igreja adventista

21 Dec 2016 por "Carlos"

A primeira presença registada de um adventista na Madeira é a de Warren E. Howell (1869-1943), que visita a ilha em agosto de 1922 com a intenção explícita de desenvolver ação missionária nesta parte do território português. Howell era na época secretário, o que equivalia ao principal responsável do Departamento de educação da Conferência Geral dos Adventistas. Antes disso, porém, tinha desenvolvido trabalho missionário no havai e na Grécia. Embora não haja evidências de que, durante a sua curta estadia no arquipélago, Howell tenha anunciado a “mensagem adventista”, a verdade é que esta experiência não deixaria de ter seguimento anos mais tarde.

O movimento adventista devidamente estruturado em torno de uma doutrina sistematizada e de organização própria havia surgido menos de um culo antes, nos Estados Unidos da América, datando de maio de 1863 a constituição da Conferência Geral dos Adventistas do timo Dia. Todavia, tanto no continente americano como no europeu, era já de há algumas décadas a preocupação de alguns cristãos pelo estudo da Bíblia com uma forte ênfase em temas relacionados com a profecia bíblica, particularmente com base nos textos dos livros bíblicos de Daniel (Antigo Testamento) e do Apocalipse (Novo Testamento). Assente nos princípios comummente partilhados pela ortodoxia cristã expressa no credo niceno e historicamente enraizada na tradição protestante (evidenciada pela presença de batistas, metodistas e membros de outras igrejas nos grupos precursores deste movimento), a Igreja Adventista desenvolveu alguns distintivos como a guarda do sábado, a doutrina do santuário celeste, a não imortalidade da alma, o aniquilamento dos ímpios e, entre outros, a importância da temperança, com grande ênfase em questões de saúde e alimentares. Ellen G. White (1827-1915) viria a ser considerada pelos adventistas como profetisa e é certamente a personalidade que maior influência teve na formulação da doutrina deste movimento, através dos seus muitos escritos que ainda hoje continuam a ser minuciosamente estudados. Numa das suas mais conhecidas obras, White não só faz uma abordagem histórica do cristianismo, como apresenta o que garante ser a solução para o género humano, com base no texto bíblico.

No território continental português a Igreja Adventista estava implantada desde 1905, por ação do pastor norte-americano Clarence E. Rentfro (1877-1951), que permaneceria em Portugal entre 1904 e 1917. Tal como na maior parte dos ramos do protestantismo português, a expansão territorial dos primórdios do adventismo português deu-se muito mais por razões conjunturais do que pelo delineamento de uma estratégia planeada e criteriosamente executada. Não havendo uma estrutura de apoio no terreno, a já referida visita de Howell à Madeira em 1922 não teve sequência imediata, mas o apelo que deixou e materializou na imprensa adventista da época acabou por ter impacto num “filho da terra”, o madeirense Joaquim Gomes da Silva (1868-1957), da comunidade portuguesa de Honolulu, onde Howell tinha antes exercido a sua missão. A viagem de Gomes da Silva à Madeira em 1929 seria efetivamente o lastro para o trabalho que até hoje a Igreja Adventista desenvolve no arquipélago. O trabalho de Gomes da Silva consistiu fundamentalmente no estabelecimento de contactos pessoais, estudos bíblicos, bem como distribuição de folhetos e livros, que explicitavam as doutrinas fundamentais do adventismo. É de referir que esta ação metódica, apesar da contestação que gerou em meios ainda não completamente adaptados à pluralidade religiosa, suscitou interesse tanto de católicos como também de alguns membros de igrejas protestantes que, mesmo tendo pouca expressão numérica, tinham forte implantação na ilha desde meados do c. XIX.

[caption id="attachment_7027" align="aligncenter" width="1920"]Joaquim Gomes da Silva Joaquim Gomes da Silva, natural da Madeira, emigrado no havai; visitou a sua terra natal em 1925 e 1946 Fonte: Arautos de Boas Novas, de Ernesto Ferreira, p. 324.[/caption]

Após o regresso de Joaquim Gomes da Silva, o acompanhamento aos convertidos adventistas na Madeira fica confiado ao trabalho episódico de Jerónimo Falcão e Julio Miñán, até à chegada, logo no princípio de 1931, do primeiro missionário que passaria a residir no Funchal com a sua família, o pastor Ernest P. Mansell (1889-1974), cuja adaptação não foi muito difícil, uma vez que já conhecia a língua devido ao seu trabalho missionário anterior no Brasil. Apesar da curta permanência da família Mansell na Madeira (em 1934 já estavam de saída para iniciar a ação missionária adventista nos Açores), foi durante esta época que se estruturou a Igreja Adventista na Madeira. Assim, a 29 de julho de 1932 foram efetuados os primeiros batismos adventistas e no dia seguinte foi formalmente organizada a igreja. É de salientar que os batismos da Igreja Adventista são realizados por imersão e aplicados apenas a pessoas adultas, como é prática de muitas das denominações protestantes. Um outro aspeto digno de nota é que nesta primeira cerimónia batismal dos adventistas na Madeira foram imersas 12 mulheres e apenas dois homens, o que representa um aspeto muito característico da prática religiosa em Portugal.

[caption id="attachment_7033" align="aligncenter" width="1240"]Os 14 membros batizados no primeiro serviço batismal realizado na Madeira pela Igreja Adventista, em 1932. Na foto estão também o casal Mansell e Neumann. Fonte: Arautos de Boas Novas, de Ernesto Ferreira, p. 327 Os 14 membros batizados no primeiro serviço batismal realizado na Madeira pela Igreja Adventista, em 1932. Na foto estão também o casal Mansell e Neumann. Fonte: Arautos de Boas Novas, de Ernesto Ferreira, p. 327[/caption]

Só 10 anos depois da chegada de Ernest P. Mansell à Madeira é que a designada Missão da Madeira (cuja primeira direção foi constituída a 18 de maio de 1934) passou a ter um presidente português, o pastor Alberto F. Raposo, que permaneceu no arquipélago apenas por dois anos. Desde então passaram pela Madeira mais de 20 pastores, permanecendo cada um em média por três ou quatro anos. Ao longo dos anos, nem sempre foi fácil enviar pessoas com a vocação e as competências necessárias para o exercício da liderança eclesiástica das diferentes comunidades, particularmente quando, a partir do final dos anos 30 do c. XX, a Igreja Adventista nacional assumiu também o desafio de providenciar liderança às congregações que se iam formando nas então colónias de África. Para além disso, os adventistas foram neste período alvo de forte contestação tanto por parte da igreja hegemónica como mesmo por parte das igrejas protestantes já estabelecidas na ilha, que os chegaram a acusar na sua imprensa de “anti-católicos” mas também de “anti-protestantes” (QUEIRÓS, 1936, 2).

Por razões estratégicas, foi decidido dissolver a Missão da Madeira no final de 1971, a qual tinha sido criada 37 anos antes para supervisionar as comunidades que se fossem formando no arquipélago. A partir daí as igrejas adventistas da Madeira e seus locais de pregação passaram a depender diretamente da União Portuguesa dos Adventistas do timo Dia. É de salientar que a Igreja Adventista adota uma estrutura eclesiástica congregacionalista, em que cada grupo local dispõe de um corpo de liderança própria, mas em que as estruturas nacionais, continentais e internacionais têm também grande influência na gestão e estratégia das igrejas.

O crescimento numérico da comunidade adventista na Madeira tem sido lento mas consistente, existindo no final de 2013 um total de 370 membros registados em toda a Região, não só na igreja do Funchal e dos seus grupos integrantes, Machico e porto santo, como também na igreja do Caniço. Quando Mansell deixou a ilha em 1934 havia cerca de 40 membros adventistas batizados, mas em 1945 já eram mais de 100. Nesta época o incremento no número de membros era considerado superior às expetativas, embora se assinalassem alguns obstáculos a um crescimento mais expressivo, nomeadamente “a emigração, a morte, a apostasia” (GOMES, 1950, 4). De facto, a expansão do trabalho adventista para outras partes do arquipélago também contribuiu para este crescimento. No final dos anos 40 do c. XX registam-se as primeiras experiências missionárias adventistas fora do Funchal, “tendo sido aberta uma sala de reuniões na vila de Santa Cruz e um início no Caniço” (RIBEIRO, 1949, 5). O trabalho adventista em Santa Cruz viria a ser deslocalizado para o Machico em 1952 e a igreja no Caniço só viria a ser formalmente organizada em 1969 (FERREIRA, 2008, 701). Na ilha do porto santo foi iniciada uma comunidade adventista em 1980, que tem crescido de forma paulatina.

[caption id="attachment_7030" align="aligncenter" width="1520"]Membros da Igreja Adventista do Funchal em 1941 Membros da Igreja Adventista do Funchal em 1941 Fonte: Arautos de Boas Novas, de Ernesto Ferreira, p. 331[/caption]

Uma das preocupações mais evidentes no desenvolvimento do trabalho adventista em qualquer lugar em que seja exercida a sua atividade missionária é a construção ou adaptação de infraestruturas, para apoio não só das atividades inerentes à prática religiosa como também de serviço à comunidade em que os seus grupos estão inseridos. No entanto, o contexto político, religioso e mesmo social que se vivia então em Portugal não era muito favorável a uma grande exposição pública de expressões de fé que não coincidissem com a prática religiosa maioritária. Apesar de o dispositivo constitucional que impedia a prática religiosa diferente da católica romana a nacionais e a construção de edifícios com “forma exterior de Templo”, segundo o artigo 6.º da Carta Constitucional de 1826, há muito ter sido abolida, a verdade é que as práticas administrativas dos representantes do Estado não se tinham alterado assim tanto. A Igreja Adventista na Madeira foi também vítima desta expressão de intolerância religiosa por diversas vezes. Não só foi negada a possibilidade de o edifício adquirido em 1940 ter uma fachada de templo confinante com o espaço público, como tais instalações viriam mesmo a ser expropriadas em 1953 pela Junta Geral da Madeira. Depois de obras de adaptação de um edifício já existente na rua Conde Carvalhal, no Funchal, a comunidade transferiu-se para este espaço a 2 de julho de 1955. No Caniço, a comunidade local construiu o seu próprio templo, que foi inaugurado a 24 de maio de 1969. Também no Machico e em porto santo as comunidades adventistas começaram a usar espaços destinados ao culto religioso e restantes atividades.

A preocupação pela educação e assistência social são muito evidentes na ação dos adventistas um pouco por todo o mundo. Não é pois de estranhar que, para além da missionação e dos atos inerentes à manifestação da fé, os adventistas na Madeira tenham procurado desde muito cedo atender a outro tipo de necessidades. Logo em 1936 começou a funcionar a escola primária adventista do Funchal, tendo como primeira professora Capitolina Brazão. Teria, todavia, que esperar até 1949 para que lhe fosse outorgado alvará, equiparando-a assim ao ensino oficial. No diploma era referido que o funcionamento da escola era permitido, não podendo ter mais de “trinta e duas alunas”, de onde se conclui que nesta época se lecionava apenas a meninas (FERREIRA, 2008, 483). No entanto, a frequência média cifrou-se nos 16 estudantes (Revista Adventista, nov. 1949, 11). No início da segunda metade do culo passado, a Igreja Adventista considerava, pois, dar um bom contributo na formação das crianças madeirenses, e a escola era tida como fulcral para o crescimento da comunidade no Funchal. O funcionamento da escola foi interrompido durante um largo período que vai de 1954 a 1981, ano em que o ensino foi retomado. No final de 2013, a escola recebeu a designação de Externato Adventista do Funchal, contando com 69 alunos matriculados – cerca de 80% dos quais não eram membros nem oriundos de famílias adventistas – e servindo o pré-escolar e o primeiro ciclo do ensino básico em regime de paralelismo pedagógico.

No final dos anos 80 do culo passado, os adventistas criaram, na Madeira, um Lar Adventista para Pessoas Idosas, o LAPI do Funchal, uma das expressões mais visíveis da sua preocupação com grupos específicos da população. No entanto, devido à escassez de recursos financeiros e a alguns entraves burocráticos, a infraestrutura de apoio a esta instituição, um edifício construído de raiz numa das encostas do Funchal, só foi concluído em 2000, tendo sido inaugurado a 29 de maio desse ano, com a presença do presidente do Governo Regional e outras individualidades. A direção do LAPI passou a trabalhar em estreita colaboração com a segurança social da Madeira para disponibilizar diversas valências aos utentes deste equipamento social, servindo ainda muitas outras pessoas idosas através do seu Centro de Dia. O primeiro diretor do Lar foi o pastor adventista Daniel Martins, que na época da sua fundação era o dirigente da igreja no Funchal.

Bibliog. impressa: CERIBE, José Ricardo, “porto santo: 2.º Batismo em porto santo no Ano de 1999”, Revista Adventista, fev. 2000, p. 20; DIETER, M. E., “Adventismo”, in ELWELL, Walter A. (ed.), Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, I, São Paulo, Vida Nova, 1988, pp. 25-26; FERREIRA, Ernesto, Arautos de Boas Novas, Lisboa, União Portuguesa dos Adventistas do timo Dia, 2008; GOMES, A. Dias, “Visita à Missão da Madeira”, Revista Adventista, jan., 1950, p. 4; MARTINS, Daniel, “Inauguração do LAPI do Funchal”, Revista Adventista, jul., 2000, pp. 29-30; QUEIRÓS, J., “É o Sabatismo um Ramo do protestantismo?”, Voz da Madeira, n.º 1, fev., 1936, pp. 2-3; RIBEIRO, Pedro, “Relatório da Missão Madeirense 1948”, Revista Adventista, nov., 1949, p. 5; RIBEIRO, Pedro, “Relatório da Missão Madeirense 1949”, Revista Adventista, jan., 1950, pp. 5-6; UNIÃO PORTUGUESA DOS ADVENTISTAS DO SÉTIMO DIA, Relatórios 2013; WHITE, Ellen G., O Grande Conflito: No Fim o Bem Vencerá, Sabugo: Publicadora Servir, 2012; “Departamento de educação: Relatório Geral Apresentado às Assembleias da União”, Revista Adventista, nov., 1949, p. 11; “Na Madeira”, Revista Adventista, jan., 1949, p. 10; digital: “Contactos – LAPI Madeira”: http://asa.org.pt/lapimadeira/contactos (acedido a 6 fev. 2014); “Rede Escolar ASD”: http://www.adventistas.org.pt/recursos/educacao (acedido a 6 fev. 2014).

Timóteo Cavaco

(atualizado a 30.12.2015)

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