telles, martha (1930-2001)

31 Jan 2017 por "Carlos"

Nascida no Funchal, a 19 de agosto de 1930, filha de um advogado madeirense e de uma cantora lírica dinamarquesa, Martha Cohen da Cunha Telles, após uma breve iniciação com o pintor paisagista Max Römer na sua terra natal, cursou Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, obtendo o diploma do Curso Especial e do Curso Superior. Entre 1963 a 1965 foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, onde estudou pintura sob a orientação de Maria Helena Vieira da Silva e Sociologia da Arte na Sorbonne. Após uma breve passagem pelo ensino secundário foi para Copenhaga em 1961, onde fez a sua primeira exposição individual. Nesta cidade, a par da pintura, trabalhou também como desenhadora técnica, atividade que já tinha praticado no Porto.

Em 1968 mudou para Montreal e aí prosseguiu estudos. Obteve o Bacharelato em Artes Plásticas na Universidade do Quebeque (1968-71), frequentou o Curso de Gravura na Universidade McGill e foi bolseira do Conselho das Artes do Canadá (1980-81). Naturalizou-se canadiana em 1974 e, após dezasseis anos no Canadá, regressou a Portugal em 1983. Viveu uma temporada na Bélgica e faleceu a 21 de fevereiro de 2001, em Lisboa.

Da sua passagem por Paris ficou o apuramento de uma técnica de óleo que usou em meticulosas quadrículas geradoras de perspetivas fantásticas em espaços vazios com pendor metafísico. Aplicou também este processo à evocação de interiores ladrilhados que vai povoando de personagens saídos das memórias de infância. Sem ingenuidade nem registo naturalista, a sua figuração tem sido conotada com um realismo fantástico, na medida em que parte do real para uma efabulação livre e emotiva. Pinta derivas em torno do retrato e da paisagem, muitas vezes com uma subjacente estrutura geométrica que potencia a sensação de ausência e de solidão, convocando o silêncio de uma interrogação existencial (Fig.1).

Para além da pintura a óleo trabalhou também a aguarela, a gravura e fez cartões para tapeçaria. Os seus últimos trabalhos consistiram numa rie de pequenos formatos, a técnica mista e colagens, com variações sobre o tema da espera, numa revisitação da longa linhagem de Vénus reclinadas iniciada por Tiziano, em que a mesma figura é encenada sempre de modo diverso. São trabalhos de revisitação e síntese que, nas variações de fundos e objetos que acompanham a figura, cruzam memórias pessoais com citações de pinturas suas ou de outrem, respigadas num museu imaginário de história da pintura.

Expôs individualmente em Copenhaga, 1962; em Lisboa, na Galeria "Diário de Notícias", 1968; em Montreal na Livraria Dawson, 1978 e na Galeria “A”, 1981; na Fundação Calouste Gulbenkian e no museu de Arte Sacra do Funchal, 1984; no Palácio de Mateus, em Vila Real, 1984; no Porto, museu Soares dos Reis, 1985; no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, em 1985; no Palácio D. Manuel, em Évora, 1985; em Paris, no Centre Culturel Portugais da Fundação Calouste Gulbenkian; na Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986; na Galeria R75, 1986; no Salão Internacional de Artes e Antiguidades, em Knocke, Bélgica, 1991. Postumamente foi organizada uma exposição na Casa-museu Frederico de Freitas, Funchal, 2003.

Participou ainda em inúmeras exposições coletivas, das quais destacamos: I Bienal de Paris em 1959, II e V Salão dos Novíssimos, Lisboa, 1960 e 1963; II Bienal do Quebeque, Centre Saidye Bronfman, 1979; Artistas Portugueses Residentes no Estrangeiro, Lisboa, Galeria Almada Negreiros, 1982; 171 artistes québécoises, Bibliothèque Marie Uguay, Montréal, 1982; O fantástico na arte portuguesa contemporânea, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986; Artistas Portugueses da Bélgica, Bruxelas, 1992.

A sua obra encontra-se em coleções particulares, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, no museu de Arte Contemporânea do Funchal (“Hommage à ma mère - Le lied de Schumann” (Fig.2) e “Le départ”), e na coleção da Caixa Económica do Funchal /BANIF (“Mémoires d’enfance - La maison de campagne”, e tapeçaria “São Vicente”). Uma parte do seu espólio encontra-se em depósito temporário na Casa-museu Frederico de Freitas, no Funchal.

Bibliog: “Martha Telles, Fotobiografia breve (1930-2001)”, Islenha, nº 48, Jan.-Jun. 2011, pp. 37-44; BESSA-LUÍS, Agustina, Martha Telles, O castelo onde irás e não voltarás, Porto, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Colecção Arte e Artistas, 1986; FRANÇA, José-Augusto, “Martha Telles, por incomunicabilidade”, Islenha, nº 48, Jan.-Jun. 2011, pp. 17-22; FRANÇA, José-Augusto, A Arte em Portugal no culo XX, Lisboa, Bertrand, 1974; GONÇALVES, Rui Mário, História da arte em Portugal de 1945 à actualidade, vol. 13, Lisboa, Publicações Alfa, 1986; GONÇALVES, Rui Mário, O fantástico na arte portuguesa contemporânea, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986; (catálogo de exposição) I Exposição dos alunos da Escola Superior de Belas Artes do Porto, Lisboa 30 Junho a 12 Julho 1959, S.N.I., / Fundação Calouste Gulbenkian; (catálogo de exposição) Martha Telles: um livro, uma exposição, Lisboa, Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1986; (catálogo de exposição) MATOS, A. Campos, “Martha Telles, uma breve evocação”, Islenha, nº 48, Jan.-Jun. 2011, pp. 5-16; PAMPLONA, de Fernando, Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, Porto, Livraria Civilização, 5 Vols., 1988, Vol. V, p. 284; SOBRAL, Luís de Moura, “Martha Telles em seu Labirinto”, Colóquio-Artes nº51, Dezembro de 1981, p. 6; SOBRAL, Luís de Moura, “Martha Telles: Retratos e melancolias”, Islenha, nº 48, Jan.-Jun. 2011, pp. 23-28; SOBRAL, Luís de Moura, Martha Teles, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Junho/Julho 1984 e museu de Arte Sacra do Funchal, Julho/ Agosto 1984; (catálogo de exposição) SOUSA, Francisco António Clode de, Martha Telles, Exposição temporária na Casa-museu Frederico de Freitas, Funchal, DRAC, 2003; (catálogo de exposição) TELLES, Martha; TAMEN, Pedro, 24 Variations Sur Un Thème, Edição nº1 da Autora, Lisboa, Novembro de 1993; (catálogo de exposição) VALCK, Gérard, “Martha Télès – Au-delá du réel”, Vie des Arts, vol. XXII, Montréal, Quebec, nº91, Été 1978; VIEIRA, Sofia Marta Pestana Sá, “Labirinto de memórias”, Islenha, nº 48, Jan.-Jun. 2011, pp. 29-36.

Isabel santa clara

(atualizado a 16.08.2016)

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