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silva, rui

Poeta madeirense que publicou os seus textos em vários periódicos da região, mas também em alguma imprensa brasileira. Era um escritor romântico, bucólico, sensível, com um sentimentalismo original e até estranho. Os seus versos, com valor poético, revelam espontaneidade e rigor ao nível da métrica e versam temas filosóficos e amorosos. Profissionalmente, foi desenhador de bordados numa firma funchalense. Faleceu quando se preparava para publicar uma coletânea de textos poéticos. Palavras-chave: poesia; sentimentalismo; filosofia; romantismo; bucolismo.   De nome completo Rui Eleutério (ou Eleutero) da Silva, foi um poeta madeirense de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX. Nasceu no Funchal, a 20 de fevereiro de 1884. Começou a singrar na vida literária quando escreveu os primeiros versos, sensivelmente na mesma época que Jaime Câmara. As suas poesias foram publicadas em jornais e almanaques da cidade, como o Diário Popular, Heraldo da Madeira, Diário da Madeira, Diário de Notícias, Novo Almanaque de Lembranças Madeirenses, Alma Académica e A Cruz, mas também há registo de publicações na imprensa brasileira, o que demonstra como foi um apreciado cultor de poesia. De acordo com as observações do Visconde do Porto da Cruz (PORTO DA CRUZ, 1953, III, 87), Rui Silva era um poeta romântico, bucólico, sensível e com um sentimentalismo imbuído de uma sensibilidade original que até apelida de estranha, própria de um poeta antigo, cujos versos revelam valor poético. Era um autor natural, espontâneo e formalmente rigoroso ao nível da métrica que se debruçava essencialmente sobre temas filosóficos e amorosos, primando pela originalidade. De facto, ao lermos uma das suas “Trovas” notamos a influência da lírica medieval e da vertente tradicional camoniana, até porque repete cada um dos quatro versos do mote (“Maria sacode a saia. / Maria levanta o braço, / Maria dá-me um beijinho, / Maria dá-me um abraço”) no primeiro verso de cada uma das glosas (cf. MARINO, 1959, 350). Esta poesia de temática amorosa apresenta quadras ao gosto popular, manifestando alegria, simplicidade, jovialidade e um tom humorístico, bem diferente dos lamentos, do sofrimento de amor e da infelicidade de outros poetas apaixonados. O “eu” poético chega ao ponto de advertir “Maria”, conduzindo-a até ao seu amor: “Maria dá-me um abraço, / Estreita teu peito ao meu; / Vem comigo e não te prendas / A quem nunca te mereceu…” (Id., Ibid.) Profissionalmente, Rui Silva foi funcionário da firma Farra & Marghab, na qual desempenhava o cargo de debuxador de bordados da Madeira, isto é, traçava ou desenhava esboços. Em 1930, foi erigido na Deserta Grande, por sua iniciativa, um pequeno padrão dedicado a N.ª S.ª da Paz. Faleceu repentinamente no Funchal, no dia 26 de agosto de 1931, portanto com 47 anos, vítima de uma angina de peito, quando preparava a publicação de uma coletânea com as suas melhores poesias.   João Carlos Costa (atualizado  a 03.02.2017)

Literatura

silva, josé marmelo e

José Marmelo e Silva nasceu no Paul, concelho da Covilhã, a 7 de maio de 1911, tendo falecido em Espinho, a 11 de outubro de 1991. Frequentou o ensino secundário na Covilhã e em Castelo Branco, e o ensino superior em Coimbra e Lisboa, onde se licenciou em Filologia Clássica, com a dissertação Um Sonho de Paz Bimilenário: a Poesia de Virgílio. Fez serviço militar em Mafra, uma experiência com ecos em Depoimento, e na Madeira, vivência que ressoará em Desnudez Uivante. Regressa à Madeira já casado para, com a esposa, lecionar no Colégio Académico do Funchal, no ano letivo de 1946-1947. No ambiente insular, encontrou inspiração para escrever os Poemas da Ilha do Porto Santo, que publica na Seara Nova, na década de 1960. Foi, porém, em Espinho que exerceu funções docentes a maior parte do tempo, dando o seu nome à biblioteca local. De 1932 a 1983, publicou, com várias reedições, diversos livros, deixando inéditos os Memoriais, de carácter autobiográfico: O Homem que Abjurou a Sociedade – Crónicas do Amor e do Tempo, contos (Renegado); a novela Sedução; Depoimento, contos; O Sonho e a Aventura, narrativas; a novela Adolescente, título da 1.ª edição, alterado para Adolescente Agrilhoado na 2.ª edição aumentada; O Ser e o Ter Seguido de Anquilose, contos (a primeira versão de O Ser e o Ter é O Conto de João Baião, que teve uma única edição); o romance Desnudez Uivante. Foi agraciado, em 1987, com a medalha de ouro da cidade de Espinho e, em 1988, com o grau de Comendador da Ordem de Mérito, pelo então Presidente da República, Mário Soares. Obras de José Marmelo Silva: Poemas da Ilha do Porto Santo; O Homem que Abjurou a Sociedade – Crónicas do Amor e do Tempo (1932); Sedução (1937); Depoimento (1939); O Sonho e a Aventura (1943); Adolescente (1948) Adolescente Agrilhoado (1958); O Ser e o Ter seguido de Anquilose (1968); Desnudez Uivante (1983).   António Moniz (atualizado a 03.02.2017)

Literatura Madeira Cultural

psicologia na educação especial

Em 1978, na sequência da política de regionalização dos serviços, foi criado o Centro Regional de Educação Especial (CREE), no qual foram integrados os estabelecimentos de ensino para deficientes auditivos, visuais e intelectuais. Entre 1965 e 1978, o apoio a crianças e jovens que frequentavam os estabelecimentos de ensino para crianças e jovens com deficiências da audição e da fala, intelectual e visual funcionava na dependência de um serviço nacional, o Instituto de Assistência aos Menores, posteriormente integrado no Instituto da Família e Ação Social. Nessa altura, as crianças e jovens deficientes eram apoiados, na área da psicologia, pelo Centro de Observação e Orientação Médico Pedagógico, cujos técnicos se deslocavam à Região Autónoma da Madeira (RAM), sob a orientação do Dr. Bairrão Ruivo. Foi em 1980 que o CREE contou com o primeiro psicólogo nos seus quadros. A 7 de abril do ano seguinte, foi criada a Direção Regional de Educação Especial (DREE), que imprimiu uma nova dinâmica no apoio às crianças e jovens com deficiência da Região. Na sua orgânica, integrou, pela primeira vez, um Serviço de Psicologia, com a função de “apoiar os Serviços Técnicos de Educação, incumbindo-lhe a observação, o diagnóstico e a orientação psicopedagógica dos educandos e futuros utentes, em colaboração com outras valências e serviços”. Em 1984, com a reestruturação do Governo da RAM, a DREE, que até então constituía um departamento da Secretaria Regional dos Assuntos Sociais, foi integrada na Secretaria Regional de Educação, privilegiando-se, nesta nova fase, a interação entre todos os graus de ensino e estabelecimentos de ensino regular. A designação “Direção Regional de Educação Especial e Reabilitação” (DREER) surgiu em 1997, no decreto regulamentar regional n.º 13-A/97, de 15 de julho, estabelecendo a criação e descentralização de vários serviços de atendimento às crianças e jovens com necessidades educativas especiais. A necessidade de integrar psicólogos nas equipas multidisciplinares que entretanto se foram constituindo na DREER tornou-se cada vez mais notória na déc. de 90, período ao longo do qual o número de psicólogos admitidos duplicou. Aos poucos, os psicólogos foram-se afirmando como um grupo profissional indispensável na resposta psicopedagógica às crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Com a alteração da estrutura orgânica da Direção Regional de Educação Especial e Reabilitação, aprovada pelo despacho n.º 103/2005, é criada, em setembro de 2005, a Divisão de Psicologia, que em novembro de 2008 passa a designar-se Divisão de Psicologia e Orientação Vocacional (DPOV), dirigida por um psicólogo, chefe de divisão. A existência desta divisão na orgânica da DREER possibilitou uma forte coesão e identidade socioprofissional, bem como uma resposta consistente e atualizada em termos técnico-científicos, tornando-se uma referência para outros psicólogos da RAM. Com cerca de 40 psicólogos, alguns dos quais a exercerem funções de coordenação e direção, a DPOV tinha por missão “garantir a intervenção psicológica junto dos alunos / utentes dos diferentes serviços técnicos de educação e de reabilitação profissional e programas ocupacionais, em colaboração com a família e comunidade, contribuindo para o seu equilíbrio sócio emocional”. A sua atuação regia-se pelos princípios e orientações subjacentes ao Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), de onde se destacavam valores como respeito pela dignidade e direitos da pessoa, competência, responsabilidade e integridade. A DPOV apresentavaas seguintes atribuições e competências: “a) Observar, diagnosticar e orientar os educandos e futuros utentes com vista à adaptação ou reeducação escolar, profissional e social, consoante as características individuais, disfunções ou perturbações; b) Prestar apoio psicoterapêutico, nos casos em que apresentem perturbações emocionais e comportamentais resultantes de deficiência ou de sobredotação; c) Acompanhar e supervisionar a intervenção protagonizada pelos elementos desta área afetos aos diferentes serviços da DREER”. A intervenção do psicólogo da DPOV era muito versátil pela variedade de áreas, faixas etárias e serviços que apoiava. O psicólogo intervinha desde a idade precoce (0-6 anos), junto de alunos com necessidades educativas especiais a frequentar os 1.º, 2.º e 3.º ciclos até à idade jovem e adulta; a sua atuação abrangia o domínio sensorial (audição e visão), o domínio cognitivo e da aprendizagem (deficiência intelectual, dificuldades intelectuais, dificuldades de aprendizagem específicas e perturbação da linguagem e da fala), o domínio motor (perturbações das aptidões motoras e problemas motores/neuromotores), o domínio cognitivo, motor e/ou sensorial (multideficiência), o domínio da comunicação, relação e afetivo-emocional (perturbação da relação e comunicação, perturbações do espectro do autismo e perturbações emocionais ou comportamentais graves) e outras condições não enquadradas nos domínios anteriores, tais como atraso global de desenvolvimento, défice de atenção com ou sem hiperatividade e sobredotação. O psicólogo tinha uma participação ativa nas equipas multidisciplinares dos vários serviços técnicos de educação especial e reabilitação (Serviços Técnicos de Educação, Centros de Apoio Psicopedagógicos e Centros de Atividade Ocupacionais, Serviço Técnico de Integração e Formação Profissional, entre outros) e trabalhava não só com o aluno/utente, mas também com os pais/tutores, professores e demais agentes comunitários, em prol do desenvolvimento educativo, socioprofissional e pessoal. Deste modo, contribuía para o desenvolvimento da própria instituição escolar ou ocupacional e da comunidade. Na avaliação multidisciplinar, o psicólogo assume um papel importante na elegibilidade de crianças, jovens e adultos com necessidades especiais. A sua atuação, pautada por uma intervenção mais próxima da abordagem ecológica e de respostas inclusivas, centradas no eixo preventivo, estava orientada no sentido de promover as potencialidades das crianças e jovens com necessidades especiais, procurando minimizar as suas diferenças e maximizar as suas capacidades, facilitando, assim, a sua inserção nos vários contextos e promovendo, em alguns casos, a sua transição para a vida ativa. Muitas vezes, o recurso ao apoio psicológico visava promover o processo de aprendizagem e integração social do aluno, em virtude de, em muitos casos, às necessidades especiais estarem associados problemas emocionais ou, até, perturbações psicopatológicas, os quais exponenciam as dificuldades de aprendizagem e integração. A intervenção do psicólogo contemplava, por vezes, uma vertente clínica/terapêutica. O psicólogo da DREER desempenhava, igualmente, funções de formação de novos psicólogos, nomeadamente através da orientação de estágios profissionais promovidos pela OPP e pelo Instituto de Emprego da Madeira, e colaboração na orientação de estágios curriculares dos finalistas do Mestrado em Psicologia da Educação da Universidade da Madeira; da colaboração na supervisão clínica e educacional dos estágios; da participação no ensino da unidade curricular de Psicologia da Educação, da licenciatura em Psicologia da Universidade da Madeira – a saber, através da intervenção em painéis em que era abordado o papel do psicólogo nos diferentes contextos educativos e da receção de alunos para contacto direto com a praxis do psicólogo na educação especial. A prática do psicólogo contemplava ainda atividades de pesquisa e investigação e a utilização dos respetivos resultados na prática educacional. Bibliog.: AGUIAR, E., “História do apoio à deficiência na RAM”, Educação Especial, n.º 30, 1985, pp. 11-25; dec. reg. n.º 13/81, de 23 de junho; dec. reg. n.º 12/84, de 22 de novembro; dec. reg. regional n.º 13-A/97, de 15 de julho; desp. n.º 5/78, de 5 de abril; desp. n.º 103/2005. Líria Maria Jardim Fernandes Luísa Valentina Teixeira de Mendonça Correia (atualizado a 03.02.2017)

Ciências da Saúde Educação História da Educação

miranda, joão da costa

Prosador e poeta, nasceu na freguesia de Machico, Funchal, a 28 de setembro de 1897 e faleceu a 20 de março de 1964, com 66 anos. Era filho de João da Costa Miranda e de Maria Leocádia da Costa, e tinha dois irmãos. Casou-se com Maria Elisa Freitas Costa Miranda, com quem teve quatro filhos: João Aurélio de Freitas Costa Miranda, Bela Clara Ramos Costa Miranda, Gilda Maria Miranda Pinto da Silva, casada com Arnaldo Pinto da Silva, e Maria das Mercês de Jesus Costa Miranda, que se entregou à vida religiosa em Coimbra. A partir de 1908, estudou no Seminário Diocesano do Funchal, onde cursou os preparatórios e Filosofia. Mais tarde, mudou-se para Coimbra, onde estudou Teologia no Seminário dos Olivais, curso que terminou em 1919. Esperou pela ordenação de presbítero, mas, tendo sentido que a sua vocação não era aquela, regressou à vida civil. Assim, voltou, em 1920, ao liceu do Funchal, onde demorou apenas alguns meses a concluir o curso liceal. Os registos indicam que foi sempre um aluno brilhante, não tendo perdido qualquer ano. Mais tarde, enveredou pela atividade comercial e industrial, na qual se manteve durante um longo período. Em 1939, passou uma temporada em Bedford, nos Estados Unidos da América. De regresso à Madeira, foi eleito, a 14 de dezembro de 1955, membro da mesa da Santa Casa da Misericórdia do Funchal para o triénio 1956-1958. Interessava-se bastante pela literatura, tendo sido poeta e prosador com colaborações no Diário da Madeira, no Diário de Notícias, n’O Imparcial, n’O Jornal e na revista Esperança. No Diário da Madeira, publicou, em março e abril de 1918, dois sonetos exemplificativos da sua produção, “O Teu Retrato” e “Impossível”. Este último foi dedicado a António Pestana, contendo, a abrir, uma epígrafe de Gomes Leal. Ambos os poemas estão transcritos na Musa Insular, de Luís Marino. É de salientar que assinou alguns dos seus textos como Joam da Costa Miranda. Consta que terá deixado um livro de poemas inédito, com o título O Livro das Ilusões.   António José Borges (atualizado a 05.02.2017)

Literatura Personalidades

georgeida

Texto épico em verso, escrito por Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, e publicado em Londres, no ano de 1819. A obra, dedicada ao comerciante inglês Robert Page, relata as três invasões francesas a Portugal, que ocorreram entre 1807 e 1810, por ordem de Napoleão e sob o comando dos generais Junot, Soult e Massena. O autor elogia e engrandece o Monarca inglês George III por ter enviado as suas tropas em auxílio de Portugal, o que permitiu a vitória anglo-lusa e a derrota francesa. Em simultâneo, critica, de forma veemente, o caráter ambicioso de Napoleão, que provocou muita destruição, morte e guerra por toda a Península Ibérica. Palavras-chave: epopeia; Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos; George III; invasões francesas; Napoleão; Portugal. Da autoria de Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, Georgeida é um extenso texto épico em verso, publicado em Londres em 1819 e dedicado a Robert Page, comerciante britânico residente na Madeira. Esta narrativa é um relato das três invasões francesas a Portugal ocorridas no final da década anterior à da data de publicação da obra, constituindo um panegírico à ação de George III, monarca inglês que dá título à obra e que auxiliou, com o envio de tropas britânicas, a defesa de Portugal. É, em simultâneo, um feroz ataque a Napoleão e à sua tentativa de dominar o território luso e de ter a hegemonia na Europa. A obra inicia-se com uma dedicatória a Robert Page que, no entender do autor, foi o “Novo Mecenas” (VASCONCELOS, 1819, 2), um amador das belas artes, uma “alma benfazeja” e de nobres sentimentos, uma “poderosa mão beneficente” (Id., Ibid., 1) que financiou a publicação destes versos e, assim, permitiu retirá-los do esquecimento do tempo e do silêncio a que seriam votados se permanecessem inéditos. Confessando-se feliz e grato ao seu mecenas, Medina e Vasconcelos não deixa igualmente de louvar D. Fr. Joaquim de Menezes Ataíde, seu protetor, bispo de Meliapor e vigário apostólico do bispado do Funchal. Segue-se um prólogo, no qual o autor se propõe cantar George III, “um dos mais Virtuosos Monarcas do Universo” (Id., Ibid., 4), sem se atemorizar com a grandeza do assunto. O autor esclarece que redigiu a obra em 1811, a partir de pesquisas em gazetas e periódicos, e reconhece que o seu texto contém imperfeições, pelas quais se desculpa, talvez por não ter feito a pesquisa mais correta, considerando ainda que a poesia épica o fez adornar o seu canto. Traça, em linhas gerais, os limites temporais da ação (desde a retirada da família real para o Brasil em 1807 até à expulsão definitiva dos Franceses em 1810) e reforça os seus propósitos: imortalizar as ações de George III, enaltecer as três grandes nações aliadas (Portugal, Espanha e Inglaterra) na luta contra as Invasões Francesas e denegrir Napoleão, a quem apelida de “o Monstro” (Id., Ibid., 5). Depois de inserir um soneto dirigido ao amigo Anastácio Bettencourt Moniz (médico muito distinto e literato que gozava de prestígio entre os contemporâneos, pai do conselheiro Nicolau Anastácio) e respetiva réplica, Medina e Vasconcelos dá início à epopeia dividida em dez cantos (imitando Camões, em Os Lusíadas), sendo curioso verificar que cada um deles contém um argumento, i.e., uma espécie de sinopse, tal como se encontra no início de cada capítulo de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e.g.. No canto I, à boa maneira de Eneida e de Os Lusíadas, começa por enunciar, numa proposição, “As Armas e o Monarca Soberano / Por ínclitas Ações Famigeradas / Ouso afoito cantar…” (Id., Ibid., 8). Invoca a Verdade para o guiar na narração dos factos históricos e dedica a epopeia a George III. Inicia a narração com a exposição dos projetos de Napoleão de invadir Portugal, movido pela inveja do Monarca inglês, que dominava os mares. O Imperador encarrega Junot de aprisionar a família real lusa ou, em alternativa, espalhar a destruição pelo país. Honrado e leal, Junot parte, percorre Espanha à frente do exército e aproxima-se rapidamente da fronteira portuguesa. Tal como os seres mitológicos na epopeia camoniana, algumas entidades abstratas tomam parte na querela: a Vanglória protege Napoleão, enquanto a Providência e a Justiça auxiliam as forças aliadas. Será esta última que surge em sonhos a George e o convence a defender Portugal dos Franceses, anunciando um futuro glorioso para Inglaterra se frustrar os intentos de Napoleão. O canto II relata o modo como o Rei inglês convoca o Parlamento e o persuade a apoiar a sua investida contra Napoleão e seus ideais destrutivos e, em simultâneo, a socorrer Portugal, a fim de evitar um futuro trágico. Num ápice, a Armada britânica chega ao Tejo e, em audiência com o ministro britânico em Lisboa, o regente D. João VI comunica a decisão de fugir do país, instalar a corte no Brasil e aí formar um novo império, salvando Portugal de França e entregando a defesa do reino à Armada britânica. A partida das naus para o Brasil é descrita no canto III, perante a dor da população, num episódio que faz recordar as despedidas em Belém em Os Lusíadas. D. João VI dirige-se ao povo num discurso emocionado, e aquele, apesar do desgosto e das dúvidas quanto ao futuro, aclama e obedece ao príncipe regente, sem ousar criticá-lo. O próprio Tejo, personificado, se despede da família real e engrandece o Monarca inglês amigo, mas é castigado por Neptuno por ter saído dos seus limites, sendo socorrido pelas Tágides. Vingando-se dos Portugueses e do Tejo, Neptuno lança-lhes uma tempestade, tal como no episódio marítimo de Os Lusíadas, mas a Providência, qual Vénus e Tétis, socorre os Portugueses, cessando os ventos e acalmando os mares. Já em território luso, Junot inicia o seu plano, obrigando os Portugueses a pagar pesados impostos, perante a indignação da Religião. A partir do canto IV, começam os abundantes episódios bélicos da obra. O autor relata os momentos de insurreição de diversas terras portuguesas, nomeadamente do Porto, de cidades e vilas de Trás-os-Montes (como Bragança), do Algarve e do Alentejo, que exaltavam o príncipe regente e se opunham à opressão de Junot, que entretanto já devastara templos e causara mortes. George auxilia Portugal, enviando tropas e generais, entre os quais se destaca Wellesley. Enfrentando os Franceses com armas e com o apoio dos Ingleses e dos Espanhóis que se rebelaram, os Portugueses vencem as batalhas de Roliça e do Vimeiro, ao ponto de os Franceses proporem tréguas (assinadas na Convenção de Sintra) e Junot se retirar de Portugal. Tinha terminado a primeira invasão francesa. O canto V, dá início à segunda invasão, com os planos de nova investida de Napoleão, incitado pela Vanglória. O Francês incumbe Soult de chefiar o exército gaulês e conquistar Portugal “a ferro e fogo” (Id., Ibid., 83). Com o general francês a caminho, a Regência, entidade abstrata, exorta à valentia dos Portugueses, apelando aos valores românticos que devem defender (pátria, religião, Rei e liberdade). Madrid rende-se e acaba por capitular perante a força do exército francês, apesar dos esforços da Junta Central para tentar libertar a cidade. O canto seguinte narra os confrontos bélicos entre Ingleses e Franceses em Espanha, saldando-se pela vitória dos primeiros, comandados por John Moore. Furioso com a derrota, Soult dirige-se para Portugal e aí enfrenta a oposição do general Silveira em Trás-os-Montes, em particular na defesa de Chaves e de outras terras junto ao Tâmega. Contudo, Soult conquista Braga e o Porto, mas George envia Wellesley em auxílio destas cidades. No canto VII, assiste-se à chegada das tropas inglesas a Portugal, comandadas por Wellesley, que marchou a partir de Coimbra para expulsar os Franceses do Porto. Perante a vasta destruição de aldeias e de monumentos e a morte de muitos Portugueses, os Ingleses contra-atacam e, através da sua estratégia militar, reconquistam o Porto, libertando a cidade do jugo francês, e recuperam outras terras no Minho e em Trás-os-Montes. Após muitas lutas sangrentas, o exército anglo-luso expulsa as tropas francesas de Portugal, mas seguem-se outras batalhas em Espanha, onde os Gauleses cometiam muitos saques. Todo o canto VIII, constitui um relato do auxílio que as forças anglo-lusas prestaram aos Espanhóis contra Napoleão. Após muitos avanços e recuos de parte a parte, batalhas ferozes (como as de Toledo e Talavera), conversações e estratégias militares, o exército aliado, comandado por Wellesley, consegue afugentar as tropas inimigas, as quais recuam deixando muitos cadáveres no campo de batalha e sofrendo inúmeras derrotas. O canto IX dá conta da terceira e última investida do furioso Napoleão após a humilhação sofrida, encontrando-se novamente protegido pela Vanglória. Confia a Massena uma nova invasão e um novo plano: unir-se, com o seu exército grandioso, aos exércitos que se encontram ainda em Espanha e dirigir-se para Portugal, invadindo as suas províncias e destruindo vilas e cidades. Massena parte e rapidamente conquista Cidade Rodrigo e Évora, mas os Portugueses alcançam feitos louváveis, o que enfurece Napoleão. Massena avança sobre as fronteiras e conquista com sucesso a praça de Almeida e outras terras perante o desânimo luso. Mas as suas vitórias são efémeras, pois sofre uma estrondosa derrota na batalha do Buçaco, às mãos dos generais ingleses Wellington e Beresford. Por fim, no canto X, o narrador descreve os planos finais de Massena para conquistar Lisboa, enquanto as tropas de Wellington recuam estrategicamente para depois encurralar os inimigos. Preso num labirinto, Massena assiste à doença, à fome e à deserção das suas tropas e começa a blasfemar contra Deus, perante a indignação do narrador. Os exércitos gauleses sofrem nova derrota junto ao rio Soure e são expulsos de outras zonas do país, não sem deixar um rasto de destruição como forma de vingança. O próprio Massena foge durante a batalha do Sabugal, sendo secundado pelo seu exército, o que será um motivo de desonra e vergonha para o general. Também em Espanha o exército anglo-castelhano expulsa os Franceses e, em França, Napoleão vocifera contra a Vanglória devido às derrotas sofridas, perdendo o seu apoio e proteção. Após a vitória final das nações aliadas, o autor, nas últimas páginas de Georgeida, tece ferozes reflexões e opiniões pessoais, maldizendo a desmedida ambição de Napoleão, a sua avareza e crueldade, caracterizando-o como cego e inumano, homem pior que Nero e prevendo a sua queda e punição futuras. Até imagina o dia do Juízo Final, no qual o Imperador prestará contas a Deus e receberá a sentença de habitar os “negros abismos”. Imagina que Napoleão se arrependerá, mas tardiamente, não havendo perdão possível para uma “alma ingrata” a Deus, “sempre escrava / Da ambição, da vanglória e do capricho” (idem, 184), uma alma “ingrata, criminosa, torpe”, que ditou leis injustas aos homens a partir de França para os enredar no labirinto das suas “vãs paixões desenfreadas” (Id., Ibid., 184-185). Já em cantos anteriores previra a destruição dos projetos de Napoleão, um “monstro em França” (Id., Ibid., 116), que apenas pretendeu devorar a humanidade. Às críticas, seguem-se os elogios finais a George, que praticou a justiça, esmagou o vício, preservou a virtude e a inocência, foi filantropo, esteve sempre pronto para ajudar Portugal em prol da razão e da justiça, protegeu os seus vassalos e valorizou a arte e as ciências. Em momentos anteriores da narrativa, o autor já tentara imortalizar as proezas notáveis de muitos heróis sob o comando deste Monarca inglês, prevendo que os seus sucessos ecoariam pelo mundo e seriam invejados. Ao engrandecer o Rei, enaltece também a nação britânica por ter auxiliado Portugal, mostrando a sua constância, lealdade, honra e filantropia. Agradece igualmente à Providência, que protegeu Portugal e guiou os caminhos do Monarca inglês, assim como aos guerreiros britânicos e portugueses “que por suas ações, suas proezas, / Sendo humanos, divinos se tornarão” (Id., Ibid., 188). O autor exalta o príncipe regente D. João VI e, de um modo geral, a valentia dos guerreiros ingleses, portugueses e espanhóis, mitificando-os e elevando-os a uma categoria quase divina e semi-imortal. Termina Georgeida exaltando a felicidade de um Portugal em paz, com a ajuda de Deus. É curioso verificar que, ao longo de toda a obra, Medina e Vasconcelos introduz diversas notas de rodapé laterais explicativas das suas opções metodológicas e ideológicas e das expressões utilizadas. Justifica, por exemplo, o elogio a um herói vivo, quando os cânones clássicos “obrigam” a que o herói épico já esteja morto (George é o maior dos heróis mortais vivos que serve de exemplo aos vindouros). Não se coíbe, nas referidas notas, de criticar Napoleão, embora não tanto como desejaria, para manter ainda uma certa imparcialidade. Porém, a partir de finais do canto V e com o avolumar das atrocidades que narra, promete não mais se conter nas críticas ao Francês. Para poupar o leitor, rejeita relatar todos os horrores da guerra que pesquisou e mantém sempre, nas referidas notas, uma tentativa de aproximação ao rigor factual, com referências a datas e validação das fontes consultadas. Em suma, o autor quis construir uma narrativa épica de acordo com os preceitos clássicos, não só ao nível da estrutura externa, como da interna (partes constituintes, mitificação do herói, episódios bélicos, mitológicos e históricos, reflexões pessoais em final de canto), inserindo igualmente valores românticos próprios da época em que viveu. No entanto, como observa Inocêncio Francisco da Silva, “Medina e Vasconcelos, tanto em Georgeida como em Zargueida, parece não ter tido o talento suficiente para a empresa épica e, por isso, os dois poemas são apenas medíocres, se bem que não faltem episódios agradáveis à leitura e que não deslustram a musa” (PORTO DA CRUZ, 1951, II, 6-7).   João Carlos Costa (atualizado a 01.02.2017)

Literatura

fernandes, olímpia pio

(Funchal, 1830-?, 1890) Escritora, colaborou em vários jornais da imprensa regional e em revistas literárias do continente. Sob o pseudónimo César Perdigão, escreveu, em 1877, um drama intitulado Alda ou Filha do Mar que foi representado em peça no teatro Esperança, no Funchal. As cenas fundamentais desta composição foram publicadas posteriormente no Diário de Notícias do Funchal. Palavras-chave: literatura; imprensa periódica; teatro. Nasceu no Funchal, em 1830, e faleceu em local desconhecido, na déc. de 1890. São escassas as informações biográficas sobre esta escritora madeirense. Sabe-se que foi professora e que integrou a mesa de assembleia da Associação de Proteção e Instrução do Sexo Feminino Funchalense, presidida por João da Câmara Leme, conde do Canavial. Cooperou com a Sociedade de Concertos Funchalense e terá vivido no Porto, onde foi professora do ensino primário. Colaborou em vários jornais da imprensa regional e em revistas literárias do continente, e escreveu, em 1877, um drama intitulado Alda ou Filha do Mar, que foi representado, em maio do mesmo ano, no Teatro Esperança do Funchal, tendo recebido os maiores aplausos da assistência. As cenas fundamentais deste drama foram publicadas posteriormente num jornal do Funchal. Possuía uma vasta cultura artística e gozava de prestígio nos meios intelectuais da sua época, tanto no Funchal como em Lisboa. Dedicou-se à literatura e consta que os seus escritos tiveram uma boa receção junto dos leitores. Recebia rasgados elogios, entre os quais um de uma leitora, cuja identidade não é referida, que está transcrito no Elucidário Madeirense, na pág. 29 do vol. II: “Tenho lido com interesse todas as outras produções da distinta escritora, e ou eu estarei muito enganada, ou s. ex.ª há de ocupar, ainda um dia, um dos primeiros lugares entre as senhoras que cultivam as letras”. Olímpia Pio Fernandes manteve correspondência com Joana de Castelbranco e Mariana Xavier da Silva, entre outras escritoras e escritores madeirenses. Publicou textos poéticos, dramáticos e contos na imprensa periódica funchalense, sob o pseudónimo de César Ortigão, especialmente em O Direito e no Diário de Notícias do Funchal, entre outros jornais. Nestas publicações, e.g., foi autora de: “Uma simples narrativa” (DN, 03 dez. 1876); “Heroísmo” (DN, 18 jan. 1877); “A mulher” (DN, 04 jan. 1877); “Scenas campestres: o despertar na cabana” (DN, 29 maio 1877); “A esperança” (DN, 29 jun. 1877); “À ex.ma snr.a D. Marianna S. F.” (DN, 01 jul. 1877); “Maria” (DN, 11 set. 1877); “A criança” (DN, 23 fev. 1877). Tendo-se tornado uma madeirense ilustre, passou a residir fora da Ilha; porém, apesar de até então ter cultivado na Madeira as letras com brilho e com justificada reputação, não há conhecimento sobre outros escritos desta autora. Obras de Olímpia Pio Fernandes: Alda ou Filha do Mar (1877); “Uma simples narrativa” (1876); “Heroísmo” (1877); “A mulher” (1877); “Scenas campestres: o despertar na cabana” (1877); “A esperança” (1877); “À ex.ma snr.a D. Marianna S. F.” (1877); “Maria” (1877); “A criança” (1877).   António José Borges (atualizado a 23.01.2017)

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