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Rabino, impressor, diplomata e autor de um relevante conjunto de obras em torno da exegese dos textos sagrados hebraicos, Menasseh Ben Israel, nascido Manoel Dias Soeiro, em 1604, descendia de uma família de cristãos-novos portugueses. O seu pai, Joseph Ben Israel, converso ao judaísmo uma vez estabelecida a família em Amesterdão, foi por várias vezes preso pelo Tribunal do Santo Ofício. Juntamente com a mulher, Rachel Soeiro, Joseph terá conseguido escapar secretamente às malhas inquisitoriais, viajando de Portugal até à cidade portuária francesa de La Rochelle, de onde, na companhia dos filhos, partiu para a Holanda. As origens portuguesas da família parecem, pois, indiscutíveis. Porém, diferentes fontes, da autoria de Menasseh, dão conta de uma divergência quanto ao seu local de nascimento. Com efeito, no seu registo de casamento, datado de 1623, Menasseh Ben Israel declarava que procedia de La Rochelle. Já em Orígen de los Americanos […] (1650), chama “pátria” a Lisboa (ISRAEL, 1881, 97). Cecil Roth, divulgador da hipótese de que o autor terá nascido na ilha da Madeira, na biografia que lhe dedica, A Life of Menasseh Ben Israel: Rabbi, Printer, and Diplomat (1945), chama a atenção para o facto de Ben Israel, na versão hebraica da referida obra, se referir a Lisboa como cidade-natal do seu pai, em passagem correspondente. Além disso, um documento da Inquisição publicado por Maximiano Lemos, em 1909, apresenta uma chave quanto à sua proveniência madeirense. Atente-se, pois, no depoimento de Duarte Guterres Estoque, datado de 14 de novembro de 1639, presente no documento em causa, o Caderno 19 da Inquisição de Lisboa, fólio 21: “Disse mais que haveria oito ou nove anos pouco mais ou menos na dita cidade de Amesterdão na sinagoga dos judeus viu ele denunciante a um cristão-novo o qual estava na dita sinagoga com uma toalha branca sinal com que costumam estar os judeus na dita sinagoga e que falando com o dito judeu português lhe disse que se chamava Manoel Dias Soeiro e que era natural da ilha da Madeira e depois soubera de outras pessoas que o dito cristão-novo se chamava do dito nome e que era natural da dita ilha, o qual em hebraico se chamava na dita cidade Menasseh Ben Israel e que era público rabino e professor da lei de Moisés o qual disse a ele declarante que tinha mandados dois caixões de livros que tinha composto a Espanha um caixão e ao Brasil outro e que o livro se intitula Reconciliações de la Sagrada Escritura” (LEMOS, 1909, 361). Partindo desta referência, Roth delineia o percurso da família Dias-Soeiro da seguinte forma: partem de Lisboa para se refugiarem na Madeira e, posteriormente, deslocam-se a La Rochelle, onde se estabelecem temporariamente, passando a Amesterdão ainda durante a infância de Menasseh Ben Israel, que, por essa altura, tinha dois irmãos, Efraim e Ester. Reunindo todo um conjunto de figuras eminentes das letras, da política e da finança, a recém-formada comunidade judaica de Amesterdão compõe-se, na sua génese, por homens e mulheres de origem portuguesa e espanhola nascidos e criados como cristãos. Com um passado marcado pelo cativeiro da Inquisição, muitos encontram na Holanda o ambiente de tolerância propício ao refúgio. O português e o espanhol são usados não só em reuniões de negócios, mas também nos exercícios religiosos. Dentre os instrutores de Menasseh Ben Israel, destaca-se um importante nome da filosofia e exegese talmúdica, rabi Isaac Uziel, nascido em Fez. Com apenas 13 anos, Menasseh torna-se membro da Santa Irmandade de Talmud Torah, fundada em 1616. Neste contexto, tem as suas primeiras experiências como orador e começa a desenhar-se a sua carreira como escritor, compondo, para começar, uma gramática de hebraico (Safah Berurah). Cedo vê reconhecidos os seus talentos de estudioso. Assim, após a morte de Uziel, sucede-lhe na qualidade de professor de Talmud e vem também a ser ordenado rabino, ainda antes de completar 20 anos. Pouco depois, casa-se com Rachel Abrabanel, cuja família procedia de Guimarães e reclamava parentesco com D. Isaac Abrabanel, filósofo e homem de finanças de D. João II e dos Reis Católicos, pai de Leão Hebreu, autor dos Diálogos de Amor (1535). Menasseh e Rachel tiveram três filhos, Gracia, Joseph e Samuel. Com a finalidade de prover ao sustento da família, estabelece-se como impressor, a partir de 1626. Manterá esta atividade durante cerca de 30 anos. Do seu prelo saem diferentes obras judaicas, desde livros de orações a textos clássicos, como a Mishna. Entre outros títulos, publicou o clássico de filosofia Emunot Vede’ot, de Saadia Gaon, bem como o tratado messiânico do já referido Isaac Abrabanel, Ma’yene ha-Yeshu’ah. A partir da déc. de 30 do séc. XVII, assumem relevo, por outro lado, as publicações originais da autoria de Menasseh Ben Israel. Uma das suas mais significativas obras intitula-se Conciliador, o de la Conveniencia de los Lugares de la S. Escriptura, que Repugnantes entre si Parecen. Com vários tomos, publicados entre 1632-1651, tal como o título indica, neste texto o autor pretendeu efetivar uma conciliação entre passagens do Velho Testamento aparentemente divergentes. Graças à ilustração do escolasticismo judaico junto dos intelectuais não-judeus, levada a cabo em Conciliador […], Ben Israel ficou célebre no círculo de intelectuais da Holanda e dos países vizinhos, cuja proximidade vem a desempenhar um importante papel na sua vida. Estabelece, pois, a partir daqui, relações de amizade com vários teólogos e filósofos cristãos, como Gerhard Johann Vossius, Huig Grotius, Samuel Bochart e Simon Bischop, e igualmente, entre outros, com o místico da Silésia, Abraham von Frankenburg, discípulo de Jacob Boehme. Aquele terá dirigido correspondência a Menasseh, na déc. de 40, evidenciando a sua apreensão em torno da vinda do Messias, expectativa que estava na ordem das preocupações dos intelectuais contemporâneos. Na esfera portuguesa, são assinaláveis as relações entre Israel e o P.e António Vieira, em 1646 e 1647, aquando das missões diplomáticas do jesuíta ao Noroeste Europeu, sob a égide de D. João IV. Vieira teve um contacto próximo com os refugiados marranos e chegou a assistir a um sermão pregado por Israel. A convergência entre o pensamento de um e outro autor foi já alvo de abordagem por parte de vários estudiosos. Christopher Lund refere o espírito de conciliação, similar ao de Conciliador […], que perpassa obras como História do Futuro e Chave dos Profetas, de António Vieira. Aponta também, no seio dos intercâmbios teológicos judeu-cristãos na Holanda e em Inglaterra, que o pensamento de Menasseh e de Vieira se terá tornado cada vez mais estreitamente sinónimo no que toca à iminência, urgência e vantagem de uma reconciliação entre judeus e cristãos num Quinto Império, expectativa que preside à elaboração de dois significativos textos de ambos: Esperança de Israel (1650) e Esperanças de Portugal (1659), respetivamente. Na déc. de 40, Menasseh torna-se professor da academia Talmud Torah, onde todas as crianças da comunidade recebiam instrução. Assim, não parece destituída de sentido a hipótese de ter sido mestre de Bento de Espinosa, outra figura célebre da comunidade sefardita de Amesterdão. Sobre a atividade de estudioso de Menasseh Ben Israel, Cecil Roth põe em relevo não só o facto de ter contribuído para dignificar e popularizar os estudos judaicos entre os não-judeus, mas também o de a exposição sistematizada da teologia judaica por si levada a efeito ter servido de base ao movimento de recuperação e estudo crítico da literatura, cultura e tradições judaicas que tem lugar no séc. XIX, o chamado Jüdische Wissenchaft. É sobretudo no plano da erudição e da antologia que a obra do autor assume relevo, de acordo com Roth. Com efeito, sobressaem, da sua pena, publicações como Humas de Parasioth y Aftharoth (1627), tradução para o espanhol dos textos do Pentateuco e dos Profetas, e Thesouro dos Dinim (1645-1647), em português, que se apresenta como uma sistematização da lei judaica para orientação dos marranos recém-conversos ao judaísmo, passando por itens de observação religiosa, como a oração, os deveres morais, jejuns e festas e preparação da comida. Ainda na déc. de 30, vêm a lume De la Ressureccion de los Muertos, Libros III (1636) e De Termino Vitae (1639). No primeiro, como se indica no título em frontispício, o autor teve o propósito de provar a imortalidade da alma e a ressurreição dos mortos. No segundo, faz uma apologia do livre-arbítrio face à ideia de predestinação, operando, em suma, uma afirmação da liberdade humana perante o seu destino, noções que assumem centralidade no seio do debate teológico nas Províncias Unidas, durante o séc. XVII. Já em Piedra Gloriosa o de la Estatua de Nebuchadnesar (1655), a sua última obra, o autor oferece uma interpretação do sonho de Nabucodonosor, segundo o comentário do profeta Daniel. Sustenta, aqui, a vinda do Messias (a “pedra gloriosa”) e a eminência do seu império temporal sobre as restantes quatro monarquias assinaladas (babilónios, persas, gregos e romanos), concluindo com uma exaltação da eternidade e perdurabilidade do povo de Israel (ISRAEL, 1655, 259). Trata-se de uma obra para a qual o pintor Rembrandt, amigo e retratista de Ben Israel, realizou quatro estampas. Antes ainda, em 1650, publicara a já referida Orígen de los Americanos, Hlarsy Hvqm, esto es Esperanza de Israel, obra igualmente relevante do ponto de vista de uma parénese do retorno do povo israelita à Terra Santa, inerente ao messianismo judaico. Neste texto, partindo do relato de um viajante ao continente americano – Antonio de Montezinos, ou Aharon Levi, que chega a Amesterdão em 1644 –, Menasseh Ben Israel procura demonstrar a migração de parte das 10 tribos de Israel para a América. Este judeu de religião, e português de nação, também ele, em tempos, preso pela Inquisição, alegava (e jurou perante o tribunal rabínico) ter contactado com povos, na região das Índias Ocidentais, cujos hábitos e práticas se assemelhavam muito às do judaísmo. Tomando a sua narrativa como credível, Ben Israel procura conferir fundamento ao relato de Montezinos através da citação de autores judeus (Abraham Aben Ezra, Levi Ben Guerson, etc.) e não-judeus (Platão, Baronio, Beroso, Arias Montano, Malvenda, etc.). As conclusões finais do livro traduzem de forma clara a perspetiva defendida pelo autor: as Índias Ocidentais foram antigamente habitadas por descendentes da casa de Israel, que desde a Tartária passaram pelo estreito de Anian, ou da China, e ainda vivem ocultos em partes desconhecidas da América, preservando a sua religião. Dispersadas as 10 tribos por várias partes do mundo, Ben Israel sustenta o seu recolhimento futuro nas províncias de Assíria e Egipto, donde passarão a Jerusalém. Segundo o autor, estas tribos reunir-se-ão num reino sob o governo de um só príncipe, o Messias, filho de David, “y nunca mas seran expulsas de sus tierras” (ISRAEL, 1881, 114-115). Menasseh Ben Israel responde, desta maneira, aos anseios messiânicos dos seus contemporâneos. Em termos práticos, a sua ação diplomática a favor do perseguido povo judaico traduziu-se numa procura de resultados concretos. Em 1655, viaja até Inglaterra com a finalidade de obter permissão para que os judeus possam estabelecer-se neste país, sem restrição ao direito de praticar a sua religião. Em última instância, e de acordo com as profecias bíblicas em Daniel 12, 7 e Deuteronómio 28, 64, apenas quando as 10 tribos estiverem definitivamente espalhadas pelo mundo a restauração da casa de Israel pode ter lugar. Aparentemente, faltava então o estabelecimento em Inglaterra do francês Angle-Terre, o “limite da terra” (cf. ROTH, 1945, 206-207). Fundamentos místicos à parte, Menasseh submete um pedido de readmissão dos judeus a Cromwell. Depois de inúmeros debates decorridos no seio do Conselho de Estado, não consegue obter o estabelecimento da comunidade de acordo com as condições que pretende. Desapontado, regressa dois anos depois à Holanda, na sequência do falecimento do seu filho Samuel, em setembro de 1657. Dois meses depois, no dia 20 de novembro, o pai segue o filho, falecendo em Middelburg. Os esforços iniciados por Menasseh Ben Israel revelaram-se, anos mais tarde, proveitosos, sendo que a comunidade judaica inglesa conseguiu de Carlos II um alvará de proteção, em 1664. Finalmente, em 1698, o Act for Suppressing Blasphemy reconheceu legalidade à prática do judaísmo em Inglaterra. Obras de Menasseh Ben Israel: Safah Berurah (s.d.); Humas de Parasioth y Aftharoth (1627); Conciliador, o de la Conveniencia de los Lugares de la S. Escriptura, que Repugnantes entre si Parecen (1632-1651); De la Ressureccion de los Muertos, Libros III (1636); De Termino Vitae (1639); Thesouro dos Dinim (1645-1647); Orígen de los Americanos, Hlarsy Hvqm, esto es Esperanza de Israel. Publicado en Amsterdam 5410 (1650) (1650); Even Yeqarah. Piedra Gloriosa o de la Estatua de Nebuchadnesar. Con Muchas y Diversas Authoridades de la Sagrada Escritura y Antiguos Sabios (1655).     Marta Marecos Duarte (atualizado a 03.02.2017)

Religiões Personalidades

cunha, bartolomeu vasconcelos da

 O governador e capitão-general Bartolomeu Vasconcelos da Cunha era filho de Francisco de Vasconcelos da Cunha, governador de Angola entre 1635 e 1639, e que tivera o título de conde do Porto Santo. Tomou posse do governo da Madeira a 16 de outubro de 1651 e, ao contrário dos seus antecessores, não teve especiais problemas com os provedores da Fazenda nem com os juízes de fora do Funchal, ou com os corregedores. Com o aumento de movimento no porto do Funchal, datam da sua vigência como governador as complexas obras de fortificação do Ilhéu Grande do porto do Funchal. Este governador veio para o Funchal acompanhado de uma senhora que não era a sua mulher, de quem teve vários filhos, mas tal não obstou que fosse depois governador interino de Angola e general na Índia, perdendo-se depois no mar, vindo para o Reino em 1663. Palavras-chave: arquitetura militar; cartografia; fortificação; Guerras do Brasil; Guerras da Aclamação; relações institucionais. Armas da família Vasconcelos. 1515. Arquivo Rui Carita O governador e capitão-general Bartolomeu Vasconcelos da Cunha (c. 1610-1663), a quem chamaram na Ilha “o Monstrinho” (NORONHA, 1996, 55), era filho de Francisco de Vasconcelos da Cunha, governador e capitão-general de Angola entre 1635 e 1639, e de sua segunda mulher, D. Isabel de Brito. A família ocupara desde os meados do século anterior importantes postos no quadro do Império, tendo o homónimo bisavô, em princípio, comandado a armada que em 1559 partiu de Lisboa e, no ano seguinte, com o governador Mem de Sá, desalojou os Franceses da baía de Guanabara do Rio de Janeiro, no Brasil. O jovem Bartolomeu Vasconcelos da Cunha participara nas campanhas da Catalunha e de Milão, onde foi capitão de cavalaria, oferecendo-se por requerimento de 26 de maio de 1636, quando o pai se encontrava como governador e capitão-general de Angola, a D. Filipe III (1605-1665), pedindo que lhe fizesse a mercê de uma companhia de Infantaria do Terço, com o título de capitão, oferecendo a sua fazenda ao serviço real, para participar na restauração da capitania de Pernambuco. Com a aclamação de D. João IV em Lisboa, achando-se o pai, Francisco de Vasconcelos da Cunha, na corte de Madrid – e despachado com o título de conde do Porto Santo, dada a sua ascendência nos Mendes de Vasconcelos, pontualmente governadores nesta Ilha e com muita fazenda nas Índias de Castela, que tinha comércio com Angola –, largou tudo e veio para Lisboa, sendo recompensado com a comenda de S. Cristóvão de Nogueira e de S.ta Maria da Torre da Horta, na Ordem de Cristo. O mesmo se passou com o filho, Bartolomeu Vasconcelos da Cunha, então nas campanhas do Brasil, e que regressou também ao continente, participando depois nas campanhas da Aclamação, em Olivença, onde atingiu o posto de mestre-de-campo. Foi-lhe passada a patente para o governo da Madeira em 23 de agosto de 1651, de que deu menagem em Lisboa ao primeiro de outubro do próprio ano, e a 16 tomou posse na Câmara do Funchal, na presença do anterior governador, Manuel Lobo da Silva (c. 1610-c. 1695). O novo governador não veio para o Funchal com a mulher, Juliana de Melo, sua prima, filha de José de Melo, irmão de sua mãe, mas com Antónia Micaela da Cunha. Esta senhora era filha de Tomás Bação e Catarina da Cunha, e sobrinha do inquisidor Francisco Cardoso de Torneo, bispo eleito de Portalegre, que estivera em visitação na Madeira em 1618, no tempo do governador Pedro da Silva (c. 1580-1639) (Inquisição). Essa situação deve ter levado o zeloso cronista Henrique Henriques de Noronha (1667-1730) a abster-se sobre esse assunto, limitando as suas informações a referir que no Funchal, em 1654, tinha nascido Troilo Vasconcelos da Cunha (1654-1729) (Cunha, Troilo Vasconcelos da), depois funcionário superior da Junta dos Três Estados e autor de várias composições poéticas. A atuação do novo governador Bartolomeu Vasconcelos da Cunha foi excecionalmente discreta, não havendo especiais problemas com os provedores da Fazenda nem com os juízes de fora do Funchal, ou com os corregedores, como ocorrera com os seus antecessores. Até então esses desentendimentos eram frequentes e continuaram, colocando de sobressalto as populações. O relacionamento estreito, no entanto, até porque não usual, também era de desconfiar. O mercador Diogo Fernandes Branco (filho) (c. 1636-1683), então a residir em Lisboa, foi prontamente informado das relações de Bartolomeu Vasconcelos com o ouvidor da capitania do Funchal António Ferreira Pinheiro, comunicando-lhe o gerente da sua casa comercial, em carta de 12 de dezembro de 1651, que o novo governador nada fazia nem despachava sem o conselho do ouvidor “e por ele se governa” (VIEIRA, 1996, 233), insinuando assim proceder por advertência do conde-capitão. A casa dos Condes da Calheta era então gerida pelo 4.º conde, João Gonçalves da Câmara V (1590-1656), que se casou duas vezes, dado a primeira mulher ter falecido de parto. Do segundo casamento teve uma filha, Mariana de Lencastre Vasconcelos e Câmara (c. 1610-1698), que se casou com o primo, João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa (1593-1658), 2.º conde de Castelo Melhor, sendo possível que nesta data já houvesse uma certa ligação destas duas casas senhoriais a tudo o que dissesse respeito ao Funchal, até pela instituição da Companhia Geral do Comércio do Brasil, tendo o 2.º conde, pelo menos em outubro de 1649, ancorado no Funchal, a caminho do Brasil. Com o aumento de movimento no porto do Funchal, principalmente devido às relações preferenciais com o Brasil, data do início da vigência do governador Bartolomeu Vasconcelos da Cunha o recomeço das complexas obras de fortificação do ilhéu Grande do porto do Funchal. O pedido foi enviado para Lisboa pelo provedor da Fazenda do Funchal, com data de 5 de outubro de 1651, citando que os moradores da Ilha tinham pedido ao governador, aquando da sua chegada, que o mesmo requeresse ao Rei que se fizesse uma fortaleza no ilhéu “que está junto neste porto, para segurança do mar e embarcações que nele estão cada hora” (ANTT, JPRFF, liv. 396, fl. 7v). O provedor especifica que lhe parecia “obra muito necessária, porque com o dito reduto feito no dito Ilhéu, nos não cometerão os piratas tantas vezes, como o fazem, acanhoando os que no Porto estão, de que recebiam perda & da terra os não podiam defender em nada, por estar distante a artilharia”. Acrescenta ainda que o gasto na obra seria mínimo para a fazenda, dado ser do “donativo, que os moradores desta Ilha em si puseram para reparo & guarda dela” (Id., Ibid.). O governador também escreveu para Lisboa no mês seguinte e a resposta veio pouco tempo depois, com data de 10 de fevereiro do ano seguinte e dirigida ao mesmo. Cita então que se tinha visto a carta de 6 de novembro, em que se transmitia o pedido dos “moradores da dita ilha, oficiais da Câmara, nobreza, militares e eclesiásticos” (ARM, Ibid.; RG, t. 6, fls. 116v-117) e se tinha visto também a planta enviada. Em face das informações enviadas pelo governador e pelo provedor, de que nos trabalhos se recorreria ao pessoal das companhias de ordenanças: “vos valeríeis da gente da terra, por companhias, ou esquadras” e “que para a alvenaria os ditos moradores se ajustariam convosco, de sorte que acudiriam à obra com as pessoas e fazendas”, o Rei autorizou o início da construção. Pedia, no entanto, para ser informado das necessidades de artilharia e alvitra a deslocação de pessoal da “outra fortaleza que hoje há”, ou seja, S. Lourenço, tal como se fazia na barra de Lisboa com as fortalezas de S. Julião da Barra e de S. Lourenço da Cabeça Seca, o Bugio, “para se escusarem outros soldados e despesas” (Id., Ibid.). Os primeiros trabalhos na área datavam da época do governador D. João de Menezes (c. 1600-1649), entre 1634 e 1636, mas a inscrição que Bartolomeu Vasconcelos da Cunha mandou colocar sobre a pequena porta superior refere que foi feita no tempo do seu governo e da primeira pedra. Claro que não foi e nem foi acabada, como prova o mapa do engenheiro Bartolomeu João (c. 1590-1658), num desenho muito rudimentar e que pouco tem que ver com a fortaleza que conhecemos hoje, totalmente reconstruída mais de 100 anos depois, pelo engenheiro Francisco de Alincourt (1733-1816).   Fortaleza do Ilhéu. 1654. Arquivo Rui Carita. Ao longo do seu governo, Bartolomeu Vasconcelos da Cunha consolidou a organização da companhia do presídio da fortaleza e foi preenchendo os lugares de chefia militar que foram vagando. Em 1653, ou pouco antes, tinha falecido Martim Mendes de Vasconcelos, que exercera o lugar de governador do Porto Santo ao longo de 33 anos, família na qual o governador colocava os seus ancestrais. Foi nomeado para o lugar o capitão Roque Ferreira de Vasconcelos, até então capitão entretenido, com alvará régio de 8 de julho de 1641. Fez juramento e menagem do cargo a 2 de maio de 1653, perante o governador da Madeira. O governador, no entanto, não concordara com a nomeação, informando o Rei de que, se a escolha dependesse da sua vontade, recairia sobre Jorge Moniz de Meneses. Reconhecia ao recém-nomeado “qualidades e partes” (ANTT, Conselho de Guerra, consultas, mç. 14, doc. 66), mas considerava um grave impedimento a sua avançada idade. Sepultuta do licenciado Bento de Matos Coutinho. Arquivo Rui Carita Em 1652 houve protesto dos artilheiros, que eram auditados, desde o alvará de 30 de maio de 1648, pelo juiz de fora do Funchal, função anteriormente exercida pelo auditor de guerra e pelo licenciado Bento de Matos Coutinho (c. 1595-1651), cargo então extinto pelo Conselho da Fazenda. A pedido dos mesmos artilheiros, D. João IV escreveu ao governador, a 22 de dezembro de 1652, para que o lugar voltasse a ser instalado. Contudo, 40 anos depois, ouvidos dois dos governadores, voltava-se a desobrigar Manuel Maciel de Afonseca do cargo de auditor-geral da gente de guerra do presídio e as funções regressavam ao juiz de fora do Funchal. O governo de Bartolomeu Vasconcelos da Cunha ficou marcado pela execução do mapa da Madeira de Bartolomeu João: “Descrição da Ilha da Madeira, cidade do Funchal, lugares, ribeiras, portos e enceadas, e mais secretos; feita por Bartolomeu João, engenheiro dela em tempo do governador, capitão desta ilha no ano de 1654”, que o investigador Paul Alexander Zino (1916-2004) localizou em Londres, em 1940, à venda na casa de Francis Edward Lda. O assunto foi comunicado ao Arquivo Histórico-Militar de Lisboa mas, não se conseguindo a verba necessária para a sua aquisição, a carta foi adquirida pelo investigador madeirense, regressando ao Funchal, de onde teria sido levada pelo coronel William Henry Clinton (1769-1846), na primeira ocupação britânica de 1801-1802 (Ocupações britânicas).   Carta de Bartolomeu João. 1654. Arquivo Rui Carita A referência que temos a uma carta deste género executada por Bartolomeu João é anterior a 1654 e mandou-a executar o governador Nuno Pereira Freire (c. 1590-c. 1650), em outubro de 1642, para ser enviada ao Rei (Cartografia). Por certo, o mestre das obras deve ter ficado com elementos para executar outra carta para o novo governador, a qual, muito provavelmente, teria sido novamente enviada ao Rei, mas ficando um exemplar em S. Lourenço, de que há referência ali se encontrar em 1799. Sendo a carta de Bartolomeu João proveniente da biblioteca da abadia de Welbeck, dos duques de Newcastle, a cuja família pertencia o coronel Clinton, este teria levado a carta na sua bagagem de regresso a Londres, oferecendo-a depois a seu primo duque. Esta carta é essencial para o estudo da arquitetura militar da Madeira e não só, sendo um dos mais importantes e completos documentos iconográficos, somente com paralelo, mas bastante tempo depois, na grande vista do Funchal de Thomas Hearne (1744-1817), datada de 1772. A 6 de dezembro de 1653, faleceu em Lisboa o príncipe herdeiro, D. Teodósio (1634-1653), somente com 19 anos, mas que se havia já imposto como herdeiro do trono, recebendo o título de 9.º duque de Bragança e depois o de príncipe do Brasil, pelo que parte da correspondência para o Funchal sobre o donativo para as levas para ali recrutadas já era assinada pelo príncipe. O seu falecimento abriu uma crise política, com consequências futuras ainda mais graves, pois se a sua educação tinha sido preparada cuidadosamente, tendo sido seu mestre o P.e António Vieira (1608-1697), tinha-se descuidado francamente a educação do segundo filho, o infante D. Afonso (1643-1683). Para o governador da Madeira também teria sido uma grave contrariedade, pois era moço-fidalgo do paço o seu filho mais velho, Francisco de Vasconcelos da Cunha (c. 1630-1662), que com o falecimento do príncipe, “desenganado das bem fundadas esperanças que tinha deste grande Príncipe, ou por superior vocação, deixou os morgados e as comendas de seu pai e avô, em que havia de suceder por mercê já feita e se recolheu à Religião da Companhia de Jesus” (COSTA, III, 1712, Ibid., 555), onde viria a falecer. Com a morte do infante D. Teodósio foram marcadas as cortes para juramento do novo herdeiro, aproveitando-se o ensejo para a reunião do capítulo geral da Ordem de Cristo, em Tomar e em setembro desse ano de 1653. No entanto, até pela doença de D. João IV, e à semelhança do que acontecera antes, as cortes acabam por se reunir em Lisboa, com o clero em S. Domingos, a nobreza em S. Roque (junto dos Jesuítas) e o terceiro estado em S. Francisco (como era lógico, junto dos franciscanos). Foi nestas cortes que apareceram os primeiros pedidos dos Açores e da Madeira para se fazerem representar em cortes, na primeira fila, o que não deixa de ser um pedido estranho. Aliás, os procuradores da cidade de Angra às cortes de 1653 chegam a pedir ao Rei que, para o arquipélago dos Açores, nunca houvesse vice-Rei nem governador nas várias ilhas. A questão tinha por base pedidos anteriores, logo a seguir à aclamação, mas que só foram a despacho nove anos depois, uma vez analisada pelo desembargador Tomé Pinheiro da Veiga (1570-1656), “procurador da minha Coroa” (ABM, Ibid., fl. 118v), tendo a resposta afirmativa chegado com data de 6 de julho de 1654. As câmaras do Funchal e das vilas, todas em situação difícil, não encontraram, no entanto, uma maneira de conseguir receita para manter um procurador às cortes, nem atinaram com pessoa que pudesse, à sua própria custa, desempenhar o cargo honroso de figurar na primeira bancada. Nos inícios de 1655 foi apresentado novo governador para a Madeira, então Pedro da Silva da Cunha (c. 1610-c. 1670), que tomou posse a 22 de abril desse ano, regressando Bartolomeu Vasconcelos da Cunha a Lisboa. No entanto, o ex-governador foi preso, “tanto que chegou”, como escreveu António Carvalho da Costa (1650-1715), “até aparecer a dita D. Antónia no convento de Santana, onde faleceu” (COSTA, Ibid., 556). A situação, no entanto, não afetou a carreira política e militar de Bartolomeu Vasconcelos da Cunha, que passou no ano seguinte à Índia, como capitão-mor das naus, mas que, passando por Angola, entre os meados de 1653 e outubro de 1654, foi aí governador interino, sendo depois general de Mormugão, Terras de Salsete, Bardes e fortaleza da Ganda, na barra de Goa, e depois de ocupar estes postos se perdeu no mar, vindo para o reino no ano de 1663. Da sua ligação com Antónia Micaela da Cunha teve Bartolomeu Vasconcelos da Cunha: Maria de Vasconcelos, que morreu religiosa no Convento de Santana em Lisboa, para onde entrara com a mãe; Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha, religioso da Santíssima Trindade, em Lisboa, aonde se recolhera depois de ocupar vários postos de guerra, “deixando as esperanças de outros maiores” (Id., Ibid., 556), para que estava apontado, e que ainda era vivo em 1712; o poeta Troilo de Vasconcelos da Cunha, nascido no Funchal, como acima escrevemos, que se casou com Mónica da Silva Coutinho, cujo pai era o alemão João Herve, e a mãe Mariana da Silva Coutinho, mas cuja descendência entrou toda para ordens religiosas; e Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha, por certo também nascido no Funchal, que em 1712 era “moço-fidalgo da Casa de Sua Majestade, como o foram seus pais e avós, aos quais imitando, serve a el-Rei na guerra” (Id., Ibid.). A mulher do antigo governador da Madeira, Juliana de Melo, deve ter falecido quando o marido estava no Funchal, pois este Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha teve alvará de moço-fidalgo com data de 15 de setembro de 1657, sendo então dado como “filho natural” (TORRES, 1840, 303). O pai, tal como o filho Troilo Vasconcelos da Cunha, cultivou largamente a heráldica e a genealogia, havendo na biblioteca do último uma coleção interessante de trabalhos sobre os Vasconcelos, onde se encontra, inclusive, um que foi impresso em Madrid, em 1646, a “favor de Bartolomeu de Vasconcelos” (Id., Ibid., 4), o que não deixa de ser interessante, pois tanto Francisco como o filho, depois governador da Madeira, tinham optado, logo em 1640 ou em 1641, pelo apoio à realeza de D. João IV.   Rui Carita (atualizado a 03.03.2017)

História Política e Institucional Personalidades

conde de lançarote (herrera, agustín de)

D. Agustín de Herrera y Rojas (1537-1598), senhor de Forteventura e conde de Lançarote, acompanhou a partir das Canárias a crise sucessória portuguesa (Crise sucessória de 1580) e a presença de D. António, Prior do Crato (1531-1595) nos Açores, pelo que, abordando a 26 de janeiro de 1582 a situação naquele arquipélago, ofereceu os seus serviços a Filipe II (1527-1598), o qual, de imediato, o aproveitou para governador militar da Madeira. O oferecimento do conde de Lançarote terá chegado a Lisboa no mês de fevereiro, numa carta em que enunciava as medidas que tinha tomado nas Canárias em relação aos navios portugueses e continha algumas informações sumárias sobre os acessos à ilha Terceira, cuja única abordagem possível seria pela vila da Praia, mas com “mais gente e mais governo, pois era gente obstinada e preparada”, mostrando ter tido conhecimento do desastre da Batalha da Salga, naquela ilha, a 25 de julho de 1581, onde as forças ibéricas de Filipe II tinham sido rechaçadas. A carta remata: “Se sou de algum serviço no mar ou em terra, mande que ordenem de mim como de fiel vassalo e criado” (Arquivo do Museu Naval de Madrid, Colección Sans de Barutell, mç. 4, doc. 592). Embora Filipe II se tivesse comprometido nas cortes de Tomar a não nomear governadores que não fossem portugueses, face à situação de emergência, nomeou o conde de Lançarote como capitão da ilha da Madeira, a 19 de março de 1582, e, no mesmo dia, escreveu ao duque de Medina Sidónia, D. Alonso Pérez de Guzmán y Sotomayor, ou Alonso Pérez de Guzmán el Bueno y Zúñiga (1550-1615), avô da futura duquesa de Bragança, D. Luísa de Guzmán (1613-1665), a comunicar-lhe a nomeação para “capitão de guerra” da “ilha Madeira que, como sabeis, é destes reinos de Portugal, e a sua guarda e segurança” de grande importância (AGS, Guerra y Marina, mç. 134, docs. 210-211). O Monarca explica também ao duque que enviara os despachos para o conde; “todavia, para o caso de tardarem ou de lhes suceder algo na viagem por mar” (Ibid.), parecera-lhe melhor enviar também por Sanlucar de Barrameda um duplicado, noutro navio, para ter a certeza de que lhe chegavam às mãos. O conde deveria levar 200 homens de Lançarote, instalá-los num dos castelos da cidade, ou fora deles, conforme fosse mais conveniente, e permanecer na Ilha durante esse verão. A rapidez da nomeação quase apanhou desprevenido o conde, que determinou a mobilização geral dos seus homens a 11 de abril, partindo o primeiro contingente de oficiais e 170 soldados a 5 de maio, com o conde e uma guarda pessoal moura, assim como um reforço de artilheiros tudescos enviados pelo antigo embaixador e então capitão-general da artilharia D. Francés de Alava y Belmonte (1518/19-1586), chegando ao Funchal na manhã do dia 29 do mesmo mês. Foi então enviado um emissário a terra que, após negociações com o licenciado João Leitão (c. 1540-c. 1602) (Leitão, João) e os oficiais da Câmara, acordou o desembarque da força e a sua instalação na futura fortaleza de S. Lourenço. A chegada destas forças causou algum pânico na população, embora o conde fosse conhecido. Primeiro, os artilheiros tudescos enviados por D. Francés de Alava foram dados como luteranos (Saque do Funchal de 1566). Segundo, a guarda pessoal do conde, constituída por mouros, relembrou as escaramuças de triste memória de Santa Cruz de Cabo de Gué (Marrocos). Para acalmar os ânimos, o Corr. João Leitão e o juiz de fora Manuel Vieira tiveram de ir à rua explicar tudo à população amotinada. A segunda leva só chegou ao Funchal a 13 de junho, acossada por um temporal e sumariamente armada de piques e lanças. Entretanto, a somar a esse percalço, o facto de terem pisado novamente as Canárias tinha levado à deserção de parte desses soldados. As primeiras preocupações do conde de Lançarote foram para a segurança interna e externa da Ilha. Assim começou por visitar as duas fortalezas do Funchal, S. Lourenço e S. Filipe da Praça do Pelourinho, com o mestre das obras reais Mateus Fernandes (c.1520-1597), inteirando-se do seu estado e das suas necessidades. Conforme informa logo a 18 de junho e, depois, a 28 do mesmo mês, ambas as fortificações apresentavam dificuldades de defesa, dado encontrarem-se no meio da cidade e ao lado de edificações mais elevadas. No entanto, repartiu de imediato os seus soldados por ambas e procedeu depois a pequenas obras de adaptação. Da reorganização feita pelo conde de Lançarote resultou a constituição do comando militar, da primeira guarnição militar e, especialmente, da instalação de uma força permanente em S. Lourenço, então da responsabilidade de Filipe II e, depois, da Coroa portuguesa (Presídio). Encontravam-se presos no Funchal dois partidários do Prior do Crato e, logo nos primeiros dias da chegada à cidade, o conde de Lançarote e o licenciado João Leitão tinham interrogado pessoalmente frei João do Espírito Santo, preso em S. Lourenço. Relata o conde a Filipe II, a 1 de junho, que o franciscano teria tido tanto medo, que lhes entregara uma “quantidade de papéis, selos e insígnias reais”, que tinham ficado com João Leitão, tal como havia feito “uma Relação de certos avisos de coisas da Terceira” (AGS, Guerra y Marina, mç. 134, doc. 41). A ideia do conde foi de o executar de imediato, como no mesmo dia escreveu também ao secretário Juan Delgado, seu amigo pessoal, dando-lhe conta de que os papéis do franciscano tinham ficado em poder de João Leitão para os enviar a Filipe II, porque se estivesse no seu âmbito “já o frade tinha desaparecido e se faria com o próprio Pedro de la Radueta, francês, executando-se neles uma boa justiça de fartos e bons efeitos” (Ibid., Guerra y Marina, mç. 134, doc. 43). Tal não era a opinião do Corr., pelo que foi montado um tribunal presidido pelo conde e constituído pelo licenciado João Leitão, juiz de fora, e pelo provedor Manuel Vieira, tal como pelos vereadores camarários do Funchal, tribunal esse que determinou a pena de morte para os apoiantes de D. António, pena sancionada por Filipe II. A execução foi efetuada nos últimos dias de agosto, sendo o frade submetido a garrote, dentro da fortaleza, e o seu corpo enterrado na horta. Pedro de La Randueta foi enforcado e o seu corpo pendurado de um dos canhões da fortaleza para ser visto da rua. Esteve assim 24 horas, até ser recolhido pelos irmãos da Misericórdia. O conde de Lançarote conseguiu, entretanto, que viessem do continente, nos finais de agosto, 200 arcabuzeiros sob o comando do Cap. Juan de Aranda y de Lodeña, tendo como segundo oficial Luís de Benevides, e por sargento Francisco de Hermosilla. Estas tropas vieram pagas com um soldo de 4 ducados de 10 réis ao mês, passando as tropas das Canárias a ser pagas com idêntico quantitativo. Esta força ficou instalada em S. Lourenço, mas tal obrigou as restantes a terem de sair, o mesmo acontecendo, inclusivamente, ao conde de Lançarote. As primeiras ações foram para não interferir esta força em coisa alguma da vida da cidade, criando-se dentro da fortaleza todas as condições para que estes soldados não aparecessem na rua. Assim foram feitas obras de ampliação das casernas, com madeira e ladrilhos cedidos pela Câmara Municipal do Funchal, uma padaria, um talho e até uma taberna. Depois de instaladas as forças permanentes, autorizou-se as expedicionárias a regressarem às suas terras nas Canárias. Estas forças saíram do Funchal a 11 de novembro de 1582, devidamente pagas, salvo os capitães e oficiais das companhias, entendidos pelo conde como de sua casa e que se reintegraram nas suas ilhas de Lançarote e de Forteventura. Com a presença do Cap. Juan de Aranda na fortaleza e o entendimento perfeito que se estabelece com o governador, os problemas imediatos de segurança foram transferidos para aquele. O conde de Lançarote passa a manter um certo afastamento dos problemas pontuais e a definir as medidas mais globais. Nesta altura, inspecionam-se mais profundamente as defesas gerais e fortificações do Funchal e define-se a principal necessidade da cidade: a construção duma fortaleza no pico das Freiras, depois de S. João (Fortaleza de S. João do Pico), vindo a elaborar-se um parecer a esse respeito enviado a Filipe II. O parecer dos oficiais castelhanos sobre as fortificações do Funchal, entendidas, dentro e fora, como muito pequenas e sem praças para manobras das forças militares, acabaria por levar ao progressivo afastamento do mestre das obras reais Mateus Fernandes. Com a instalação de uma guarnição militar no Funchal, entendida por Filipe II como uma guarda pessoal, logo, paga pelos dinheiros de Castela, adveio uma série de problemas relacionados, principalmente, com o pagamento destes militares. Ao contrário do que seria de esperar, o Rei parece nunca ter querido definir concretamente as formas deste pagamento, optando por o centralizar em Lisboa e Madrid. O alto custo de vida no Funchal, ao tempo, e que se manteve, levou também às mais pungentes queixas dos governadores e oficiais. O Cap. Juan de Aranda, logo que chegado à Ilha, queixava-se de que “o dinheiro de Castela vale aqui, nesta ilha, quatro maravedis cada real, enquanto em todas as partes costuma valer dez vezes mais” (Ibid., Guerra y Marina, mç. 134, doc. 57), chegando mesmo o próprio conde de Lançarote a afirmar, desesperado: “Não se encontra nada de comer nesta ilha senão a peso de ouro. Sabe Deus que me têm roubado como se fossem franceses” (Ibid., Guerra y Marina, mç. 131, doc. 138). A situação de conflito entre o presídio castelhano e a população do Funchal foi assim agravando-se e, antes de abandonar a Madeira, em março de 1583, o conde de Lançarote já alertava para o assunto. Os governadores seguintes e os capitães dos presídios queixaram-se sempre da situação, mas a mesma manteve-se ao longo do século seguinte, enquanto permaneceu no trono a dinastia dos Habsburgos, chegando a levar à morte por fome alguns dos soldados do presídio de S. Lourenço, situação dificilmente compreensível, e também por tumultos. Idêntica situação ocorreu com os restantes presídios de Lisboa, dos Açores e até das próprias ilhas Canárias. Mais tarde, quando nomeado governador Tristão Vaz da Veiga (1537-1604), ainda em Lisboa, tentou o mesmo que esta situação fosse clarificada, o que parece também não ter conseguido. Esta situação deve ter levado igualmente às dificuldades com que vieram a deparar as relações deste presídio com a sociedade civil do Funchal. Se no que diz respeito às forças canarinas não temos referências a dificuldades de relação com a população, o mesmo não se passou em relação ao presídio regular do Cap. Juan de Aranda, onde foi sentenciado de morte o soldado castelhano Francisco de Espinosa, pena executada no Lg. do Pelourinho, facto que é incompreensível (Presídio). A ilha da Madeira ainda passou nesses meses pela ameaça da armada de D. António nos Açores, pois embora derrotada na batalha naval de Vila Franca do Campo, ao largo da ilha de S. Miguel, a 26 de julho de 1582, muitos dos navios haviam conseguido regressar à ilha Terceira. Os navios franceses e portugueses começaram a movimentar-se a partir de 14 de outubro; a 10 de novembro, Filipe II alertava mesmo a Câmara do Funchal, insistindo que deveriam ajudar o conde de Lançarote na defesa da Ilha, assinando o documento como o faziam até então os Reis de Portugal, com “Rey” e as cinco chagas de Cristo. A Armada do Prior do Crato, no entanto, confrontara-se com uma tempestade, dispersando-se, acabando muitos dos navios por optar pelo regresso a França. No entanto, uma dessas embarcações desgarrada teria aportado à costa norte da Madeira, a 19 de novembro de 1582, desembarcando três elementos, os quais, uma vez detetados e presos, foram conduzidos ao Funchal, onde revelaram os planos de assédio à Ilha, e igualmente a Arguim. Nos inícios de 1583, ainda se configurava nova ameaça, então do Alm. Manuel Serradas (c. 1540-1583), natural da ilha Terceira, mas que se radicara na Madeira, onde deixara a família, então sob apertada vigilância no Funchal. Participara na Batalha de Vila Franca do Campo sob as ordens de Filippo Strozzi (1541-1582), que falecera nessa batalha e assumira, entretanto, o comando dos navios sobreviventes da mesma batalha. A esquadra saiu de Angra nos primeiros dias de fevereiro desse ano, com destino, uma vez mais, a Arguim, à Madeira, às Canárias e a Cabo Verde. A esquadra, no entanto, passou ao largo da Madeira, não se aproximando, e a primeira vítima foi a feitoria de Arguim, que foi totalmente saqueada e de onde foi retirada toda a artilharia disponível. A 28 de fevereiro, a esquadra encontrava-se frente à ilha de La Gomera, nas Canárias, que tentou atacar, mas desistiu e seguiu para Cabo Verde. Na viagem foram assaltadas algumas embarcações de pesca madeirenses e os pescadores distribuídos pelos navios da esquadra. Num golpe de audácia, os pescadores madeirenses de uma das caravelas da esquadra de Manuel Serradas conseguiram desarmar os algozes e, assumindo o controlo da embarcação, trazê-la para o Funchal, onde os corsários viriam a ser sumariamente julgados e enforcados. Algumas ilhas de Cabo Verde viriam a ser saqueadas por Manuel Serradas, especialmente a de Santiago; foi saqueada em particular a cidade da Ribeira Grande, depois Cidade Velha, tendo o saque ocorrido ao mesmo tempo que o do almirante inglês John Hawkins (1632-1595). As notícias dos saques em Cabo Verde chegaram ao Funchal a 18 de março, através do Cap. Rodrigo Álvares, que, tendo sido preso, conseguira fugir, relatando então os prejuízos, calculados num milhão de cruzados, e o roubo de 40 peças de artilharia de bronze, tal como de todo o material ligeiro encontrado. Manuel Serradas estava de volta a Angra em abril de 1583, mais uma vez não se tendo aproximado da ilha da Madeira. O rescaldo desta expedição criou alguma animosidade entre o conde de Lançarote e o Corr. João Leitão, de que o conde se queixou a Filipe II. Entendia Lançarote que o encarregado do “serviço da guerra” era ele, pelo que lhe competia castigar “os soldados de D. Antonio, que tantos danos tinham feito” (AGS, Guerra y Marina, mç. 143, docs. 181 e 183-184). O corregedor, entretanto, resguardava-se com os trâmites da justiça, sendo inflexível em relação aos desejos imediatistas do conde de Lançarote, que teria quase enforcado tudo e todos. Passada a primeira ameaça da armada francesa de D. António e com a queda da ilha Terceira em julho de 1583, onde o Alm. Manuel Serradas viria a ser executado, D. Agostinho de Herrera conseguiu autorização para regressar às suas terras, por carta régia de 5 de setembro desse ano de 1583, devendo ter saído da Madeira entre os dias 18 e 23 desse mês. Entregou então toda a governação ao desembargador João Leitão e deixou-lhe também a companhia do presídio, com o seu comandante – o capitão castelhano D. João de Aranda – como conselheiro militar. Esta situação, e enquanto não foi nomeado governador para o Funchal, levou o Cap. João de Aranda a superintender sobre os assuntos militares, escrevendo diretamente para o Rei, em Madrid e dando conhecimento à Câmara do Funchal da troca de correspondência. Desconhecem-se, no entanto, as determinações régias daí advindas, que, dada a atuação habitualmente prudente de Filipe II, não devem ter sido nenhumas. Nesta sequência, João de Aranda já tentara igualmente fazer valer os seus serviços para conquistar uma melhor posição no continente, através do seu amigo conde de Lançarote, tentando mesmo depois outras influências em Lisboa, mas o Rei manteve-o na Ilha quase até ao final do século. O conde de Lançarote, no entanto, parece ter regressado à Madeira, ou aí terá ficado após a entrega do governo, pois estava no Funchal em outubro, assinando a 17 desse mês a nomeação de Pedro de Valdavesso para pagador do presídio. Também estava no Funchal a 12 de novembro desse ano; só nesse dia houve reunião geral na Câmara do Funchal para registo da carta régia de 5 de setembro, cujos signatários foram o conde de Lançarote, João Leitão, João de Bettencourt, Zenóbio Acciauoli, Cap. João de Aranda, sargento-mor Mateus Cabral e Cap. Fernão Favila de Vasconcelos. O conde de Lançarote tinha criado muito boas relações na Madeira, especialmente com Zenóbio Acciauoli (c. 1530-1598), tendo assistido à consagração da capela de N.ª Sr.ª do Faial na quinta dessa evocação, na encosta de Santa Maria Maior, feita pelo bispo D. Jerónimo Barreto (1543-1589) e mantendo depois correspondência com o mesmo. Mais tarde, já como marquês de Lançarote, deslocar-se-ia de novo ao Funchal para a confirmação do casamento de sua filha D. Juana de Herrera, entretanto legitimada, ou D. Joana de Roxas e Sandoval, com o primogénito Francisco Acciauoli de Vasconcelos (1563-1648), filho de Zenóbio e de D. Maria de Vasconcelos. O casamento tinha ocorrido nas Canárias, a 25 de abril de 1588, e sido depois confirmado na Sé do Funchal pelo bispo D. Luís de Figueiredo de Lemos (1544-1608), tendo-se deslocado o pai da noiva para o efeito à Madeira, acompanhado, entre outros, do seu governador Diego de Cabrera Leme, também ele com relações familiares na Madeira. Lançarote tinha saído da Madeira para Lisboa, onde chegou a 1 de dezembro de 1583, aguardando ordens, provavelmente, para se deslocar a Madrid, havendo correspondência para Filipe II e Juan Delgado, então enviada da sua residência em Vale Paraíso. Em Lisboa, teria intercedido pela construção da fortaleza do Pico e pela promoção do Cap. Juan de Aranda. Não se conhecem pormenores da sua deslocação a Madrid, mas aquela deve ter ocorrido nos primeiros meses de 1584. Seguiu depois para Sevilha e Cádiz, voltando a pisar a terra dos seus antepassados já como marquês, título que lhe foi concedido a 1 de maio de 1584, essencialmente, pelo trabalho desenvolvido na Madeira.   Rui Carita (atualizado a 28.02.2017)

Personalidades

clima e meteorologia

O arquipélago da Madeira situa-se na região subtropical do Atlântico oriental, centrado aproximadamente a 32 ° 45 ’ de latitude norte e 17 ° 00 ’ de longitude oeste, a cerca de 900 km de Portugal continental (Sagres) e dos Açores (Santa Maria). É formado pelas ilhas da Madeira e de Porto Santo, com áreas da ordem dos 730 km2 e 23 km2, respetivamente, e pelos ilhéus das Desertas e das Selvagens, estes últimos a cerca de 300 km a sul da Madeira. A orografia é bastante acidentada, com as formações de maior altitude na parte oriental (pico Ruivo, com 1862 m) e na parte ocidental (planalto do Paul da Serra, com altitude da ordem dos 1300 m). De acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger, as ilhas da Madeira e de Porto Santo apresentam clima temperado húmido, com zonas de verão seco e quente e outras zonas de verão seco e suave, dependendo da proximidade ao mar, da exposição solar e principalmente da altitude. Em intervalos de tempo regulares, com base em instrumentos específicos, é feita no arquipélago a observação à superfície dos principais descritores meteorológicos, designadamente a pressão atmosférica, o vento, a temperatura e a humidade relativa do ar. A respetiva difusão sincronizada aos níveis regional, nacional e internacional constitui a informação primária para a descrição do tempo presente e, por acumulação sucessiva, do conhecimento do clima. As primeiras observações meteorológicas à superfície, executadas com regularidade e de forma continuada no Funchal remontam a meados do séc. XIX, tendo sido executadas até meados do séc. XX no Palácio de S. Lourenço, e posteriormente no sítio dos Louros, na orla costeira leste da cidade, onde foi instalado o Observatório Meteorológico do Funchal. Graças à observação regular efetuada, no mínimo diariamente, às 09.00 h, estava disponível, em 2015, uma série longa de dados para o Funchal, o que permitia conhecer, e.g., a variação da temperatura média do ar e da quantidade de precipitação dos 151 anos anteriores e da temperatura da água do mar à superfície dos 65 anos anteriores, executada no porto do Funchal. Fig. 1 – Gráfico com a média anual da temperatura do ar à superfície, registada no Funchal entre 1865 e 2015 (151 anos) (Palácio de S. Lourenço e sítio dos Louros); e a média anual da temperatura da água do mar registada na Pontinha entre 1951 e 2015 (65 anos). Fonte dos dados: Instituto do Mar e da Atmosfera. Dos registos anuais, destaca-se a subida da média anual da temperatura do ar a partir do início dos anos 70 do séc. XX. Desde 1971 até 2015, a temperatura média anual subiu cerca de 2,2 °C, o que corresponde a um valor médio da ordem de 0,5 °C por década. No entanto, entre 1996 e 2015, período em que as observações foram feitas sempre com o mesmo equipamento, devidamente calibrado, verificou-se que a temperatura do ar subiu cerca de 0,3 °C, o que corresponde a um valor da ordem de 0,15 °C por década, tendo a subida sido mais acentuada entre 1996 e 2004 (8 anos) do que entre 2005 e 2015 (11 anos). À semelhança da temperatura média do ar, a temperatura média da água do mar começou a subir no início da déc. de 70 do século XX, embora de forma menos significativa entre 1995 e 2015. Desde o início da déc. de 70, a diferença entre a temperatura média do ar e da água do mar variou entre 1,3 °C e 0,5 °C, embora nos últimos anos do intervalo essa diferença se tenha mantido próxima dos 0,5 °C. Entre 1995 e 2015, a temperatura média anual do ar variou entre 20,0 °C e 20,4 °C, e a temperatura da água do mar entre 20,4 °C e 21,1 °C. Fig. 2 – Gráfico com a evolução da precipitação média anual registada no Funchal entre 1865 e 2015, desde 1865 no Palácio de S. Lourenço e desde 1951 no sítio dos Louros (Observatório Meteorológico do Funchal). Fonte dos dados: Instituto do Mar e da Atmosfera. A partir de uma análise simples da fig. 2, conclui-se que a quantidade de precipitação apresenta variabilidade interanual significativa. No 65 anos que medeiam entre o momento em que começou a haver registos no Observatório Meteorológico do Funchal e 2015, a precipitação anual mais baixa foi registada em 2015 (299,5 mm), correspondendo ainda ao quarto valor mais baixo desde 1865 (em 151 anos). O maior valor da quantidade de precipitação anual ocorreu em 2010 (1477 mm) e um valor próximo deste foi registado em 1895 (1420 mm). Entre 2010 e 2015, registou-se o maior período de anos consecutivos com os valores mais baixos da quantidade de precipitação no Funchal. Rede de observação A rede meteorológica do Funchal começou a ser construída em meados dos anos 30 do séc. XX, com a instalação de vários postos meteorológicos. Nos anos 50, a rede meteorológica era constituída por 15 postos, tendo 7 sido desativados durante a déc. de 80; restaram as estações do Funchal (1865), do Areeiro (1936), de Santana (1937), do Porto Santo (1939), do Lugar de Baixo (1941), do Santo da Serra (1942), da Bica da Cana (1950) e de Santa Cruz/Aeroporto (1958). No acompanhamento da modernização tecnológica registada particularmente durante a déc. de 80 do séc. XX, iniciou-se em 1995 a modernização da rede meteorológica do arquipélago da Madeira, com a instalação de duas estações meteorológicas automáticas em Porto Santo/Aeroporto (78 m) e no Funchal/Observatório (58 m); em 2002, foram instaladas cinco estações: Funchal/Lido (25 m), São Jorge (257 m), Chão do Areeiro (1590 m), Lugar de Baixo (40 m) e Ponta do Pargo (298 m); em 2009, e para reforçar a melhoria da previsão meteorológica, foram ainda instaladas duas estações automáticas no Caniçal/Ponta de São Lourenço (133 m) e nas Achadas da Cruz/Lombo da Terça (931 m). Posteriormente, e após o violento temporal de 20 de fevereiro de 2010, reconheceu-se a necessidade de aumentar a densidade de estações, pelo que foram instaladas, em finais de 2010, mais cinco estações automáticas em Quinta Grande (580 m), São Vicente (97 m), Santana (380 m), Bica da Cana (1560 m) Santo da Serra (660 m), tendo as três últimas substituído as estações clássicas existentes, das quais havia apenas uma observação diária, às 09.00 h. Posteriormente, e para completar a rede planeada em 2010, foram instaladas, em 2013, uma estação no Pico do Areeiro (1799 m), e em 2014 três estações: Porto Moniz (35 m), Pico Alto (1118 m) e Santa Cruz/Aeroporto (58 m), aqui para substituir a estação clássica. Estas 18 estações estão equipadas com instrumentos de observação da temperatura e humidade relativa do ar, precipitação e radiação solar global, estando 12 – Funchal/Observatório, Funchal/Lido, São Jorge, Areeiro, Lugar de Baixo, Ponta do Pargo, Caniçal/Ponta de São Lourenço, Santo da Serra, Porto Moniz, Pico Alto, Santa Cruz/Aeroporto e Porto Santo/Aeroporto – equipadas com instrumentos de medição do vento. Três destas estações estão ainda equipadas com instrumentos de medição da pressão atmosférica: Funchal/Observatório, Santa Cruz/Aeroporto e Porto Santo/Aeroporto. Assim, para a Madeira, a densidade de estações meteorológicas é da ordem de uma estação por cada 45 km2 para a temperatura e humidade relativa do ar e radiação solar global, e uma estação por 65 km2 para o vento. Para ilustração, apresenta-se na fig. 3 a distribuição e a localização das estações meteorológicas no arquipélago da Madeira, em 2015. Fig. 3 – Mapa com a distribuição e localização das estações meteorológicas no Arquipélago da Madeira em 2015. A redução na densidade de estações decidida para o arquipélago da Madeira resultou, em particular, da necessidade de melhoria da vigilância meteorológica, sentida após vários episódios de tempo rigoroso, em particular associados a precipitação forte, registados a partir do início de 2009, dos quais se apresentam alguns mais significativos: 27 fevereiro 2009: Funchal 82,7 mm/Areeiro 145,1 mm; 18 de dezembro de 2009: Funchal 36,7 mm/Areeiro 130,1 mm; 2 de fevereiro de 2010: Funchal 42,5 mm/Areeiro 184,7 mm; 20 de fevereiro: Funchal 144,3 mm/Areeiro 389,6 mm; 21 de outubro de 2010: Funchal 82,7 mm/Areeiro 147,0 mm; 26 de novembro de 2010: Funchal 155,1 mm, tendo sido o maior valor diário registado desde sempre/Areeiro 185,2 mm; 28 de dezembro de 2010: Funchal 50,7 mm/Areeiro 95,7 mm; 26 de janeiro de 2011: Funchal 103,4 mm/Areeiro 321,0 mm; 30 de outubro de 2012: Funchal 55,7 mm/Areeiro 258,1 mm; 6 de novembro de 2012: Funchal 19,3 mm/Areeiro 201,1 mm; 3 de março de 2013: Funchal 40,9 mm/Areeiro 274,4 mm; e muitos outros episódios em toda a ilha da Madeira, sendo de registar também os da Ribeira da Janela no dia 5 de novembro de 2012: 186 mm no Lombo da Terça/Porto Moniz; e de Porto da Cruz a 29 de novembro de 2013: 325 mm no Santo da Serra durante dois dias.   Fig. 4.1 – Fotografia de balão meteorológico com radiossonda. A rede de observação no arquipélago da Madeira inclui ainda um sistema de radiossondagens para observação da pressão atmosférica, do vento, da temperatura e da humidade relativa do ar, desde a superfície até cerca de 30 km de altitude, recorrendo ao lançamento de balão com radiossonda (fig. 4.1), executado uma vez por dias às 12.00 h, e ainda quatro estações de tempo presente, instaladas no Funchal/Observatório Meteorológico, em Chão do Areeiro, Pico do Areeiro e São Jorge, para observação da visibilidade horizontal e identificação do tipo de meteoros (chuva, chuvisco, granizo, saraiva e neve).   Fig. 4.2 – Estação meteorológica automática, em teste no Observatório Meteorológico do Funchal, para ser instalada nas Selvagens. Para completar a rede do arquipélago da Madeira, foi instalada uma estação meteorológica automática nas ilhas Selvagens no verão de 2016 (fig. 4.2), a qual permitirá essencialmente acompanhar a evolução de sistemas meteorológicos que se formem a sul da Madeira, para além de que os dados registados nestes ilhéus permitirão o estudo do clima local e o apoio de estudos científicos nos domínios dos ecossistemas locais.     Condições meteorológicas caraterísticas na região da Madeira Fig. 5.1 – Imagem de aproximação de superfície frontal fria As condições meteorológicas predominantes na região do arquipélago da Madeira são principalmente determinadas pela intensidade e localização do anticiclone dos Açores e pelas perturbações da superfície frontal polar que se fazem sentir especialmente de novembro a março, quando se deslocam do Atlântico Norte em direção à Europa, vindas de oeste. Durante o inverno, o anticiclone dos Açores está geralmente deslocado para sul da sua posição média, a sudoeste dos Açores. Importantes também na determinação das condições meteorológicas nesta época do ano são as depressões frontais que se deslocam sobre o Atlântico, que dão origem à aproximação e passagem de superfícies frontais, em particular de superfícies frontais frias (fig. 5.1), mais frequentes e mais ativas do que as superfícies frontais quentes, as quais dão origem a grande nebulosidade, chuva e aguaceiros por vezes fortes, em particular nas zonas montanhosas, e a ventos fortes dos quadrantes de sul. Fig. 5.2 – Imagem de localização do anticiclone dos Açores em dia de verão. Durante o verão, o anticiclone dos Açores, desloca-se frequentemente para nordeste relativamente à sua posição média anual, a sudoeste dos Açores, fortalece-se e estende-se com uma crista de altas pressões, que atinge o Nordeste da Europa (fig. 5.2). Fig. 5.3 – Imagem de depressão estacionária centrada entre Portugal Continental e os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Também de outubro a março, estabelecem-se por vezes, entre a Península Ibérica, os Açores e a Madeira, depressões frias estacionárias que afetam as condições meteorológicas nesta região e podem permanecer cerca de uma semana, dando origem, na região da Madeira, a grande nebulosidade com ocorrência de períodos de chuva ou aguaceiros por vezes fortes (fig. 5.3). Importantes são também as situações em que se observa um anticiclone muito desenvolvido, centrado a norte da latitude da Madeira, e orientado na direção oeste-leste, por vezes associado a baixas pressões sobre o continente africano, e em que a região da Madeira é atingida por vento de leste, muito quente e seco, vindo do deserto do Sahara, com poeira fina que dá origem a bruma. Nesta situação, a temperatura do ar na Madeira pode chegar aos 35 °C e a humidade relativa do ar descer para valores da ordem de 5 % nas regiões montanhosas. O clima da Madeira Para a caraterização do clima da Madeira, recorreu-se à classificação climática de Köppen-Geiger, a qual divide os climas em cinco grandes grupos, identificados por letras maiúsculas, e na qual o arquipélago da Madeira se integra no grupo [C], definido como clima temperado húmido. Para cada grande grupo, o tipo de clima é ainda especificado através de uma letra minúscula que refere o regime da precipitação, que para o arquipélago da Madeira, definido como húmido, é [s]; e uma segunda letra minúscula, que está relacionada com a temperatura média mensal, que para o arquipélago da Madeira é [a] ou [b], correspondendo a verão seco e quente (VSQ) ou verão seco e suave (VSS). No fig. 6, apresenta-se a metodologia utilizada com os limites relativos às temperaturas e precipitações mensais, de acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger. [table id=88 /] Recorrendo à série de dados de 1971-2000 (30 anos), em particular às normais climatológicas, da temperatura do ar e da precipitação média mensal, para as estações do Funchal (costa sul, 58 m), do Areeiro (montanha, 1590 m), de Santana (costa norte, 380 m) e da ilha de Porto Santo (78 m), representadas graficamente na fig. 7, e aplicando a classificação de Köppen-Geiger, temos para o Funchal e para Porto Santo clima do tipo Csa (temperado húmido com verão seco e quente) e para o Areeiro e Santana clima do tipo Csb (temperado húmido com verão seco e suave). Fig. 7 – Gráficos com a temperatura do ar e a precipitação média mensal no período de 1971-2000, registadas nas estações meteorológicas do Funchal (58 m), do Areeiro (1590 m), de Santana (380 m) e de Porto Santo (78 m). Aplicando a mesma classificação para as estações que se apresentam na fig. 8, com séries de dados de cinco anos (2011-2015), verifica-se que no Funchal (58 m), no Lugar de Baixo (40 m), na Ponta do Pargo (298 m), em São Vicente (97 m), no Caniçal (133 m) e em Porto Santo (78 m) o clima é Csa (temperado húmido com verão seco e quente) e nas estações de Quinta Grande (580 m), São Jorge (257 m), Santana (380 m), Santo da Serra (660 m), Areeiro (1590 m), Bica da Cana (1560 m) e Lombo da Terça (931 m) o clima é do tipo Csb (temperado húmido com verão seco e suave). [table id=89 /] Legenda: H – Altitude T1 – Temperatura média do ar do mês mais frio I1 – Grupo climático R1 – Precipitação no mês mais seco R2 – Precipitação no mês mais chuvoso I2 – Indicador de tipo T2 – Temperatura média do ar do mês mais quente I3 – Indicador de subtipo TC – Tipo de clima Csa – Clima temperado húmido com verão seco e quente Csb – Clima temperado húmido com verão seco e suave   Na fig. 9 apresenta-se de forma gráfica, para nove das estações indicadas na fig. 8, os valores médios mensais da temperatura do ar e da precipitação para o período 2011-2015. Fig. 9 – Gráficos com a temperatura do ar e a precipitação média mensal no período de 2011-2015, registadas nas estações meteorológicas de São Vicente (97 m), São Jorge (257 m), Ponta do Pargo (295 m), Bica da Cana (1560 m), Santana (340 m), Lugar de Baixo (40 m), Funchal (58 m), Caniçal (133 m) e Porto Santo (78 m). Dos resultados anteriores, conclui-se que, para além da latitude, os fatores determinantes do clima da Madeira são a altitude e a proximidade ao mar. Assim, toda a faixa costeira sul até à cota de 500 m (a avaliar pelos valores da Quinta Grande), a faixa costeira norte até à cota de 100 m, aproximadamente (a avaliar pelos valores de São Vicente e de São Jorge), e o Porto Santo apresentam clima temperado húmido com verão seco e quente, e as restantes regiões clima temperado húmido com verão seco e suave. Resumo de apuramentos estatísticos (1971-2000) A fim de se conhecer com mais detalhe a variação dos vários parâmetros climáticos, apresenta-se uma descrição dos apuramentos estatísticos, também conhecidos por normais, para o período 1971-2000, relativos às estações do Funchal (58 m, costa sul), do Areeiro (1590 m, montanha), de Santana (380 m, costa norte) e do Porto Santo (78 m). (Todos estes dados foram recolhidos no Instituto do Mar e da Atmosfera.)   Temperatura do ar Nas regiões costeiras da ilha da Madeira e em Porto Santo, a temperatura mínima do ar raramente desce abaixo de 10 °C no inverno e a temperatura máxima poucas vezes ultrapassa 30 °C no verão. No entanto, nas terras altas da ilha da Madeira, consideradas acima dos 1000 m, observam-se com frequência valores da temperatura mínima do ar inferiores a 0 ºC. A região do Lugar de Baixo, na vertente sul, a jusante dos ventos dominantes, é a mais quente da ilha da Madeira. Os valores médios anuais da temperatura do ar na ilha da Madeira são maiores na costa sul do que na costa norte e diminuem para o interior da ilha, com a altitude. A temperatura média anual é de 19,0 °C no Funchal (58m), 8,8 °C no Areeiro (1590 m), 15,5 °C em Santana e 18,6 °C na ilha de Porto Santo (78 m). A temperatura média mensal varia pouco ao longo do ano, sendo maior no verão – 22,6 °C no Funchal, 14,3 °C no Areeiro, 19,0 °C em Santana e 22,5 °C em Porto Santo – e menor no inverno: 16,1 °C no Funchal, 4,9 °C no Areeiro, 12,8 °C em Santana e 15,6 °C em Porto Santo. As amplitudes térmicas diárias são pequenas, com valores médios mensais que variam de 5,7 °C a 6,5 °C no Funchal, de 5,9 °C a 8,5 °C no Areeiro, de 4,8 °C a 6,2 °C em Santana e de 4,8 °C a 6,1 °C em Porto Santo. O número médio de dias de verão, definidos como dias em que a temperatura máxima do ar é superior ou igual a 25 °C, é de 72 no Funchal, 7 no Areeiro, 7 em Santana e 39 no Porto Santo; o número de noites tropicais, ou seja, dias de temperatura mínima do ar superior ou igual a 20 °C, é de 28 no Funchal, 1 no Areeiro, 1 em Santana e 37 em Porto Santo. Os dias quentes, com temperatura máxima do ar superior ou igual a 30 °C, podem ser registados tanto nas regiões costeiras como nas regiões montanhosas da ilha da Madeira e também em Porto Santo, mas são bastante reduzidos; em média, inferiores a um dia por ano. As temperaturas máximas absolutas registadas foram 38,5 °C no Funchal, 30,6 °C no Areeiro, 34,1 °C em Santana e 35,3 °C em Porto Santo; e as temperaturas mínimas absolutas foram 7,4 °C no Funchal, -7,0 °C no Areeiro, 5,1 °C em Santana e 6,4 °C no Porto Santo. O número médio de dias do ano com temperatura mínima inferior a 0 ºC é praticamente nulo, exceto no Areeiro onde é de cerca de 40 dias. Precipitação De todos os elementos climáticos, a precipitação é a que apresenta maior variabilidade, existindo um contraste significativo entre a vertente norte e as zonas mais altas, onde ocorrem valores muito elevados de precipitação, e a vertente sul e o Porto Santo, com valores baixos de precipitação. No inverno, a precipitação ultrapassa os 1000 mm nas zonas mais altas, enquanto na costa sul é inferior a 300 mm. Nos meses de verão, a quantidade de precipitação varia entre os 150 mm nas zonas mais altas e menos de 50 mm na costa sul da ilha. O facto de chover mais na parte norte da Madeira durante o verão está claramente associado à direção dominante do vento do quadrante norte nesta estação do ano, e ao facto de a precipitação ser essencialmente de origem orográfica. Os valores médios anuais da precipitação na ilha da Madeira são maiores na costa norte do que na costa sul, aumentando com a altitude, sendo em regra maiores nas encostas voltadas a norte do que nas encostas voltadas a sul para regiões da mesma altitude. Os valores variam de 596 mm no Funchal a 2620 mm no Areeiro, com 1383 mm em Santana. No Porto Santo, o valor médio anual da quantidade de precipitação é 361 mm. Os valores médios mensais da quantidade de precipitação variam muito durante o ano, sendo os meses de outubro a março os mais chuvosos, com valor médio mensal mais elevado nos meses de novembro a janeiro. As maiores quantidades de precipitação diárias variam de local para local, desde o máximo de 215,0 mm no Areeiro, passando por 194,0 mm em Santana, até aos 97,7 mm no Funchal; em Porto Santo, o maior valor diário registado foi 73,0 mm. O número médio anual de dias em que a quantidade da precipitação é igual ou superior a 10 mm é máximo no Areeiro (70) e mínimo em Porto Santo (9), sendo 19 dias no Funchal e 40 dias em Santana. A assimetria norte-sul do número anual de dias com precipitação (≥0,1 mm) é muito significativa. Com efeito, na região do Funchal e noutros pontos da costa sul, ocorrem menos de 90 dias com precipitação por ano, enquanto na costa norte se observam mais de 150 dias por ano. Por outro lado, nas zonas mais altas registam-se mais de 200 dias por ano com precipitação, dos quais mais de 70 são dias com precipitação elevada, superior a 10 mm. Insolação A insolação (número de horas diárias de exposição solar) mensal varia durante o ano com bastante regularidade, Fig. 10 – Gráfico da insolação mensal no Funchal, no Areeiro e em Porto Santo.Fonte dos dados: Instituto do Mar e da Atmosfera. tendo o valor mínimo em dezembro: 134 h no Funchal, 102 h no Areeiro e 133 h na Ilha de Porto Santo. O máximo mensal é 231 h em agosto no Funchal, 241 h em agosto no Porto Santo e 285 h em julho no Areeiro. A insolação apresenta uma ligeira descida em junho no Funchal e em Porto Santo, mas que não se observa no Areeiro. A insolação mensal média tem assim, para o Funchal e para Porto Santo, uma distribuição bimodal, com máximos em maio e em agosto (fig. 10). Anualmente, o Porto Santo totalizou, neste período, 2157 h de sol e o Funchal 2057 h, estando o maior número de horas de sol em Porto Santo associado à menor orografia, que não favorece tão fortemente a formação de nebulosidade local. O Areeiro totaliza 2053 h de insolação, apresentando uma amplitude mensal de 183 h; o Funchal, com um número anual de horas de sol quase igual ao do Areeiro, tem uma amplitude mensal de 96 h. O número anual de dias sem insolação é de 11 no Funchal, 9 em Porto Santo e 42 no Areeiro; para este valor, contribui essencialmente o número de dias com muita nebulosidade que se registam nos meses de outubro a março. Evaporação (mm) Os valores médios mensais da evaporação nas regiões costeiras da ilha da Madeira e em Porto Santo variam pouco e com bastante regularidade durante o ano. Em geral, os máximos ocorrem em julho e agosto. A quantidade média anual de evaporação é maior em Porto Santo, com 1423 mm, seguindo-se, por ordem decrescente, na ilha da Madeira, o Funchal, com 1109 mm, o Areeiro, com 970 mm, e Santana, com 753 mm. A amplitude mensal é de 23 mm no Funchal, 117 mm no Areeiro, 19 mm em Santana e 36 mm em Porto Santo, sendo de concluir que a evaporação é máxima nas regiões montanhosas.   Humidade relativa do ar A humidade relativa do ar é em regra maior na costa norte do que na costa sul da ilha da Madeira, sendo a variabilidade mensal maior nas regiões montanhosas. Fig. 11 – Gráfico dos valores médios mensais da humanidade relativa do ar no Funchal, no Areeiro e em Porto Santo.Fonte dos dados: Instituto do Mar e da Atmosfera.   Nas regiões costeiras da ilha da Madeira, os valores médios mensais da humidade relativa do ar apresentam pequena variação durante o ano, sendo menores no inverno do que no verão. Com efeito, o mês mais seco é abril no Funchal, com 69 %, e fevereiro e março em Santana, com 80 %. No Areeiro, os valores médios são mais altos no inverno, 85 %, do que no verão, 64 %. Também na ilha de Porto Santo a humidade relativa é maior no inverno, com 80 %, sendo nos meses de abril a julho da ordem dos 76 %. Na fig. 11, apresentam-se os valores médios mensais da humidade relativa do ar no Funchal, no Areeiro e em Porto Santo.   Vento O regime anual do vento é diferente na costa norte e na costa sul da ilha da Madeira, sendo os ventos predominantes de NE (10 %) e SW (10 %) no Funchal, de NE (38 %) no Areeiro, de WNW (14 %) e SE (10 %) em Santana/São Jorge, e de N (20 %) em Porto Santo. A frequência de calma é de 13,4 % no Funchal, 1,7 % no Areeiro, 4,0 % em Santana/São Jorge, e 2,3 % no Porto Santo. As rajadas superiores a 40 km/h ocorrem no Funchal com frequência de 1 % e muito raramente são registadas rajadas superiores a 70 km/h. Rajadas superiores a 70 km/h são registadas no Areeiro em 5 % das observações, em Santana/São Jorge em 0,6 % das observações e em Porto Santo em 0,2 %. Entre 1995 e 2015, a maior rajada do vento no Funchal foi de 86 km/h, em março de 2010; no Areeiro, foi de 160 km/h, em Santana/São Jorge, de 159 km/h e em Porto Santo, de 104 km/h, todas no mês de fevereiro de 2010. Assinale-se que os ventos fortes e muito fortes a que por vezes correspondem temporais, particularmente nas terras altas da Madeira e em Porto Santo, estão associados normalmente aos valores mais baixos da pressão atmosférica que em regra ocorrem entre novembro e março.   Temperatura da água do mar Os valores médios mensais da temperatura da água do mar à superfície variam com regularidade durante o ano. Os valores máximos ocorrem em agosto ou em setembro e os mínimos em fevereiro ou março. A temperatura média mensal é relativamente alta ao longo do ano, variando entre 17,8 °C em março e 23,3 °C em setembro no Funchal, e entre 17,3 °C em fevereiro e março e 22,4 °C em setembro no Porto Santo. A temperatura média anual é 20,2 °C no Funchal e 19,5 °C em Porto Santo. A amplitude média da variação mensal é 5,5 °C no Funchal e 5,1 °C em Porto Santo. Os valores observados na região raramente descem abaixo dos 15 °C e raramente ultrapassam os 25 °C.   Ondulação A ondulação na região da Madeira é geralmente fraca ou moderada, com rumos predominantes de NW a NE, exceto junto ao litoral sul da ilha da Madeira, em que predominam rumos de SE a SW. As situações que ocorrem mais frequentemente nos meses de inverno, e que correspondem à ocorrência de depressões no Atlântico Norte em latitudes entre 35° e 55° N, conduzem à geração de ondulação do quadrante NW na região da Madeira. A ondulação do quadrante NE é proveniente, em geral, de áreas de geração localizadas no bordo SE do anticiclone dos Açores, quando este se estende sobre a Europa Ocidental. Durante os meses de verão, cresce a importância desta situação relativamente à anterior, quer pela localização habitual nestes meses do anticiclone dos Açores, quer pelo menor número de depressões a atravessar o Atlântico Norte a latitudes suficientemente baixas para que a ondulação por elas provocada atinja a Madeira.   Pressão atmosférica Os valores da pressão atmosférica ao nível da estação apresentam diferenças quase constantes de local para local, resultantes das diferenças de altitude. Os valores médios mensais reduzidos ao nível médio do mar, registados no Funchal e em Porto Santo, variam pouco durante o ano – 3 hPa no Funchal e 3,3 hPa no Porto Santo –, sendo maiores no inverno e no verão, com diferença de cerca de 1 hPa, e menores na primavera e no outono. A variabilidade interanual dos valores médios mensais nos vários anos é maior durante o inverno e menor durante o verão: 15,0 hPa em janeiro e fevereiro e 2,4 hPa em agosto. Os valores mínimos ao nível médio do mar observados em anos recentes foram 985,9 hPa no Funchal, em 20 de fevereiro de 2004, e 985,8 hPa em Porto Santo, em 4 de março de 2013; os valores máximos foram 1037,2 hPa no Funchal, em 1 de janeiro de 2007, e 1039,3 hPa, em 25 de Janeiro de 2014, em Porto Santo.   Trovoada, granizo, neve e nevoeiro O número de dias com trovoada é de 7 no Funchal, 4 no Areeiro, 4 em Santana e 5 em Porto Santo, sendo a frequência maior no outono e na primavera. O número de dias com precipitação de granizo e saraiva é de 1 no Funchal, 14 no Areeiro, 2 em Santana e inferior a 1 no Porto Santo; a frequência é maior desde meados do outono até à primavera. O número médio de dias do ano com precipitação de neve e com geada é praticamente nulo na Madeira, exceto no Areeiro, em que são registados 7 e 16 dias, respetivamente, com maior frequência em janeiro e março. O número de dias com nevoeiro tem valores desde 1 no Funchal e em Porto Santo, 8 em Santana e 227 no Areeiro, sendo pouco nítida a variação ao longo do ano. É muito nítida e acentuada a variação em altitude. Victor Prior (atualizado a 29.01.2017)

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castro, luís vieira de

Fig. 1 – Fotografia de Luís Vieira de Castro. Fonte: Museu Vicentes.   Luís Lopes Vieira de Castro nasceu no Funchal no dia 10 de maio de 1898. Concluiu o ensino secundário no Liceu do Funchal, após o que se matriculou em Direito na Universidade de Coimbra, vindo a acabar o curso em Lisboa em 1922. Foi depois para a sua terra natal, onde abriu banca de advogado, ao mesmo tempo que se dedicava ao jornalismo e à política. Monárquico integralista convicto, defendia a restauração da monarquia pré-liberal e o regresso à sociedade cristã e patriarcal tradicional, pugnando por uma monarquia orgânica, tradicionalista, antiparlamentar, que deveria apoiar-se no poder das corporações e dos municípios, sob o comando pessoal e incontestável do Rei. Desde cedo, em Coimbra, onde conviveu com monárquicos integralistas, vai dedicar-se ao jornalismo, fundando dois jornais académicos que estavam alinhados com o seu credo político, o Pátria Nova (1916) e o Restauração (1921), e colaborando ainda com outros. Nestes dois semanários, vai desenvolver e defender as ideias políticas e sociais que desejava ver implantadas no país. No Pátria Nova, combate pelos ideais do integralismo lusitano. No Restauração, começa por lutar pelas mesmas ideias, mas, a partir de 1922, com o Pacto de Paris, que leva ao rompimento do Integralismo Lusitano com o ex-Monarca português, D. Manuel II, então exilado em Inglaterra, vai afastar-se daquele movimento político, que passa a optar pelo pretendente legitimista D. Miguel, do ramo familiar de D. Miguel, Rei absoluto que governara o país entre 1828 e 1834. Tal como os seus amigos do Restauração, vai aderir à outra fação integralista, entretanto fundada por Alfredo Pimenta, a Ação Realista Portuguesa, que, embora integralista, não rejeitava D. Manuel. Em 1922, depois de concluída a licenciatura, regressa a casa e vai ser convidado pelo lugar-tenente do Rei, o madeirense Aires de Ornelas, para organizar a Causa Monárquica na Madeira. Funda então o Jornal da Madeira, em 22 de novembro de 1923, periódico de cariz regionalista que se apresenta como defensor de uma imprensa regional independente da nacional e que, segundo o seu fundador, aparece para defender a autonomia da Madeira do centralismo da república. É de facto Luís Vieira de Castro que, no princípio da déc. de 20, e na sequência da época festiva que se vivera na Madeira, em 1922, com a comemoração do 5.º centenário do descobrimento da Madeira, dá voz à propaganda autonomista, ao abrir, nas colunas do seu jornal, um espaço de debate dedicado a este tema. Promove então um inquérito sobre esta temática a algumas figuras ilustres da região. São auscultados o banqueiro Henrique Vieira de Castro, seu pai, e o P.e Fernando Augusto da Silva, entre outros. Não se pensava em independência, mas apenas numa descentralização administrativa, embora o sacerdote tenha defendido a criação de um partido autonomista. Estas ideias autonomistas, vazias de conteúdo, foram ficando no papel, visto que a conceção de Luís Vieira de Castro mais representava uma demarcação relativamente ao regime republicano do continente, que ele combatia. A autonomia, para ele, era apenas uma estratégia para colher dividendos políticos e aglutinar os descontentes contra a república, já que, no seu entender, essa autonomia só seria realizável dentro da monarquia tradicional e antiparlamentar. Isto mesmo o exprime logo no primeiro editorial do Jornal da Madeira: “Descentralização, no rigoroso sentido da palavra, teve-a Portugal, com licença dos espíritos avançados (?) no bom tempo antigo. Veio depois o liberalismo, com eleições, foguetes, discursos, sonetos e hinos – consoante reza o mestre Herculano – e surripiou-nos as atribuições conferidas pelos velhos forais, que eram as autênticas cartas de lei da nossa autonomia. Deu este caminhar para a morte, no tão citado congestionamento do Terreiro do Paço, espectro que nos persegue e atormenta […] para saciar o monstro do Terreiro do Paço e a sua dependência de S. Bento, foi necessário sacrificar quasi todos os valores úteis, por isso que os deslocaram do quadro natural onde deveriam exercer a sua função. A organização política do país é porém, no meu entender, incompatível com a efetivação desse belo pensamento. Quaisquer instituições que se apoiem em partidos políticos estão inibidas de conceder uma reforma administrativa que haveria fatalmente de bulir com o chamado equilíbrio constitucional. O regionalismo, apoiando-se na força histórica da tradição, será de substituir-se aos partidos políticos, gastos e desacreditados, constituindo-se em instrumentos das aspirações locais. Para que elas se convertam em realidade, não teremos de negar a unidade da Pátria” (CASTRO, 1923, 1). Mais do que a autonomia da Madeira, o que movia Vieira de Castro era a vontade de que triunfasse na Ilha uma orientação política diferente da do território continental, a ânsia de afirmação pessoal na política e a defesa dos seus interesses pessoais. A posição assumida perante a Revolta da Madeira, em 1931, viria, aliás, a confirmá-lo. Os problemas locais aparecem em larga escala nas páginas do seu jornal, mas nem sempre são expostos com a clareza que exigiria a sua resolução. A partir de 1924, começa a ser evidente que o país necessita de ordem e de autoridade e a república revela-se incapaz de as proporcionar. É então que Luís Vieira de Castro se vai tornar conspirador, participando nas várias tentativas – falhadas – de golpe contra a república. Neste âmbito, acompanha a preparação do golpe de 18 de abril de 1925, e a derrota no mesmo é considerada um parêntesis amargo na vida política de Luís Vieira de Castro, que acompanha o desenrolar do correspondente processo de julgamento, fazendo da república a ré do mesmo. Nesse ano, embora condenando as eleições, vai concorrer a elas, com sucesso. No entanto, devido a uma irregularidade encontrada nos boletins de voto, não chegará a assumir as funções de deputado. O golpe militar de 28 de maio de 1926 não é tão coberto pelo Jornal da Madeira como o fora o anterior, embora apareça uma entrevista com um militar, no próprio dia do golpe, dando conta dos preparativos e indicando para breve o seu eclodir. Este golpe vitorioso é comentado por Luís Vieira de Castro no seu jornal no dia 3 de junho. Congratulando-se com a vitória dos militares, integra-a no movimento de ressurgimento que caracterizava a época; no entanto, o cariz republicano do golpe põe-no na expectativa e continua dizendo que mantém a sua posição de monárquico que espera pela restauração da monarquia. A partir do contragolpe falhado, em 3 e 7 de fevereiro de 1927, começa o seu percurso ao encontro do regime do Estado Novo, que defende veementemente após a nomeação de Salazar para ministro das Finanças. Por esta altura, volta a defender a autonomia da Madeira, mas já sem a força e o entusiasmo do princípio da década. Em 1928, vai para Lisboa, com o objetivo de dirigir o Correio da Manhã, jornal da Causa Monárquica. A sua índole facciosa vai ser posta em evidência durante a crise por que passou a Madeira nos finais do ano de 1930 e nos princípios de 1931, que levou ao despoletar da já referida Revolta da Madeira. O seu comportamento face a este acontecimento é bastante dúbio. Em novembro de 1930, quando se dá a falência da casa bancária Henrique Figueira da Silva, e no início de 1931, aquando do célebre “decreto da fome”, é ele quem escreve os manifestos incitando o povo à insurreição; mas, quando a rebelião toma figura, ele retira-se de cena, tentando assim defender os seus interesses particulares, esquecendo os da sua terra. Durante estes incidentes, o seu jornal é tomado pelos revoltosos, que se servem das instalações para publicar o jornal Notícias da Madeira, porta-voz do movimento rebelde. Com o esmagamento do levantamento, Luís Vieira de Castro, de regresso ao seu jornal, condena-o como se não tivesse tomado parte ativa nele. Os seus opositores imputam-lhe então ter sido o seu grande impulsionador, e foi inclusivamente acusado de duplicidade por alguns dos seus correligionários políticos. Depois da Revolta da Madeira, pouco se ouviu falar de autonomia. A 30 de abril de 1932, recusa continuar na direção do seu jornal, que entretanto mudara de nome para O Jornal, “em virtude de ocupar outras funções para que era chamado” (O Jornal, 30 abr. 1932, 1) em Lisboa. Neste ano, O Jornal é vendido à Diocese do Funchal. Após o convite feito por Salazar aos monárquicos para que “não se prendessem a cadáveres” (SALAZAR, 1928, 169), entra para a União Nacional em 1934. Em 1940, é um dos organizadores do Congresso do Mundo Português, sendo seu vice-secretário geral. Entre 1942-1945 e 1946-1949, é deputado à Assembleia Nacional. Distinguiu-se também como comentador de política internacional em vários jornais. Foi ainda cônsul da Polónia, sócio da Academia Portuguesa da História, do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Para além de colaborar com diversos jornais e revistas, Luís Vieira de Castro publicou várias obras de carácter histórico, literário e político, entre as quais se salientam: Nebulosas, Livro Estranho, Civilizados, A Hora Internacional, A Nacionalidade Portuguesa, A Europa e a República Portuguesa, O Mundo Que Finda e o Mundo Que Começa, D. Carlos, Limbo, A Noiva de Dois Reis, O Exílio do Prior do Crato, Em Pé de Guerra, Pedra sobre Pedra, Homens e Livros, Rumo à Vitória, Quarto de Vigia. Faleceu em Lisboa a 7 de setembro de 1954.   Obras de Luís Vieira de Castro: Nebulosas, Livro Estranho (1916); Civilizados (1918); A Hora Internacional; A Nacionalidade Portuguesa (1919); A Europa e a República Portuguesa (1922); “Regionalismo” (1923); O Mundo Que Finda e o Mundo Que Começa, D. Carlos (1935); Limbo; A Noiva de Dois Reis (1936); O Exílio do Prior do Crato; Em Pé de Guerra (1938); Pedra sobre Pedra (1942); Homens e Livros; Rumo à Vitória (1943); Quarto de Vigia (1948).   Emanuel Janes (atualizado a 25.02.2017)

Personalidades

câmara, luís gonçalves da

(Funchal, c. 1519-Lisboa, 1575) Padre da Companhia de Jesus, foi confidente de Inácio de Loyola, confessor e preceptor do príncipe herdeiro, D. João Manuel, e, anos mais tarde, mestre, encarregado da instrução moral e intelectual do filho daquele, D. Sebastião, tornando-se também seu confessor e o seu mais íntimo conselheiro. Privou e correspondeu-se com importantes figuras seiscentistas, sendo uma personagem ambígua – odiada e admirada – e cujos percurso e legado são de uma importância indiscutível para a história da sua Ordem e do seu país. Palavras-chave: Companhia de Jesus; Jesuítas; Inácio de Loyola; D. Sebastião; Universidade de Coimbra. Luís Gonçalves da Câmara nasceu na Madeira, por volta de 1519, e faleceu na capital do reino, em 1575. Padre da Companhia de Jesus, foi confidente de Inácio de Loyola, confessor e preceptor do príncipe herdeiro, D. João Manuel, e, anos mais tarde, mestre, encarregado da instrução moral e intelectual do filho daquele, o Rei D. Sebastião, tornando-se também seu confessor e o seu mais íntimo conselheiro. Privou e correspondeu-se com importantes figuras seiscentistas, sendo uma personagem tenaz que recolheu ódio e admiração, algo que Camões terá até referido nos seus cantos, e cujos percurso e legado são de uma importância indiscutível para a história da sua Ordem e do seu país. Era trineto de João Gonçalves Zarco, o primeiro capitão do donatário do Funchal, e filho de João Gonçalves da Câmara, quarto capitão-donatário do Funchal, e de D. Leonor de Vilhena. Os seus avós paternos eram Simão Gonçalves da Câmara, terceiro capitão do Funchal, e D. Joana Valente, filha do primeiro governador da Casa do Cível. Os seus avós maternos, de ascendência nobre, eram D. João de Meneses, conde de Tarouca, prior do Crato e mordomo-mor dos Reis D. João II e D. Manuel I, e D. Joana de Vilhena. Era primo de D. João de Menezes, outro Jesuíta célebre. A vida religiosa também foi abraçada por outro dos seus irmãos, o P.e Martim Gonçalves da Câmara. Era sobrinho de D. Manuel de Noronha, bispo de Lamego, e o seu irmão Simão Gonçalves da Câmara tornou-se o quinto capitão do Funchal e, a partir de 1576, conde da Calheta – para a atribuição do título, além da sua participação na caça às armadas de corsários, foi decisiva a influência que os seus dois irmãos tinham na corte. No séc. XVI, em plena época de ouro da cana-de-açúcar madeirense, a família do capitão do Funchal foi alcançando notoriedade na corte. Da sua juventude, nada é conhecido, até ingressar, em 1535, como bolseiro do Rei D. João III no Colégio de S.ta Bárbara da Universidade de Paris, cujo principal era o português Diogo de Gouveia, o Velho. Francisco Rodrigues, em História da Companhia de Jesus na Assistência a Portugal, confirma a sua naturalidade, “Lodovicus Goncalve de Camara nobilis funiculensis dioecesis” [“Luís Gonçalves da Câmara, nobre da Diocese do Funchal”], através do livro das atas reitorais da Universidade de Paris (RODRIGUES, 1931-1950, I, 1, 447). No tocante à sua ida para Paris, deveremos ter em consideração a importância que a rede de parentescos nisso desempenhou, numa altura em que esta cidade constituía um dos grandes centros de cultura europeia. Foi na capital francesa que Inácio de Loyola obteve o grau de mestre em Artes e de onde partiu, em fevereiro de 1535, sete anos após chegar a Paris, rumo à sua cidade natal. Será, portanto, pouco provável que o jovem Gonçalves da Câmara se tenha cruzado com Loyola nesse período, ao contrário da proximidade que estabeleceu com o francês Pedro Fabro, o único fundador da Companhia que era padre a 20 de agosto de 1534, a data de celebração da cerimónia que esteve na génese da futura Ordem. Em 1538, Câmara prestou juramento universitário. Após a conclusão dos seus estudos em Paris, onde alcançou o grau de mestre, também em Artes, regressou a Portugal, indo para a Universidade de Coimbra. Segundo António Franco, em Imagem da Virtude em o Noviciado da Companhia de Jesus…, com a refundação da Universidade de Coimbra, D. João III mandou regressar os Portugueses que estudavam em Paris. Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, em Elucidário Madeirense, e Maria Augusta Cruz, em D. Sebastião, referem que Câmara foi um dos escolhidos pelo Rei para fazer parte do corpo docente da Universidade. Em 1544, reencontrou Fabro, que estava de visita a Coimbra, a quem foi atribuída a sua vocação. Depois desse encontro, Câmara retirou-se para a Vila de Coja, onde, afastado de tudo e de todos, pôde realizar os exercícios espirituais da Companhia. Ingressou na Ordem a 27 de abril de 1545, cinco anos depois do reconhecimento papal dessa jovem congregação. A sua entrada ocorreu um ano após ter sido revogado o limite de 60 professos na congregação, que tinha sido imposto por Paulo III na bula de fundação, possibilitando assim que a Companhia respondesse aos apelos de novos ingressos; nesse ano, começaram a chegar relatos de práticas penitenciais estranhas dos estudantes do Colégio de Coimbra, parcialmente instigadas pelo padre provincial português, o mestre Simão Rodrigues. Gonçalves da Câmara fez o seu noviciado no novo Colégio de Valença, onde era reitor o P.e Diogo de Miró, retornando depois para Coimbra, devido a uma enfermidade nos olhos. Tendo de se deslocar a Madrid, o madeirense reencontra-se com o P.e Pedro Fabro, em janeiro de 1546. Regressa a Coimbra cinco dias depois do encontro, que parece ter sido proveitoso, como se depreende da carta de recomendação que ele e o seu companheiro de viagem, Gonçalo Fernandes, receberam para entregar ao reitor do Colégio de Jesus. Em 1547, foi ordenado sacerdote e, no mesmo ano, nomeado reitor do Colégio de Coimbra, numa subida meteórica, substituindo o P.e Martinho de Santa Cruz, reitor quando Câmara ingressou na Companhia. Em pouco mais de dois anos, Luís Gonçalves da Câmara ingressa na Ordem e chega a reitor de um dos seus colégios. Já no séc. XVII o P.e António Franco relatava, na sua narrativa afetuosa e parcial, que Simão Rodrigues o retirou do cargo de reitor, atribuindo-lhe a função de cozinheiro, “no qual ofício se houve, como se só para ele entrara na Companhia” (FRANCO, 1930, 145). Aliás, o próprio Simão afiançava, em carta ao padre geral da Ordem, que “mais se gozava e maior contentamento recebia em ser cozinheiro da Companhia de Jesus do que mestre e confessor do príncipe”, num sinal que Rodrigues interpretou como de simples humildade, situação que Câmara, todavia, não iria reconhecer com complacência, e que seria o prefácio do confronto que iria abalar a província portuguesa (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 31). Em 1547, quando o madeirense era o reitor, Loyola escrevia à comunidade do Mondego sobre as práticas adotadas por aqueles estudantes, parcialmente instigadas por Simão Rodrigues, como anteriormente referido, e que estavam a chocar a comunidade e a comprometer a posição da Ordem em Portugal. Inspirados por interpretações erradas de algumas passagens dos Exercícios inacianos, alguns estudantes desfilavam por Coimbra carregando crânios e vestidos de forma pouco séria, numa atitude excessiva que Loyola repudiava. A carta do geral atesta a preocupação do líder da Companhia perante os testemunhos que chegavam a Roma: “Quando tal moderação está ausente, o bem é transformado em mal e a virtude em vício” (Monumenta Ignatiana…, 1903, 504). Em 1548, o padre madeirense parte para a primeira missão jesuíta em Tetuão (Marrocos), pretendendo prestar ajuda espiritual aos Portugueses e visitar os cristãos cativos, e acabando por regressar a Lisboa, novamente devido a doença. Francisco Rodrigues relata que, nesse ano, nascia em Roma a intenção de substituir o provincial português, cuja liderança não satisfazia inteiramente Loyola. Desde 1545, chegavam relatos da província portuguesa sobre a insubordinação de alguns membros da Companhia, incluindo do próprio provincial, perante as ordens oriundas de Roma. O P.e Simão, pela incoerência e pela imprudência que demonstrava ter em algumas das suas missivas – e de acordo com os relatos de outros padres –, estava a desagradar à cúpula da Companhia em Roma. A 9 de dezembro de 1550, quando Simão Rodrigues obteve do Rei a desejada licença para se ausentar para Roma, deixou o ofício de confessor do príncipe regente D. João ao P.e Gonçalves da Câmara, nomeado pelo próprio geral, que se ocuparia dessa missão até meados de 1552. O cargo conferia grande destaque à Ordem a que pertencesse o escolhido, e é certo que o confessor e o preceptor possuíam alguma influência nas decisões políticas que eram tomadas. Ampliava-se, deste modo, uma teia de interesses que criou muitos inimigos aos inacianos e lhes provocou muitos dissabores. No início da déc. de 50 do séc. XVI, a província portuguesa da Companhia viveu um período de “grande tribulação” (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 10), com uma profunda cisão no seu seio, a qual teve dois protagonistas: o próprio Simão Rodrigues, provincial desde 1546 e um dos prime patris da Ordem, e Luís Gonçalves da Câmara. Confrontavam-se, assim, os partidários de uma posição mais moderada e os adeptos de uma linha mais rigorosa, onde se inseria o madeirense. O cisma instalado acabou por conduzir a uma divisão interna na Companhia, prolongando-se durante as décadas seguintes. A 18 de agosto de 1551, atendendo a um pedido de D. João III, o padre valenciano Diogo Miró chegou, por determinação do geral, a Coimbra, onde se inteirou sobre a veracidade das críticas dirigidas ao provincial. As acusações contra Simão acumulavam-se e Loyola decidiu, por fim, afastá-lo do governo da província, sendo expulso do reino em 1553. Não parece haver registo dos delatores e das acusações finais contra o provincial, pela ausência de correspondência conservada. No início de 1552, são remetidas as missivas de Loyola que depunham o provincial. Após o seu afastamento, o cargo transitou para Miró e Simão foi designado líder da nova província de Aragão, que foi propositadamente erigida neste contexto. Nesse período, outros Jesuítas tornaram-se confessores das personalidades mais influentes do reino, potenciando as tensões externas contra província portuguesa da Ordem, agravadas pela própria celeuma interna. Alguns investigadores acusam Gonçalves da Câmara de desacreditar Simão Rodrigues perante a cúpula da Companhia, o que pode ser verificado nas críticas por ele enviadas a Roma, mediante as quais pretendia que o provincial, para além de deixar o governo da província, abandonasse Portugal. A (alegada) estima de outrora havia desaparecido por completo e a tensão entre ambos é relatada de tal forma que “só de ouvir o nome do P.e Simão Rodrigues, acendia-se de tal modo [Câmara], que parecia sair fora dos seus sentidos” (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 83). Nas cartas de Câmara estão patentes uma certa extrapolação que fez dos acontecimentos, o pendor negativo que conferiu à atuação do provincial e a interpretação fantasiosa das consequências do seu afastamento para a província. Nas suas palavras, os aliados do antigo provincial sairiam da Ordem ou seriam expulsos, por compactuarem com as suas ideias perversas. Após a expulsão de Rodrigues, pouco tempo passou até que o P.e Gonçalves da Câmara reincidisse na sua visão crítica sobre o governo da província e escrevesse para Roma, indicando a falta de habilidade de Miró para a liderança. Em 1553, Câmara deixou Portugal, chegando a 23 de maio a Roma, onde executou um trabalho que o perpetuou na história da Companhia. Quando se encontra com Loyola, o impacto é tão grande que o próprio Pedro Fabro, tão admirado pelo madeirense, parecerá, aos seus olhos, uma criança em comparação com a grandiosa figura do geral. No início de dezembro, para esclarecer o diferendo contra Simão Rodrigues, Loyola estabeleceu um julgamento e nomeou Gonçalves da Câmara como um dos acusadores. A 7 de fevereiro de 1554, foi pronunciada a sentença que ratificava a saída de Rodrigues do reino e do cargo. O padre madeirense saiu, uma vez mais, vencedor. A ida de Câmara a Roma estava relacionada com os problemas da província portuguesa, conforme amplamente relatado nas várias missivas trocadas entre Roma e Portugal ao longo dos anos, mas Câmara acabaria por ter aí uma missão ainda mais importante. O padre fundador recebia vários apelos para que deixasse um registo da sua vida, principalmente do período anterior ao reconhecimento da Ordem. O Jesuíta madeirense acabou por ser o escolhido – segundo alguns relatos internos, devido à sua memória prodigiosa – para o elaborar. Certamente, preferiu-se Gonçalves da Câmara devido ao seu empenho na resolução dos problemas da província portuguesa e à lealdade a toda rede de influências de que se cercava, e que crescia. As diligências e o comportamento de Câmara, durante todo o período de crise, e a sua intervenção na gestão desse processo turbulento foram decisivos para impedir uma cisão profunda entre Roma e Portugal, que comprometeria até a expansão da Ordem pelos novos domínios e a unidade e a continuidade de uma congregação tão jovem. A 26 de março de 1553, por sugestão do madeirense, Loyola escreve aquela que ficou conhecida como a “carta de obediência”, que selou o fim do conflito. Em agosto, começa a escrever a narrativa ditada por Inácio de Loyola em três curtos períodos: de agosto a setembro de 1553, em março de 1555 e de setembro a outubro de 1555. Câmara ouviu as memórias do fundador, fez breves apontamentos e depois ditou-os a um cronista. O madeirense assumiu os papéis de confidente e secretário do geral da Companhia, além do de ministro da sua casa, a partir de setembro de 1554. Devido à ausência de título nos vários manuscritos de Câmara, a obra ditada por Loyola acabou por ser publicada com diferentes nomes ao longo do tempo: Atas do P. Inácio, Feitos do P. Inácio, Autobiografia, entre outros, sendo apenas citada como Autobiografia por J. F. O’Connor, em 1900. Os relatos ficaram, durante vários séculos, nos segredos da Ordem. Depois do último encontro entre os dois, que teve lugar entre os dias 20 e 22 de outubro de 1555, o madeirense deixa Roma e os relatos da entrevista acabam por ser transcritos na cidade de Génova, em italiano. Anos mais tarde, em 1566, o terceiro geral da Companhia, Francisco de Borja, mandaria recolher todos os relatos dos manuscritos inacianos, proibindo a sua leitura e difusão, alegadamente por estarem incompletos, e encarregou o P.e Ribadeneira de executar uma biografia, que acabou por se traduzir numa versão em castelhano, de estilo clássico, dos próprios originais de Câmara. Entre os vários aspetos a serem investigados na biografia do madeirense está a relação entre a desconsideração que os seus escritos tiveram no governo de Borja, que se propagou no tempo, e a fama que o cargo na corte portuguesa lhe deu. Após quatro meses a desempenhar funções de secretário, em finais de janeiro de 1555, Câmara decidiu fazer o seu próprio registo acerca do que entendeu ser importante para ser recordado sobre o fundador, escrevendo o que seria o Memorial de lo que Nuestro Padre Me Responde acerca de las Cosas de Casa, Començado á 26 de Henero del Año de 1555, guardado, com alto secretismo, durante séculos. A sua presença discreta é mais importante do que se possa pensar. O Memorial assume-se como uma obra ímpar, que funciona como um precioso complemento da biografia inaciana. A 9 de março de 1555, poucos meses após a sua decisão sobre a escrita do Memorial, os trabalhos ditados por Loyola, que tinham sido interrompidos, recomeçaram. A partir desse momento, o tempo de escrita de Câmara foi repartido entre a Autobiografia e o Memorial. O labor foi interrompido com a morte do Papa Júlio III e retomado apenas a 22 de setembro. Em setembro e outubro, a narrativa da autobiografia absorveu Câmara quase por completo, devido ao ritmo acelerado imposto pelo fundador. Na véspera do seu regresso a Portugal, os relatos tinham fim. Cinco dia antes, a 18 de outubro, o Jesuíta interrompera os trabalhos do Memorial, retomados apenas em 1573, quando se encontrava em Évora. A narrativa ditada pelo fundador representa um documento histórico único, de valor incalculável, sendo a biografia espiritual de Loyola mais importante e a mais difundida. O método de trabalho para as duas obras foi distinto. Com Loyola, durante a preparação da Autobiografia, Câmara privou, por diversas vezes, na chamada “torre vermelha”, onde memorizava as conversas com o geral; após o encontro, recolhia-se na sua cela para ditar ao cronista o que tinha ouvido. Para a elaboração do Memorial, o madeirense registou o que viu e ouviu na presença do próprio Inácio, durante as atividades do quotidiano; posteriormente, também ditou estes escritos ao seu secretário pessoal; o objetivo foi a execução de um diário com o máximo possível de informações sobre o padre fundador, o qual foi composto durante pouco mais de seis meses. Durante a sua estadia em Roma, Gonçalves da Câmara manteve correspondência com D. João III. O Monarca não escondeu o desejo de ver o madeirense de regresso a Portugal. Quando deixou Roma, a 23 de outubro de 1555, fez-se acompanhar de vários Jesuítas e levou consigo várias cartas de recomendação. Além disso, Loyola atribuiu-lhe importantes prerrogativas: nomeou-o colateral do provincial português, o castelhano Miguel de Torres, que passava assim a partilhar o governo da província com o madeirense; isentou-o da obediência a qualquer superior da província, respondendo apenas ao Rei D. João III; concedeu-lhe escolher a casa da Companhia em que preferisse residir; e deu-lhe poder para declarar e determinar sobre a missão na Etiópia. A combinação desse poder com o temperamento explosivo de Câmara acarretou muitos problemas e queixas, que tinham origem no provincial, referindo a natureza colérica do madeirense, e até nos seus companheiros de Ordem. Em 1556, um Jesuíta escreveu que o governo da província estava partido entre Miguel de Torres, Luís Gonçalves da Câmara e Inácio de Azevedo. Ao seu regresso, o madeirense visitou vários colégios e analisou os problemas que a Companhia, por se encontrar “bastante desacreditada”, enfrentava nos estudos cuja superintendência lhe fora confiada (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 362). As reformas que conduziu pareceram produtivas e acabou por desempenhar um papel importante junto do Rei na manutenção da tutela da Companhia sobre o Colégio de Jesus. Em 1556, a Companhia perdeu o seu geral e idealizador, a 31 de julho, e o governo é entregue ao vigário geral, o P.e Diogo Laynez. A congregação que elegeu o segundo geral teve início a 19 de junho de 1558. A 9 de maio, chegaram a Roma os cinco padres eleitores portugueses, que se juntaram ao P.e Simão Rodrigues. Entre eles estava Luís Gonçalves da Câmara. Os enviados foram escolhidos, em novembro de 1556, na congregação provincial que foi celebrada na casa de S. Roque. O novo geral acabou eleito a 2 de julho de 1558, com 13 votos dos 20 eleitores. Poucos dias depois, o padre madeirense foi eleito para o Conselho Supremo da Ordem, com o cargo e o nome de assistente de Portugal. No final dos trabalhos, Câmara permaneceu em Roma. Ainda nesse ano, e no seguimento das decisões tomadas pela congregação, no sentido de organizar o governo da Companhia em “assistências”, Câmara foi nomeado um dos quatro assistentes. Em 1557, a morte do Rei português deu outro rumo e outro impulso à posição de Câmara, mesmo que alguns autores afirmem que tais acontecimentos ocorreram contra a sua vontade. Três dias após a morte do Monarca, a Rainha D. Catarina reuniu o Conselho e assumiu a regência e a tutoria do futuro Rei. Enquanto o nome do aio do jovem D. Sebastião foi escolhido pacificamente, o do seu mestre, que seria o responsável pela sua instrução intelectual e moral, não teve a mesma sorte. Amador Rebelo, padre jesuíta que coadjuvou Gonçalves da Câmara no seu ofício, e autor da Relação da Vida d’El Rei D. Sebastião (1685-1700), refere que a escolha, tanto do aio como do mestre, correspondeu a um desejo expresso de D. João III e muito apoiado pelo seu irmão, o cardeal D. Henrique. A escolha do tio-avô de D. Sebastião “recaíra desde o início no padre Luís Gonçalves da Câmara” (CRUZ, 2012, 77), enquanto a Rainha preferiria um religioso de outra Ordem. A influência exercida pelo Jesuíta Miguel de Torres, que foi confessor da mãe de D. Sebastião, acabou ajudando as pretensões do cardeal para que a nomeação incidisse sobre o madeirense, mas há autores que afirmam que a Rainha “escolheu e preferiu de própria vontade aquele religioso” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 253-254). Em pouco tempo, D. Catarina arrepender-se-ia de tal decisão. Em 1559, aquando da protelada deliberação dos governantes portugueses, Câmara estava, novamente, em Roma. Era certo que a presença de um Jesuíta num cargo de tamanha importância dava destaque à Ordem, mas também acarretava ódios e intrigas, e poderia fazer suspeitar da humildade que a Companhia pregava, dada a influência e dado o destaque da função. A 17 de abril desse ano, D. Catarina solicita ao geral, Diogo Laynez, a dispensa do madeirense, para que ele possa assumir e desempenhar as funções para as quais fora nomeado. O relevo e a preponderância que os Jesuítas ganham ao longo do tempo, acrescidos da juventude do instituto, irão contribuir para uma intensificação da oposição aos padres da Companhia. Em julho de 1559, Câmara parte de Roma rumo a Lisboa, onde só chega em dezembro. As funções iniciam-se apenas em meados do ano seguinte, quando o Rei já caminha para os seus sete anos. A relação estabelecida entre o mestre e o seu preceptor é descrita como sendo a “única afetivamente normal” de que pôde gozar o príncipe, “assumindo contornos de uma relação entre pai e filho” (CRUZ, 2012, 81). O contacto do mestre com o herdeiro do trono – sempre acompanhado do seu aio, D. Aleixo – era frequente: “Duas vezes no dia passava lição ao rei, e lha tomava” (FRANCO, 1719, I, 49). O P.e Câmara foi coadjuvado pelo P.e Amador Rebelo, que, além de ser o “mestre do A. B. C.”, como ele próprio se intitulava, assumiu o encargo da catequese. A primeira confissão de D. Sebastião acontece nos primeiros meses de trabalho de Gonçalves da Câmara, sendo este o seu confessor (CRUZ, 2012, 82). Ao longo do tempo, com o contacto diário, aumentava a proximidade entre o Monarca e o seu mestre. À sua visão diminuída, provavelmente devido a uma doença contraída na missão em Marrocos, juntavam-se vários problemas de saúde, que acabariam por dificultar e condicionar as deslocações diárias do mestre do Colégio de Santo Antão-o-Velho até ao paço da Ribeira, onde as lições tinham lugar. Os dois Jesuítas teriam autorização para tomarem a refeição intermédia no paço (o chamado “jantar”) e, nas deslocações da corte para outros paços (Boavista, Xabregas, Almeirim, Sintra, etc.), integravam o séquito. A função do mestre do Rei não teve fim na fase de instrução literária, que terminou por volta dos 12 anos. Gonçalves da Câmara desempenhou funções até aos 20 anos do Rei, tornando-se “a pessoa que mais intimamente o conheceu”, sendo “o suporte da constância afetiva, da confiança tranquilizadora e da dedicação inabalável” (CRUZ, 2012, 88). Porém, em 1566, o madeirense afasta-se das funções que desempenhava, sendo substituído por Luís de Montoya, frade agostinho. Ainda nesse ano, em outubro, a Madeira sofre um ataque corsário francês, o que desperta no P.e Luís Gonçalves da Câmara e no seu primo, o P.e Leão Henriques (confessor do cardeal D. Henrique), o alegado desejo de embarcar na armada de socorro que foi enviada ao Funchal. Câmara acabou por não ser autorizado pelo Rei a fazê-lo, tal como não obteve autorização para realizar outras deslocações que o afastariam do Rei. Segundo alguns investigadores, os irmãos Câmara desempenhavam uma influência certeira para que o Rei preterisse o cardeal, na disputa que o tio-avô e a avó protagonizavam. Após cerca de dois anos de ausência, o madeirense regressa ao cargo por insistência do Rei, quando este atinge a maioridade. Os historiadores diferem sobre o período de afastamento do P.e Gonçalves da Câmara, em que o agostinho desempenhou o cargo de mestre. A sua saída foi justificada, por um investigador americano, como relacionada com abusos sexuais infligidos pelo madeirense ao jovem Rei. Johnson, em “Um Pedófilo no Palácio…”, alega que a enfermidade de que o Rei sofria, relatada desde 1563 e relacionada com a “expulsão de pequenos cálculos renais” (CRUZ, 2012, 124), e que tem nos historiadores vários diagnósticos (espermatorreia, uretrite, infeção bálano-prepucial, crise renal, etc.), era uma doença venérea, gonorreia ou clamídia (ou ambas), causada por abusos sexuais perpetrados por Câmara, que teria sido contaminado na sua ida a Marrocos no final da déc. de 40. Considerada como uma versão apócrifa dos acontecimentos, não existem indícios credíveis que sustentem esta teoria, que está embrenhada e apoiada em algumas interpretações enganosas ou parciais e envolve contradições e erros na sua argumentação. A 20 de janeiro de 1568, quando completou 14 anos, D. Sebastião assumiu o governo do reino; em maio, já havia notícias da reintegração do P.e Gonçalves da Câmara como seu confessor, adensando o confronto entre o cardeal e D. Catarina, que vinha desde as acusações da influência castelhana da Rainha-Mãe na luta pela regência, o que também refletia a disputa, dentro da Companhia, entre os partidários da linha próxima de Câmara e os seus opositores. Francisco de Borja, que se tornou o terceiro geral da Ordem, ainda tentou remover Câmara do cargo de confessor, mas sem êxito. Dentro da própria congregação, a posição e a influência do madeirense incomodavam. A carta do Jesuíta António Correia ao geral retratava as intrigas do reino: “Dizem que Luís Gonçalves governa, e o cardeal é seu instrumento” (ARSI, Lus. n.º 62, 274). Em nada contribuiu para acalmar as hostes a ascensão a determinados cargos e a visibilidade do seu irmão, o P.e Martim Gonçalves da Câmara, que foi “sacerdote do hábito de S. Pedro [e, mais tarde, Jesuíta], doutor teólogo e antigo reitor da universidade” de Coimbra (ALMEIDA, 2003, 420), além de ser uma figura afeta ao círculo do cardeal. Martim assumiu a liderança da Mesa da Consciência (em 1564), do Desembargo do Paço e dos restantes tribunais e o cargo de escrivão de puridade (em 1569). Também foi vedor da Fazenda no Conselho Real. Com o protagonismo que Martim Gonçalves ganhava, muito por influência do cardeal, os ânimos de D. Catarina exasperam-se, em virtude da sua crescente aversão ao poder que os irmãos Câmara ganhavam. A ascensão do madeirense nos negócios do reino era justificada, por D. Henrique, pela importância que o jovem e inexperiente Rei tinha, fazendo-se cercar de ministros que zelassem pelos interesses do reino. Agora, eram dois Gonçalves da Câmara. Por altura da deslocação do Rei a Coimbra, chega às mãos do P.e Luís Gonçalves da Câmara uma carta anónima contra si, o seu irmão e a Companhia, em que se reflete toda esta celeuma, aguçada com as diligências em torno do casamento do Rei, e em que se defrontavam vários intervenientes, sendo cada vez mais forte a campanha de descrédito contra o madeirense. O confessor privava cada vez mais com o Rei, chegando às três horas por sessão, o que provocava e atiçava os seus críticos. Numa das deslocações à Universidade, a receção pouco amistosa que o Rei recebeu, com uma forte pateada, deve-se em parte aos irmãos Câmara. Os dois madeirenses eram personagens centrais na troça a D. Sebastião difundida nomeadamente nos pasquins da cidade, em que se justificava o facto de o Rei não contrair matrimónio com o estar abarregado (amigado) com os dois irmãos. Não podemos esquecer que já há muitos anos a Universidade e a Companhia estavam envolvidas em grandes disputas, que cessariam com a assinatura de um contrato, em 1572. Este documento assegurava que a Universidade pagaria uma renda ao Colégio das Artes, entre outras prerrogativas conseguidas para a Companhia. A intervenção do madeirense foi fulcral para o processo, o que terá fomentado os movimentos opositores e críticos à sua figura. Sobre os matrimónios falhados do Monarca, interessa dissipar a maquinação criada para culpar os irmãos Câmara, difundida durante o reinado e ampliada nos séculos seguintes. Quando a esposa de Filipe II, Isabel de Valois, morreu, em 1568, seria natural que o Monarca desposasse a sua cunhada, Margarida. França enviou uma embaixada a Madrid, mas o Monarca de Castela mostrou-se pouco decidido no apoio à pretensão de Carlos IX, irmão de Margarida. Face a tão reservada resposta, o Rei de França buscou um enlace na corte portuguesa, o que agradou aos partidários do cardeal. A esse respeito, Fortunato cita um manuscrito da Biblioteca de Paris: “Martim Gonçalves da Câmara, e o Mestre seu irmão, […] foram de parecer que convinha muito ao reino de Portugal aquela aliança de parentesco com França” (ALMEIDA, 2003, 421 e 422). Tudo foi alterado quando Filipe II pediu a D. Sebastião que não aceitasse desposar a irmã do Rei francês. O Rei concordou e deixou ao seu primo o ónus da escolha da futura esposa. Estava combinado que D. Sebastião desposaria a arquiduquesa Isabel e Carlos IX a arquiduquesa Ana. Ambas eram filhas de Maximiliano, Imperador do Sacro-império Romano-Germânico e primo de Filipe II. A todos o arranjo pareceu bem e foi relatado que os irmãos Câmara concordavam com tal perspetiva. Tudo se alteraria, novamente, quando Filipe II decidia desposar Ana e ao Rei de França era deixada a prometida do Rei português, Isabel, sendo os matrimónios concretizados. D. Sebastião desposaria Margarida de Valois, que tinha sido por ele recusada a mando do seu primo. Fortunato volta a referir documentação coeva, indicando que o Rei português não respondeu, por conselho dos irmãos Câmara, a três cartas sobre a mudança de planos que Filipe II lhe remeteu. Além de Filipe II alegar que se tinha visto forçado a dar D. Isabel ao Rei de França, em prol do cristianismo, refere que se comprometeu, com o cardeal de Guise, em relação ao casamento de D. Sebastião com Margarida de Valois (CRUZ, 2012, 152-153). Tal ingerência, em favor do poder de Castela e do Sacro-Império nos negócios portugueses, provocou duras críticas até da Rainha D. Catarina, castelhana de nascimento. Quando D. Sebastião recusa o casamento proposto por Filipe II, os inimigos do P.e Luís Gonçalves da Câmara começam a imputar-lhe a culpa pela rejeição do Rei, esquecendo ou minimizando a intromissão do Monarca de Castela. Sobre as acusações recebidas, o padre madeirense responde ao geral, recordando o que já tinha manifestado aquando da sua escolha para mestre do Rei: “Dei por escrito muitas causas, para não dever tomar este cargo, e uma delas era que todas as coisas que não fossem bem recebidas do mundo, a culpa delas se daria aos que andassem junto do rei” (ARSI, Lus. n.º 64, fls. 98-99v.). Ao contrário do que os seus críticos pregavam, para o Jesuíta os grandes problemas enfrentados pelo Rei estavam na sua política reformadora, conforme atestava a sua missiva ao geral em Roma. Tais reformas causavam ao Monarca fortes dissabores, agravados pela derradeira ameaça de D. Catarina se retirar para Castela, de acordo com o pedido feito pelo seu sobrinho. O madeirense, já muito doente e quase cego, referiu ao geral o seu cansaço e a sua vontade de permanecer retirado no Colégio de Coimbra por mais algum tempo, o que teria feito, não fosse a insistência do Rei para que regressasse à corte. Ainda nesse ano, o Jesuíta Miguel Torres foi dispensado do seu ofício de confessor, alegadamente pela influência nociva que Gonçalves da Câmara teve sobre ele. D. Catarina escreveu ao seu sobrinho, a 8 de junho de 1571, descrevendo um suposto complô que os três confessores jesuítas da corte desenvolveram para criar a discórdia entre o Rei, o seu tio-avô e ela própria. No mesmo dia, a Rainha enviou uma missiva ao Papa sobre a necessidade do matrimónio real para libertar o seu neto da sujeição aos irmãos Câmara. A relativa acalmia nas relações entre o neto e a avó, após uma breve reaproximação, foi interrompida quando o Rei se recusou a cumprir os seus desejos, que incluíam o afastamento dos irmãos Câmara e do próprio cardeal, e quando esses pedidos vieram a público. Foi notório o apoio de Filipe II, que escreveu à sua tia indicando a premência em afastar Gonçalves da Câmara do Rei, sendo necessário reunir esforços e apoiantes, entre os quais o geral e o próprio Papa, para alcançar esse objetivo. Em 1571, a Rainha D. Catarina escreve ao Papa Pio V, atribuindo ao madeirense a culpa pelo ódio generalizado à Companhia. A colagem ao poder e a alegada intromissão nos assuntos políticos estão entre as críticas dirigidas aos padres inacianos, conforme é manifesto na missiva da Rainha ao Papa: “Não posso deixar de sentir o ódio que também por esta causa têm geralmente à Companhia, sendo a culpa particular deste padre [Luís Gonçalves da Câmara]” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 625). E a contestação ao poder dos irmãos Câmara, segundo alguns dos seus detratores desse período, também está patente n’Os Lusíadas: “Nem Camenas, também, cuideis que cante/Quem, com hábito honesto e grave, veio,/Por contentar o Rei no ofício novo,/A despir e roubar o pobre povo” (VII, 85, 5-8, it. nosso); “Nem tão-pouco direi que tome tanto/Em grosso a consciência limpa e certa,/Que se enleve num pobre e humilde manto/Onde a ambição acaso ande encoberta” (VIII, 55, 1-4, it. nosso). Uma interpretação coeva, combatida por alguns, mas que encontra suporte até no séc. XXI, nomeadamente em Vítor Aguiar e Silva. Apesar de a carta da Rainha ao Sumo Pontífice não ter tido o efeito esperado, o geral, seu amigo de infância, visitou, no final de 1571, as províncias espanhola e portuguesa, também movido pelos seus apelos, acompanhado do legado papal, o cardeal Alexandrino, que no futuro seria um fortíssimo crítico da presença dos irmãos Câmara na corte. Quando o P.e Francisco de Borja chegou a Madrid, D. Catarina enviou D. Juan de Borja, embaixador espanhol em Lisboa e filho do geral, para que ele pedisse a Filipe II que o P.e Luís Gonçalves da Câmara fosse chamado pelo geral, o que o Rei de Castela se recusou a fazer. Já em Portugal, o P.e Borja pede paciência à Rainha e promete enviar o madeirense para Roma, o que nunca se chegou a concretizar. O padre geral só chegaria a Roma a 28 de setembro de 1572 e faleceria passados três dias. Ainda durante a visita do legado papal a Portugal, o Jesuíta madeirense escreve a D. Sebastião, reiterando o cansaço já manifestado e a vontade de se retirar: “Parece que não me querem já matar, ando, todavia, sem gosto algum, ainda que trabalho pelo encobrir o mais que posso” (SERRÃO, 1987, 218). Com a morte de Francisco de Borja, a 30 de setembro de 1572, a Rainha vê mais uma oportunidade para afastar, definitivamente, Câmara do Rei. Se o seu jogo de influências fosse vitorioso, conseguiria que o madeirense fosse eleito padre geral e rumasse, permanentemente, para Roma. Na congregação provincial celebrada em Évora durante o mês de dezembro foi debatida a antiga polémica envolvendo os primos Gonçalves da Câmara e Leão Henriques: “Se conviria que os dois […] se depusessem o cargo de confessores […] o que perturbava o sossego da vida regular, e desdizia inteiramente de nosso Instituto” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 388). A congregação conclui que os confessores não deveriam renunciar, ignorando as “murmurações do povo ignorante ou de homens sem religião” (Id., Ibid., 388). Para possível ressentimento do P.e Gonçalves da Câmara, e desespero da Rainha, D. Sebastião não autoriza a ida do padre jesuíta à terceira congregação geral, que elegeu o novo líder da Ordem, apesar de o madeirense ter sido um dos delegados designados para esse efeito na congregação provincial. A posição defendida pela comitiva portuguesa, liderada pelo seu primo, o P.e Leão Henriques, na qualidade de vice-provincial, era a de que o próximo padre geral não fosse castelhano nem cristão-novo, numa clara oposição à eleição do P.e Juan Afonso de Polanco, homem de confiança dos três anteriores gerais, que se enquadrava nesse retrato. Aliás, essa posição foi apoiada pelo Rei e pelo seu tio-avô, que remeteram missivas ao Papa Gregório XIII, a Filipe II e à congregação, nesse sentido. A congregação geral, que reuniu 47 religiosos da Companhia, acabou por ser favorável aos desejos dos Portugueses, apoiados pelos Italianos, defensores do processo de “des-Hispanización [desispanização]” (CASTRO, 2012, 199), e elegeu o P.e Everardo Mercuriano, belga, com 27 votos, a 22 de abril de 1573. No início de 1574, a 11 de janeiro, um acontecimento perturbará e marcará o Rei: o P.e Luís Gonçalves da Câmara, alegando motivos de saúde e espirituais, parte para Évora, abandonando a corte. Alguns meses depois, Câmara remeteu uma missiva ao geral, referindo que se sentira preso nos seus 14 anos de serviço a D. Sebastião e que já não possuía “forças espirituais nem corporais para sofrer o cativeiro” (ARSI, Lus., n.º 65, 208). Estava-se, pois, perante um homem com grandes dotes intelectuais, descrito como feio, cego de um olho e extremamente gago, de “presença bruta” (CRUZ, 2012, 81), e completamente esgotado. Apesar dos constantes pedidos para se afastar da corte, nunca tal tinha sido autorizado, mas agora, logo após a eleição do novo geral, o seu desejo seria concretizado. Outra possibilidade é a de que o afastamento do preceptor não corresponderia a um verdadeiro desejo seu, mas sim a uma imposição por pressão da corte, em consequência de desgaste, ou mesmo pelo retorno de um antigo inimigo. Em abono desta interpretação, refira-se um acontecimento ocorrido no ano anterior. Em setembro de 1573, o P.e Simão Rodrigues, afastado há várias décadas da província portuguesa, num processo em que Câmara teve um papel decisivo, tinha regressado ao reino, motivado e legitimado pela missão de que o novo geral o incumbira, no sentido de o informar sobre o antigo desacordo existente na província. Continuavam a existir duas fações: na sua ala mais conservadora e rigorosa, destacava-se a influência do padre madeirense; na outra, liderava o P.e Manuel Rodrigues, que seria eleito padre provincial do reino. Em Évora, em consonância com o pedido feito pelo geral da Companhia, e também pelo reitor do Colégio, o madeirense Manuel Álvares, o P.e Gonçalves da Câmara retoma os trabalhos do Memorial, interrompido há quase duas décadas. Conclui a sua redação por volta da Festa de Pentecostes de 1574. Apesar de fisicamente afastado da corte, a sua influência não se desvaneceu com facilidade. Afinal, o Jesuíta Maurício Serpe, que o substituiu como confessor do Rei, acompanhara o madeirense enquanto professor de Latim e responsável pelos moços fidalgos companheiros do Rei. A posição de Câmara era contrária à incursão real em territórios africanos e coadunava-se com a política do cardeal D. Henrique, que defendia que o matrimónio deveria preceder qualquer campanha militar, para garantir que a linha de sucessão do trono não ficasse comprometida. Recolhido em Évora, o Jesuíta desloca-se ao paço da Boa Vista em Lisboa, por ordem do provincial, para tentar demover o Rei da sua incursão armada em África. Apesar das acusações de controlo do P.e Gonçalves da Câmara sobre o Monarca, o madeirense não terá sucesso na sua missão. Em 1574, o P.e Simão Rodrigues escreve ao geral, a partir de Coimbra, retratando Câmara como um homem “excessivamente caprichoso, […] eficacíssimo em suas fantasias e apreensões”. Se a sua vontade não fosse atendida, tinha “desmaios, ânsias e dor de coração” (RODRIGUES, 1931-1950, I, 2, 87). O tempo nunca sanaria as feridas das lutas do passado. No mesmo ano, D. Sebastião segue para África, apesar da forte objeção da sua avó, do seu tio-avô e do próprio Gonçalves da Câmara. O madeirense ruma para Coimbra, onde o seu estado de saúde se agrava. Escreve ao Rei, pedindo o seu regresso, o que acontece em novembro, quando o Jesuíta, já em Santo Antão, recebe a visita do Monarca. Entre as cartas enviadas a D. Sebastião, apelando ao seu retorno, nenhuma teve tanto impacto, e prova disso poderá ser o facto de a visita real acontecer no dia seguinte à atracagem em Lisboa. Nos meses posteriores, a sua saúde degrada-se irremediavelmente, até que, a 15 de março de 1575, às 04:30 da manhã, morre em Lisboa. Um conterrâneo seu, o P.e Manuel Álvares, vice-reitor do Colégio, dá a notícia da sua morte a Roma. Durante os últimos meses de vida, o seu estado de saúde esteve sob os cuidados do seu “companheiro inseparável”, o P.e Amador Rebelo. Certo é que a sua morte provocou grande consternação no Rei, que se fechou no quarto durante três dias, recusando falar. Depois, encerrou-se no mosteiro de N.ª Sr.ª do Espinheiro por cerca de mais 10 dias. “Que quereis que faça, se eu não conheci outro pai nem outra mãe, senão ao P.e Luís Gonçalves da Câmara”, terão sido, segundo o P.e António Franco, as palavras com que o Rei terá exprimido o seu desgosto (FRANCO, 1930, 148). O Monarca não demonstrou tamanha comoção com a morte da sua mãe, nem a demonstraria com a da avó ou a da tia, declarando, em jeito de epitáfio, que “ninguém sabia quanto devia ao padre Luís Gonçalves da Câmara, senão ele só” (RODRIGUES, 1931-1950, II, 2, 270-271). Em Lisboa, o Rei visitou a sepultura do madeirense no Colégio de S.to Antão e assistiu a uma missa em sua memória. Em maio de 1576, o seu irmão, Martim Gonçalves da Câmara, abandonou a corte e os cargos que desempenhava, numa posição que já estava muito desgastada. Em 1578, a morte de D. Sebastião e a desastrosa missão africana, que acarretou a perda da independência, constituíram “um locus paradigmático utilizado de maneira recorrente pela literatura antijesuítica” (FRANCO, 1996, 1, 121). Essa crítica foi muito alimentada pelo poder, pelo protagonismo e pela influência dos irmãos Câmara. A sua influência e a sua posição na corte fomentaram o mito contra a Companhia, com vários autores a recorrerem à narrativa que lhes atribuía parte da responsabilidade (ou toda ela) pelo desastre de Alcácer-Quibir. Essas críticas foram potenciadas pela posição de destaque de outros Jesuítas que eram confessores na corte, o que, combinado com a política de apoio à Companhia, contribuiu para consolidar suspeitas e acusações. Para além de tudo o que o P.e Luís Gonçalves da Câmara atingiu em vida, os seus escritos perpetuaram e difundiram elementos únicos da biografia inaciana. A sua atuação despertou sentimentos antagónicos, nunca sendo indiferente aos seus companheiros, amigos e inimigos.   Luís Eduardo Nicolau (atualizado a 25.01.2017)

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