d’albertis, enrico alberto
Famoso escritor e navegador, Enrico Alberto D’Albertis nasceu em Voltri (Génova), em 1846. Depois de se formar como guarda-marinha, em 1866, no mesmo ano tomou parte na batalha de Lissa, um dos momentos mais infelizes da terceira Guerra de Independência italiana. Em 1870, depois de deixar a Marinha militar, aderiu à Marinha mercante; e, no ano seguinte, liderou o primeiro comboio italiano que atravessou o Canal de Suez. Entre 1874 e 1880, dedicou-se à vela, cruzando o Mediterrâneo a bordo de seu iate Violante. Em 1879, fundou o Royal Yacht Club italiano. Em 1882, viajou para San Salvador a bordo de um barco maior, o Corsaro, refazendo a rota de Colombo. Após o sucesso da primeira empresa, já como comandante de corveta, entre 1895 e 1896, fez uma segunda viagem à volta do mundo. Em 1910, fez a sua terceira e última viagem. D’Albertis morreu em 1932, em Génova, no Castelo de Montegalletto, a sua residência oficial.
No verão de 1882, D’Albertis – descrito por um cronista do Caffaro como uma pessoa original, franca e leal, que apreciava a força rude, revelando em todos os seus escritos uma grande competência em matérias marítimas – chegou à Madeira a bordo do cutter Corsaro. Sobre esta viagem publicou, em 1884, a obra La Crociera del Corsaro alle isole Madera e Canarie, impressa em Génova pelo R. Istituto Sordomuti.
O capítulo 2 de La Crociera del Corsaro é dedicado inteiramente à ilha da Madeira. O autor especifica logo de início os dados essenciais: “O grupo da Madeira é composto pelas ilhas da Madeira, porto santo e Desertas; está localizado a 340 milhas ao largo da costa de Marrocos e é povoado por cerca de 124.000 habitantes. Parece que esta ilha era já conhecida pelos antigos geógrafos e fazia parte, em conjunto com os Açores e as Canárias, da lendária Atlântida” (D’ALBERTIS, 1884, 26). Depois da informação histórica sobre os primeiros exploradores, D’Albertis demora-se com a descrição geográfica da Ilha, e sugere muitos outros dados interessantes: “Alta e íngreme é a ilha da Madeira, levantando-se ao centro com montanhas rochosas, entre as quais o Pico Ruivo, que atinge os 1845 m; geralmente, as montanhas são atravessadas por vales estreitos, ricos em águas, que muitas vezes formam cascatas belas e abundantes que brotam das densas florestas. Apesar de não haver vestígios de verdadeiras crateras, os picos pitorescos das montanhas sugerem grandes convulsões telúricas. […] As inundações, pelo próprio declive das montanhas, são um dos flagelos mais violentos da Ilha. No início do séc. XVIII, uma dessas inundações destruiu Machico e provocou muitos danos no Funchal, que em 16 de outubro de 1842 foi visitado por um terrível furacão e uma inundação como não se via desde 1803” (D’ALBERTIS, 1884, 30-31). Fornecidas as informações sobre o clima e descrita a geografia da costa, D’Albertis prossegue com detalhes sobre a agricultura local e o cultivo da vinha e da cana-de-açúcar: “Não se pode dizer que a agricultura seja muito cuidada, e as ricas colheitas devem-se mais à fertilidade do solo e à excelente posição da Ilha, do que ao cuidado e à habilidade dos agricultores; mas temos de lhes prestar homenagem pela indústria com que souberam preparar terrenos cultiváveis, transformando, como os camponeses da Ligúria, encostas íngremes e ravinas em terraços bem suportados, ou degraus capazes de ser cultivados” (D’ALBERTIS, 1884, 36-37).
O estilo da obra é original, sintaticamente rico e, às vezes, quase poético e evocativo, ainda que nos modos próprios da sua época: “Ó Madeira! Madeira! Quanto és bela, quão charmosa, contemplada do alto das tuas pitorescas montanhas! O olhar humano nunca ficaria saciado a admirar as tuas alegres colinas, as tuas verdejantes encostas cobertas de cedros e pinheiros, as imponentes ravinas com os seus terraços cultivados, as tuas espumantes cascatas, os campos férteis ainda mais encantadores pelo teu clima temperado e por um ar pleno dos inúmeros aromas dos teus jardins! Até os muros que cercam as propriedades limítrofes às ruas, quase tímidos e envergonhados, estão escondidos sob um espesso manto de folhagem, flores e trepadeiras. E nem o próprio cemitério é grave e triste; pelo contrário, é um vasto quadrado multicolor, com massas de gerânios e hortênsias, arbustos de pitósporos e de oleandros, que escondem a melancolia daquele lugar de paz e repouso, que recorda claramente os mitológicos Campos Elísios!” (D’ALBERTIS, 1884, 42).
Obras de Enrico Alberto D’Albertis: La Crociera del Corsaro alle isole Madera e Canarie (1884).
Bibliog.: D’ALBERTIS, Enrico Alberto, La Crociera del Corsaro alle isole Madera e Canarie Genova, R. Istituto Sordomuti, 1884;FORNAROLI, Livia Albertina, Ardita gente ligure. Enrico Alberto d’Albertis, Genova, Bozzo & Coccarello, 1935; PASCALE, Andrea de, Enrico Alberto d’Albertis: il Finalese e la collaborazione con Arturo Issel, Atti del convegno Nascita della Paletnologia in Liguria, Bordighera, Istituto internazionale di Studi Liguri, 2008, pp. 337-346; digital: SURDICH, Francesco, “D’Albertis, Enrico Alberto”, in Dizionario Biografico degli Italiani, vol. 31, Roma, Istituto dell’Enciclopedia Italiana, 1985: http://www.treccani.it/enciclopedia/enrico-alberto-d-albertis_(Dizionario_Biografico)/ (acedido a 16 mar. 2016).
Chiara Tommasi
(atualizado a 05.04.2016)