul. Apenas com o verdelho e o Sercial se altera a situação em favor do Porto Moniz, a principal área de ambas. A relação maioritária das castas americanas manteve-se, nas décadas de cinquenta e setenta. A total reconversão da vinha para as europeias só começou a ganhar forma na década de setenta, com o impulso do recém-criado Instituto do Vinho da Madeira. Tudo isto foi consequência de diretivas comunitárias que proibiram, a partir de 1996, os vinhos de híbridos de produtores diretos. A partir daqui, resultou a inversão dos valores da produção de vinho, a favor das castas euro­peias.

Não existe um estudo ampelográfico atual e comparativo que permita conhecer a situação da viticultura madeirense a enquadrar no panorama nacional e internacional. Os raros estudos que conhecemos são do Engº. Teixeira de Sousa, que apresentou um trabalho no V Congresso Internacional da Vinha e do vinho realizado em Lisboa, em 1938, e de Carlos Azevedo de Menezes. Estamos perante um campo em aberto que espera pela atenção dos especialistas.

As Pragas destrutivas

O oídio, vulgarmente conhecido como mangra da vinha, surgiu em Inglaterra em 1845, alastrando depois à França e mais regiões vinícolas da Europa. Segundo Hermann Schalack, a doença começou, tal como na Alemanha, com o nascer da flor. A origem na Madeira deve estar relacionada com o facto de um francês ter vendido, em fevereiro de 1851, castas colhidas em zonas infestadas na França. Por este ou por outro qualquer motivo, a doença fez sentir desde 1852, alastrando do Funchal ao resto da área de cultura, atingindo, de modo especial, a zona de Machico, Agua de Pena, Funchal, e arredores. Ficaram imunes à praga áreas, como as plantações de Roberto Donaldson, no Curral do Mar (Porto da Cruz) e as propriedades de Nicolau d’Ornelas no Caramanchão (Machico). A 5 de fevereiro de 1853, The Illustrated London News dava conta ao público londrino da nova fatalidade que assolava a ilha. No breve historial da situação, precavia-se o comerciante menos avisado para as consequências que se seguiriam nas exportações.

A gravidade da crise de fome e a situação das vinhas, a principal origem do sustento da maioria dos madeirenses, levaram a que as autoridades tomassem medidas. Em 1853, foi criada em Lisboa uma comissão para fazer o estudo da situação, que mereceu o desacordo de O Amigo do Povo, porque considerava colidir com a missão da Sociedade Agrícola. Entretanto, a 15 de julho, reuniu-se a Sociedade Agrícola, para estudar a conjuntura decorrente da mangra, resultando a nomeação de uma comissão de estudo. Entretanto, a Academia de Ciências de Lisboa enviou à ilha João Andrade Corvo, com o intuito de estudar a moléstia da vinha, sendo acolhido com grande regozijo. Da deslocação, resultou um relatório.

D. João da Câmara Leme, à altura em Paris, enviou os esclarecimentos necessários sobre a doença e o modo de a atacar, apresentando os meios usados em França para combater a mangra por meio de pó de enxofre. Ainda, em França, o Barão de Ornelas apresentou um novo processo de tratamento com sulphur, que só começou a ser utilizado a partir de 1861.

Outros processos de combate foram descobertos e ensaiados em Espanha e o cônsul português deles deu notícia à repartição da Agricultura do Ministério de Obras Públicas, Comércio e Indústria que se encarregava de comunicar à Madeira. Em 2 de agosto de 1853, tivemos o tratamento com o uso de cal e sangria das cepas. Em 17 de agosto, a partir dos ensaios de D. Eramos de Janes, avançou-se com a aspersão do cacho com sulfato de ferro, dissolvido em água. E, finalmente, em 5 de agosto de 1854, divulgou-se a solução descoberta por D. José Sacristia, natural de Barcelona.

Tendo em conta que o oídio é uma doença que ataca a flor da vinha, fácil será de deduzir o desconhecimento que então havia sobre a origem da moléstia, pelo menos por parte dos autores dos processos usados em Espanha, e de quem os divulgava em Portugal, em oposição aos conselhos do Conde de Canavial e do Barão de Ornelas, que apresentavam meios de reconhecida probidade científica. As perdas foram elevadíssimas, computando-se 1:137.990$000,segundo dados oficiais de mais de um milhão de réis, colocando a ilha num completo estado de prostração.

Vinte anos depois da mangra da vinha, surgiu outra doença, não menos catastrófica que deu o golpe mortal à viticultura madeirense. Teria sido trazida em 1865, em bacelos de Izabella, ou vinha americana, castas resistentes ao oídio. Os primeiros indícios da doença contagiosa foram detetados em 1872, por D. João da Câmara Leme, em amostras de S. Gonçalo e S. Roque, cedidas por um lavrador. A partir de então, o cientista dedicou-se ao estudo da fêmea aptera e dos pós escuros, na senda de encontrar o processo adequado de tratamento.

Em 15 de outubro de 1876, o inglês Michael Grabham publicou no Times uma carta sobre o estado da cultura na ilha, dando conta dos efeitos devastadores da filoxera. A declaração, em tom alarmista, provocou a reação dos produtores e comerciantes locais (nacionais e estrangeiros). O articulista de O Popular , ao publicar a tradução da carta, tece algumas considerações sobre as intenções que conduziram o Sr. Grabham a publicar a missiva alarmista, notando os erros da visão, pois que a área alastrada se resumia, então, a Câmara de Lobos, Estreito e arredores do Funchal (S. Martinho, Santo António, Monte, S. Gonçalo), enquanto a maior parte dos vinhedos da ilha ainda se acham cheios de vigor e de vida e em estado de produzirem de futuro, como produziam no corrente ano (1876), grandes quantidades de excelente vinho. Refere-se, ainda, que a filoxera não atingiu a Quinta Grande, Campanário, Fajã dos Padres, Paul do Mar, Ponta do Pargo, ou seja as melhores áreas produtoras de vinhos da ilha.

Cossart Gordon & Ca. , em carta ao periódico londrino, desmente o tom catastrófico da missiva do compatrício: não há dúvida que a philloxera tem feito algum dano às vinhas este ano (1875), mas a nossa casa, segundo nos escreveu da ilha em 15 de Agosto do corrente (Setembro último), informa-nos que a qualidade da colheita deste ano é boa, tanto quanto se pode julgar pelo sacarímetro, e que a quantidade vem a ser muito grande em proporção dos embarques, posto que menos que menos que a do ano passado. Em 5 de outubro, foi a vez de Leal Irmãos & Ca., a dirigir-se ao mesmo jornal, para desfazer as notícias do Sr. Grabham: E verdade que a filoxera já apareceu na Madeira, mas o facto não é tão assustador como o seu correspondente parece querer profetizar, a produção dos nossos vinhos tem aumentado nos últimos anos.

Idêntica opinião tinha um articulista de A Lâmpada, em 26 de setembro de 1873, ao referir-se que a moléstia ainda não havia alastrado a toda a área vinícola, apontando-se a necessidade de proteger as que ainda estavam imunes, como era o caso do Porto Santo. Segundo Carlos Azevedo Menezes, a ação da filoxera aqui foi tardia, de modo que, em 1908, ainda se fazia sentir. No período sucedâneo de 1877/1880, o panorama dos vinhedos da Madeira era dramático. Os efeitos da doença eram visíveis, principalmente na área circunvizinha do Funchal, como testemunha Henry Vizetelly, em 1877.

A situação trazia à mente do insulano os tempos difíceis vividos na centúria oitocentista, com a fome de 1847 e a crise de 1852. Estavam criadas as condições para reacender o debate na imprensa. Primeiro, foi a procura desesperada das curas possíveis, a que se seguiu a tentativa de implantação de novas culturas como a cana-de-açúcar, o tabaco e a cochonilha. Aqui, evidenciaram-se alguns homens locais, conhecidos pela atividade política e o dom da oratória, como D. João da Câmara Leme. O Conde de Canavial, cientista madeirense, havia adquirido em França a experiência e conhecimentos científicos necessários para se dedicar à investigação enológica e à Medicina. A ele se deve um dos raros estudos sobre a filoxera vastatrix, os processos de tratamento das videiras infestadas, e as soluções para a crise vitícola, com a política de desenvolvimento local e a criação de uma associação de viticultores e comerciantes.

O Governador Civil deu bom acolhimento à medida, como se pode ver em carta de 28 de agosto de 1872, em que lhe solicitava a indicação das pessoas adequadas para fazerem parte da comissão. Em 30 de agosto, apontaram-se as seguintes: Juvenal Honório de Ornellas, José Leão Drumond Cavaleiro, Domingos Alberto Cunha, Maurício de Andrade, João Maria Moniz, João Araújo Cunha, Francisco António de Freitas Abreu, Salvador Augusto Gramito d’Oliveira. Por alvará régio de 11 de setembro, foi criada a comissão. Mas pouco ou nada sabemos da atividade desenvolvida, ficando condenada ao malogro por força da luta política e partidária.

A 8 de outubro de 1876, o Governador Civil, Francisco Albuquerque Mesquita e Castro, convocou uma reunião para estudo da crise agrícola, protestando D. João da Câmara Leme, quer pelo aspeto formal da reunião pública, quer pelas declarações aí proferidas. O Conde de Canavial, no discurso, apresentou mais uma vez a solução para a crise que teve forte impacto nos jornais, nomeadamente nos afeitos ao Partido Progressista de que o Conde era o líder local.

O Conde de Canavial, confrontado com a convocatória da reunião da Sociedade Agrícola para 27 de novembro, sentiu-se magoado por ver as propostas serem votadas ao esquecimento pelas autoridades civis, decidindo não comparecer, mas presenciando, de fora, com olhar crítico o que aí se passou. Em 30 de julho de 1879, D. João da Câmara Leme foi finalmente nomeado Governador Civil, com a possibilidade de pôr em prática as soluções que há muito tempo vinha pugnando. Mas se assim o pensava, cedo chegaria à conclusão de que se havia enganado, pois que, aí instalado, teve de fazer frente aos adversários políticos que dominavam parte dos serviços administrativos e se negaram às medidas avançadas pelo novo Governador. O primeiro facto surgiu em 11 de agosto, quando solicitou às câmaras e administradores dos concelhos do distrito um parecer sobre o estado da agricultura de cada zona. Todos se escusaram, invocando razões várias, o que não impediu de fazer um breve relatório em 6 de dezembro de 1879, onde dava conta da situação aflitiva da ilha e da falta das necessárias medidas por parte de Lisboa, ou a autorização para as que havia apresentado.

Mais uma vez, se aguardou por soluções de Lisboa que e só chegaram depois da filoxera ter alastrado no continente. A partir de então, a situação vivida na ilha tornou-se mais clara para as autoridades do continente e surgiram medidas para solucionar a crise vitícola. Foi preciso aguardar pelo ano de 1882 e pela ação da recém-criada Comissão Anti-filoxérica Distrital (5 de agosto) para que fosse posta em prática uma política de auxílio aos viticultores, no sentido de minorar os feitos da crise. A nova comissão composta por ilustres personalidades locais – Henrique de Lima e Canto, João de Salles Caldeira, Manuel José Vieira, John Leacock, Daniel Simões Soares – tinha como objetivo combater a filoxera por meio do uso do sulfureto de carbono, montando, para o efeito, um posto de tratamento. Ao mesmo tempo, incentivava os viticultores ao replantio da vinha com castas resistentes.

Em sessão de 20 de dezembro de 1882, foi deliberado solicitar à comissão central que o distrito do Funchal, exceto o Porto Santo, fosse considerado zona invadida pela filoxera. Na reunião, tratou-se da criação de um viveiro de cepas americanas para as campanhas de replantio. O processo arrastou-se por algum tempo, acabando o viveiro por ser instalado nas propriedades de Maurício Carlos Castelo-Branco, sendo, depois, transferido para outros terrenos, no Ribeirinho e Torreão. O presidente da comissão, João Salles Caldeira, havia ensaiado com êxito as cepas americanas nas propriedades da Madalena (Santo António), como incentivo para a ação da comissão que, de imediato, procedeu plantação de bacelos e sementes americanas. Em 27 de março de 1883, a comissão mandou avisar os jornais locais que comunicassem ao público de que estava a distribuir gratuitamente grainhas de vinhas americanas resistentes. Daqui resultou a distribuição de 6.000 pés de videira de diversas castas americanas resistentes. Ao mesmo tempo, recomendou-se ao Juiz da Alfândega que permitisse a entrada dos bacelos americanos, não cobrando qualquer direito. Em 1885, nos 2000ha de vinha destruídos, temos 40ha com videiras americanas.

A Junta tentou,  ainda,  recorrer aos métodos de tratamento disponíveis para conservar as poucas castas não atacadas ou de minorar os efeitos da doença nas já atacadas. Assim, estabeleceu-se um posto de tratamento, vindo em 1882 dois inspetores do reino com alguns barris de sulfureto e as instruções para proceder ao trabalho. O prático foi enviado, em março, às freguesias de S. Vicente e Calheta. Em 1883, os trabalhos de sulfuração dos terrenos afetados estavam a cargo de António Brito Guedes. O proprietário pagava 1/3 do custo do tratamento, ficando o restante a cargo da comissão. Mesmo assim, a área abrangida pelo tratamento do sulfureto não ultrapassava os 4ha, quando tínhamos 2000ha de vinha afetada.

Desde 10 de junho de 1883, funcionou uma comissão de inspeção às vinhas composta por F. Almeida Brito (Inspector Geral), Salvador Gamito de Oliveira (Intendente pecuário), João Salles Caldeira (Presidente da comissão anti filoxérica do distrito), cuja finalidade era tomar conhecimento das áreas afetadas, aconselhando o processo de tratamento e adquirir os necessários elementos para elaborar o mapa filoxérico da Madeira. Na conformidade do decreto de 2 de novembro de 1880 e do ofício da Comissão Central de 16 de julho de 1883, foi criada a 7 de setembro de 1883, a Comissão de Vigilância à ilha do Porto Santo composta por João Fausto de Santana e Vasconcelos, Pedro Júlio de Vasconcellos, José Alexandre Lomelino de Vasconcellos, Júlio César de Vasconcellos, Tomás Maria Tello, Manuel António Ruas e Luís Faustino de Vasconcellos, com função de vigiar as vinhas, de forma a evitar o ataque da filoxera.

A partir de 5 de abril de 1888, com a criação da Comissão de Auxilio à Lavoura da Madeira, todas as tarefas de luta contra a filoxera transitaram para a sua alçada. A partir de agora, toda a ação, bem como da comissão apoiante, composta pelo Visconde do Ribeiro Real, Domingos Alberto da Cunha, João Maria Curado de Vasconcelos e José Eduardo Gomes, se orientou para a procura de uma cultura com valor mercantil capaz de substituir a vinha. Surgiram novas experiências com a cana-de-açúcar, chá e tabaco.

O míldio atacou os vinhedos, nos anos de 1894 e 1912. A cultura da vinha passou a merecer por parte dos viticultores cuidados excessivos. O uso de pesticidas e a enxertia são hoje os meios de tratamento contra as doenças. As doenças ainda continuam a fazer sentir os efeitos sobre a cultura da vinha, fazendo onerar os custos de produção. De acordo com José Tavares, em 1938, os custos médios do cultivo da vinha no Porto Santo foram onerados em mais de 28%.

A política de reconversão e expansão da vinha contou, a partir de 1972, com a intervenção do Governo através da Junta Geral. Para o efeito, criaram-se campos experimentais na Ribeira Brava, Ponta do Pargo, Câmara de Lobos, Estreito da Calheta. Com o processo autonómico, o Governo Regional reforçou a aposta na viticultura com novos campos em S. Vicente, Ponta Delgada, Seixal e S. Jorge. A par disso, entre 1973 e 1983, foram distribuídos 1.168.519 bacelos.

O Vinho da Madeira

A vindima, pelo movimento desusado de pessoas e animação, é considerada o momento mais importante da faina rural ligada à vinha. Ao longo do ano, sucedem-se os diversos cuidados com a vinha, quase sempre a cargo dos homens. É, em setembro, nas vindimas, que o agricultor vê o esforço compensado pela contemplação dos maduros e luzidios cachos ou amenizado com os cantares caraterísticos da época. As trovas populares alusivas ao momento davam a necessária animação e alento.

Setembro é, por excelência, o mês das vindimas. Ao agosto, de férias e festas, sucede-se o mês do trabalho em que a viticultura é rainha. As terras de vinha são o centro de todas as atenções. Do Estreito de Câmara de Lobos a S. Vicente, tudo se movi­mentava em torno das latadas, dos poucos lagares e inúmeros postos recetores de uvas. No passado, o movimento era inusitado, ocupando quase todas as gentes. Era um verdadeiro assalto às vinhas e lagares. Os senhores desciam do burgo ao campo a observar e fiscalizar os pâmpanos de uvas e o pastoso mosto. Os demais iam à procura de trabalho, pois a vindima aumentava a oferta de trabalho e, por isso, em meados do século dezanove com o espetro da fome e da emigração, as autoridades rejubilavam por se fecharem, ainda que temporariamente, as portas da emigração. A cidade ficava deserta. Todos estavam nas vindimas: uns a reivindicar o pecúlio, outros, no árduo labor da apanha, transporte, pisa da uva e posterior condução do mosto aos tonéis, para descanso de alguns meses, até à viagem ao Funchal. O processo era moroso e implicava a presença de mão-de-obra para que as tarefas fossem executadas atempadamente.

Hoje, tudo mudou. As terras não são de colonia ou de rendeiros. As tarefas da vindima per­deram em bucolismo, mas ganharam em alívio do esforço. O dorso do Homem deu lugar à caixa da furgoneta, o lagar passou a peça de museu, sendo o serviço exe­cutado pela hodierna maquinaria. O borracheiro desapareceu da paisagem, dando lugar às cubas de metal, transportadas encosta acima pelo automóvel. A força do progresso joga a favor do madeirense e contra o espetador (turista de dentro e de fora) que se compraz no sofrimento dos outros. Não foi o instinto destruidor que fez apagar a bucólica imagem, mas a urgência de libertação do madeirense da canga acumulada no dorso, há mais de quinhentos anos. Na atualidade, resta apenas a obra de engenharia que são os poios, agora ligados por estrada, e o canto de Vieira Natividade em a Madeira. Epopeia Rural. Nin­guém melhor que ele entendeu a luta hercúlea do íncola contra a natureza. Ninguém como ele sentiu a dor e sofrimento do madeirense no ato de transformação do rochedo em horta ajar­dinada. A imagem, que pertence ao passado, perpassa a escrita poética.

Pretender o regresso ao passado é atraiçoar o progresso e perpetuar o secular sofri­mento. O Ecomuseu é uma realidade que não entrou no quotidiano, em que o visitante é participante ativo é a resposta e o meio de harmonização do passado com o presente. A emoção ao vivo não deve ficar-se pela hipócrita contemplação mas alargar-se à observação participante. Talvez assim, consigamos entender o grito de dor e os impulsos que fizeram progredir e inovar as tarefas que fazem parte do dia-a-dia das vindimas. Deste modo, fica demonstrado que o progresso não é o virar de costas ao passado, mas a expressão do presente e a projeção para o futuro.

Em muitos lugares, o ciclo de trabalho revestia-se de um cerimonial inaudível que atraía centenas de forasteiros da cidade. Sucedia assim em Câmara de Lobos nas quintas do Visconde de Torre Bela, do Conde de Carvalhal como no Estreito da Calheta e terras de João Nascimento. Hoje temos algumas manifestações que pretendem recordar a faina em torno da vinha e do vinho. Referimo-nos às festas da uva, do Porto da Cruz e das vindimas, desde 1980, no Estreito de Câmara de Lobos e no Funchal. Ambas as evocações são o momento ideal para a comunhão do passado com o presente. A festa das vindimas é uma tradição antiga e está documentada a sua realização no Funchal em 1938, 1945 e 1946. Para além do Funchal, refere-se ainda em S. Vicente uma ocasional comemoração em 1981. Hoje, é ainda possível o reen­contro com o passado através das memórias descritivas e romances como sucede com Horácio Bento de Gouveia, o retratista das emoções rurais do norte da ilha, nas gravuras inglesas ou foto­grafias, de que fizemos uso numa exposição que teve lugar no Teatro Municipal, em outubro de 1982. Os museus do Funchal sobre a temática são os fiéis depositários.

A época da vindima, que se estende de agosto a setembro ou outubro, é o momento de maior azáfama rural e origem de migrações internas. Em ter­ras onde imperava o contrato de colonia, a apanha da uva subordinava-se à autorização do senhorio, a disponibilidade de lagar e ao chamar gente para o dia aprazado. Feito o vinho, o mosto era vendido à bica do lagar ou transpor­tado à adega que se situava junto à costa ou no Funchal. O colono só ficava com a água-pé, pois a parte do mosto que lhe cabia era vendida, de ordinário, ao senhorio e muito raramente ao comerciante. O facto de não dispor de adega ou vasilhame condicionava o campo de ação.

Eram muitos os abusos praticados com as vindimas fora de tempo, porque os colonos não esperão que as suas uvas estejão perfeitamente sazonadas para as vindimarem; nem no tempo da vindima fazem a precisa escolha que se requer para que não se misture o verde com o maduro…, condu­ziu às reclamações dos senhorios ao monarca, solicitando medidas urgentes contra tais práticas, o que foi prontamente atendido pelo regimento das vindimas de 16 de agosto de 1785. Aí, estabeleceu-se o processo e a obrigatoriedade da escolha das uvas. Quanto ao primeiro, deliberou-se que em nenhuma das freguesias desta ilha se fará vindimar, sem expressa licença por escrito deste governo, antes dos dias que vão indicados na relação que será com esta e assinada pelo secretário do mesmo governo. A tarefa ficou a cargo dum inspetor coadjuvado por inspetores locais, sendo a autorização para vindimar passada, após uma visita às vinhas. Quanto ao segundo, os mesmos providenciariam junto dos colonos para que à bica do lagar se procedesse a necessária escolha das uvas, situação difícil de controlar. Em anexo, vêm estipuladas as datas da vindima em cada localidade: a partir de 15 de setembro, nas freguesias de Stº António, Stª Luzia, Stª Cruz, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Arco da Calheta, Paul, Ponta do Pargo, S. Roque, Caniço, Campanário, Tabua, Madalena, Calheta, Jardim do Mar, Fajã da Ovelha, Canhas. Desde 25 de setembro, nas freguesias de Machico, Estreito de Câmara de Lobos, Stª Anna. Desde 1 de outubro, na freguesia de S. Vicente e a malvasia por ser este o vidonho o que mais custa a sazonar.

As recomendações quanto à cultura da vinha surgiram pela primeira vez em 1785, conjuntamente com a proibição da baldeação interna e de adulteração dos vinhos. São medidas próximas das que o Marquês do Pombal preparou para o vinho do Porto, quando ordenou a criação da região demarcada. Chegou-se mesmo a reclamar por uma companhia para a Madeira, como se havia feito em 1756, para o Douro. Em agosto de 1785, publicou-se o regimento das vindimas em todos os distritos da ilha com indicações sobre a forma de evitar o dano provocado pela colheita prematura sem escolha das uvas. A Junta de Melhoramento da Agricultura ordenou, em 18 de agosto,que fossem nomeados três inspetores por freguesia para fiscalizarem a aplicação. As medidas tiveram eco nos anos de 1827 e 1838. No primeiro, retomou-se a provisão de 1819, enquanto no segundo, foi-se buscar fundamento à lei de 1786. Desta forma, procurava-se defender a qualidade do vinho e evitar os efeitos prejudiciais da prática corrente no comércio. A expressão das medidas, de modo espaçado, dá conta da premência em momentos de agudização da crise ou discussão. Ao mesmo tempo, demonstra a apatia dos colonos, perante uma prática que se tornava onerosa e lesiva da safra da vinha.

A mesma política ressurgiu em 1939, quando o Conselho do Distrito decidiu, por acórdão, manter a regulamentação das vindimas, ordenando que se fizessem depois da aprovação por inspetores competentemente nomeados pelas municipalidades, de acordo com o regulamento de 16 de maio de 1831. Em carta de 4 de outubro, o Administrador Geral recomendava viva­mente à Câmara a aplicação das medidas, replicando a Vereação com as devidas providências. Sabe-se, ainda que era comum os lavradores misturarem as variedades de uva, enganando os compradores. Em 1849, uma postura estabelecia a pena de 6$000 réis para quem misturasse as uvas de bom vidonho denominadas malvasia, carão de moça, maroto, caxudo, etc., com outras de pior qualidade.

Podemos ainda considerar outras medidas sobre a cultura da vinha, com a interdição de cultivos intermédios, os cuidados nas fases mais importantes do ano vitícola. Acontece que as regulamentações esbarravam quase sempre com uma prática rotineira e adversa a qualquer progresso. A mesma opção rotineira é corresponsabilizada pelo atraso da viticultura e vinificação madeirenses. Nem todos os colonos e lavradores, na ânsia de uma rápida vindima, aguardavam pelo total amadurecimento dos cachos, obrigando as autoridades a regulamentar a faina vitícola através do regimento das vindimas publicado em 12 de agosto de 1785. A partir daqui a vindima passou a ser autorizada por inspetores nomeados para todas as freguesias, ficando os infratores sujeitos à pena de prisão e ao sequestro das uvas.

Concluída a apanha, a animação transferia-se para a beira do lagar onde os homens esmagavam as uvas para poderem extrair o mosto. Noite fora, até que fosse concluída a tarefa, o bulício continuava com desusada animação. A presença do lagar foi sinónimo de uma retaguarda importante de vinhas, pois nem todos os viticultores tinham meios para o dispor, sujeitando-se a maior parte dos caseiros ao lagar do senhor.

Na Madeira, está documentada a presença de três tipos de lagar: lagariças de pedra, com o cocho escavado na rocha dispondo de vara e fuso em madeira para exercer pressão sobre o bagaço; lagares de madeira, que podiam ser escavados num tronco formando um cocho ou de traves de madeira calafetada; lagar de alvenaria com vara e pedra ou de prensa mecânica. A tradição de uso da pedra e madeira na construção dos lagares foi trazida do continente português, onde ainda existem testemunhos que remontam a épocas anteriores ao século XV. Na Madeira, persistiram até a atualidade alguns lagares de madeira ou pedra. Dos construídos em pedra, temos notícia de vestígios no Curral das Freiras, Arco da Calheta, Ponta do Pargo e S. Vicente, na chamada lapa do Chiapa. Para os de madeira, persistem vários exemplares na Madeira e Porto Santo, propriedade de particulares, museus e empresas do sector. O de cocho poderá ser encontrado no Campo de Baixo no Porto Santo e no Museu da Ribeira Brava, quanto ao de caixa temos exemplares nos Museus do IVM e da Madeira Wine Company.

Junto dos vinhedos, encontrava-se quase sempre o lagar, que atingia a dimensão igual à área de vinha. Na Ponta de Sol, Rafael Catanho Vivaldo apresentava, em 1608, uma extensa fazenda de vinhas com três lagares. Em 1728, o lagar de pedra de Manuel de Abreu na Tabua é avaliado em 4$000 réis e servia um vinhedo de 3.444 parreiras. Já em 1742, João Lopes do Monte do Estreito de Câmara de Lobos apresenta uma casa e lagar, no valor de 10.000 réis, para uma extensão de 20.140 parreiras. Os agricultores com courelas de vinhas não tinham possibilidade de montar a estrutura e, por isso, socorriam-se dos lagares dos vizinhos, mediante o pagamento de um direito, em género, pelo uso.

Os custos de construção da infraestrutura eram elevados, sendo em muitos casos mais um encargo a que estava sujeito o colono. O preço do lagar variava, consoante fosse construído em madeira ou escavado na rocha, acrescentando-se, ainda, a cobertura. Quanto às diversas par­tes do lagar, sabemos, em 1767, do valor das do lagar de Paula de Aguiar na Tábua.

De acordo com o inventário das indústrias, feito em 1863 por Francisco P. Oliveira, o arquipélago dispunha de 185 lagares assim distribuídos:

Funchal

39
Machico1
Santana13
S. Vicente12
Porto Moniz31
Calheta25
Câmara de Lobos23
Porto Santo41

Não deverá esquecer-se que o inventário ocorreu numa fase em que a economia vitícola estava ameaçada pelo oídio, pelo que o número de lagares em funcionamento deveria ter sido superior na primeira metade da centúria. Aliás, o autor chama a atenção para isso, destacando que muitos dos lagares estavam abandonados, por falta de uvas. Sucedia assim em quase todos os municípios, exceto no Porto Santo e Porto Moniz. A maioria era apenas utilizada para o fabrico de vinho de peros.

A situação piorou, passados dez anos, com a filoxera, mas, no século XX, a ilha recuperou a vinha e os lagares voltaram de novo a estar ativos, referindo-se, para 1916, a existência de cerca de 1000 lagares para um total de viticultores não superior a 8000. Isto quer dizer, se tivermos em conta que a produção era pouco superior a 50 mil hectolitros, que a laboração média por lagar era de 50hl. Muitos dos lagares eram pequenos e artesanais, sendo construídos pelos proprietários para apoio à pouca produção de vinho. A maioria dos viticultores não os possuía, socorrendo-se dos que estavam mais próximos. A contrapartida, tanto poderia ser em género, como em serviços ou em dinheiro. Para o vinho de peros, refere-se que, em Ponta de Sol, o pagamento de 49 a 59 réis por hectolitro de vinho saída da bica do lagar.

A última geração, anterior ao atual processo de mecanização organizado pelas casas, foi definida pela substituição dos lagares de madeira por outros em cimento e o aparecimento generalizado das prensas manuais e mecânicas. Na atualidade, a ilha dispõe da mais avançada tecnologia para o fabrico do vinho. Toda a produção dos viticultores destinados ao vinho Madeira é vendida em uvas, tornando desnecessária a infraestrutura. Lagares ou prensas existem apenas em museus ou em casas particulares para a laboração do vinho caseiro. No norte da Madeira, nomeadamente no Seixal, Ribeira da Janela, era comum a construção das adegas, junto dos vinhedos, situação que ainda hoje persiste. São edifícios térreos de duas águas, tendo no interior um lagar e canteiro de pipas.

O momento mais esperado da vindima acontecia quando se procedia à divisão e venda do vinho. Era à bica do lagar que todos vinham em busca dos dividendos. Feito o vinho, o mosto era transportado ao destino, que poderia ser a loja do viticultor, ou o armazém dos comerciantes, no Funchal. Era no Funchal, sede as casas exportadoras, que tinha lugar a fase seguinte. O transporte às adegas rurais ou da cidade era feito por carreteiros em borrachos. O mosto era enviado diretamente ao Funchal, por via marítima ou terrestre, onde fer­mentava nas lojas. Era aí que iniciava o processo de vinificação. Após a fermentação, era sujeito às trasfegas e trato em canteiro ou estufa.

Os borrachos ou odres assumiram um papel importante na circulação interna do mosto. A tradição do odre para o transporte de líquidos está documentada no mundo mediterrâ­nico, desde a Antiguidade.  Os mesmos estão testemunhados em Portugal, no século XV e, no século seguinte, na Madeira. Está ainda por apurar a sua origem na Madeira, pois tanto pode estar na Península, como nas vizinhas Canárias. A população indígena do arquipélago, donde os madeirenses trouxeram os primeiros escravos, utilizava este tipo de vasi­lhame, sob a designação de zurrones, para guardar o gofio e leite de cabra. No século XVI surgem referências avulsas a odres e sabemos da existência do ofício de odreiro. Falta-nos informação sobre o momento em que passaram a chamar-se borrachos.

Os odres cheios de vinho eram transportados até ao porto mais próximo de embarque ou ao Funchal, aos ombros dos homens ou no dorso das mulas. Os grupos intermináveis de borracheiros faziam parte do espetáculo das vindimas. Os borracheiros são hoje um dado do passado e só ficou a célebre can­ção dos borracheiros e alguns borrachos como ornamento de lagares perdidos. Hoje, a realidade é distinta. A partir da década de quarenta, o automóvel ocupou o lugar do homem no transporte do vinho ao Funchal. Às filas intermináveis de borracheiros, sucedeu o desusado movimento de furgonetas com pipas em pé a transbordar de mosto. Mudou também o processo. As casas exportadoras passaram, nos últimos anos, a adquirir as uvas diretamente aos viticultores, através de uma rede de agentes em toda a ilha. A vindima resume-se quase só ao rotineiro gesto do apanhar das uvas. Esta nova forma de intervenção das empresas permite controlar todo o processo de vinificação, adequando-o às atuais exigências do mercado e às recomendações legislativas.

Muitas das vinhas eram terras de colónia, residindo o senhor no Funchal. Aqui destaca-se os conventos, importantes senhorios em toda a ilha. Em 1667, o Convento de Santa Clara apresentava-se com cinco adegas, com 154 tonéis, para recolha do quinhão de vinho: Santo António, Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos, Campanário e Ribeira Brava. Apenas neste ano o convento vendeu para fora 165 pipas de vinho.

As adegas madeirenses, não eram edifícios preparados de raiz, pois qualquer cave, desde que ampla e escura, servia para guardar e envelhecer os vinhos. Junto estavam as estufas e a oficina de tanoaria. Foram os ingleses quem no século XIX tentou alterar a situação definindo uma arquitectura e estruturas adequadas à função das instalações. A maior evidência de mudança pode ser encontrada nas instalações da firma Cossart Gordon, de que apenas dispomos descrições, gravuras e fotografias.

Na vertente Sul, dominada na quase totalidade pelo espaço da primitiva capitania do Funchal, encontramos o melhor vinho, enquanto na vertente Norte, área quase exclusiva da capitania de Machico, produziu-se vinho em maior quantidade mas de pior qualidade e que, por isso mesmo, raramente saia da ilha, sendo usado para consumo interno e fabrico de aguardente. Já atrás aludimos às áreas vitícolas de acordo com a qualidade e castas e a demarcação de 1795, aqui apenas daremos conta da importância e peso no volume de produção.

Pelos dados de 1787, constata-se que a capitania de Machico, ou do Norte, abrangendo a vertente de Machico ao Porto Moniz, representava mais de metade da produção. No Norte, as maiores áreas vitícolas, situam-se em S. Vicente, Ponta Delgada, Porto da Cruz, que até a atualidade se afirmaram como as principais áreas. A situação mais se evidenciou a partir de 1821, com o surto dos alambiques e com as crises provocadas pelas doenças em 1852 e 1872. No Sul, as áreas de maior produção estavam em Santo António, Câmara de Lobos e Estreito, Ponta do Sol, S. Roque, onde se encontrava também o melhor vinho da ilha para embarque.

De acordo com o mapa da produção elaborado por Casado Giraldes, evidencia-se, mais uma vez, o predomínio da capitania do Norte, sobressaindo Ponta Del­gada, Faial, Porto da Cruz, S. Jorge, S. Vicente e Santana, enquanto no Sul temos Santo António e Estreito de Câmara de Lobos. A relação entre os valores do vinho de inferior qualidade e os de superior qualidade de castas europeias era de 3 para 1. Idêntica situação mantém-se, também, entre a produção e a exportação, o que pode ser encarado como um forte indicio de que os vinhos do Sul eram reservados para embarque, enquanto os do Norte ficavam para consumo interno e destilação. A receita do Subsídio Literário dá conta da mesma diferença, numa relação de 324 para 17, destacando-se, mais uma vez Câmara de Lobos, Santo António, S. Martinho, no sul e S. Vicente, Faial, Porto da Cruz, Ponta Delgada, Machico, no norte. Segundo uma média de produção estabelecida entre 1830/1840, por P. P. da Câmara, confirma-se o predomínio no Norte desde o Faial, Porto da Cruz, S. Jorge, Ponta Delgada, Santana e no Sul de Santo António, Câmara de Lobos e Estreito.

Não dispomos de dados completos que permitam acompanhar a produção desde o século XV. A informação apenas se torna frequente a partir do século XIX. Mesmo assim, os disponíveis, ainda que avulsos, dão-nos uma ideia do processo evolutivo da produção e da importância que a vinha assumiu na eco­nomia agrícola do arquipélago. Em 1455, Cadamosto realçava a elevada produção de vinho, pois que satisfeitas as necessidades dos residentes se exportam muitos deles. A ideia mantém-se no século XVI, referindo Giulio Landi, em 1530, que se exportava vinho, por lá haver em grande abundância. Passados trinta e sete anos, outro italiano, Pompeo Arditi, refere que toda a ilha produz grande quantidade de vinho.

Gaspar Frutuoso apresenta-nos, para finais do século XVI, o panorama das áreas de pro­dução do vinho da ilha, referindo 1180 pipas. O Funchal era o principal centro produtor onde se encontravam vinhas de muitos vidonhos e de boas malvasias. Aos vinhos de boa qualidade, juntavam-se os das Ribeiras do Porto do Seixo, de Santa Cruz e Socorridos, dos lugares de Gaula, Caniço e Câmara de Lobos. A área de produção de vinhos de inferior qualidade compreendia as localidades da Ribeira Brava, Ponta do Sol, Canhas, Calheta, Jardim do Mar, Machico, S. Jorge, Ponta Delgada, S. Vicente e Seixal.

Para o século XVII, escasseiam dados sobre a produção. Em 1625, sabe-se que o ano foi mau, sendo a colheita inferior a metade do ano anterior. Apenas a partir de finais da centúria, temos informações claras. Assim, enquanto Hans Sloane refere, em 1687, que a maior parte da ilha estava coberta de vinhedos, em 1689, John Ovington torna a situação mais clara, dando-nos os primeiros valores de produção, que se cifravam em 20.000 pipas, situa­ção que se repete em 1698. O vinho era o principal produto da ilha, pelo que as colinas e vales estavam abafados de vinha. A vinha ganhou importância no último quartel do século. As vindimas de 1697 e 1698 foram reduzidas, melhorando no ano seguinte, como corrobora William Bolton

A evolução da cultura da vinha adequa-se às exigências do mercado e à influência da comunidade britânica na ilha, que definiu um destino privilegiado para o vinho. A partir de meados do século XVII, a produção entrou em curva ascendente, só parando na década de vinte do século XIX. O golpe mortal foi dado na segunda metade da centúria,  com as diversas doenças que assolaram a vinha.

Em meados do século XVII, a tendência era para a subida em ritmo galopante de modo que, num intervalo de 26 anos (1650/76), quintuplicou a produção, man­tendo-se o último quartel do século com valores médios de 20.000 pipas. Se, nos primeiros anos do século XVIII, os dados oscilaram pouco, a partir de 1730, é evidente a descida, mas é em 1756 que se atinge o valor mais elevado até então, isto é, 35.000 pipas.

Desde 1776, entrou-se numa fase descendente, atingindo-se em 1780 valores inferiores (856 pipas), seguindo-se um momento ascendente em 1781/1782, com um período de estabilidade até 1796, altura em que a subida é vertiginosa, até 1801. De acordo com os dados de 1787, o arquipélago produziu 22.053 pipas de vinho maioritariamente na Madeira, uma vez que, no Porto Santo, tivemos apenas 179 pipas. O restante valor era da capitania de Machico com 68%. O concelho de São Vicente apresentava-se como o principal produtor de vinho, com 3.898 pipas, seguido do Porto da Cruz, com 1245. No Sul, o maior volume e qualidade estava no Funchal e freguesias limítrofes, donde saía o vinho de exportação. A afirmação da viticultura na vertente Norte acentuou-se na primeira metade do século XIX, mercê da incessante solicitação de vinhos para exportação ou destilação nos alambiques. Além disso, as medidas proibitivas de entrada de aguardentes de França foram favoráveis à alambicação dos vinhos do Norte, que passaram a fortificar os do Sul.

Os dados reunidos dão conta que a produção, entre finais do século XVIII e inícios do XIX, período de apogeu, oscilava entre as 50.000 pipas e as 20.000, com uma média de 30.000. No entanto, os números de que dispomos não ultrapassam as 40.000 pipas e dão uma média de 20.000. Até 1852, altura da crise da produção do vinho, a Madeira nunca conseguiu esta­bilizar o mercado exportador, ainda que entre 1833/1846, se tivesse dado um curto incentivo, a quebra é acentuada. Se, ao longo do século XVIII e inícios do XIX, a crise se apre­sentava como de subconsumo, tendo como ponto de partida as mudanças temporárias do mercado consumidor, em pleno século XIX, a crise dominou a produção resultando de vários fatores e, não unicamente dos patológico-botânicos. Entre 1814/1816, foi evidente um momento de crise na produção, pautado, certamente, pela estagnação do vinho no mercado local, em razão da abertura dos outros portos exportadores do vinho de França e Espanha.

O período que decorre de 1801/1825 foi marcado por altos e baixos, como sucede em 1806, 1810, 1820. O facto revela o incentivo dado à cultura, em razão da solicitação que o vinho tinha no mercado mundial e do elevado preço que alcançou entre 1780 a 1810. A quebra momentânea da procura com a Paz Geral fez-se sentir, conduzindo, à crise de subconsumo em 1820/1821 e refletindo-se na produção, com o abandono das vinhas.

O período de 1816/1820 foi marcado por uma ligeira quebra, a que se seguiram anos fartos entre 1821/1827, pois que os reflexos da crise das exportações só se fizeram sentir, de modo evidente, a partir de 1837. Embora, entre 1831 e 1851, se note uma recuperação, atingindo-se valores elevados em 1836, o certo é que a produção estava condenada, ficando compro­metida desde 1852 com o oídio. Entre 1852/1859, tivemos os valores mais baixos de produção, que oscilavam entre 30 (em 1855) e 1.872 pipas (em 1858). As décadas de 60 e 70 foram favoráveis à produção, denotando-se a recuperação rápida após os anos de doença. Além disso, os efeitos da filoxera (1872) só se fizeram sentir em 1876/1877. O vinho estava condenado e perdia-se na memória dos tempos os anos de abundância e riqueza.

Em 1837, a crise de produção é reflexo da estagnação das três colheitas (1818/1820). A situação conduziu ao abandono de muitos vinhedos e à fuga da população do campo para a cidade ou para as colónias inglesas. A crise acentuou-se a partir de 1848, caminhando, a passos largos, até 1851/1852 para um momento de forte quebra. Daqui resulta que o oídio não esteve na origem e princípio da crise de produção vitícola, que já se arrastava desde 1814 e, de forma mais nítida, de 1837. Mais, a crise de subprodução do vinho liga-se a outra de subconsumo que, como já referimos, se vinha acentuando desde 1815, ou antes de 1820. A perda dos mercados prediletos das Índias Ocidentais e Orientais não foi, no imediato, compensada com a con­quista do mercado nórdico, já invadido e dominado por outros vinhos. A quebra da produção torna-se mais nítida em 1823, 1826/1827, 1830/1831, 1847/1848 e, como é óbvio, de modo acentuado a partir de 1852/1853. No período de 1852/1861, fez-se sentir concomitantemente uma crise de subprodução e subconsumo. Ao nível da produção, a tendência era para subir, o que só viria a verificar-se com as exportações a partir de 1866.

A crise vitícola madeirense diferencia-se da do Douro porque, desde o primeiro quartel do século XIX, se deparou uma forte quebra no volume das exportações resultante da contração do mercado externo, que se acentuou a partir de 1852. A retração do consumo repercutiu-se na produção, conduzindo a uma diminuição acen­tuada provocada pelo abandono do campo pelo viticultor. Tal como informa João Andrade Corvo, no relatório feito em 1854 à Academia de Ciên­cias de Lisboa, as perdas foram elevadas sendo contabilizadas em 1.137.990$00 réis, fruto de uma quebra de 132.454,7 barris de vinho. A busca desesperada de soluções para debelar a crise levou os agricultores a socorrerem-se dos bacelos de Izabella, resistentes ao oídio, que começaram a chegar à ilha em 1865. Só que eram portadores de uma larva, a filoxera vastatrix, que atacava a raiz das videiras europeias, fazendo-as definhar.

Não foi fácil a recuperação da cultura. O desânimo do madei­rense, o abandono de algumas casas inglesas, a conturbada situação das colónias inglesas, principal des­tino do nosso vinho, fizeram retardar o processo de restabelecimento da cultura. Em 1883, apenas 353 ha dos 2500 que havia quando a vinha foi atacada pela filoxera, estavam plantados. As esta­tísticas referem que mais de 80% das vinhas foram destruídas. Os cuidados com a vinha e a forma de debelar a doença foram morosos. Apenas quatro ha estavam a ser tratados com sulfureto e 40ha plantados de vinhas americanas. A conjuntura conduziu ao quase total desa­parecimento das castas que deram fama ao vinho Madeira. A Malvasia só se salvou na Fajã dos Padres. O panorama da viticultura madeirense mudou, passando a ser domi­nado pelas castas americanas.

A incidência das castas americanas ocorre nos concelhos do Norte, com especial destaque para S. Vicente, enquanto as europeias têm plena afirmação no Sul. Apenas com o Verdelho e Sercial se altera a situação em favor do Porto Moniz, a principal área de ambas as castas. A posição maioritária das castas americanas manteve-se nas décadas de cinquenta e setenta. A total reconversão da área de vinha para as castas europeias só começou a ganhar forma na década de setenta, com o impulso e apoio dado pelo Serviços de Viticultura do Governo Regional da Madeira. A reconversão das vinhas atingiu, de modo especial, a costa Norte, onde continuavam a dominar os híbridos americanos. Tudo isto foi resultado de diretivas comunitárias que proibiram, a partir de 199, os vinhos de híbridos de produtores diretos. Só a partir daqui, sucedeu a inversão dos valores da produção de vinho em favor das castas euro­peias.

Vinificação. A necessidade de apurar a qualidade do vinho para exportação levou as autoridades a estabelecerem medidas, no sentido de impedir que os vinhos bons do Sul fossem baldeados com os de infe­rior qualidade do Norte. A Vereação do Funchal, em face de reclamação dos mercadores, aprovou, em 9 de janeiro de 1737, uma postura, interditando a entrada dos vinhos de inferior qualidade na cidade. Mais tarde, em 1768, o Governador e Capitão General Sá Pereira retomou as medidas, com a proibição de entrada dos vinhos do Norte no Sul até maio, de forma a poder escoar-se o do Sul. Por outro lado, defendia-se que os vinhos das melho­res áreas, que é como quem diz, de Câmara de Lobos, Canhas, Calheta, Arco da Calheta, Praze­res e Fajã da Ovelha, não podiam ser baldeados com outros inferiores. Em 1785, ficou estabelecido que todos os vinhos do Norte deveriam permanecer aí encascados até janeiro. Caso alguém tivesse a intenção de proceder ao envio, deveria fazê-lo mediante guia passada pelo Juiz do lugar ou Comandante do distrito militar.

As medidas não colheram grandes apoios por parte dos proprietários. Os vinhedos a Norte e a Sul estavam quase todos sujeitos ao contrato de colonia. O senhorio da terra residia no Funchal e era aí que se encontravam os armazéns e pipas para encascar os vinhos. Por outro lado, o colono não tinha loja nem cascos para a armazenar o seu quinhão, ven­dendo-o todo à bica do lagar. Feita a vindima e escorrido o mosto, sucedia-se nova fase do ciclo vitivinícola, na cidade, onde se encontram os armazéns dos exportadores com as adegas para onde eram escoados todos os vinhos. O Funchal era o centro privilegiado do processo de vinificação, tendo as casas exportadoras, servidas de amplas adegas, como o palco de atividade. Isto manteve-se sem alte­ração por muito tempo.

A partir de finais do século XVIII, ocorreram profundas alterações no processo de vinificação madeirense provocadas, quer pelo funcionamento das estufas para aceleração do envelhecimento do vinho, quer pela adição de aguardentes, primeiro de França e depois da terra, para fortificar os vinhos mais fracos. O método antigo, conhecido de canteiro, entrou em desuso, por ser mais demorado e dispendioso e incapaz de atender às solicitações do mercado internacional do vinho. A solução estava nas estufas e o trato com as aguardentes, considerados como processos rapidíssimos e muito baratos.

João da Câmara Leme que, em meados do século XIX, tomara contacto com os processos de vinificação utilizados no trato, apercebeu-se do deficiente uso das aguardentes e estufas, apostando numa solução mais rápida e eficaz para o trato do vinho, que ficou conhecida como sistema canavial, definido pelas seguintes fases: 1º – sistema sem aquecimento; 2º – sistema com aquecimento lento, ficando o vinho em comunicação com o ar ambiente; 3º – sis­tema com aquecimento rápido e arrefecimento lento, demorado ou não, em recipiente fechado

O sistema, conhecido como de canteiro era simples. As pipas descansa­vam cheias de vinho sob duas traves e aí procedia-se à clarificação e múltiplas trasfegas. A clarificação ocorria num período de 19 meses e tinha lugar entre 6 ou 8 vezes, usando-se para tal goma de peixe, clara de ovo e sangue. O método de envelhecimento do vinho em canteiro era o único usado até finais do século XVIII. A forma de execução surge descrita em alguns documentos. Na ilha do Porto Santo, as autoridades procuraram, por todos os meios, disciplinar os métodos de tra­tamento do vinho, estabelecendo regras a serem usadas por todos os agricultores, de forma a conseguir-se um produto de superior qualidade.

Feito o vinho, o mosto era transportado à adega onde fermentava no vasilhame instalado sobre o can­teiro, ou seja duas traves na altura de dois ou três palmos, depois de retiradas as borras, o que deveria envelhecer era trasfegado após ter sofrido o processo de clarificação com goma de peixe, clara de ovo, sangue. O processo de clarificação repetia-se por seis ou oito vezes, no decurso de 19 meses. Só numa fase posterior, se começou a adicionar aguardente, na fase de trasfega.

À informação fornecida por P. P. da Câmara, podemos juntar outra avulsa que encontramos no AHU, em que se dá conta do modo como era tratado em Lisboa os vinhos que para aí eram enviados após a fermentação. Nos armazéns do Arsenal da Mari­nha, procedia-se às diversas tarefas de trato do vinho, como a clarificação com goma de peixe e trasfegas. A prática encontra-se documentada a partir de 1832. Em abril, a Junta da Fazenda do Funchal enviou para Lisboa o vinho do sequestro feito nos armazéns do morgado João de Carvalhal Esme­raldo, pronunciado na devassa de 1828. A acompanhar o vinho, seguiu o Escrivão da Alfândega, Manuel António Serrão para proceder ao trato.

O uso da aguardente de França e, depois, da terra, foi uma prática muito tar­dia no tratamento dos vinhos de canteiro, e só está documentada a partir de meados do século XVIII: O que porém, parece averiguado é que, na segunda metade do século XVIII, os vinhos da Madeira superiores eram já adubados com aguardente de França para o mesmo fim. A partir daqui, a tradição de adicionar dois galões de aguardente a uma pipa de vinho generalizou-se. As aguardentes foram, ao longo do século XIX, motivo de polémica. As francesas, comummente usadas para adubar os vinhos, ora surgem como adubo necessário e precioso, ora como prejudiciais. Em finais do século, quando a vinha agonizava, publicaram-se vários estudos com as soluções adequadas para debelar a crise. Surgiram instruções sobre a forma de cultivo e o método mais adequado para o tratamento de vinho.

Na segunda metade do século XX, deu-se um salto qualitativo no processo de vinificação que permitiu apurar a qualidade do vinho Madeira e apresentar ao utente uma gama muito variada de vinhos. O vinho Madeira continua a ser o único a integrar no processo da vinificação a beneficiação pelo calor através de estufas. Estas evoluíram nos últimos anos para uma sofisticação que permite um maior controlo do aquecimento do vinho e o evitar do contacto direto do vinho com o calor, fazendo do processo de vinificação do vinho Madeira algo de típico e único.

O processo de fabrico do mosto abandonou o primitivo lagar e passou a fazer em moderna maquinaria, que separa o engaço e a grainha, da polpa e casca da uva. Ganhou-se melhores condições no processo, como na vindima e recolha da uva junto dos agricultores. Hoje, todas as empresas recebem as uvas das diversas castas, de forma a melhor controlarem o processo de vinificação e evitar os vinhos com elevado nível de acidez volátil. Para isso, montaram uma rede de agentes em toda a ilha, que intervêm junto dos agricultores. Além disso, têm a função de acompanhar o ciclo vegetativo e controlam a maturação da uva a partir do mês de junho. Nalgumas casas, o controlo do grau potencial, através do refratómetro, durante a fase de maturação é muito rigorosa, dele dependendo a aceitação ou não das uvas. A medida padrão da graduação alcoólica para aceitação das uvas é de 8,5º. O incentivo à perfeita maturação é dado através do pagamento do quilograma de acordo com a graduação alcoólica.

A ordem para a apanha da uva é dada pela empresa, após a abertura oficial da vindima. As uvas são recolhidas pelos agentes nas freguesias rurais, sendo transportadas no mesmo dia ou madrugada do dia imediato para a empresa. As caixas são pesadas e depois desejadas em tegões, para serem sujeitas ao processo de desengace total ou parcial. A utilidade do engaço tem a ver com os níveis de taninos, mas o facto de a maioria dos engaços se apresentarem verdes, faz com que provoquem níveis elevados de hexagonal, razão pela qual a preferência vai para o desengace total. Retirado o engaço, procede-se ao esmagamento. A maioria das empresas de vinho Madeira fez, nos últimos anos, um notável esforço de aperfeiçoamento tecnológico do sistema de receção das uvas, apostando na mecanização do processo de pesagem, desengace, esmagamento, prensagem e fermentação. A maquinaria de vinificação está presente e todos os recipientes são de aço inoxidável. A partir daqui, inicia-se o processo de vinificação que pode ser feito de bica aberta, de bica aberta com maceração e curtimenta. Vejamos, de forma sucinta, com se processam as três técnicas aduzidas. Na vinificação de bica aberta, a massa vínica, depois da adição de SO2, o primeiro prensado é encubado, enquanto no processo com maceração a massa vínica vai a encubar por um curto período, procedendo-se, depois, à separação do mosto. O último processo diferencia-se, pelo facto de só se proceder à separação do mosto, após a fermentação em autovinificadora ou cuba de remontagem.

A fermentação é feita com controlo de temperatura para preservar-se os aromas da casta. A fermentação a frio evita que o vinho perca álcool, aromas florais e estrato seco. O processo de fermentação é travado com a adição de álcool vínico com 96º, dependendo as quantidades do tipo de vinho que se pretende fazer e da casta em causa. Terminada a fermentação, o vinho das uvas de castas nobres é desencubado e passa para o armazém, sendo depositado em lotes de vindima nas pipas onde vai envelhecer, sobre o olhar atento dos enólogos ou técnicos de vinificação. Os vinhos das castas autorizadas, como a tinta negra mole, ficam a aguardar pela estufagem por um período de três meses, passando, depois, para o canteiro, onde estagiam por um período determinado, até terem autorização de embarque. O processo é controlado pelo Instituto do Vinho da Madeira, que procede à selagem das estufas e, ao fim de três meses, vistoria a abertura. A partir da estufagem, o vinho está pronto a estagiar nos cascos de carvalho. Para isso, procede-se ao estabelecimento dos lotes pretendidos que são encaminhados para os cascos nos armazéns.

A qualquer momento, de acordo com a procura do mercado, a casa procede ao engarrafamento do vinho. O ato é precedido de um conjunto diverso de operações e de autorização expressa do IVM que controla a qualidade dos lotes. Concedida a autorização, procede-se à preparação do engarrafamento através da estabilização e filtragem das impurezas. Do conjunto de garrafas, são tirados dois exemplares para análise posterior no IVM. O vinho Madeira apresenta diversas tipologias, de acordo com as castas, o grau de doçura ou a forma de tratamento. No passado, a única distinção existente era entre o vinho das diver­sas castas. Evoluiu-se para o fabrico de um vinho tipo, elaborado com uma base de Negra mole e o adicionamento de uma certa quantidade da casta. Os loteamentos tornaram-se, hoje, uma prática comum.

Atualmente, estão consagradas, para o Vinho da Madeira, diversas menções tradicionais. Distingue-se o vinho licoroso e generoso pelas castas: Sercial (ou Cerceal), Boal (ou Boal), Ver­delho, Malvasia, Terrantez. Segundo a qualidade e idade dos vinhos, temos: Garra­feira (ou Frasqueira) Superior, Reserva, Velho (Old, Vieux), Reserva Velha, Muito Velho (Old Reserve, Very Old), Reserve Especial (Special Reserve), Seleccionado (Selected, Choice, Finest), Solera, Canteiro (Vinho canteiro ou Vinho de Canteiro), Colheita (datada). A indicação da idade está estabelecida para 3 anos, 5 anos, 10 anos, 15 anos, 20 anos. De acordo com o grau de doçura, temos: Seco (Dry) e outras línguas, Meio-Seco (Medium-Dry) e outras línguas, Meio -Doce (Medium Sweet) e outras línguas, Doce (Sweet) e outras línguas. Nas designações tradi­cionais, quanto à cor, surgem: Muito Pálido (Extra Pâle, e Light Pâle), Pálido (Pâle), Dourado (Golden), Meio escuro (Medium Dark), Escuro (Dark). E, finalmente, quanto ao corpo e sabor: Leve (Light Bodied), Encorpado (Full ou Full Bodied), Fino (Fine), Macio (Soft), Aveludado (Luscioun), Amadurecido (Mellow).

De acordo com a legislação em vigor, existem vários tipos de vinho Madeira, com caraterísticas e idades diferentes: 1. Vintage. É um vinho feito de uma casta nobre numa colheita especial que deve permanecer o mínimo de 20 anos encascado e 2 anos engarrafado. Particulares e empresas dispõem de coleções variadas deste tipo de vinho, sendo a mais famosa de 1815, engarrafado em 1840, por John Blandy. Foi este o vinho que Napoleão Bonaparte nunca bebeu no seu exílio em Santa Helena, conhecido como Waterloo Madeira.2. Reserve. Vinho feito com castas nobres ou autorizadas, que deverão equivaler a 85% da casta referida no rótulo. Só pode ser vendido com cinco anos de envelhecimento. Apenas com o sercial, este período de amadurecimento é alargado para sete anos. 3. Special reserve. Aquilo que o diferencia do anterior é o facto de ter dez anos.4. Extra reserve. Embora não considerada oficialmente, esta designação atribui-se ao vinho com o mínimo de 15 anos. 5. Finest/Selected/Choice. Usa apenas nome de Madeira associado à situação e às indicações de Dry, Medium, Sweet. É um vinho com três anos, que tem como base a tinta negra mole. 6. Rainwater. O verdelho com apenas três anos. Diz-se que o uso deste nome derivou da dificuldade dos ingleses em pronunciar a palavra verdelho. É, normalmente, um vinho de cor dourada, de muito boa qualidade. Soleras. É um vinho datado que, ao longo dos anos, recebe a adição de outros, sendo apenas 10% ao ano. O solera é um sistema de vinificação e não um tipo de vinho, sendo o nome originário do Sherry. Dos soleras mais famosos, podemos referir: Blandy 1792, Malmsey solera 1808 de Cossart Gordon’s.

Nos últimos anos do século XX, apostou-se na preparação e engarrafamento do vinho de mesa, tendo em conta que a região consome mais de cinco milhões de litros de vinho de mesa. Para isso, utilizam-se as castas tradicionais, como a Tinta Negra-mole e o Verdelho, ou então socorreu-se de novas castas europeias, mais apropriadas e usuais no vinho de mesa, como Cabernet Sauvignon, Merlot, Arnsburguer, Chardonnay. A entrada em funcionamento da Adega de S. Vicente deu um incentivo à produção de vinho de mesa, ao disponibilizar meios técnicos aos viticultores. Atualmente, existem cinco rótulos de vinho de mesa VQPRD (Vinho de Qualidade Produzida em Região Demarcada, regulamentado por portaria 86/99M), com uma pro­dução não superior a 100.000 litros, quando o consumo local de vinhos de mesa é de quatro milhões de litros. Duas empresas tradicionalmente ligadas ao vinho Madeira, Madeira Wine Company Lda., e Justino & Henriques, têm apostado no fabrico de vinho de mesa. A primeira a apostar foi a Madeira Wine que, em 1991, lançou o vinho Atlantis rose. A partir de 1999, com a abertura ao público da Adega cooperativa de S. Vicente, os viticultores podem engarrafar a produção para vinho de mesa, estão neste caso, João Mendes, Ricardo França, Luís Gomes Araújo e Crispim Morgado.

Comércios e mercados

O movimento de comércio do vinho da Madeira, ao longo dos séculos XVIII e XIX, imbrica-se, de modo direto, com as rotas marítimas coloniais que tinham passagem pela Madeira, estabelecendo um circuito de triangulação. As rotas com origem nos portos ingleses tocavam a Madeira para refresco e carga de vinho, dirigindo-se aos mercados das Índias Ocidentais e Orientais ou América, donde regressam via Açores, com o recheio colonial. Juntam-se, ainda, os navios portugueses da rota das Índias, ou do Brasil que faziam escala para receber o vinho que conduziam às praças de destino e regressavam com o saque pela rota dos Açores. Por fim, podíamos contar com os navios ingleses que se dirigiam à Madeira com manufaturas e, no retorno, tocavam Gibraltar ou Lisboa (e Porto). A tudo isto, juntavam-se os navios ingleses e, depois, norte-americanos, que traziam da América as farinhas e retornavam com vinho.

O movimento das rotas comerciais teve que enfrentar diversos obstáculos provocados pelas guerras na Europa e colónias, a ação dos piratas argelinos, insurgentes e, finalmente, as condições climáticas, os ventos e correntes marítimas. A ilha da Madeira, situada no meio caminho entre a Europa e os mercados coloniais, viu-se empurrada para os conflitos europeus, no continente ou fora dele, como sucedeu com as guerras entre a França e Inglaterra, a guerra da Independência da América e, em parte, a da Argentina. A ilha, porque estava fora dos limites dos acontecimentos, usufruiu da ação vantajosa sobre o comércio do vinho, uma vez que fechados os circuitos e mercados exportadores europeus do vinho, o madeirense apresentava-se capaz de os substituir. Foi o momento de apogeu da produção e comercialização do vinho, que se prolongou de finais do século XVIII a princípios do XIX. A rotura da situação repercutiu-se de forma negativa, provocando a queda em flecha, a partir da segunda metade do século XIX. As mesmas condições poderiam conduzir ao fecho das rotas de exportação, com o bloqueio das rotas comerciais com origem na Europa ou colónias ou a influência negativa da pirataria e corso.

Múltiplas e variadas razões fizeram com que o Funchal se afirmasse, no século XVIII, como centro das transformações sociopolíticas operadas de ambos os lados do oceano. As ilhas foram protagonistas, concorrendo para isso vários fatores. A vinculação ao império britânico é evidente no quotidiano e devir histórico madeirenses dos séculos XVIII e XIX. No fogo cruzado que se ateou entre o Velho e Novo Mundo, e as ilhas, porque protagonistas ativas no relacionamento e  à presença da comunidade inglesa, não podiam alhear-se das mudanças políticas geradas pela difusão de novas ideias, na segunda metade do século XVIII.

As Actas de Navegação (1660,1665), corroboradas pelos tratados de amizade como é o caso do de Methuen (1703), abriram caminho para que estas entrassem na órbita da influência inglesa. Aos poucos, a comunidade ganhou uma posição, por vezes incomodativa, na sociedade madeirense. A feitoria inglesa é uma realidade insofismável no século XVIII. A partir da década de 70 do século dezoito e até aos princípios do século seguinte, os conflitos que tiveram como palco os continentes europeus e americano alargaram-se ao Atlântico. Aliás, o oceano é um ativo protagonista das disputas entre os três principais beligerantes: Espanha, França e Inglaterra. Mario Hernandez Sánchez-Barba define o século XVIII por três realidades: guerra, diplomacia e comércio. Era permanente a preocupação com a organização militar e a defesa da costa, porque o perigo espreitava no mar, a qualquer momento. A conjuntura de afrontamento levou à presença dos corsários, com forte incidência em dois momentos: o período que decorre entre 1744 a 1736, marcado pelo afrontamento de Inglaterra com a França e Espanha; a época das grandes transformações do século, com a proclamação da independência das colónias inglesas da América do Norte (e a consequente guerra de independência até 1783), a Revolução Francesa (1779) e as convulsões que se seguiram até 1815. A dimensão assumida pela guerra de represália está bem patente nas presas. No período de 1793 a 1798, os franceses apresaram alguns milhares de embarcações inglesas e aliadas. Em 1795, apenas o porto de Brest tinha 700 presas inglesas e, em 1798, contavam-se 3199 navios comerciais apresados. Perante o perigo da investida francesa, os ingleses ocuparam a Madeira por duas vezes, sendo a atitude entendida como uma forma de preservar os interesses dos súbditos de Sua Majestade e de estabelecer uma barreira ao avanço francês além oceano. O corso, que incidia preferencialmente sobre as embarcações espanholas e francesas, motivou uma resposta violenta das partes molestadas, como sucedeu com a investida francesa contra os in­gleses, em 1793, 1797, 1814.

A necessidade de abastecimento de cereais foi um dos principais incentivos à manutenção das relações interinsulares, que são uma constante no período em causa. Em qualquer dos momentos, o Mediterrâneo Atlântico não foi autossuficiente, carecendo da importação do mercado europeu ou americano. O último tornou-se uma realidade no decurso dos séculos XVIII e XIX, funcionando, para a Madeira, como contrapartida ao vinho. Para o período que decorre de 1727 a 1810, entraram no porto do Funchal 4297 embarcações com cereal ou farinha, sendo 2053 (48%) da América do Norte, 799 (19%) de Inglaterra e 687 dos Açores (16%). A Madeira fazia depender a sua subsistência do vinho. No grupo dos consignatários, a concorrência era entre a burguesia consignatária local e os estrangeiros, identificados quase sempre com os ingleses. Aqui merece a nossa atenção o protecionismo concedido a algumas firmas locais, como Jorge Monteiro e D. Guiomar.

O sistema de trocas madeirenses pode ser definido por cinco grandes áreas: Inglaterra e Irlanda – fazendas de lá, ferragens, trigo, farinhas, manteiga, carne de vaca e porco, velas de sebo, sendo muitos destes em trânsito para a América espanhola; Europa do Norte (Noruega, Dinamarca, Suécia e portos franceses do norte) – farinha, manteiga, peixe de salmoura, material de construção naval, aguardente francesa: Portugal Continental – sal, sabão, tabaco, géneros comestíveis como gorduras (azeite, óleo), frutas algarvias, cereais (milho), produtos manufaturados diversos ligados à construção (tijolo, telhas), vestuário; Brasil – açúcar, farinha de pau, sola, madeiras, escravos: Açores e Cabo Verde e Mediterrâneo (sul de Espanha, portos barbarescos, Canárias) – os cereais em momento de faltas crónicas.

No último quartel do século XIX, a concorrência dos portos insulares como escalas de apoio à navegação atlântica, levou à criação de incentivos, como a construção de portos com condições para apoiar o tráfico e a definição da política de portos francos. A concorrência acentuou-se, pelo que as respostas e incentivos deveriam ser imediatos. A mudança das áreas de influência das potências europeias foi evidente. A América cedeu lugar à Africa e Ásia mas a Madeira continuou a manter o vínculo com a rota dos vapores do Cabo.

Os mercados diversificaram‑se ao longo dos tempos. E, entre todos, apenas o britânico manteve a fidelidade ao vinho. Os ingleses foram os primeiros a apreciá-lo, estando documentadas exportações desde o século XV. O vinho Madeira ganhou fama em toda a Europa Ocidental. Em meados do século XV, o genovês Cadamosto referia que os vinhos da ilha são em tanta quantidade, que chegam para os da ilha e se exportam muitos deles. Em pleno século XVI, Giulio Landi (1530) testemunha que os madeirenses não costumavam beber vinho, vendem-no a mercadores, que o levam para a Península Ibérica e para outros países setentrionais. Em finais da centúria, Gaspar Frutuoso dava conta que o vinho malvasia é o melhor que se acha no Universo e leva-se para a Índia e para muitas partes do mundo (…). O malvasia madeirense ganhou fama conquistando apreciadores na Europa e espaços revelados, a partir do século XV.

Segundo Cadamosto, a exportação de vinho fazia-se já em medos do século XV. A ideia é corroborada em 1461, quando os madeirenses reivindicaram junto do Infante D. Fernando a isenção da dízima alfandegária das exportações, em que se incluía o vinho. A perda da maior parte dos registos de saída da alfândega impossibilita uma análise mais alargada. No século XVI, a primeira referência à saída de vinho surge em 1505, com 13 pipas despachadas para Lisboa, da fazenda de João Manuel, que havia passado para a coroa. Em 1508, Diogo de Azambuja conduziu 21 pipas de vinho para a praça de Safim e, em 1523, Lopo Martins despachou 20 pipas de vinho novo.

A Europa era o principal mercado do vinho. Os britânicos foram os mais destacados apreciadores. Shakespeare insiste na presença do Madeira nas tabernas e à mesa da aristocracia. A referência mais antiga à exportação é para Rouen e Orleans, em 1532. Segundo P. P. Câmara, já em 1478, o vinho da Madeira era conhecido em Inglaterra e terá sido a corte de Francisco I, rei de França (1495/1547) a receber os primeiros vinhos. Rebelo da Silva diz que o vinho da Madeira era muito apreciado no mercado europeu, a partir da segunda metade do século XVI. Lopes, nas memórias de viagens (1588), publicadas no Purchas Pilgrinages, refere que o vinho assumia um peso significativo nas exportações.

Os Açores foram, no século XVI, um importante mercado consumidor do vinho da Madeira. Os açorianos manifestaram especial predileção pelo vinho madeirense, usando-o na celebração eucarística, encargos testamentários e cobiçado por todas as mesas. Era um vinho para os mais ricos da terra, mas também reclamado pelos homens de soldada na jorna. A referência mais antiga à exportação do vinho para os Açores surge em 1544, com o envio, pelo mercador Afonso Alvarez ,de cinco pipas para o Faial. O vinho estava também presente no comércio com as Canárias, sendo a troca para o cereal. A primeira saída de que temos notícia surge em 1521, quando Juan Pomar enviou para Gran Canaria algumas pipas de vinho.

O vinho Madeira ganhou fama pela capacidade de adaptação ao calor tórrido dos trópicos e as colónias europeias foram o novo e prometedor mercado, mas foi nas colónias portuguesas em África ou no Brasil, que se verificou a primeira constatação. Em 1589, Simão Pires levou para Cabo Verde 12 pipas de vinho de seu pai, avaliadas em 140.000 reais. Para as ilhas, seguiram mais 50 pipas por ordem de Vicente Gomes. Em 1634, o capitão-mor da Mina reclamava apenas o envio de vinhos da Madeira porque os demais se degradavam. A constatação resultou do facto dos recebidos por Tomé Matoso se terem degradado. O vinho madeirense era muito apreciado em Angola. A partir de 1659, procedeu-se ao envio de vinhos, como esmola para os padres capuchos do convento de Santo António em Cabo Verde. No ano imediato, seguiram outras duas pipas com o mesmo destino e oito para os padres que assistiam em Angola. Em 1665, sabe-se que o vinho tinha como destino os Carmelitas Descalços que o usavam como vinho de missa.

O vinho madeirense adquiriu um estatuto especial na dispensa do Novo Mundo, como vinho de mesa e de missa. Foi servido à mesa das autoridades e grandes latifundiários. Nos séculos XV e XVI, era exportado em reduzidas quantidades, para os diversos cantos do mundo. Com o dealbar do século XVII, consolidou definitivamente o mercado.

O Brasil foi, a partir de finais do século XVI, o principal mercado para o vinho Madeira, onde era trocado por açúcar. A coroa proibiu, em 1598, os mercadores e embarcações do Brasil de fazerem escala na ilha, como forma de defesa do açúcar local. A medida foi considerada lesiva para o comércio do vinho e favorável ao de La Palma. Os madeirenses reclamaram em 1621, obtendo autorização para comerciar o vinho no mercado brasileiro. A partir daqui, os contactos com o Brasil tornaram-se assíduos, afirmando-se pela posição dominante no consumo do vinho Madeira. Só em 1663, Eduard Barlow conduziu 500 pipas ao Rio de Janeiro, justificando-se a escolha, pelo facto de ser o único vinho que se adaptava aos locais quentes. A partir de meados do século XVII, temos informações que permite saber a importância assumida pelo vinho no volume global das exportações da ilha. Em 1646, A. R. Azevedo, baseado no alvará de 27 de julho que estabelece o donativo no valor de 10.000 cruzados, dá conta da exportação de 2.000 pipas, enquanto M. L. Ferraz apresenta 10 ou 12.000 pipas. Parece-nos, no entanto que os primeiros números são o mais razoável e de acordo com os fornecidos posteriormente por F. Mauro, com 2.619 pipas exportadas em 1650, e Jefferson que, para 1676, dá conta da saída de 2.500 pipas. Neste momento, destacou-se João Saldanha de Albuquerque, Capitão General da ilha, com exportações significativas para Angola e Brasil.

O vinho foi considerado um importante meio na profilaxia das doenças de bordo, nomeadamente o escorbuto, pelo que a presença se tornou obrigatória nas embarcações que sulcavam o Atlântico. Na Madeira, muitas embarcações proviam-se de vinho, água e alimentos frescos para o consumo. As portuguesas tinham garantido o abastecimento pelo Provedor da Fazenda. Em 1548, cada tripulante da nau S. Martinho tinha direito a uma ração diária de duas arrobas de biscoito, dois almudes e meio de vinho, duas pescadas e meia e uma arroba de carne. Em 1533, Richard Eraen, em viagem para a Guiné, tomou algumas pipas de vinho para as tripulações.

Os corsários, que infestaram os mares da Madeira no decurso do século XVI, não prescindiam da dose diária de vinho. Em 1566, a armada de Bertrand de Montluc, que se dirigia para a Mina, diz que a escala funchalense tinha apenas como intenção o abastecimento de vinho e carne, sendo o assalto provocado pelos locais. Já em 1587, um outro corsário ameaçava as costas da ilha, pedindo apenas ao capitão Tristão Vaz da Veiga vinte pipas de vinho e água. Alheio às objeções dos naturais, entrou no porto onde cortou as amarras a um navio carregado de vinho.

Entre 1641/1643, o provimento das naus portuguesas estava regulamentado e fazia-se por intermédio do Provedor da Fazenda no Funchal. O vinho Madeira adquiriu fama junto das tripulações, sendo obrigatório no abastecimento das embarcações. As armadas que partiam de Lisboa eram abastecidas com o vinho enviado do Funchal por ordem da Junta. As armadas da Índia foram assíduas consumidoras. O Provedor da Fazenda no Funchal, Francisco de Andrade, providenciou, em 1651 o envio de 400 pipas de vinho a Lisboa, para as armadas da Índia. Em 1635, seguiram outras 3.000 pipas com igual objetivo, juntando-se 400 pipas no ano imediato. Ao vinho, que seguia para Lisboa, junta-se outro de embarque direto no Funchal pelos navios ou armadas. Em 1664, uma armada francesa com destino às Antilhas foi provida de 40 pipas. O vinho era conhecido como de beberagem e, por isso, segundo a tradição, estava isento de direitos. Vários comboios que se dirigiam às Antilhas, ao longo do século XVIII, passavam pela Madeira onde tomaram grandes quantidades de vinho, destacando-se o de dezembro de 1744, com 33 navios e o de 1788, com 70 navios que carregou 2.000 pipas de vinho, a que se juntou outro, em outubro de 1799, com 60 navios que carregou 3.041 pipas.

Para A. R. Azevedo, o surgimento dos estabelecimentos consulares da Bélgica [1608], França [1626], Inglaterra [1658], Holanda [1667], Espanha [1668] mostra não só com que nações comerciava ela os seus vinhos, mas também indica a gradação do desenvolvimento deste comércio: Flandres, França, Inglaterra, Holanda, Espanha. Só mais tarde os vinhos da Madeira foram directamente levados à Alemanha. Rússia, e por último aos Estados Unidos da América – as relações comerciais desta ilha com a metrópole eram talvez as menos importantes. Ainda, segundo o mesmo, o incremento do comércio do vinho liga-se, de modo direto, com o estabelecimento dos ingleses na ilha, apresentando as datas de 1640 e 1660 como os marcos da plena afirmação. Em 1680, das 20 casas estrangeiras existentes na ilha 10 eram inglesas, a que se juntavam 6 ou 8 de nacionais de compravam os vinhos já prontos e os exportavam.

Não existem dados sobre as exportações de vinho Madeira no século XVII. Tão pouco os dados oficiais dos registos de saída da alfândega devem ser fiáveis. Os dados disponíveis evidenciam, porém,  uma tendência de crescimento, na segunda metade da centúria, situação que se torna clara nas décadas de oitenta e noventa. Acontece que os últimos anos da centúria foram de dificuldade para a navegação das embarcações inglesa, fruto da guerra com França. As colónias inglesas da América haviam assumido uma posição dominante nas exportações com as medidas favoráveis estabelecidas no Staple Act de 1663, fruto do casamento da infanta D. Catarina com Carlos II de Inglaterra. As Índias Ocidentais foram um destino privilegiado, sendo Barbados o principal entreposto de distribuição para as demais ilhas.

Os números disponíveis, embora avulsos, demonstram que, com o decorrer dos anos, o vinho  foi aumentando de importância na balança comercial da ilha, pelo que o cônsul francês, em 1669, afirmava ser o vinho o único meio de comércio da ilha. A década de sessenta, assinala dificuldades para o porto do Funchal. A falta de embarcações impediu o embarque, dificultando as relações com o reino e a disponibilidade de letras.

O continente americano e Índico foram as novas apostas do vinho do século XVII. Alguns viajantes ingleses dão conta da situação a partir do último quartel do século. Hans Sloane (1687) evidencia a conquista de novos mercados, fruto de desusadas propriedades: É exportado em grandes quantidades para as plantações das Índias Ocidentais e, ultimamente, para o Ocidente, pois não há nenhuma espécie de vinho que se mantenha tão bem em climas quentes. A ideia é corroborada por John Ovington [1689] , que dá conta da exportação de 8 mil pipas principalmente para as Índias Ocidentais, especialmente Barbados, onde tem mais aceitação que os vinhos europeus.

Foi com as colónias inglesas da América que se considerou na segunda metade do século XVII, um dos melhores mercados para o vinho Madeira. O Brasil foi o principal destino nacional do vinho. O município do Funchal insistiu em 1621, junto da coroa, no sentido de reservar para o vinho nacional. A ação da companhia Geral do Comércio do Brasil na Madeira assentava no negócio dos vinhos. As mais antigas referências à presença do vinho Madeira no Brasil datam da segunda metade do século XVI. Em 1572, rumaram para aí 36 pipas de vinho branco, a que se juntaram em 1587 outras 98 para o Espírito Santo e Rio de Janeiro, a troco de açúcar. Abriu-se a rota do vinho Madeira que continuou na centúria seguinte pelas facilidades concedidas aos navios da frota do Brasil e a possibilidade da ilha intervir com o envio direto de duas embarcações. O vinho tinha lugar na mesa do senhor de engenho, como sucedia em 162,6 no de Sergipe do Conde, que recebeu duas pipas. Para o período de 1638 a 1655, o Brasil, através da Baía, Pernambuco e Rio de Janeiro, recebeu 6.602 pipas de vinho de Madeira.

No período de 1649 a 1652, evidenciam-se dois mercadores: Diogo Fernandes Branco e William Bolton (1696-1714). Diogo Fernandes Branco foi um dos elos do circuito. Sabemos disso através de algumas cartas comerciais, que escreveu aos par­ceiros, entre 1649 e 1652. A atividade comercial incidia, preferencialmente, na exportação de vinho para Angola, onde trocava por escravos que, depois, vendia com Brasil a troco de açúcar. O circuito de triangulação fechava-se, com a chegada à ilha das naus com caixas de açúcar. São múltiplas as operações comerciais registadas na do­­­­cumentação epistolar, que revelam ter-se especializado em duas atividades paralelas: o comércio de vinho para Angola e Brasil, e do açúcar e derivados para adocicar os manjares dos repastos da mesa europeia.

A presença de William Bolton na Madeira enquadra-se na nova conjuntura comercial favorável à fixação inglesa. Os tratados de amizade celebrados entre Portugal e a Inglaterra propiciaram a presença, que se tornou necessária para o provimento do mercado colonial e foi facilitada pelos atos de navegação de Cromwell. A política mercantilista inglesa estabeleceu que todo o movimento para os portos das colónias deveria ser feito por barcos com pavilhão inglês, sendo a partida e regresso a partir de Londres. A ordenança de 1663 estabelecia uma exceção às ilhas da Madeira e Açores, que ficaram com o exclusivo do fornecimento de vinho, por via direta. William Bolton foi um dos mais destacados mercadores ingleses a usufruir da conjuntura favorável. As colónias inglesas das Antilhas e América do Norte foram o objetivo e o vinho o principal negócio.

Duarte Sodré Pereira, um fidalgo comprometido com o comércio atlântico, dá-nos conta da situação do mercado, em princípios do século XVIII. De acordo com o copiador de cartas, esteve envolvido no comércio com Inglaterra, Lisboa, Estados Unidos da América, América Central (Barbados, Jamaica e Curaçau) e Brasil.

O vinho da Madeira tinha no mercado colonial britânico um destino privilegiado. Os navios do tráfico negreiro com origem em Bristol abasteciam-se de vinho na Madeira. A América do Norte foi, desde a década de quarenta do século XVII, um dos principais destinos: New England (1641), New Haven (1642), Boston (1645), Nova Iorque (1687). No século XVIII, consolidou-se o mercado americano e nos demais mercados do mundo colonial inglês. No século XVIII, a ascensão continuou até atingir o domínio completo em finais do século XVIII e princípios do seguinte.

O vinho e as castas que o originavam foram motivo de grande admiração. A malvasia foi levada, em 1736, pelo Dr. William Houston, para Charleston, enquanto em 1773, Joseph Aleston fez aí chegar novas castas, com igual sucesso. A segunda metade do século foi o momento de afirmação do vinho madeirense, sendo evidente o empenho dos mercadores norte-americanos no proveitoso comércio de troca de vinho por peixe, cereais e aduelas para pipas.

A defesa da entrada livre de mercadorias, contra o pagamento dos direitos de entrada teve o primeiro incidente em 1768, com 100 pipas de vinho trazidas da Madeira para Boston por John Hancock. Quando se determinou celebrar o ato de independência dos Estados Unidos da América com o vinho Madeira, pretendeu-se afirmar a importância que assumiu na sociedade. Aliás, o vinho Madeira está ligado ao movimento de pró-independência. A situação do mercado no século XVIII foi marcada por um franco progresso na procura do vinho, nomeadamente no último quartel, sofrendo um ligeiro recuo entre 1776 e 1782, com a instabilidade gerada no mercado Atlântico e norte-americano com a guerra de independência dos Estados Unidos. O volume total das exportações de vinho não espelha a realidade, uma vez que de imediato se encontrou mercados substitutivos.

Os dados sobre a exportação do vinho Madeira disponíveis, ainda que por vezes avulsos, evidenciam a tendência para a subida a partir de 1640, situação que só será invertida, passado mais de um século a partir de 1814. O período de 1794 a 1801, excluído o ano de 1798, pautou-se por uma alta das exportações de vinho, o que demonstra que a conjuntura de finais do século XVIII e princípios do seguinte foi favorável ao comércio do vinho Madeira.

O mercado do vinho da Madeira estava nas colónias inglesas da América e Índia. A Madeira situava-se no traçado da rota dos grandes comboios da Índia e Antilhas. Em 1788, um comboio de 70 navios carregou 2.000 pipas, e outro, que saiu de Portsmouth com destino às Índias Ocidentais, comandada por Roger Curtis, em 1799 com 96 navios carregou 3.041 ½ pipas. Nas duas últimas décadas do século XVIII, dispomos de informação elucidativa sobre os principais mercados do vinho Madeira. O mercado colonial no Atlântico e Índico domina. Depois foi o retorno à Europa, com a independência das colónias. Os portos da Índia, Antilhas e EUA deram lugar aos europeus: Londres, Hamburgo, S. Petersburgo, Amsterdão. Os dados de exportação confirmam a viragem do mercado a partir de 1831.

O mercador tinha uma função importante na economia vitivinícola, a ele não se solicitava apenas a definição dos circuitos comerciais do vinho e a preparação para ser exportado. A intervenção do inglês, a partir do século XVII, provocou alterações, passando a intervir no processo de vinificação. Deste modo, adquiria o vinho em mosto para depois proceder aos tratamentos adequados ao gosto dos mercados de exportação. Os tratados luso‑britânicos asseguraram a hegemonia da feitoria britânica no comércio do vinho da Madeira. A ocupação inglesa da ilha nos primeiros anos do século XIX não foi ocasional. Da defesa dos interesses da feitoria, passou‑se ao reforço da ação, consignada no tratado de 1810, por isso os ingleses surgem, nos anos imediatos, com uma posição cimeira nas exportações, controlando mais de 50% do vinho exportado.

A crise oitocentista provocou a debandada geral do mercado inglês ou americano e só ficaram aqueles com interesses noutros sectores. Como corolário disso, tivemos o desaparecimento das sociedades familiares e o aparecimento de associações, como a Madeira Wine Association (1925) que absorveu, nos anos seguintes, mais de trinta casas. Na atualidade, o comércio do vinho é assegurado por novas empresas, criadas no rescaldo da crise do comércio do vinho, sendo três (Henriques & Henriques Lda., H. M. Borges Sucessores Lda., Vinhos Justino Henriques Lda.) o elo de continuidade com o passado. As demais (Madeira Wine Company, Vinhos Barbeito Madeira Lda., Pereira d’Oliveira Vinhos Lda., Artur Barros & Sousa Lda. foram criadas a partir dos escombros de vetustas casas ou adegas particulares.

O Madeira embora fosse conhecido desde muito cedo no mercado europeu, nomeadamente em França, Inglaterra, o certo é que adquiriu maior volume de consumo no meio colonial,  tornando-se no vinho para colonialista europeu. O predomínio do mercado colonial manteve-se ao longo do século XVIII, tendo-se alterado em finais do século e princípios do seguinte, em face das alterações conjunturais operadas. As vias de escoamento articulavam-se, de acordo as rotas atlânticas. O mercado europeu, definido pela Inglaterra, Lisboa e Norte da Europa, ficava no prolongamento das rotas americanas ou inglesas. Para as Índias Ocidentais e América inglesa, enquadravam-se as rotas do tráfico atlântico. Para as Índias Orientais, alinhavam-se de acordo com o rumo dos comboios asiáticos.

Entre 1777 e 1782, evidencia-se o predomínio do mercado colonial inglês, na América, com cerca de 2/3 do vinho exportado, atingindo 9.297 pipas em 1780, cerca de 85% do volume de exportação do ano. Em segundo lugar, mantém-se o mercado asiático, logo seguido do europeu e africano, com números reduzidos. Em 1787, aumentou o desnível entre o mercado americano e asiático em relação ao europeu e africano. A América era o principal consumidor do vinho da ilha, destacando-se as colónias inglesas com 3.700 pipas, em 1785, 2.800, em 1786, 4.184, em 1787, ou seja metade do vinho saído para aí. Os Estados Unidos apresentaram-se em 1784, com 739 pipas, 921, em 1785, 289 pipas, em 1786 e 1.791, em 1878. A preferência pelo vinho da Madeira nas plantações do Sul e na área vizinha de Nova York era uma realidade.

As Índias Orientais podem ser consideradas um mercado de grande importância. Para aí saíram em 1785 3.000 pipas, 2.730 em 1786 e 3.899 (36%) em 1787. O movimento de exportação de vinho para o Oriente assumiu esta importância, na década de setenta do século XVIIII. Em 1770, o número de pipas exportadas não ultrapassava as 700 pipas. Segundo o cônsul francês, a partir de 1773 os ingleses aumentaram as exportações, tendo saído, em 6 navios, 1.500 toneladas de vinho seco para Bombay, Madras, Bengala.

Para o período compreendido entre 1789 e 1801, os mapas de exportação elucidam sobre as áreas de consumo do vinho da ilha. Mantém-se o predomínio da América, nomeadamente a região central, as chamadas Índias Ocidentais, com destaque para alguns mercados, que assinalámos por ordem decrescente de valor: Jamaica, Barbadas, Martinica, Santa Cruz, St. Eustachio, St. Vicent, a América do Norte com Boston, Filadélfia, Virgínia, Terra Nova, New York, Charlston, Baltimor. No Oriente, o maior volume exportado surge sob o designativo de Ásia ou com referência mais restrita a Bengala, Bombaim, Índia, China. A Europa aparece com valores bastante inferiores, destacando-se os portos portugueses de Lisboa, Porto, Setúbal, e outros, como Gibraltar, Granada, Marselha, Londres. Mais reduzido é o valor dos portos africanos, com Cabo Verde, Garnizé, Mogador. O mercado do vinho estava, assim, Índias Ocidentais [com Jamaica, Barbados, Grenade], Filadélfia, N. York, Ásia.

A primeira referência à exportação de vinho para a Rússia data de 1793, mas a presença na corte russa era de há muito tempo. Em 1787, havia-se firmado um tratado comercial entre as duas potências. Em 1811, temos notícia da saída do bergantim português Ana e José com 190 pipas de vinho, 20 quartolas e 1 quarto, mais 2 pipas de vinho seco, 2 pipas de malvasia para S. Petersburgo. A intensificação do movimento a partir da Madeira só se processou a partir de 1813, coincidindo com a prorrogação do tratado.

O movimento do vinho para o mercado colonial europeu manteve-se na posse dos ingleses, que dispunham de uma frota naval poderosa. Entre 1784 e 1786, dominaram os circuitos de transporte com 61 embarcações em 1784, transportando 3.365 pipas de vinho, 74 navios em 1785 com 4634 pipas, e 86 em 1786 com 4.619 pipas. Em 1787, manteve-se o domínio inglês secundado pelos portugueses e americanos, a que se seguiram as francesas, dinamarquesas, holandesas, espanholas e suecas. Em meados da centúria, verificou-se uma valorização das embarcações nacionais no movimento de exportação para as Índias Orientais, com a intervenção de Inácia Quintela e de D. Guiomar de Sá Vilhena. A última embarcou em 1784 no bergantim Nª Sr.ª de Penha de França, com destino à Ásia, 587 pipas e no bergantim Nª Sr.ª das Neves e Stº António 230 pipas para os portos de Bengala e Calcutá.

O predomínio das embarcações inglesas acentuou-se, entre 1822 e 1824, sendo secundados pelos americanos. As embarcações francesas, holandesas, portuguesas, sardas, dinamarquesas, suecas carregaram pequenas quantidades. O facto confirma o predomínio mercantil inglês, após os acordos vantajosos de 1808 e 1810 estabelecidos com Portugal por força das invasões francesas. Ao mesmo tempo, denota uma forte quebra na esfera mercantil portuguesa.

A primeira metade do século XIX foi pautada pela alteração na geografia do mercado consumidor do vinho da Madeira. Foi o período de rutura entre o velho e o novo mundo, em que o mercado colonial cedeu lugar ao europeu do Norte. As colónias foram suplantadas pela mãe pátria e abandonaram o consumo do vinho da Madeira, em favor de outros produzidos nas novas áreas vitícolas além Atlântico, como era o caso do Cabo da Boa Esperança.

O período de 1823/1825 pode ser definido como a fase de transição, uma vez que se mantém o domínio do mercado colonial, como Jamaica, Índia, W. Índias, St. Vicent, N. York, notando-se um impulso para a saída do vinho rumo à Europa como do vinho de roda ou de exportação direta para Londres, S. Petersburgo, Hamburgo, Amesterdão, Lisboa. A partir de 1826, consolida-se o domínio do mercado nórdico com Londres, S. Petersburgo, Hamburgo. Ao mesmo tempo denota-se o alargamento da exportação a novas áreas da América do Sul para além do Brasil, como Buenos Aires e Montevideu. Os dados colhidos, a partir de 1831, assim o confirmam. Acontece que o predomínio do mercado nórdico, com a Rússia e Londres à frente, não acarretou quebra no total das exportações para os velhos mercados coloniais, como a Índia, Jamaica e W. Índias, N. York.

Londres surge, entre 1831/1834, com um número significativo de pipas importadas. Idêntica foi a situação de S. Petersburgo em 1832, que entre 1833 e 1839, suplantou o mercado londrino. O mercado de Hamburgo apresenta-se igualmente com valor significativo. O facto mais saliente resulta da quebra momentânea das exportações para o mercado colonial das Índias Orientais e da América do Norte. Em meados do século XIX, era ponto assente o domínio do mercado europeu no consumo do vinho Madeira. O norte-americano, que desde 1830, se afirmara como um cliente destacado, volta a evidenciar-se em 1849 e 1850. A situação deverá resultar do aumento do tráfico entre os Estados Unidos e a Inglaterra, em que a Madeira assumia uma posição privilegiada. O consumo do vinho aumentou de modo espetacular até 1833, declinando entre 1834/1842, para subir em 1843, 1847, com uma ligeira quebra, em 1846 e 1848, voltando a subir, de novo, entre 1840 e 1850.

Para o período entre 1882 a 1885, nota-se o predomínio do mercado de Inglaterra no volume das exportações, seguido da Rússia. Note-se que, em 1882, mais de 2/3 da exportação de vinho teve como destino a Inglaterra, com 2491 pipas, sendo as restantes 869 distribuídas pela Rússia, com 353, Brasil com 108 e outros países, com 207. A nota mais saliente prende-se com a quebra do mercado dos Estados Unidos, que se apresenta só com 48 litros, quando na época de apogeu (1830/1834) havia atingido as 2.000/4.000 pipas. O Brasil vinha assumindo, desde meados do século, uma posição de nota mercado consumidor do vinho Madeira, evidenciando-se, entre 1882/1888 com valores que oscilam entre as 100 e 200 pipas. Nota-se igualmente uma exportação crescente para a Alemanha. Em 1882, era de apenas 39 pipas, em 1882, atingindo-se, em 1887, as 1.487 pipas. Idêntica situação sucede com a França que, de 32 pipas em 1882, atinge 239 em 1887 e 704 em 1888. A exportação do vinho atingiu entre 1895/1903 e 1905/1933 valores significativos, quando comparados aos períodos anteriores.

A época de exportação do vinho, de acordo com a informação documental de 1786, decorria nos primeiros cinco meses do ano, articulando-se, de forma direta, com os momentos do grande tráfico atlântico. A. Silbert define duas rotas para a navegação oceânica: dos alísios de abril a maio e o itinerário Norte/Sul de setembro a outubro, para o continente americano. Para o período de 1789 a 1792, a maior incidência ocorre nos meses de março a junho, enquanto entre 1793/1796 e 1813/1814, mantém-se os meses de março a maio e surge, outra época ,de outubro a dezembro. O período de saída do vinho diferencia-se de acordo com o mercado de destino, tendo em conta a sazonalidade das rotas oceânicas. Para a América do Norte e Central dominam os meses de fevereiro, abril e outubro/dezembro, enquanto no mercado asiático temos fevereiro/abril. Em conclusão, podemos afirmar que o período de maior saída do vinho decorre de março a junho e depois de setembro/dezembro, mas aqui com pouca influência.

No século XX, ocorreram profundas alterações no mercado do vinho Madeira. A Inglaterra e as regiões da Europa do Norte consolidaram posições. Entretanto, aconteceram perdas irreparáveis, como foi o caso da Rússia, a partir de 1916. Já nos Estados Unidos, um dos potenciais mercados, tivemos os efeitos da lei seca que se fizeram sentir desde 1919 e que levou à proibição de entrada do vinho e demais bebidas alcoólicas, nos anos de 1924-1925. A situação refletiu-se nas exportações, entre 1924 e 1931. Apenas no período da Segunda Guerra Mundial, com o fecho dos mercados europeus, voltou a assumir uma posição de relevo, nomeadamente nos anos de 1943 e 1944. Durante a guerra, a rota do Brasil, Estados Unidos e demais países americanos manteve-se aberta.

A década de vinte foi difícil para o comércio do vinho Madeira. As sequelas da revolução russa, mercado que consumia mais de 2000 pipas anuais, as dificuldades que se sucederam ao fim da guerra e o aparecimento de vinhos finos em diversas regiões do globo, como foi o caso do Cabo, Austrália e norte do Mediterrâneo, provocaram transformações mo mercado mundial do vinho. A par da oferta e variedade de vinhos, o mercado teve que se bater com leis antialcoólicas e o protecionismo de alguns países.

A Alemanha, que havia adquirido importância na economia da ilha a partir da década de oitenta do século XIX, saiu reforçada nas décadas seguintes, concorrendo em pé de igualdade com a Inglaterra, França e Rússia. As duas guerras mundiais acarretaram a inversão do rumo, que só voltou a animar-se a partir da década de sessenta.

A primeira metade do século XX, diz-nos que a Madeira continuou a apostar em novos mercados a Norte, com a Dinamarca, Suécia e Noruega. A Dinamarca que, em 1913, importara apenas 35 pipas, situa-se, em 1939, numa posição destacada importando 30%, desaparecendo, de forma misteriosa, em 1959. A Suécia assumiu destaque entre 1901 e 1961. A Noruega afirmou-se, a partir de 1910 mantendo-se até 1968. As vendas para o mercado escandinavo mantiveram-se em fase ascendente até à década de sessenta, perdendo paulatinamente importância nas últimas três décadas do século XX.

As duas guerras mundiais afastaram definitivamente a Alemanha dos destinos de exportação do vinho Madeira. As cidades alemãs, nomeadamente Hamburgo, vinham adquirindo importância desde a década de oitenta do século XIX. O alemão tornou-se rapidamente em apreciador do vinho Madeira e só a guerra o demoveu. Todavia, durante a Segunda Guerra Mundial temos notícia da importação por contrabando, via Lisboa e Pirenéus. Ao mesmo tempo o mercado inglês perdeu importância em favor do francês, que passou a controlar mais de 50% das exportações do vinho madeirense.

O período posterior à segunda Guerra Mundial foi marcado pela lenta agonia do comércio do vinho, apenas na década de setenta começou a recuperar e a assumir uma posição importante das exportações da ilha. A lenta evolução foi marcada pela reposição dos tradicionais mercados e à consolidação de novos como foi o caso do Japão. A proibição das exportações a granel, desde 2001, refletiu-se nas exportações para os mercados francês e alemão. É no seio do mercado comunitário que a Madeira encontra o principal mercado do vinho. Fora dele merece destaque a posição privilegiada do Japão, logo seguido do mercado norte-americano. O Japão é um dos novos mercados conquistados para o vinho Madeira e, desde 1989, conseguiu suplantar o tradicional mercado americano.

Os mercados do vinho Madeira diversificaram‑se ao longo dos tempos. De entre todos, apenas o britânico foi o único que manteve fidelidade ao vinho. Os ingleses foram os primeiros a apreciar o vinho da ilha, documentando‑se a presença desde o século XV. No quadro da evolução dos mercados do vinho Madeira podemos definir três momentos: Séculos XV e XVI: domínio da Europa, nomeadamente França e Inglaterra; Séculos XVII‑XIX: momento de afirmação das colónias europeias na América e Índia, sendo o vinho Madeira companheiro inseparável dos colonos; Século XIX a partir de 1830: retorno do vinho à Europa, com a plena afirmação dos mercados londrino e russo. Século XX: diversificação dos mercados e afirmação do britânico, norte-americano e o aparecimento de novos no Norte da Europa e Japão.

O vinho da Madeira surge na América do Norte desde os primórdios da colonização inglesa na primeira metade do século XVII. As referências mais recuadas apontam para a presença na Nova Inglaterra, em 1640, New Haven, em 1642 e Boston, em 1645, mas só em meados da centúria seguinte se tornou numa moda para os norte‑americanos, de forma que o ato de o beber era uma forma de prestígio social. Desde então, o vinho das ilhas foi uma presença assídua nos portos atlânticos [Boston, Charleston, N. York e Filadélfia, Baltimore, Virgínia] onde era trocado por farinhas. Esta contrapartida reforçou o relacionamento comercial e favoreceu o progresso da economia vitivinícola. Nos séculos XV e XVI, a afirmação da cultura dos canaviais foi conseguida com o suprimento cerealífero dos Açores e Canárias. Já a partir de finais do século XVII o celeiro madeirense transferiu-se para a América do Norte. Cedo, a Madeira entrou na esfera dos interesses norte-americanos, sendo o vinho o cartão-de-visita. As ilhas atlânticas são conhecidas na documentação oficial norte-americana como as ilhas do vinho.

O vinho Madeira está inexoravelmente ligado à História dos Estados Unidos da América. Desde o século XVII que os colonos ingleses se lhe haviam afeiçoado. Por isso, em momentos de dificuldade lutaram pela presença do vinho no dia‑a‑dia. Acontece ainda que alguns portos norte-americanos, como os de Nova Iorque, Philadelphia e Virgínia, atuavam como áreas de redistribuição para as Antilhas inglesas. O Madeira está também na origem do movimento independentista, que se iniciou com a recusa aos elevados encargos fiscais impostos pela coroa inglesa. Sucedeu assim em 1768, quando J. Hancock se recusou a pagar os novos direitos sobre as 127 pipas de vinho do navio Liberty, que fazia entrar em Boston. Idêntica atitude repetiu‑se em 1773, com um carregamento de chá da Índia, situação conhecida como o Tea Party, por ser o despertar do movimento pró independência da América do Norte.

O apreço de alguns presidentes norte-americanos foi suficiente para assegurar no novo país um mercado preferencial para o vinho Madeira. A década de sessenta foi o momento de afirmação, surgindo o Madeira com 29% do mercado. Nova Iorque era o seu destino preferencial. Metade do total das exportações de vinho, no período de 1785‑1787, seguia para lá. A guerra de secessão, a partir de 1770, condicionou o mercado, marcado pela quebra nas duas décadas seguintes, atingindo, em 179, o máximo.

O movimento de independência provocou o bloqueio aos tradicionais circuitos comerciais sob domínio de ingleses. A conjuntura foi catastrófica para a Madeira. O madeirense, habituado a receber o sustento de trigo, milho e farinhas dos portos americanos a troco de vinhos, viu‑se momentaneamente privado desses bens. A fome foi o resultado inevitável, sendo os anos de 1795‑96 e 1799 de autêntico flagelo. Em 1774, John Leacock estava preocupado com a notícia de que o Congresso Americano se preparava para proibir a introdução do vinho Madeira.

O século dezanove definiu novo rumo para o vinho madeirense. Os portos americanos continuaram a recebê‑lo, mas não com a assiduidade que os caraterizara na centúria anterior. O vinho estava de regresso ao velho continente e avançava à conquista do mercado nórdico. Num ápice, passou do calor tórrido para o frio da Sibéria, sem se deteriorar. A conturbada situação provocada pela guerra civil terá provocado o desvio. Em 1863, Charles Blandy, em carta a Jefferson Davies, Presidente dos Estados confederados, reclamava o pagamento dos danos causados com a perda de mercadoria provocada pelo afundamento pelo Alabama do barco Lauraetta.

Em pleno século XX, surgiram novas privações à expansão do vinho Madeira nos Estados Unidos da América. O fundamentalismo chegou ao consumo das bebidas alcoólicas determinando, desde 1920, a proibição de consumo, situação que se manteve até 1933, altura em que foi revogada por Roosevelt. Os poucos que se mantiveram fiéis criaram os Madeira Party, isto é, clubes onde se reuniam, em segredo, para beber o vinho Madeira. Ficou célebre em Savanah o Madeira Club que, ainda hoje, levantada a lei seca, se reúne ritualmente, no onze de novembro, para saudar a ilha, com um cálice de Madeira. Os mercados produtores europeus temeram a possibilidade de semelhantes medidas se estenderem a outros países, pelo que se fundou em Paris a Liga Internacional dos Adversários das Proibições. A Associação Comercial do Funchal, através do sector de vinhos, entrou na campanha a favor do consumo do vinho, entregando verbas para o efeito à liga de Paris.

O grupo de ilhas da América Central, nomeadamente aquelas onde havia, desde o século XVII, assentamentos ingleses e franceses, foram um importante consumidor do vinho da Madeira. No século XVIII, os inúmeros comboios de embarcações que faziam escala na Madeira permitiam o fácil escoamento do vinho. O Madeira corria nos serões de quase todas as ilhas, mas em especial Jamaica, Barbados, Martinica, Santa Cruz, St. Eustachio, St. Vicente. Os navios das companhias inglesas e holandesa das Índias Ocidentais, desde o século XVII, faziam escala na Madeira, onde se abasteciam de vinho, especialmente Boal. O Madeira, pela adaptação às dificuldades do clima oriental e da viagem, rapidamente adquiriu um estatuto especial.

Os mercadores ingleses residentes no Funchal dominavam o comércio, destacando-se as firmas de John Leacock, Francis Newton e Leacock, que mantinham uma relação privilegiada com as autoridades coloniais das Índias inglesas. Apenas a empresa de Francis Newton exportou, entre dezembro de 1799 e agosto de 1800, 1050 pipas de vinho para Bombay. À sua morte em 1799 deixou o campo aberto à firma de Newton Gordon e Murdoch. A casa, sob a designação de Cossart Gordon & Ca. , manteve, no decurso do século XIX e primeira metade da presente centúria, um ativo negócio de vinhos com o indico tendo para abastecer as messes e clubes dos oficiais ingleses. No total ,foram 60 distribuídos por diversas regiões, de modo especial na Índia.

Surgem também indicações explícitas ao vinho Madeira e de Canárias. No porto de Bristol, a informação mais recuada sobre o comércio com a Madeira data de 1583, em 1598-1590, temos a entrada de uma embarcação com vinho, seguindo-se outra, entre 1601-1602. São poucas as provas documentais e materiais do comércio de vinho com o mercado londrino, mas é evidente o protagonismo britânico na definição e consumo do vinho. Em 1999, escavações arqueológicas nas proximidades da Torre de Londres desenterraram uma garrafa datada de 1679.

A guerra da independência dos Estados Unidos da América levou a que alguns mercadores fossem forçados a apostar no mercado britânico. John Leacock foi um dos que sentiu necessidade de reforçar os laços com Londres, passando a manter uma relação regular. Desde 1772, foi o fornecedor oficial de vinho, por intermédio de John Carbonell, ao rei Jorge III. Ao mesmo tempo, apostou no mercado das Antilhas, onde mantinha com Francis Newton uma posição privilegiada.

A plena afirmação da Grã-Bretanha como mercado preferencial do vinho Madeira surge no século XIX, altura em que a perda de algumas das colónias levou a que toda a atenção do mercador inglês retornasse à terra natal. Para o período de 1831 a 1885, a disputa pelo primeiro lugar nas exportações de vinho Madeira estava entre Londres e S. Petersburgo. No mercado britânico, a oferta de vinho europeu era variada e o Madeira representava uma ínfima parcela das importações. Portugal assume uma posição dominante como fornecedor do mercado britânico seguido de perto pela Espanha. Nem todo o vinho Madeira importado pelo mercado londrino era para consumo local, sendo muito reexportado. O século dezanove foi um momento marcado pela concorrência do vinho de diversas proveniências no mercado londrino, prejudicando a posição do Madeira. Para a década de cinquenta do século XX, é possível estabelecer uma relação entre os vinhos da Madeira e do Porto no mercado londrino.

A Rússia foi um importante mercado consumidor do vinho madeirense no século XIX. S. Petersburgo, a capital do império e do fausto russo, terá descoberto o vinho Madeira, no último quartel do século XVIII, mas só na primeira metade do seguinte aí ancoraram com assiduidade os barcos com vinho. A primeira referência ao envio para a Rússia é de 1756. Os vinhos fortemente alcoolizados, nomeadamente o Boal, passaram a ter aqui um consumidor preferencial. Sabe-se que, desde 1766, a czarina  Catarina, a Grande, estabeleceu medidas que favoreciam a importação de vinho de Portugal, pelo que a situação do vinho saiu reforçada em 1772 e 1787. Na última data, foi celebrado um tratado de amizade, navegação e comércio entre D. Maria I e D. Catarina II. Não obstante todas as facilidades, a presença do vinho da Madeira só foi notada nos primeiros anos da centúria seguinte.

As balanças de comércio de 1776 e 1777 referem apenas os vinhos de Setúbal, Lisboa, Porto, mas se atendermos a, que a partir de Lisboa, se reexportava vinho de múltiplas proveniências, inclusive da Madeira, é muito possível que o vinho madeirense aí estivesse incluído. Noutros documentos, colhemos informação de que, em 1790,se estudava a viabilidade de estabelecer relações comerciais com a Rússia, a exemplo do que sucedia a alguns anos na ilha de S. Miguel com a laranja. Abre-se um parêntesis para dizer que também os vinhos açorianos, no caso o verdelho do Pico, são apontados como da preferência do czares. Sendo assim, os contactos deverão ser posteriores a esta data, pelo menos assim o provam os poucos dados de exportação de vinho disponíveis na documentação. De 1789 a 1801, não há qualquer rastro nos livros de saída da alfândega do Funchal, o que só sucede a partir de 1825. Outros dados elucidam que, em 1812, mercê da presença na ilha de José Agostinho Borel, como o primeiro cônsul, os contactos comerciais passaram a ser assíduos.

O primeiro navio russo a demandar a ilha foi o bergantim Helena do capitão Deach Mandels, em 1813. Mas já em 1811, um outro bergantim português havia conduzido a S. Petersburgo 194 pipas de vinho Madeira. Por aqui se pode concluir que os primeiros anos da centúria foram propícios ao comércio de vinho para o novo destino. Certamente que as dificuldades de abastecimento em França terão conduzido à preferência pelo vinho madeirense. Lembremo-nos que os czares aderiram a todas as coligações contra a França de Napoleão o que lhes valeu uma sangrenta invasão em 1812, descrita por Tolstoi no célebre romance Guerra e Paz.

Entre 1832 a 1839, a Rússia adquiriu uma posição cimeira nas exportações. As pipas que saíram para S. Petersburgo representavam 23% do total, baixando entre 1882‑1885 para 11% do vinho transacionado no porto do Funchal. Tal como referia, em 1815, o Bispo do Funchal, a presença e iniciativa do cônsul russo na ilha foram importantes para a afirmação das trocas comerciais com a Rússia. O vinho madeirense debatia-se com dificuldades no mercado americano e índico, pelo que a abertura de um novo mercado era bem-vinda. O vinho regressou aos salões requintados de Londres e daí irradiou para os palácios da aristocracia nórdica. Alemanha, Dinamarca, Rússia e cidades de Londres, Hamburgo, S. Petersburgo foram os principais destinos, a partir de 1820. O elevado teor de açúcar e álcool do vinho Madeira possibilitaram a resistência às baixas temperaturas nórdicas, fazendo com que se afirmasse como um parceiro nobre para o whisky, cerveja e vodka.

O vinho madeirense conquistou, em definitivo, o paladar da aristocracia russa, adquirindo uma posição cimeira nas exportações no período de 1832 a 1839. Um dos principais obreiros da rota russa foi William John Krohn, que passou à Madeira em 1849 e fundou em 1858 uma casa de vinhos, a Krohn Brothers & Co., com o irmão Nicholas, ambos naturais de S. Petersburgo, embora com ascendência dinamarquesa. O avô era privado da corte imperial russa, o que poderá estar na origem da grande predileção da casa imperial pelo nosso vinho. W. J. Krohn foi vice-cônsul da Rússia no Funchal, no período de 1866 a 1880. A casa especializou-se no comércio com a Rússia, sendo a que mais sofreu com o corte do comércio, a partir de outubro de 1916, com a Revolução russa. A firma, que se situava em segundo lugar no volume de exportações de vinho, viu-se relegada para um plano secundário, sendo forçada a aderir à Madeira Wine Association Lda., de quem havia sido um dos mais sérios opositores.

Terminou assim a época de esplendor para a firma Krohn Brothers & Co. Em 1916, quando os revolucionários se serviram do vinho para matar, por envenenamento, o místico Gregori Rapustine, privado da corte de Nicolau II, ditaram o golpe de finados para a presença do Madeira nas terras russas. A revolução não admitia tal luxo e o Estado Novo, por opção política, vedou à ilha tal mercado. Os apreciadores russos do vinho Madeira tiveram que se contentar com as falsificações feitas por algum vinhateiro de ocasião. A fama do Madeira perdurou, de modo que, em 1949, na exposição de Bruxelas foi possível ver o Madeira made in Rússia. Em 1991, descobriu-se nas caves do Kremlin algumas garrafas de vinho Madeira, certamente esquecidas na confusão da Revolução de 1916. A mudança ocorreu a partir de finais do século XVIII e inícios do seguinte, como se pode constatar nos dados estatísticos recolhidos em documentos e estudos.

Uma rápida visão do gráfico evidencia que o período de apogeu se estendeu entre 1794 e 1818. O declínio, que começou a notar-se em 1814, só se tornou claro em 1830. Desde 1640 que a tendência era de subida vertiginosa pelo que já em 1700 o número de pipas exportadas se elevava a 10.000, ou seja cinco vezes mais que em 1646. Entre 1730 e 1734 notou-se uma quebra a que se seguiu uma subida como elucidam os dados de 1777 e 1778, mantendo-se a tendência ascendente até inícios do século XIX, cortada apenas por momentos de baixa bastante acentuada, como sucedeu em 1785, 1792 e 1811. O período de 1794 a 1801, excluído o ano de 1798, pautou-se por uma alta das exportações do vinho. A evolução estabilizou, evidenciando que a conjuntura de finais do século com as guerras europeias foi favorável ao comércio do vinho Madeira. O período de 1802 a 1818 foi marcado pela contração do volume de exportações motivado pelas mudanças ocorridas no continente europeu, tornando-se mais evidente nos anos de 1804, 1808, 1811 e 1816.

O quadro das exportações revela ainda que o mercado do vinho da Madeira não era constante, sendo pautado por diversas oscilações resultantes das condições dos mercados consumidores e dos europeus, concorrentes com a Madeira, pois apenas o período de 1794/1802 foi pautado por alguma estabilidade. As alterações e a instabilidade do mercado colonial, a partir da independência do Estados Unidos da América do Norte, refletiram-se de forma evidente no mercado do vinho. Raras vezes as dificuldades tinham origem na produção, situação que só se torna evidente na segunda metade do século XIX.

As guerras europeias conduziram ao encerramento das rotas que ligavam o mundo colonial aos mercados europeus. As ilhas ficaram de fora e aproveitaram a oportunidade para a venda dos vinhos. Na Madeira, esgotaram-se os stocks de vinho de exportação, socorrendo-se dos vinhos de inferior qualidade do norte, quase sempre consumidos localmente ou queimados para aguardente. Para corresponder a tão desusada procura, apostou-se na expansão da viticultura e descuidou-se o tratamento e envelhecimento dos vinhos. As estufas foram o resultado mais evidente da conjuntura e firmaram-se como solução para corresponder à incessante procura. Procedeu-se à aceleração de envelhecimento do vinho com o recurso ao calor artificial de modo a não impacientar os exportadores e bebedores.

Em 1814, tendo em conta o ano próspero de 1813, as autoridades e homens de negócio reclamaram medidas proibitivas da entrada de aguardente como solução para salvar a saída de vinho que sofreu uma quebra acentuada em relação a 1813. Idêntica preocupação ocorreu em 1815, mas a aluvião e a má colheita do ano corrente (entre 4 a 5.000 pipas) repercutiram-se nas saídas de 1816. As dificuldades dos anos de 1819 a 1823 são resultantes dos problemas de escoamento da produção desde 1818, permanecendo em armazém mais de 20.000 pipas de vinho.

A conjuntura favoreceu a expansão da cultura, mas quando os mercados europeus voltaram à normalidade, a Madeira entrou em colapso. O período de 1819 a 1823 foi crítico para a economia da ilha. Os anos de 1824 e 1825 evidenciam uma passageira melhoria do volume das exportações, uma vez que 1826 se iniciou a queda que se acentuou em 1830 e 1831, mas que entre 1832 e 1846 recuperou. As oscilações são fruto das mudanças ocorridas no mercado consumidor com a substituição do mercado colonial pelo do Norte da Europa.

A partir de 1847, tivemos nova quebra que se acentuou em 1852, com a crise do oídio. Os reflexos mais evidentes da crise só se fizeram sentir em pleno nos anos sucedâneos de 1853 a 1865, atingindo-se, no último, o valor mais baixo das exportações com 536 pipas. A tendência de descida manteve-se. Mas a crise da filoxera não se refletiu de forma tão clara no comércio de vinho, uma vez que a tendência ascendente apenas se ressentiu entre 1878 e 1883. A situação deve ser fruto da disponibilidade de vinhos em armazém. A denúncia da situação encontra-se numa representação às cartas de 1823. O comércio decaiu, mais de vinte mil pipas de vinho se acham em suas mãos, dos proprietários e negociantes…. Enquanto tardavam as soluções, os campos foram abandonados, devido à emigração dos agricultores.

As transformações ocorridas no decurso da segunda metade do século XIX alteraram o panorama do vinho Madeira. A cultura perdeu importância no mundo rural em favor da cana sacarina. Apenas a permanente demanda do vinho nos mercados europeus obrigou o madeirense a retornar à cultura da vinha. A Inglaterra e a Alemanha disputavam a posição cimeira nestas exportações. Apenas as guerras mundiais alteraram a situação e criaram sérias dificuldades, provocadas pela paragem da navegação oceânica e a perda do mercado alemão, um dos mais importantes desde finais do século XIX.

Durante a Primeira Grande Guerra, os efeitos da guerra submarina fizeram-se sentir nas exportações de vinho para os anos de 1917 e 1918. Em 1919, consumadas as pazes, o vinho retomou o ritmo de exportações em crescimento exponencial até 1939. Na década de trinta, o vinho foi uma das culturas mais afetadas pela crise.

A Segunda Guerra Mundial (1939-45) marcou novo momento de dificuldades para as exportações, por falta de navios no porto do Funchal. O Governador Civil, José Nosolini, em carta de 27 de novembro ao Ministro do Interior, considerava a crise do vinho como algo intransponível: Mas canas de assucar, vinhos, bordados, serão por muito tempo intransponíveis montanhas de dificuldade para a acção governativa. A recuperação foi lenta, uma vez que só na década de sessenta se atingiu os valores de 1939. A tendência ascendente manteve-se até ao final dos anos setenta, altura em que entrou de novo em queda. A situação da última década do século foi de crescimento, continuando na nova centúria.

O processo autonómico, a partir de 1976, contribui para uma mudança radical no panorama socioeconómico madeirense em que o vinho e a banana concorrem na produção e exportações. A perda da posição favorável da banana no mercado continental levou à desvalorização em favor do vinho, que assumiu uma posição dominante nas exportações, tornando-se num dos principais fatores de animação da economia da Madeira. A perda de antigos mercados foi compensada com o ressurgimento de outros ou a afirmação de outros como foi o caso do Japão. A proibição do vinho a granel, a partir de 2000, condicionou a evolução dos mercados de destino desta forma de exportação, não se refletiu de forma significativa nas exportações.

Direitos e Impostos

No caso do vinho, a taxa de saída será distinta, a partir do século XVI. Assim, em 1567, temos a primeira referência ao lançamento dos direitos do vinho por saída, no valor de 1% sobre o vinho que se carregasse para fora, ou, como se referia, certa coisa por almude no que se vender. Em 1647, este direito passou para 400 reis a pipa e, em 1669, adicionou-se mais um cruzado, como tributo para as despesas da guerra.

A Junta procedia todos os anos, entre novembro/janeiro, à dedução dos preços correntes da pipa de vinho, estipulando o valor dos direitos de saída que, depois, deveriam ser remetidos ao Erário Régio para aprovação. No aviso referia-se, nomeadamente, os preços correntes da pipa de vinho, o aumento ou diminuição da colheita e o estado do comércio do produto. A aprovação do Erário Régio tardava, obrigando a Junta a aplicar a nova tabela dos direitos com caráter provisório, enquanto não houvesse resolução em contrário, conforme se dizia. Na Alfândega do Funchal, estava montado um complicado sistema administrativo da arrecadação dos direitos.

A não uniformização do vasilhame de embarque do vinho causava graves inconvenientes na Alfandega, aquando da estimação do vinho para serem lançados os direitos. Daqui resultou a necessidade de estabelecer medidas, no sentido de pôr cobro aos inconvenientes. Por edital de 1687, a Junta ordenou que todos os barris e caixões que fossem para bordo dos navios deveriam ser marcados e assinalados.

A partir do século XVII, os direitos cobrados à saída da Alfândega deixaram de ser fixos, passando a ser determinados de acordo com a qualidade, distinguindo-se os vinhos para abastecimento das tripulações, de menor qualidade, o vinho seco, a malvasia, o aguardente e o vinagre. Os direitos eram estabelecidos, de acordo com o valor da pipa de exportação.

No que diz respeito à segunda metade do século XVII, dispomos de alguns dados. No último quartel do século XVII, voltámos a ter informação sobre o valor pago nas exportações do vinho. Na década de setenta, a tendência era para a subida, contrariada em 1779, por dificuldade de escoamento do vinho. A situação mantém-se, na década seguinte, motivada pela grande demanda e consolidação do mercado norte-americano.

A Junta procedia, todos os anos, entre novembro e janeiro, à dedução dos preços correntes da pipa de vinho, estipulando o valor dos direitos de saída que, depois, deveriam ser remetidos ao Erário Régio para aprovação. No aviso, referia-se, nomeadamente, os preços correntes da pipa de vinho, o aumento ou diminuição da colheita e o estado do comércio do produto. A aprovação do Erário Régio tardava, obrigando a Junta a aplicar a nova tabela dos direitos, com caráter provisório, enquanto não houvesse resolução em contrário, dizia-se. Em 15 de setembro de 1798, a nova tabela de direitos foi enviada para aprovação e só a 2 de junho de 1799 mereceu o acordo do Erário. O pedido de 24 de outubro de 1801 teve, a 30 de dezembro, a requerida aprovação. Se a Junta tardasse em enviar o mapa e fizesse assento do novo direito estipulado, sem disso dar conta ao Erário, logo era repreendida, tal como sucedeu em 1792.

Na Alfândega do Funchal, estava montado um complicado sistema administrativo de arrecadação dos direitos. A Junta exercia vigilância e controlo direto dos livros de escrituração adotados, através da solicitação permanente dos mapas de saída do vinho. Em ordem da Coroa ao administrador da Alfândega de 1790, referia-se que, no fim de cada mês, este deveria apresentar uma relação exata do vinho que tivesse embarcado no mês, declarando os nomes de cada navio, do seu capitão, do seu destino e do número de pipas que levava. Em 1824, algo corria mal na escrituração, pois que, em face a uma demanda entre o Juiz da Alfândega e o Comandante da galera inglesa, “Larkins”, acerca da existência, a bordo, de mais de 5 pipas de vinho baldeadas da galera “Isabel Sompson”, se descobriu uma fraude na escrituração do vinho embarcado. O Juiz clamou por uma reformulação dos métodos de escrituração dos livros de registo de exportação, de modo a evitar danos à Fazenda Real. Os estrangeiros e, de modo especial, os ingleses serviam-se de vários subterfúgios para se subtraírem ao pagamento dos direitos. A um deles se referia, em 1779, um informe sobre os direitos do vinho, dizendo-se que compravam o vinho sem preço e que, de imediato, solicitavam ao Juiz da Alfândega a devida autorização ou franquia para a saída dos vinhos, ou, então, abriam a saída sobre a fiança de 4.000 Reis por pipa, valor que ficava depois da avaliação. Perante as desordens que se repetiam de ano para ano, só uma solução seria possível com o estabelecimento do preço de custo invariável, como da pauta, ou seja, a fixação de um direito de saída. A medida de preço fixo havia sido solicitada, em outubro de 1799, pelos comerciantes, numa representação em que reclamavam nova regulamentação, segundo o processo de 1776, no qual o preço fora fixado em 4.200 Reis. A Junta decidiu taxar os direitos, por um período de quatro anos, com a finalidade de, ao fim do período, apresentar conta da necessidade de os aumentar ou diminuir. Os direitos ficaram assim distribuídos: 4.000 Reis para o vinho de embarque, 8.000 Reis para a Malvasia,5.000 Reis para a aguardente, 1.200 Reis para o vinagre.

Por Alvará de 31 de maio de 1800, foi criado um novo imposto que, por Decreto de 6 de setembro de 1800, teve aplicação na Madeira. Os madeirenses, habituados ao antigo sistema, protestaram junto da Junta, em 14 de outubro de 1801. Por provisão de 4 de maio, de 1802, mandou-se aplicar o valor dos direitos do vinho em outros géneros manufaturador estrangeiros, diminuindo-o em uns e acrescentando-o em outros. A Junta, em conta de 22 de junho, refere a provisão, comprometendo-se a averiguar os géneros onde deveria incidir o aumento. A Junta, antes de conhecida a provisão, enviara outra, aludindo a que a diminuição muito facilitava o comércio e animava, em consequência, a agricultura do país. De acordo com representação da Junta de 1815, os direitos de exportação aumentaram, desde 9 de outubro de 1803, em 1.200 Reis por pipa, sendo a soma usada na construção das muralhas das ribeiras. Aqui, referia-se o modo como se regulavam os direitos: Alem d’aqueles impostos estabelecidos pelas sabias Leis de 27 de Junho de 1808, 3 de Junho de 1809, foi maior aumento dos direitos por saída, resultado acontecido de regia provisão de 28 de Setembro de 1808, que tornando arbitrário os preços de 50 rs por cada pipa de vinho seco, 100 rs por cada dita de malvasia, 600 rs por cada dita de aguardente da terra e de 2.000 rs por pipa de vinagre, antes fixo por Decreto de 11 de Agosto de 1802, ate a quantidade 3.700 rs sobre cada uma de vinagre, que se tem cobrado na Alfândega, cuja diferença, por si só, era muito maior do que o produto calculado dos dois impostos consultados.

Em 1817, os comerciantes estavam em desacordo com a provisão de 28 de setembro de 1808, pretendendo um direito fixo de 5.000 Reis por pipa, de acordo com o estipulado em 11 de agosto de 1802. A Junta deu conta, em 20 de junho, do requerimento dos comerciantes, em ofício ao Governador, informando que, no prosseguimento das medidas de diminuição dos direitos do vinho, havia compensado a redução com o aumento, em 10%, da importação de fazendas de luxo. Perante a crise, estabeleceu-se, em 1825, uma redução nos direitos para metade. Em 1832, face à proibição da entrada da aguardente, o Escrivão da Fazenda, J. Eustaquio de Sousa, decidiu onerar os vinhos com os direitos pagos pela aguardente entrada, beneficiando o sogro, que era cobrador da dízima, e negando-se a cumprir a Lei de 28 de novembro, de 1821. Em reunião dos comerciantes, foi decidido manter os direitos sendo o excedente usado na obra de construção do molhe do porto do Funchal. De acordo com a Pauta Geral de 1837, o direito de exportação passou para 4.800 Reis, juntando-se, por Lei de 25 de abril, de 1845, mais 7% e, por Lei de 12 de dezembro, de 1844, os 5% adicionais, assim como 3% para a caixa dos emolumentos, perfazendo um total de 5.536 Reis no vinho exportado para os portos estrangeiros, enquanto, para o continente e colónias, ficava por apenas 2.076 Reis. Uma representação dos deputados da Madeira sobre a extinção dos direitos do vinho, apresentada em Cortes, em 1867, levou à aprovação de uma medida favorável, votada em sessão das Cortes. A pauta regulamentadora de 1850 movimentou os interesses dos madeirenses. Os deputados, em representação às Cortes, pediram a redução dos direitos, sendo secundados pela imprensa.

Os vinhos embarcados, na ilha, com destino aos portos do Reino e colónias, não pagavam direitos ou, quando tal sucedia, era apenas a metade. Os comandantes dos navios, para usufruírem da regalia, deviam declarar o destino, apresentando, ulteriormente, a certidão do desembarque, num prazo de seis meses. Toda e qualquer infração cometida, na mudança do destino, eram punidas com multa de 60 dias de cadeia e 50.000 Reis para a fortificação. Em 1821, os direitos de exportação eram de 2.400 Reis por pipa, quando embarcados para portos nacionais, mediante a apresentação de uma certidão e guia da respetiva Alfândega onde desembarcassem. Em 1822, o negociante Pedro Santana havia afiançado, na Alfândega, a descarga do vinho para o Rio de Janeiro e Lisboa. Terminado o prazo de entrega da prova, foi obrigado a pagar a outra metade dos direitos. O mesmo reclamou da decisão de cobrança, solicitando, em requerimento, a prorrogação do prazo por mais 8 meses. Em 1825, os direitos cifravam-se em metade, abrangendo o Brasil, Reino e Ilhas, mas limitando-se, apenas, às embarcações nacionais ou brasileiras. O vinho que ia de roda a envelhecer durante a passagem na região tropical, no porão das embarcações e voltava, para ser reexportado, estava, igualmente, isento de direitos. O consignatário apenas solicitava à Mesa Grande da Alfândega, crédito ou fiança para embarque. A situação colocou entraves à arrecadação dos direitos reais, pois, como refere a Junta, em Portaria ao Juiz da Alfândega, os vinhos de roda são uma ilusão manifesta e prejudicial aos reais interesses, na cobrança dos direitos em Mesa e mesmo dos créditos, ou fiança, legalmente concedidos. A primeira referência sobre o lançamento dos direitos no vinho, por saída, data de 1567, altura em que foi lançado um direito de 1% sobre o vinho que se carregasse para fora ou, como se referia, certa cousa por almude no que se vender. Em 1647, o direito passou para 400 Reis a pipa e, em 1669, adicionou-se mais um cruzado, como tributo para as despesas da guerra.

Depois, só em 1777, voltamos a ter referência ao imposto, quando, em janeiro, se fez o tabelamento dos direitos para o ano corrente. A partir de então, são assíduas as informações sobre o modo como se deduziam os direitos. A não uniformização do vasilhame de embarque do vinho causava graves inconvenientes na Alfândega, aquando da estimação do vinho, de modo a serem lançados os direitos. Daqui resultou a necessidade de estabelecer medidas no sentido de por cobro aos inconvenientes. A Junta, por edital de 1687, ordenou que todos os barris e caixões que fossem para bordo dos navios deveriam ser marcados e assinalados. Em 1762, o holandês Miguel Noulan carregou 10 pipas de vinho de 30 almudes, sendo considerado, pela Junta, com a medida corrente de 23 almudes. O cônsul inglês e os homens de negócios apresentaram um protesto, notando o engano que experimentavam nos vinhos que compravam, por pipa, pela incerteza da sua medida. Por provisão régia, ordenou-se ao Juiz da Alfândega que levantasse o embargo e mantivesse a medida de 23 almudes, de modo a não afugentar os comerciantes ou embaraçar a saída dos vinhos, de que resultaria grave prejuízo à Fazenda Real. Em 1818, retomou-se a ordem de 1687, ordenando-se que todas as pipas que se embarcassem, desde 1 de Janeiro de 1819, levariam a marca dos galões inteiros, ficando os mesmos despachantes sujeitos a todas as penas de extravio dos reais direitos, além de se lançarem os créditos àqueles que o tivessem, no caso que, de algum modo, se verificasse algum dolo ou malícia. Em abono da medida e da questão surgidas em 1761, é conhecida uma ordem de 1819, da Junta a Alfândega, autorizando os comerciantes a embarcarem vinho, em diferentes vasilhas, contanto que declarassem a totalidade dos almudes. Os guardas da casa do embarque deveriam seguir as recomendações pois, caso contrário, seriam punidos com a suspensão do ofício. A medida representou um incentivo ao dolo da classe mercantil, que procurava todos os meios para escapar aos direitos. Assim o entendeu, em 1824, o Juiz da Alfândega, ao notar uma diferença de 2 almudes de vinho em 18 vasilhas de embarque. Mas a Junta viu nisso um abatimento ocasional, provocado pela viagem para o embarque, ordenando o despacho imediato.

Os vinhos e demais bebidas alcoólicas, quando permitida a entrada, assim como madeiras para a tanoaria pagavam direitos. Para o lançamento dos impostos, procedia-se à avaliação dos produtos, de acordo com o estipulado em pauta. A primeira referência surge em 1803, ordenando-se a cobrança de 10% em madeira, pacas, pregos de ferrar pipa, quarto e quartola. A medida foi confirmada, em 1826, com o cumprimento do parágrafo quinto do Alvará de 4 de junho, de 1825. Os artigos ingleses, mercê das medidas de privilégio, emanadas dos tratados, tinham avaliação separada sendo, em 1811, de apenas 15%. Numa certidão de 1814, temos referência aos direitos deduzidos às mercadorias molháveis, entradas na Alfândega, no ano anterior: Aguardente de cana 4019.945 Reis, Genebra 60.000 Reis, Vinhos estrangeiros 182.472 Reis, Cerveja 910.000 Reis, Licores a 24% 4.320 Reis, Whisky 242.550 Reis, Aguardente a 24%, 27.896.160 Reis. O vinho era ainda onerado através de diversos emolumentos. Desde 1816, temos o encargo de 200 Reis, por cada casco de vinho para o feitor, das provas do vinho exportado e importado. Segundo informação de 1817, estamos perante um donativo voluntário, visto terem-se prestado a isso os negociantes sem que este emolumento ficasse com a natureza daqueles estabelecidos pelo Foral, mas sim como voluntário enquanto os mesmos negociantes o quisessem prestar. Podemos, ainda, adicionar os emolumentos do patrão-mor da ribeira [1784/1798] e outros mais, como nos elucidam os livros da Alfândega [1806/1818]. O peso das imposições que oneravam as exportações de vinho foi, por diversas vezes, apontado como a origem da crise e falta de capacidade concorrencial no mercado externo. Aconteceu assim, no princípio da década de vinte e na de cinquenta, do século XIX. O peso negativo dos impostos voltou a sentir-se, a partir de 1868, com o tributo lançado para amortizar o empréstimo da construção do porto do Funchal. A concorrência dos portos das Canárias fazia-se sentir, provocando o desvio das embarcações em trânsito. A guerra às limitadoras pautas estava na primeira linha de combate de animação do movimento do porto do Funchal. Os réditos arrecadados com a exportação do vinho eram elevados e, durante muito tempo, dominaram o total das exportações. Em 1813, com um embarque de menos de vinte mil pipas de vinho, os lucros da Alfândega foram elevados, representando 89,6% da receita. Passado mais de um século, o vinho perdeu importância mas continuou a pesar na balança das exportações, com 43,2%, perdendo, na economia interna, para a manteiga.

No século XIX, a cobrança dos direitos de exportação estava regulamentada por duas pautas: a geral e a inglesa. Depois, tivemos novas pautas em 1837, 1841, 1856, 1860, 1885 e 1887, que mereceram contestação da sociedade madeirense, por serem inadequadas às condições da ilha. De acordo com a Pauta Geral de 1837, o direito de exportação passou para 4.800 réis, juntando-se, por lei de 25 de abril de 1845, mais 7% e, por lei de 12 de dezembro de 1844, os 5% adicionais e 3% para a caixa dos emolumentos, perfazendo um total de 5.536 réis no vinho exportado para os portos estrangeiros, enquanto, para o continente e colónias, ficava por apenas 2.076 réis. Uma representação dos deputados da Madeira sobre a extinção dos direitos do vinho, apresentada em Cortes em 1867, levou à aprovação de uma medida favorável, votada em sessão das Cortes. A pauta regulamentadora de 1850 movimentou os interesses dos madeirenses. Os deputados, em representação às cortes, pediram a redução dos direitos, sendo secundados pela imprensa. Para Um Vinhateiro Madeirense, a causa da desgraça da ilha estava na pauta e por este modo as nossas finanças piorão progressivamente e levar-se-á ao cabo a nossa desgraça neste vale de lágrimas.

Outra voz expressava-se do seguinte modo: A pauta dificulta a venda e troca dos nossos vinhos; a pauta não deixa procurar novos mercados; a pauta é um obstáculo ao comércio; a pauta favorece o contrabando; a pauta nada aproveita à indústria; a pauta é incompatível com o estado da Madeira porque é contrária e danosa à agricultura que é o primeiro dos interesses materiais, logo é urgente a redução da pauta e direitos moderados “ad valorem”, a exemplo de Espanha, que tem nestes últimos tempos dados grandes passos em Economia Política. Para N. C. Pitta, em The Ocean Fower (1845), a felicidade e prosperidade da Madeira dependia da redução da pauta: Quando tiver lugar a inevitável redução da pauta, a Madeira será uma pequena Inglaterra.

Os vinhos embarcados na ilha, com destino aos portos do Reino e das colónias, não pagavam direitos ou, quando tal sucedia, era apenas a metade. Os comandantes dos navios, para usufruírem da regalia, deviam declarar o destino, apresentando, ulteriormente, a certidão do desembarque, num prazo de seis meses. O consignatário apenas solicitava à Mesa Grande da Alfândega, crédito ou fiança para embarque. A situação colocou entraves à arrecadação dos direitos reais, pois, como refere a Junta, em Portaria ao Juiz da Alfândega, os vinhos de roda são uma ilusão manifesta e prejudicial aos reais interesses, na cobrança dos direitos em Mesa e mesmo dos créditos, ou fiança, legalmente concedidos.

O peso das imposições que oneravam as exportações de vinho foi, por diversas vezes, apontado como a origem da crise e falta de capacidade concorrencial no mercado externo. Aconteceu assim, no princípio da década de vinte e na de cinquenta, do século XIX.

O peso negativo dos impostos voltou a sentir-se, a partir de 1868, com o tributo lançado para amortizar o empréstimo da construção do porto do Funchal. A concorrência dos portos das Canárias fazia-se sentir, provocando o desvio das embarcações em trânsito. A guerra às limitadoras pautas estava na primeira linha de combate de animação do movimento do porto do Funchal. Os réditos arrecadados com a exportação do vinho eram elevados e, durante muito tempo, dominaram o total das exportações.

Um dos aspetos que chama a atenção quanto à tributação do vinho é a diferença que estabelece nos valores da sua cobrança entre a ilha e o continente. Desta injustiça, faz eco Manuel José Vieira, Discurso pronunciado na Câmara dos Senhores Deputados na sessão de 13 de Fevereiro de 1884, ao referir que a pipa de vinho de 418 litros de medida de capacidade pagava à saída 4$600rs, enquanto a do Porto, com 534 litros de capacidade, ficava-se apenas por 2$000rs. AV/2014

Ver. Estufas, Vinho, imposição, Comércio, Mercados

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Alberto Vieira

(atualizado a 23.08.2016)

Conteúdos Complementares:

Álbum BD “O Vinho que Salvou a Revolução Americana”