curaçau

10 Jan 2017 por "Maria"

As Antilhas Neerlandesas ou Holandesas são formadas por dois grupos de ilhas, sendo um a norte das Pequenas Antilhas (Saba, Santo Eustáquio e São Martinho) e o outro ao largo da costa da Venezuela (Aruba, Bonaire e Curaçau). A ilha de Curaçau foi a que manteve um maior contacto com a Madeira com a exploração petrolífera da Royal Company Shell, que nela se instalou com refinaria em 1919. Foi em torno desta refinaria que se deu o desenvolvimento de Curaçau, que atraiu os madeirenses em 1951. A saga da emigração madeirense, que teve lugar sobretudo a partir da déc. de 40 do séc. XX, ficou imortalizada numa memória da viagem de 1944 feita por João Perpétuo do Funchal ao Curaçau, com o título Memórias de um Emigrante.

Todavia, antes de isto acontecer, já os portugueses/madeirenses estavam por estas paragens, na medida em que a comunidade judaica, na qual havia muitos madeirenses ou seus descendentes, teve aí acolhimento após a restauração de pernambuco aos holandeses, sendo responsável no litoral e ilhas pelo desenvolvimento da Cultura açucareira. Data de 1621 o primeiro assentamento holandês, presença que se irá afirmar nas décadas seguintes, quando, em 1634, reclamam para os países baixos entrepostos de comércio e colonização em Curaçau. Contudo, já em 1501 os portugueses andavam por essa ilha, encontrando nessas paragens refresco e cura para o escorbuto. Daí o nome Curaçau, que é corruptela de coração (arte de curar).

Por outro lado, no séc. XVI, a Madeira serve de modelo para a definição dos sistemas políticos e de ocupação dos pequenos espaços, entre os quais está Curaçau, La Margarita e Aruba. Em 1518, as autoridades antilhanas, interessadas em resolver a difícil situação destas três ilhas, olham com atenção para o modelo madeirense de povoamento. Não sabemos, no entanto, se existiram contactos nesse sentido ou se alguns madeirenses foram para ali conduzidos com essa missão.

As atividades comerciais são um elo importante de ligação a este espaço, tendo como principal produto o vinho. Duarte Sodré Pereira, um fidalgo comprometido com o comércio Atlântico, dá-nos conta da situação do mercado, em princípios do séc. XVIII (SILVA, 1992). De acordo com o seu copiador de cartas, esteve envolvido no comércio com Inglaterra, Lisboa, EUA, América Central (Barbados, Jamaica e Curaçau) e Brasil. No decurso do séc. XVIII, Curaçau serviu de porto de contrabando do vinho Madeira para as Antilhas Francesas, mais propriamente para a Martinica. Relativamente ao período de 1696 a 1714, temos notícia de 1070 pipas de vinho com esse destino. Depois, há referência a 35 pipas em 1791, 95 em 1801 e 18 em 1848. Só voltamos a ter dados sobre a exportação de vinho em 1954, com a saída de 1295 litros para o Curaçau e 892 para a Guina holandesa. Associa-se ainda algum bordado via postal, que atinge, em 1954, o valor de 60 contos. Nesta data, também se exportou 100 toneladas de batata, sendo 61 para Curaçau e as restantes para a Guiana Holandesa.

Mas o que atraiu maior número de madeirenses para este destino foram as vagas emigratórias que se sucederam às duas guerras mundiais. O Brasil continuou a ser um dos destinos preferenciais da maioria dos madeirenses, mas as opções alargaram-se a outros mercados recetivos à mão-de-obra. Nos anos de 1929 e 1951, tivemos a emigração orientada pela companhia Shell – Curaçaosche Petroleum Industrie Maatschappij (CPIM), que permitiu a saída de mais de 4000 madeirenses. Muitos destes deram, depois, o salto para a Venezuela, que se tornou num novo destino, conjuntamente com o Canadá, Austrália, América do Sul e as colónias portuguesas de Angola e moçambique. A proximidade da Venezuela e de Trinidad relativamente a Curaçau permitia que ambos os destinos aparecessem, lado a lado, na publicidade da imprensa madeirense e, assim, o referido salto de muitos madeirenses para a Venezuela quando esta se tornou no destino de eleição. Esta informação publicitária de percursos comuns acontece entre 1938 e 1951.

A razão desta valorização do destino Curaçau tem a ver com a construção, entre 1915 e 1936, da refinaria. O seu funcionamento, a partir de 1918, implicou o recrutamento de mão-de-obra. Embora na primeira fase se tenha servido dos trabalhadores locais, estes foram insuficientes para as necessidades de pleno funcionamento da refinaria nas décadas seguintes. Daí o recrutamento de mão-de-obra em Portugal continental, nos Açores e na Madeira.

No entanto, antes disso, houve emigração para Curaçau, com anúncios na imprensa desde 1908. Em 1929, chega o primeiro grupo de 129 portugueses a essa ilha para o trabalho na refinaria, de forma que, em 1931, eram já 955 os emigrantes portugueses ao serviço da mesma, passando para 2563 em 1938, o que representava 42% dos trabalhadores da companhia. Apenas em 1 de junho de 1938 temos notícia, na imprensa madeirense, da chegada de 50 madeirenses, tendo lugar a chegada de outros 50 a 1 de junho, o que não quer dizer que tal não tivesse já acontecido. Para além do mais, no ano seguinte, a comunidade madeirense era já composta por 2000 emigrantes. Temos referência da chegada, em 1939-40, de 2250 emigrantes portugueses e da saída de um navio do Funchal com 1206 madeirenses rumo a este destino a 16 de março de 1944. Acompanhava-os um médico, o Dr. Jorge Jardim Azevedo, que depois terá ficado ao serviço da companhia. Deste modo, em 1945, o número de operários ao serviço da companhia era de 3002, o maior número conhecido. No ano de 1946 são recrutados 95 operários especializados. Os dados oficiais registam a saída de 2115. Para 1951, refere-se que eram 2434 os emigrantes madeirenses em Curaçau ao serviço da companhia, que dispunha de 8881 trabalhadores, diminuindo para 2300, em 1954, e voltando a subir em 1958, com 2500 madeirenses. Notamos que, nesta década, os dados oficias registam a saída de 519 madeirenses e não temos informações sobre as décadas seguintes.

A emigração para Curaçau seguiu um sistema distinto dos demais rumos. O recrutamento dos emigrantes com idade inferior a 39 anos era feito pela companhia no Funchal, primeiro com o apoio do comerciante Gastão Teixeira e, depois, da Casa Hinton. Os candidatos a emigrantes inscreviam-se junto do regedor da freguesia, sendo posteriormente submetidos a uma inspeção no Funchal. Da lista dos emigrantes aprovados, o Governo Civil fazia o sorteio dos que deviam sair, de acordo com os números definidos pela companhia, e só depois eram conduzidos a Curaçau. As listas dos candidatos são publicadas na imprensa, mas só temos os registos relativos ao ano de 1951. Pelos dados de saída das embarcações que escalaram o Funchal, em 1951, sabemos que emigraram 911 madeirenses. A partir daqui, parece que o movimento vai decrescendo de modo que, em 1953, temos notícia de apenas 33 e, depois, só encontramos registo da saída de 30 emigrantes em 1961.

As condições desta emigração eram distintas de outras que a antecederam, como foi o caso de Demerara, no séc. XIX. A partir de 1946, o contrato individual de trabalho estabelecia regras muito rigorosas quanto ao recrutamento, à forma de pagamento do salário e à sua duração. Os homens a recrutar deveriam ter entre 18 e 40 anos, passando em 1950 a idade limite para 35 anos, mas o passaporte só era concedido àqueles que tivessem já cumprido o serviço militar. Além disso, deveriam ser portadores de uma declaração do médico sobre o seu estado de saúde, sendo, assim, sujeitos a inspeção médica no momento do recrutamento. No período de 1930 a 1940, todos os homens são solteiros, situação que se altera nas décadas seguintes, passando a haver preferência pelos homens casados. O dia de trabalho era de 8 h e havia o direito a uma semana de férias. Após quatro anos de trabalho, os trabalhadores tinham direito a visitar a família por três meses, com ordenado e viagem pagas pela companhia.

A companhia assegurava a cada um dos funcionários a viagem de retorno. Em alternativa, poderiam chamar as mulheres e os filhos, pagando a companhia as despesas da viagem e assegurando uma habitação no bairro dos operários. Assim, em julho de 1951, houve a notícia do retorno de 56 madeirenses, que vinham, na sua maioria, “passar uma temporada junto de suas famílias” (DN da Madeira, 19 jun. 1951). Em 1958, teve lugar outra excursão de madeirenses de Curaçau no vapor Santa Maria, com 47 emigrantes, e, em maio de 1961, o mesmo navio transporta outros 30, em viagem de visita familiar.

Na doença, os funcionários tinham serviços médicos gratuitos e, em caso de baixa, recebiam entre 60% e 70% do salário. Estes eram acompanhados no Curaçau por um médico português, o Dr. Tito Francisco Cabral de Noronha (1919-1991), dos Canhas, que exerceu essa missão entre 15 de fevereiro de 1945 e 25 de março de 1960, regressando à Madeira a 8 de abril de 1960. Além disso, o salário dos trabalhadores era pago parcialmente na ilha, fixando a companhia um valor a transferir à família a cada duas semanas, de forma que, em 1954, terão sido pagos 56.000 contos às famílias dos emigrantes.

À chegada, os emigrantes eram instalados em Suffisant, onde existia uma cantina e barracões onde dormiam de 13 a 85 pessoas. Neste bairro, a companhia procurava criar condições de bem-estar para os trabalhadores, não descurando a sua Cultura. Assim, contribuiu para a construção da igreja de Nossa Senhora de Fátima, que tinha um padre português desde 1946. Nos domingos, feriados e tardes de sábado, a companhia procurava também assegurar condições de integração, dando meios aos madeirenses para realizar a tradicional espetada e passar o tempo em atividades lúdico-desportivas. A 1 de dezembro de 1937, foi criado o Portuguese Club para celebrar o dia da independência de Portugal de 1640, cuja comemoração a companhia respeitava. Depois, surgiram as associações desportivas: Madeirense Sport Club (1948), União Português (1949), Sporting Futebol Club e Futebol Club. Sabemos também da existência de um jornal, União, publicado pelo jornalista madeirense Silvestre Gonçalves.

A déc. de 50 foi um momento fulgurante da presença madeirense no Curaçau. A comunidade madeirense consolida-se e afirma-se como próspera e o impacto desta situação reflete-se no seu quotidiano. O emigrante no Curaçau envia donativos e organiza as festas religiosas. A 27 de abril de 1961, o deputado Agostinho Gomes afirmava, no Parlamento Nacional, que essa riqueza acabara com o regresso dos madeirenses à referida ilha. Ainda em 1961, deslocou-se um grupo, o Funchal Desportivo, ao Curaçau, a convite da Associação de Curaçau, o que foi motivo de importante divulgação por parte da comunidade madeirense.

Nas décs. de 50 e 60, os trabalhadores podiam, após 10 anos de trabalho, desvincular-se da companhia e trabalhar por sua conta, ou emigrar para outro destino. Assim, dos 3402 operários portugueses em 1945, subsistiram 1664 em 1955 e apenas 281 em 1961. O futuro agora parecia estar no Canadá, na Venezuela e no Brasil, espaços que cativaram a atenção destes portugueses.

A imagem que se tinha dos portugueses e, em especial, dos madeirenses no Curaçau é que eram pessoas dedicadas que aceitavam todo o tipo de trabalho, mesmo os mais duros, daí o apelido de mules, a designação popular para mulas ou burros de trabalho.

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Alberto Vieira

(atualizado a 26.08.2016)

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