câmara, antónio de carvalhal esmeraldo e
Fig. 1 – Retrato de António de Carvalhal, segundo uma aguarela da épocaFonte: BNP d-347-p Nasceu na Madeira, cerca de 1662. Desconhece-se parte do seu percurso de vida e aponta-se como data do seu falecimento aproximadamente 1731. Muito pouco ou nada conhecida ficou a obra deste inspirado poeta seiscentista, com acérrimo interesse pelas Letras. De ascendência fidalga, era filho de Simão Gonçalves da Câmara e de Maria Correia, e recuperou o mesmo nome do avô paterno, António de Carvalhal Esmeraldo (casado com Jerónima Pereira). Parece ter crescido sem a presença do pai a partir de 1677, data em que aquele terá falecido. Desempenhou o cargo de vereador da Câmara Municipal do Funchal (CMF) em 1727, cargo em que foi considerado indómito e temerário, e foi ainda fidalgo cavaleiro da Casa real (por alvará de 1662). António Carvalhal, distinto membro dos Correias, era, por essa razão, homem dos principais da terra, como se comprova pelo desempenho do cargo de vereador e pela ocupação de alguns lugares na Misericórdia do Funchal, na qual, à semelhança de muitos dos seus colegas de vereação, foi escrivão de 1.ª condição em 1707, 1713, 1714, 1720 e informador em 1716, circunstâncias reveladoras do prestígio social de que usufruía. Com efeito, a passagem pela Misericórdia era muito significativa, sinónimo de elevado estatuto social, pois os 100 irmãos de 1.ª condição que a constituíam eram recrutados entre pessoas da mais elevada estirpe social, que precisavam de disponibilidade económica e presencial para se poderem dedicar às funções que lhes estavam cometidas. Da amizade próxima com Henrique Noronha, a quem pediu a diligência de lhe corrigir a obra, resulta uma profunda dedicatória deste a António Carvalhal nas Memórias Seculares e Eclesiásticas: “Meu amigo. Estas Memorias que por obrigação dos Estatutos, se devem dedicar a El Rei, buscam primeiro na vossa correção, aquela decorosa emenda, com que devem aparecer em público reverentes; porque saindo da minha mão informes, só assim conseguiram nas vossas, pela doutrina, o carácter que por minhas desmerecem. E se por voto, se oferecem nas aras de uma Majestade Augusta, por afetos se dedicam a uma amizade recíproca” (NORONHA, 1996), retribuída por António Carvalhal, na página seguinte, com um soneto, que assina como A. A. Edo: “As Memorias da pátria Antiguidade / Contai Henrique e saiba o Tejo afano, / Se sois ArgolaLusa, Maropusulano, /Que Lípio também sois na nossa idade. // Para viver a par da eternidade / Grande assento vos deu se não me engano, / No seu Museu, Congresso soberano, / A Lusitana, e Régia Majestade. // Mas cale a minha Euterpe que se infama / Em querer requintar as vossas glórias, / Por quem de balde sei quem vos aclama. // Da Real Academia entre as Histórias / La viverá eternal a vossa fama, / Por quem vão imortais estas Memorias” (Id., Ibid.). Com descendência dos Carvalhal, de Ponta Delgada, conhecida como a corte do Norte pelo facto de aí ter existido um grupo significativo de famílias importantes com muitos interesses fundiários, a sua ascendência remonta a Manuel Afonso Sanha, seu 5.º avô, escudeiro do infante D. Fernando, 2.º senhor da Ilha e pai de D. Manuel I, que viera para a Madeira com comissões da Fazenda do Infante, fazendo o seu assento naquela freguesia, no tempo de Afonso V. O seu 3.º avô, António Carvalhal, “o das forças”, fora cavaleiro do hábito de Cristo e fidalgo escudeiro, por mercê de D. Filipe I de Portugal e II de Castela, falecido em 1598. Terá escolhido o pseudónimo Poeta Aónio, segundo António Aragão, pela relação direta à região da Grécia antiga, a Aónia, região da Beócia, de inspiração das musas e dos deuses, também cognome de Baco Hércules e Apolo; tal era o nome que os poetas atribuíam aos montes Parnaso e Hélicon, onde teria vivido Áon. Julga-se que nunca terá saído da Ilha, local que só por si já o inspirava, recitando os seus poemas provavelmente acompanhado do som da viola. Contrariamente à ideia de que teria estado preso numa fortaleza por motivos amorosos, a julgar por elementos autobiográficos indiciados pelo soneto 42 da sua obra magistral, Chitara de Aonio, António Carvalhal, então vereador da cidade do Funchal, conheceu o cárcere em 1727, por um período aproximado de três anos, por desentendimentos político-religiosos, mais concretamente por ter defrontado o bispo, D. Fr. Manuel Coutinho, manifestando, juntamente com seu sobrinho, António Correia Lomelino (procurador do concelho), ideias contrárias às do prelado e conformes às da CMF no que respeitava às ordens e incumbências resultantes de um edital acerca da procissão do Corpo de Deus na cidade. Carvalhal e Lomelino nada mais fizeram do que acelerar um conflito já mais ou menos latente entre o bispo e o senado funchalense, representativo da elite insular, denunciador de exigências do prelado. Entretanto, e com o conhecimento e consentimento de D. João V, que demorou cerca de três anos a pronunciar-se sobre este assunto delicado de índole regional, António Carvalhal obtém, finalmente, ordem para ser libertado, mas o seu estado débil de saúde não lhe permitiu resistir, vindo entretanto a falecer. Apesar de não se ter casado, teve um descendente, a 18 de outubro de 1700, o P.e Félix Lucas de Carvalhal Esmeraldo (que se recusou a obedecer ao bispo na questão do exame para confessores e que veio a tornar-se procurador da Câmara, em Lisboa, representando o senado em causas contra o prelado). Lucas de Carvalhal foi um presbítero do hábito de S. Pedro que se dedicou com desvelo à compilação, ao arquivo, à correção e aos comentários dos poemas de seu pai, formando um manuscrito de 626 páginas intitulado Cithara de Aonio, Poema Erótico Dividido em Seis Descantes (ou assuntos, que surgem tematicamente distribuídos em cânticos: “Requebros”, “Desprezos”, “Carinhos”, “Ciúmes”, “Delícias” e “Lágrimas”), que esteve durante muito tempo na posse de António Aragão Correia (1921-2008), sendo depois depositado na Biblioteca Nacional. Desconhece-se outra obra produzida por António Carvalhal, para além de sonetos dispersos. António Aragão refere a existência de três volumes do autor em latim e português, mas esta hipótese parece pouco provável, uma vez que Félix Lucas de Carvalhal apenas diz na prefação (ver abaixo) que “compondo com o natural furor e com o adquirido estilo nas Línguas Italiana, Castelhana, e na Portuguesa já em heroico e já em lírico Epitalâmios, Epicedios, Genetilíacos, Parenéticos, Epibaterions, Panegíricos, Perpenticons, Eucarísticos, Sotérias, e outras muitas obras como Festins, Loas, Bailes, Folias e Entremeses; de forma q. se fizesse coleção de todas as obras poéticas, que fez em vulgar, e em latim faria, sem encarecim.to, ou duvida alguma, três grandes volumes” (BNP, Reservados, António do Carvalhal Esmeraldo, Cythara, “Prefação”). No Catálogo de Manuscriptos da Biblioteca Pública Eborense, existem alguns sonetos em português, outro em castelhano e um epigrama em latim, integrados numa compilação de poesias de vários autores, “em louvores dos sucessos gloriosos, e ações heroicas, que no Estado a Índia fez o Ex.mo Sr. Vasco Fernandes Cesar, Vice-Rei, e Capitão General daquele Estado: oferecidas ao Ex.mo Sr. Luiz Cesar de Menezes pelo P. M. Fr. Francisco Xavier de Santa Tereza, Leitor de terça era a Sagrada Teologia” (RIVARA, 1850). A Gazeta de Lisboa Occidental dá conta de uma notícia, confirmando que houve “um certame Poético intitulado: Triunfo Académico, dos melhores engenhos daquele povo” na ilha da Madeira (Gazeta de Lisboa Occidental, 12 ago. 1728), reproduzida por Teófilo Braga na Arcádia Lusitana, onde menciona que, a 24 de maio de 1728, nesse “Triunfo académico por ocasião ou em obséquio dos felices casamentos dos sereníssimos Príncipes dos Brasis e das Astúrias foi celebrada no palácio do governador da ilha da Madeira D. Filipe de Alarcão Mascarenhas, recitaram Epitalâmios, Epigramas latinos, Sonetos, Romances e Glosas, os seguintes personagens: Domingos de Sá Martins, P. António Pereira da Costa; F. António do Sacramento, António do Carvalhal Esmeraldo, Fr. Manoel da Visitação, Pedro Valente, Gregório Carlos Bettencourt, Fr. Manoel de San Thomaz e o Dr. Agostinho de Órnellas e Vasconcellos” (BRAGA, 1899); Teófilo Braga refere a existência destes textos manuscritos no acervo da Biblioteca Nacional, nos reservados da Coleção Pombalina, onde haverá epigramas latinos, uma glosa e sonetos epitalâmicos da autoria de António de Carvalhal Esmeraldo. Segundo António Aragão, o manuscrito ainda desconhecido de Carvalhal, Chitara de Aonio, foi encontrado no Convento de S.ta Clara. Trata-se, de facto, de uma preciosidade literária, “em ótimo estado de conservação, capa de cabedal, com lombada larga, dourada a ouro fino, e caligrafia que se desenvolve sempre num desenho muito certo, claro e cuidado” (ARAGÃO, 1964, 34). Outra informação curiosa que nos fornece é a de que, por altura do terramoto de Lisboa (1755), o P.e Félix Lucas de Carvalhal se encontrava retirado num convento, conseguindo salvar-se e consigo o texto, como se tivesse feito promessa a seu pai, por quem nutria uma enorme admiração, como o afirma no prefácio, que lhe confiou a tarefa de escriba, de emendar e reformar a obra, tal a confiança e crença na sua erudição e nos seus méritos literários. Esse manuscrito, no qual se contam 50 sonetos caracteristicamente heroicos e elegíacos, corrigidos, respondidos ou comentados, inicia-se com um longo prefácio (“Prefação – segundo o original: Ao Poema Erótico intitulado Cithara de Aonio”), pela mão de Félix Lucas de Carvalhal, com mais de 100 páginas, enlaçado por notas ou reformas aconselhadas, laterais e em rodapé, que inclui a transcrição de citações de clássicos, como Ovídio, Vergílio, Horácio, Séneca, Plauto, comparando-os com grandes poetas seus contemporâneos. Inclui poemas e louvores de amigos dirigidos a António Carvalhal e, em nota de abertura, a dedicatória de Carvalhal a Henrique Noronha Pina (Lício) e a Francisco de Vasconcelos Coutinho. No longo prefácio que Lucas de Carvalhal Esmeraldo dedica ao pai, apoiado nos autores clássicos e confrontando-o com os da época que opinaram sobre a sua escrita, diz que “se dá uma breve notícia de A. deste Poema, em que, para o eximir da Rigorosa censura, se declara o motivo, que teve p.a fazer os Sonetos, e Razões que o precisaram a ordenar delas o mesmo Poema, em que se faz juízo Apologético sobre as palavras […], por serem sem necessidade de novo inventadas, em q. finalm.te se pede ao sapientíssimo e erudito N. a Revisão desta poética obra, e a emenda dos seus defeitos, erros, e vícios, sobre os quais também superficialm.te se toca. António de Carvalhal Esmeraldo, Cavaleiro da Casa de Sua Majest., por alvará passado no ano de 1676, […] natural da Ilha da Madeira, a versar e instruir-se nas Universidades, Colégios e nas Academias […], sabia as Línguas Francesa, Italiana, Castelhana e Portuguesa […] tinha bebido das fontes da poesia as puras lições […] e os graves estilos das melhores Musas […], compunha com elegância Poemas Heroicos, Elegíacas e Líricas, que eram com louvor aprovados, não só pelos naturais, mas ainda pelos melhores Poetas Portugueses, e Latinos, que passavam desta Corte p.a aquela Ilha. Igualmente foi inclinado á poesia vulgar, e ainda que a natureza p.ª esta o considerava, com tudo, como ignorava os primores, e preceitos da arte, p.ª com a melhor arte a exercitar, se lhe fez preciso aprendê-los, não pelas Artes métricas, ou versificatórias […] mas sim pela Arte Poética de Aristóteles, de Horácio […] como também na Poetic. Aristot. de Paulo Belini, de António Minturo, de Moratori, e pelas de outros, que todos estes, com os magistrais, e mais famigerados poetas […] se instruía na lição deles, lhe ia está dispondo, e facilmente com Entusiasmo, porque assim como o estudo sem engenho não faz o poeta, assim também não o faz a natureza sem arte, […] porque para conseguir está, por meio de estudo, muito neste, p.ra com mais ligeiro curso alcançar a arte por premio” (BNP, Reservados, António do Carvalhal Esmeraldo, Cythara, “Prefação”). Alude-se, nesta extensa introdução, ao facto de que António de Carvalhal fora, por diversas vezes, e pelos seus melhores conselheiros poéticos e amigos, aconselhado a publicar estas suas composições, revestidas de talento e erudição. Contudo, recusava-o com os sólidos fundamentos de que certamente serviria mais de descrédito do que de abono aos seus sérios e adiantados anos, porque nesta obra se publicariam somente as verduras da sua mocidade, do quanto nesta fizera, tão cheias de puerilidade, certamente considerando-as incapazes desse êxito, por poderem “ofender o paladar com o seu amargo mel” (Id., Ibid.). Mais adiante, surge-nos a informação de que Lucas de Carvalhal Esmeraldo ponderou alterar o título da obra atribuído por seu pai, alvitrando outras possibilidades, fundamentalmente com receio dos censores. Contudo, a obra Chitara de Aonio manteve a designação original: Cithara de Aonio, Poema Erótico que Compunha e Escrevia Antonio de Carvalhal Esmeraldo, Fidalgo Cavalleiro da Caza de Sua Magestade Fidellissima. António Carvalhal poderá ser recordado como o poeta aflito e perdido de amor platónico, de fina lira infeliz, mas de irrequieta sensibilidade, autor de mui belos sonetos de inspiração clássica firme e elevada, bem ao tom de uma Fenix Renascida ou Obras Poéticas dos Melhores Engenhos Portugueses. Como ele próprio se autocaracteriza, na dedicatória da sua Cithara, “um fino namorado, outro verso achado em penas, se de amor perdido” (BNP, Reservados, António do Carvalhal Esmeraldo, Cythara). O manuscrito deste desconhecido e inspirado poeta madeirense que, segundo Noronha, foi um bom poeta em tudo constitui um marco nas mais antigas poesias insulares barrocas, senão nas primeiras de que se tem conhecimento. Helena Paula F. S. Borges (atualizado a 25.01.2017)
convento de são francisco do funchal
O mais importante e interventivo Convento na vida geral da Madeira sempre foi o de S. Francisco do Funchal, com profundas raízes locais e, ao mesmo tempo, com um especial sentido de liberdade imediatista, que criou inúmeros problemas às autoridades instituídas. Os Franciscanos acompanharam os primeiros povoadores em 1420, e foi-lhes depois entregue a assistência espiritual nos primeiros anos do povoamento. Dez anos depois, por volta de 1430, estava na Madeira Fr. Rogério, então também acompanhado de frades de origem castelhana, galega e biscainha que, segundo Fr. Manuel da Esperança, bem podiam encher de conventos toda a Ilha, se ela tivesse povoações nas quais se sustentassem. Acrescenta ainda o cronista que tal não teria acontecido de imediato, pois “vinham fugidos do mundo e não podiam (ou não queriam) ver gente”. Assim, “encovados pela serra, conversavam só com Deus, pretendendo imitar o rigor da penitência” (ESPERANÇA, 1666, 670-671). Foi com esse espírito que os Franciscanos se instalaram num eremitério com a invocação de S. João Baptista, cerca de 10 anos depois, por volta de 1440, como viria a escrever, mais tarde, Fr. Nuno Cão (c. 1460-1530/1531), vigário do Funchal, em sentença de 1499: “que haveria ora sessenta anos” que ali se tinham fixado (ANTT, Cabido da Sé do Funchal, avulsos, mç. 11, n.º 1). O eremitério era na margem direita do ribeiro de S. João, no Funchal, e teria quase uma dezena de irmãos leigos, tendo tido como guardião Fr. Pedro das Covas ou Fr. Pedro Mourão, “homem velho e de muita autoridade” (SILVA, 1946, 163). Os Franciscanos da província de Portugal só em 1450 conseguiram autorização, pela bula Iniunctum Nobis, de 28 de abril desse ano, do Papa Nicolau V para manterem um eremitério na Madeira, que já teriam erguido sem qualquer beneplácito. Convento de São Francisco. Arquivo Rui Carita Convento de São Francisco. (pormenor) Arquivo Rui Carita A comunidade madeirense foi entregue ao vigário provincial dos observantes portugueses, mas, como haveria de referir o vigário do Funchal, os Franciscanos que à “ilha iam habitar e morar, iam de passada a ver o mundo, cada um por sua arte e não faziam assento” definitivo, correndo “para as outras ilhas de baixo (as Canárias, em princípio), como caminhantes” (ANTT, Cabido da Sé do Funchal, mç. 11, n.º 1). Essa situação e a interferência das outras comunidades provinciais ibéricas acabaram por levar os Franciscanos a sair da Madeira, em 1459, então nove elementos, dois padres e sete leigos, vindo a instalar-se, por ordem real, no futuro Convento de Xabregas, em Lisboa, sob o padroado da condessa da Atouguia. No continente, e depois do falecimento do infante D. Henrique, em 1460, os principais das Ordens de S. Francisco e de Cristo procuraram um entendimento e, por certo, uma delimitação de campos de ação. Encontrado esse acordo, regressaram os Franciscanos à Ilha, embora somente quatro do grupo que havia saído em 1459, voltando a ocupar o pequeno Hospício de S. João, por volta de 1464. Os Franciscanos voltaram sob a direção de Fr. Rodrigo de Arruda, homem de certa influência junto do geral da Ordem, em Roma, e que fora já provincial em Portugal, além de manter relações pessoais de amizade com o segundo capitão donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara (1414-1501). Referiu o Cón. Jerónimo Dias Leite (c. 1537-c. 1593) e transcreve Gaspar Frutuoso (c. 1522-c. 1591) que, tendo os Franciscanos acompanhado o Cap. João Gonçalves Zarco (c. 1390-1471), este lhes deu agasalho no Funchal, numas casas em lugar ermo, de onde depois se transferiram para o edifício que construíram “em baixo na vila […], nuns chãos e terras defronte de Santa Catarina, além da ribeira” (FRUTUOSO, 1968, 86). Foi, assim, na sua primeira residência, a pequena capela de S. João Batista, ou de S. João da Ribeira, que se vieram a instalar, de novo, em 1464, e que, pouco tempo depois, teria breve de autorização do Papa Sisto IV, de 1476. Entretanto, Fr. Rodrigo de Arruda, logo que chegou ao Funchal, aproveitando as boas disposições dos habitantes e a autorização que já possuía, tratou de levantar um novo convento no centro da povoação. Os Franciscanos achavam o sítio em São João da Ribeira impróprio para a sua instalação, “escondido no meio da ribeira e tão distante do povo para o serviço dele, nas confissões e sermões, e noutros ministérios da alma”, ainda acrescentando as Saudades da Terra que a causa da mudança, para além de que “o lugar era ermo”, era que um frade, “por induzimento do Demónio, que sempre urde semelhantes teias”, se tinha ali enforcado, havendo assim necessidade de encontrar outro sítio (Id., Ibid., 85). O terreno escolhido foi um que pertencera a Clara Esteves, que em testamento o havia vinculado a um seu parente, o então escudeiro João do Porto, cedendo os religiosos, em troca, o Hospício de S. João, menos a capela, tendo tudo sido autorizado pela infanta D. Beatriz, como tutora de seu filho, o duque D. Diogo, grão-mestre da Ordem de Cristo, a quem a Ilha pertencia. A instalação no Funchal deve datar de 1473, como se pode ler na lápide sepulcral dos fundadores, Luís Álvares da Costa e seu filho, Francisco Álvares da Costa, provedor da Fazenda, igualmente o ano do testamento de Clara Esteves, de 1 de janeiro, que já deixava ao Convento, por certo ainda à comunidade de S. João da Ribeira, 2000 réis, uma peça de pardo para vestuário e 30 varas de burel para vestes. Laje sepulcral dos fundadores. 1473. Arquivo Rui Carita As instalações do novo Convento progrediram rapidamente, já tendo guardião em 1476, Fr. Rodrigo Contendas, tendo-se ali registado, em finais de 1482, o célebre milagre com a imagem de um crucifixo. Segundo a tradição, esta imagem, que “falava algumas vezes” com Helena Gonçalves da Câmara, filha de Zarco, aos pés de cujo altar foi depois sepultada, teria realizado um milagre, a 26 de dezembro de 1482. Nesse dia, pregando então o P.e Fr. Rodrigo, viu D. Helena o “braço direito do dito crucifixo derribado fora da cruz, todo ao lado do corpo”, milagre depois autenticado pelo bispo D. Fr. Loureço de Távora (1566-1629), a 24 de outubro de 1615 (BNP, IGRAPRF, 1775, fls. 85-88). O Convento passou logo a usufruir dos privilégios gerais concedidos por D. Afonso V, em 2 de abril de 1459, em que se isentava os Franciscanos do pagamento de fintas, taxas e tributos, como a sisa e a dízima, a “portagem costumada de peão”, o vinho, a carne e o pescado. O longo documento de isenção refere ainda aquilo que comprassem para seu mantimento, “para seus vestidos e necessidades”, materiais que comprassem para reparação dos mosteiros e casas, tais como pedra, cal, areia, madeira, pregadura, tabuado, cavalgaduras e animais de carga, “com seus aparelhos, que para servidão comprarem”, “posto que os tornem a vender”, etc. O mesmo se passava com as coisas que lhes fossem dadas ou deixadas, “que eles possuir não possam, e quaisquer joias e ornamentos” que comprassem ou lhes vendessem para os serviços divinos, assim como vestimentas, capas, livros, imagens e quaisquer outras coisas “que para isso pertencerem” (ABM, Câmara Municipal do Funchal, avulsos, mç. 1, n.º 4). As obras da primeira fase do Convento foram, assim, iniciadas em 1474, e o Convento já se encontrava habitado por volta de 1487, numa primeira fase das obras. Gaspar Vaz, que fora para a Madeira em 1539, por ordem de D. João III, em carta de 20 de maio de 1542 dá conta ao Rei das obras que, nessa altura, decorriam no Convento de S. Francisco, ordenadas pelo visitador da Ordem, Fr. Nuno, que, “por o mosteiro de S. Francisco estar mal remediado de dormitório, ordenou uma obra mui formosa e honrada, a saber: dormitório novo e debaixo refeitório com seu peio”, ou seja, uma fonte de água (ANTT, Corpo Cronológico, pt. i, mç. 72, doc. 9). O visitador que ordenara estas obras era também um pregador de grande fama e fora angariar fundos para as obras necessárias ao Convento do Funchal, e reformar igualmente os restantes Conventos franciscanos locais, que, após terem formado uma província autónoma, por bula de Sisto IV, de 1477, tinham voltado a depender da província de Portugal, por bula de Inocêncio VIII, em 1488. O Convento veio a ser sucessivamente ampliado, logo a partir de 1550, quando beneficiou de um legado de D. Maria de Atouguia, filha do provedor Francisco Álvares da Costa, que, falecendo solteira, a 11 de fevereiro desse ano, deixou uma pensão para missas por sua alma e para aquisição da cerca. Nos anos seguintes, era ampliada a igreja, sendo sagrada a 14 de março de 1554 pelo bispo castelhano D. Sancho Trujillo, que, passando pela Ilha vindo das Canárias, ali passou algum tempo. Este bispo castelhano pretendeu depois, inclusivamente, ser titular do bispado do Funchal, quando era bispo de pleno direito D. Fr. Gaspar do Casal (1510-1584), embora o mesmo nunca se tenha deslocado ao Funchal, tendo sido depois, em 1557, bispo de Leiria e, em 1579, de Coimbra. O Convento já possuía importantes adegas em 1566, conforme consta do saque corsário de outubro desse ano, onde alguns dos huguenotes franceses estiveram alojados e se teriam embebedado. Aliás, alguns dos frades do Convento de S. Francisco teriam sido dos poucos habitantes da cidade que afrontaram as forças francesas, por indicação do comissário, Fr. Baltasar Curado, na rua da Carreira, tendo à frente Fr. Álvaro de Miranda, que em Mazagão se havia notabilizado contra os mouros, mas ali foi morto, tal como cinco dos frades que o acompanhavam. No interior do Convento, ainda seria morto o sacristão, o P.e Fr. Rodrigo de Portalegre, que ali tinha ficado a esconder o tesouro com o vigário Fr. João dos Reis. O vigário, entretanto descoberto na sua cela, veio a escapar à morte por ter revelado o esconderijo das pratas do Convento. A cerca e o claustro de S. Francisco serviram depois para o enterramento das cerca de 300 vítimas do saque dos corsários franceses. Henrique Henriques de Noronha (1667-1730), mais tarde, por volta de 1722, escreve que os 10 Franciscanos mortos durante o saque de 3 de outubro foram sepultados no chamado “capítulo velho”, “debaixo de uma só campa”, seguindo as informações de Fr. Manuel da Esperança (ESPERANÇA, 1666, 684). O cronista acha serem muitos corpos para uma só sepultura, embora entenda que ali foi sepultado, pelo menos, Fr. Álvaro de Miranda, por determinação de seu irmão João Mendes de Miranda, porque da família do instituidor da capela daquele capítulo, ou seja, Simão Acciauoli (c. 1480-1544). Os Franciscanos mortos tinham sido, para além de Fr. Álvaro de Miranda e de Fr. Rodrigo de Portalegre, que refere como Rodrigo de Santiago, já mencionados, ainda Fr. Inácio de Leiria, Fr. Pedro de Eça, Fr. Pantaleão, Fr. Manuel da Cruz, Fr. Custódio Corista, Fr. Simão Corista e Fr. Francisco Cartaxo, assim como Fr. Gaspar “Terceiro”, um irmão donato, ou seja, que ainda não havia professado, embora já de alguma idade, por certo, que “pasmou e de pasmo morreu” (NORONHA, 1996, 240). Planta da cidade 1570. Arquivo Rui Carita Planta da cidade e Convento 1567. Arquivo Rui Carita Na armada de socorro de uma semana e pouco depois, provavelmente teria vindo o mestre das obras reais Mateus Fernandes (III) (c. 1530-1595), que levantou uma planta da cidade, aproximadamente entre 1567 e 1570, onde se percebem as dimensões e a forma geral do Convento de S. Francisco. O edifício ocupava cerca de metade do posterior jardim municipal, dando sobre a rua dessa evocação nos começos do séc. XXI e ocupando a igreja o limite sul do jardim, com o adro lateral a avançar para a Av. Arriaga. A igreja parece já apresentar planta em cruz latina, com o braço sul do transepto saliente, tal como parece ter tido nártex nessa época, indicado com um ponteado para a colunata, como se encontra marcado para os claustros. O dormitório, sob o qual se encontrava o refeitório, deveria ficar para norte, e a cerca envolvia o Convento pelo norte e poente, prolongando-se até ao que é, nos começos do séc. XXI, a R. Conselheiro José Silvestre Ribeiro e ocupando a Av. Arriga quase até à R. das Fontes, tendo o teatro municipal sido levantado no antigo espaço da cerca do Convento. Registam depois as Saudades da Terra, entre 1585 e 1590, que, naquela altura, estava fundado um Mosteiro de S. Francisco da observância, “de boas oficinas, como um dos mais nobres e graves do reino” que os Franciscanos tinham em Portugal, em que sempre estavam perto de 50 frades (FRUTUOSO, 1968, 114). A grande mobilidade social dos Franciscanos é patente depois no recenseamento de 1598, “tirado pelos róis das confissões”, onde se refere o Mosteiro de S. Francisco, “que geralmente tem quarenta religiosos” (BGUC, cód. 210, fl. 30), o que é perfeitamente indicativo de que, mesmo pelos róis de confissões, era impossível assegurar um número concreto. A igreja era “muito grande e lustrosa”, segundo escreveu Frutuoso, especialmente após a ampliação levada a cabo pelo P.e Fr. Diogo Nabo, “guardião dela e comissário de toda a ilha”. Havia então oito capelas “muito ricas” e dois altares, que pensamos serem os colaterais, para além da capela-mor. Diziam missa “uma hora ante manhã”, onde concorria muito povo, dando muitas esmolas na portaria e tendo o púlpito sempre três a quatro pregadores. A cerca era muito grande, com “água de levadas”, com que regavam muita hortaliça “de couves murcianas, beringelas e cardos”, e tinham pomar com “árvores de espinho”, palmeiras, ciprestes, pereiras, romeiras “e toda a frescura que se pode ter de frutas e ervas cheirosas”, sem se ter necessidade das de fora. Na cerca, também tinham muitas uvas e, como a população era “gente de tanta caridade”, no verão juntavam de esmolas trinta pipas de vinho (Id., Ibid., 114). Pormenor de planta da cidade. Arquivo Rui Carita Pormenor de planta da cidade. Arquivo Rui Carita A cerca do Convento de S. Francisco do Funchal, confrontando para poente com o solar de D. Mécia, como ficou depois conhecido, ficaria no final do século seguinte ligada a uma das mais célebres ocorrências de então. Este solar fora levantado, em princípio, por João de Ornelas de Magalhães, alcaide da fortaleza do Funchal por nomeação de 14 de maio de 1555, pois já figura na planta da cidade, dos anos de 1567 a 1570, e ostenta no portal exterior as armas desta família. O acidente ocorreu a 7 de março de 1695: encontrando-se D. Mécia de Vasconcelos na janela do seu solar, foi atingida por um tiro disparado por um Franciscano na cerca do Convento. Regista o termo de óbito do cura da Sé, o P.e Francisco de Bettencourt e Sá, que certo religioso de S. Francisco, “natural desta ilha”, para matar um francelho que estava pousado em uma árvore, lhe fez um tiro de espingarda e, disparando-a, deu “um perdigoto na testa por cima do olho” de D. Mécia, de tal sorte “que perdeu os sentidos e o juízo”, falecendo pouco depois (ABM, Sé, Óbitos, liv. 9, fl. 24). Certidão do Guardião do Convento de São Francisco. 1619. Arquivo Rui Carita Com a concentração de inúmeras capelas vinculadas às principais famílias insulares, muitas das quais com sepultura no Convento de S. Francisco, a comunidade adquiriu uma notável influência na vida económica e social insular, não deixando o edifício de crescer nos anos seguintes. O primeiro problema foi o dos testamentos e do usufruto dos legados dos mesmos e, depois, o da impossibilidade de, a curto prazo, cumprir muitos desses legados pios, logo nos meados do séc. XVI, especialmente pela enormidade de missas a celebrar “enquanto o mundo for mundo”, como por vezes se registou. A questão do elevado número de missas, estando muitas já em atraso, levou o prelado, nos finais desse século, a ter de solicitar autorização de Roma para o seu perdão (ABM, Juízo da Provedoria de Resíduos e Capelas, t. 3, 608-608v.). Depois, foi a progressiva centralização do poder nos sécs. XVII e XVIII, quer régio quer eclesiástico, aspeto relativamente ao qual os membros desta comunidade, com a sua tradicional liberdade de movimentos e de costumes, e a sua facilidade de palavra, não ofereciam especial vocação de subordinação. Os problemas com os legados testamentários ocorreram logo em meados do séc. XVI, colocando em oposição o cabido da Sé do Funchal e os Franciscanos. Queixaram-se, então, os membros do cabido a D. João III, “por descargo de suas consciências”, em carta de 22 de maio de 1550, das formas fraudulentas dos frades do Convento de S. Francisco “no fazer dos testamentos”. Contam que, tendo falecido um mês antes “um certo doutor físico de uma prosternação”, o mesmo fora visitado e “importunado”, quando acamado, por um padre que então servia de guardião do Convento, de nome Fr. António de Leiria, conseguindo que o mesmo fizesse testamento a favor do Convento. Escrevem os elementos do cabido que o testamento em questão “foi feito de tal maneira, que tendo ele perto de trezentos mil réis de fazenda, sem sua mulher viva e com três filhas para casar, despendeu em legados para o mosteiro, missa e ofícios, sessenta mil réis”. O enfermo ainda recuperou e pediu para ser revisto o testamento, mas tendo perdido a fala (embora acenasse a cabeça), os Franciscanos não aceitaram a alteração. Pedindo para ser enterrado na Sé, dado dali ser freguês, e vindo o corpo, os Franciscanos foram buscar “o defunto com a tumba”, que levaram para S. Francisco, não atendendo a “excomunhões” (ANTT, Corpo Cronológico, pt. i, mç. 84, doc. 59), nem ao provisor, deão e cabido que ali estavam. Os elementos do cabido queixam-se ainda de que os Franciscanos “usurpavam a jurisdição do arcebispado”, utilizando inibitórias do Dr. Luís de Alarcão, “como juiz apostólico com comissão do Núncio”, para mudarem o vigário da vila da Calheta, “desta jurisdição, que servia como ouvidor pedâneo pelo cabido”. Remata a missiva: “E porque isto é em grande prejuízo do Seu padroado, lho fazemos saber”, para se tomarem as devidas providências (Id., Ibid.). Assinam todos os membros do cabido, mas não consta que se tivessem tomado especiais providências contra os Franciscanos. No final do episcopado de D. Luís Figueiredo de Lemos (1544-1608), a 31 de outubro de 1607, reprovava-se o procedimento de alguns oradores franciscanos, que pregavam “paixões e escândalos esquecidos da obrigação do seu ofício”. Determinou assim o bispo que não fossem admitidos ao púlpito da Sé sem a sua expressa comissão e licença, tendo comunicado inclusivamente à hierarquia da Ordem as atitudes inconvenientes de Fr. António de Pádua, enquanto pregador na Catedral (ANTT, Cabido da Sé do Funchal, mç. 6, n.º 19). Mais tarde, nas Constituições Sinodais do seu sucessor, de 14 de junho de 1615, o assunto voltava a ser recomendado ao comissário do Convento de S. Francisco do Funchal, alertando-o para que recrutasse pregadores experientes e sabedores, que soubessem atrair os fiéis, caso contrário o prelado reservava-se no direito de prover o lugar a pessoas mais competentes. O assunto, no entanto, atravessaria todo o séc. XVII e passaria ao seguinte. As questões com os Franciscanos ocorreram essencialmente por duas ordens de razões. A primeira, ligada à nova custódia de S. Tiago Menor da ilha da Madeira, determinada por patente do geral da Ordem, em 5 de junho de 1683, e confirmada por Inocêncio XI, a 30 de junho de 1683, pela qual os Conventos da Madeira voltaram a ser separados da província de Portugal. A situação foi sancionada por resolução régia de 6 de maio de 1688, ficando a nova custódia sob proteção régia, por alvará de 23 de janeiro de 1689, que colocava o Convento de S.ta Clara na dependência do custódio do Convento de S. Francisco. A situação levou a confrontos entre os frades e as freiras, com interferências dos primeiros nas eleições e na organização interna do Convento das Clarissas, que muito “escandalizavam” a população. O assunto já levara a um alerta do príncipe regente D. Pedro para o Gov. João de Saldanha da Gama, em 1673 (ABM, Câmara Municipal do Funchal, liv. 1215, fl. 63), mas também tocava ao prelado, que envidou esforços no sentido de serenar os ânimos entre as duas comunidades seráficas. A segunda razão dos problemas com os Franciscanos envolvia, periodicamente, as violentas e inoportunas pregações na Sé, cujo púlpito lhes estava atribuído, pelas quais eram inclusivamente pagos, mas que se afastavam por vezes bastante da contenção a que deviam obedecer. O assunto voltaria a agudizar-se poucos anos depois, sendo objeto de acórdão do cabido, de 16 de janeiro de 1684, onde se refere “que o púlpito não era lugar de despiques”, a propósito da contenda pessoal, e perfeitamente privada, entre dois pregadores franciscanos, os padres Fr. Raul de Santo António e Fr. Manuel de Santo Inácio, que aproveitaram os seus sermões para, do púlpito da Sé, fazerem ataques mútuos (ANTT, Cabido da Sé do Funchal, liv. 3, fls. 32ss.). O cabido decidiu a suspensão dos Franciscanos, voltando a advertir o padre comissário do Funchal para, no prazo de 15 dias, enviar à Catedral religiosos de “melhor talento” de outros Conventos. Insistia o cabido que, caso contrário, preencheria o lugar de pregador “em sujeitos, que com mais exemplo e aproveitamento dos ouvintes, pregassem a palavra de Deus” (Ibid., fls. 47ss.). Os avançados anos do prelado e, muito especialmente, o desgaste sofrido com os problemas em que se viu envolvido com os Franciscanos, e outros, como a censura régia pela excomunhão lançada sobre o governador, que prendera, sem sua autorização, o deão da Sé, Pedro Moreira (c. 1600-1674), fizeram com que, depois de uma breve enfermidade, D. Fr. Gabriel de Almeida (c. 1600-1674) falecesse no Funchal, a 13 de julho de 1674, com pouco mais de dois anos de episcopado. Mais tarde, também a tradicional mobilidade da comunidade franciscana era alvo de provisões do Desembargo do Paço, de 24 de setembro de 1718 e de 21 de outubro de 1729, determinando-se que se deveria notificar os capitães dos navios e os respetivos cônsules, para que não levassem “religioso algum” sem expressa licença dos seus prelados, ou seja, dos superiores dos conventos, “sob pena pecuniária e de prisão”. O segundo diploma, dirigido ao custódio provincial, especifica inclusivamente que faltar ao cumprimento daquela provisão implicava a pena de cem mil réis “para os cativos” no Norte de África e um mês de cadeia (BNP, IGRAPRF, 1775, 88v.). Mas os Franciscanos eram “uma força da natureza” e, pouco tempo depois, o governador e capitão-general Francisco Pedro de Mendonça Gorjão, a 21 de junho de 1738, queixava-se para o secretário de Estado, em Lisboa, da fuga da Madeira de Fr. Álvaro de São Luís (AHU, Conselho Ultramarino, Madeira, doc. 45). O Convento de S. Francisco do Funchal, no entanto, ocupou um importante papel na história da Madeira ao longo de todo o Antigo Regime. A igreja do Convento era o verdadeiro panteão de grande parte das mais antigas famílias do arquipélago, e nas suas Confrarias tinham assento não só os principais membros dessas famílias, como os quadros superiores da Ilha, incluindo governador, bispo e provedor da Fazenda, aspeto que persistiu inclusivamente até à extinção do Convento. Em 1722, Henrique Henriques de Noronha descreve o Convento, começando pela cerca e claustro, afirmando que tem um chafariz no meio “e um asseado jardim”, para o qual davam as varandas, sustentadas por colunas “de cantaria fina”. Para o claustro davam a sacristia e as casas da Confraria da Senhora da Soledade e dos Irmãos Terceiros, “ambas custosamente asseadas”, a última, em princípio, dedicada depois a Nossa Senhora da Conceição (NORONHA, 1996, 234). Refere o cronista que o Convento deveria ter, pelos seus estatutos, 50 religiosos, mas tinha então muitos mais. A igreja era de uma só nave, com quatro altares de cada lado da nave, dois colaterais e altar-mor, referindo Noronha que, em tempos, o cadeiral tinha ficado na capela-mor, mas que o removera Fr. Diogo Nabo antes de 1554, ampliando então aquela capela e passando a entrada principal para a fachada sul, devendo o cadeiral do coro ter passado para o fundo da nave, a poente. O altar-mor tinha “nobre retábulo”, já dotado de tribuna, e a mesma estava “coberta por excelente pintura do Santo Patriarca” (Id., Ibid., 236) dos Franciscanos, cuja pintura não sobreviveu. Toda a igreja fora azulejada em 1632, incluindo a capela-mor, onde tinham sepultura os religiosos, como era hábito nas casas franciscanas, tendo as armas dos Costa nas paredes e, ao centro, a sepultura dos fundadores Luís Álvares da Costa e Francisco Álvares da Costa, com a indicação da data de 1473, coberta por laje de brecha calcária da serra da Arrábida, que se encontra no cemitério de S. Martinho. O altar colateral do lado do evangelho era dedicado a St.o António “de Pádua, imagem milagrosa” (Id., Ibid.), como se podia constatar, segundo o cronista, pelos inúmeros votos mandados pintar e colocados na parede junto do mesmo altar. Fora fundado por Rui Gonçalves de Velosa, filho único de Gonçalo Anes Veloso, escudeiro do infante D. Fernando e fundador do Hospital e capela de S. Bartolomeu. O fundador deste altar encontrava-se sepultado aos pés do mesmo, com sua mulher Leonor Dória. No altar colateral do lado da epístola, dedicada às Almas Santas, onde figurava o Senhor do Milagre, “que representando estar morto tem a boca aberta, como quem fala”, encontrava-se sepultada, em frente, D. Helena Gonçalves da Câmara, filha de Zarco, que fora mulher de Martim Mendes de Vasconcelos, o Velho. Ao seu lado, e numa laje flamenga, com “lâminas de bronze” e uma figura feminina a rezar, estava sepultada Joana Valente, “devota das Chagas de Cristo” (Id., Ibid., 236-237), que fora a primeira mulher do terceiro capitão do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara (1463-1530). Distribuídas pela nave da igreja, do lado do evangelho, encontrava-se a capela do Espírito Santo, depois também dos mártires de Marrocos, que fora fundada por D. Maria de Bettencourt (c. 1430-1491), mulher de Rui Gonçalves da Câmara (c. 1430-1497), mas cujo marido que não estava ali sepultado, dado ser capitão da ilha de São Miguel, nos Açores. Na parede lateral, estava um brasão com o leão de negro e rampante, armado de vermelho, dos Bettencourt, a “agarrar” uma flor-de-lis, símbolo da ligação desta linhagem à família real de França. Seguia-se a capela de N.a S.ra dos Anjos, mandada edificar por Manuel de Amil (1509-1585), filho do bacharel João Fernandes de Amil (c. 1460-c. 1520), que fora o primeiro provedor da misericórdia do Funchal. A terceira capela do lado do evangelho era dedicada a S. João Batista, tendo sido fundada pela família Mondragão e da qual era então administrador Francisco Luís de Vasconcelos Bettencourt Machado (1644-1717), pai da célebre morgada D. Guiomar Madalena de Vilhena (1705-1789). A última capela era dedicada a S. Diogo, “que antigamente se chamou de Santiago” e fora instituída por Lourenço da Gama Pereira (c. 1521-1604), que ali se encontrava sepultado com a primeira mulher, Águeda Teixeira, e a segunda, Isabel de Mondragão. O instituidor era irmão do célebre António da Gama Pereira (1520-1595), desembargador do Paço na época de Filipe II de Castela, e que “dispôs as ordenações do reino” (NORONHA, 1996, 238-239) as famosas Ordenações Filipinas, terminadas e aprovadas em 1595, embora só editadas em 1603, elaboradas em colaboração com Damião de Aguiar e Jorge Cabedo de Vasconcelos, que Noronha não cita. Rainha Santa Isabel. 1640. Arquivo Rui Carita A primeira capela do lado da epístola devia corresponder ao inicial braço do transepto, sendo citada como “maior que as demais, custosamente ornada e com porta travessa para o adro”. Era dedicada à Rainha S.ta Isabel e encontrava-se entregue aos Irmãos Terceiros de S. Francisco, “e ali têm enterro os que querem” (Id., Ibid.). Desta capela deve restar a magnífica imagem da Rainha Santa, que a tradição dá como proveniente do Convento da Encarnação, mas que tem muito mais probabilidades de ser desta capela, até porque desde os inícios do séc. XX se encontrava no Museu Municipal, onde podia ter chegado pelos Irmãos Terceiros, antes de ter figurado no antigo Museu da Cidade nos inícios da déc. de 80 do séc. XX. Seguia-se a capela de N.a S.ra da Conceição, “imagem de grande devoção”, onde existiam as sepulturas de António da Silva Madeira e de Jerónimo Pires do Canto, que, por se terem extinguido os herdeiros, ficara devoluta para o Convento. A terceira capela era de N.a S.ra da Encarnação, fora instituída por Diogo de Barcelos e passara depois para Jerónimo Vieira da Costa. A quarta capela era de N.a S.ra da Graça e tinha sido edificada por João Gomes da Ilha (c. 1430-1495), o Trovador, pajem do livro do infante D. Henrique, e que passou depois ao seu filho Bárbaro Gomes Ferreira (c. 1460-1544), que fora vedor das obras da Sé. Por baixo desta capela ainda havia outra, mais pequena, “a qual edificaram de moderno” (Id., Ibid.) os irmãos da Confraria de S. Benedito, no dizer do cronista, pelo que seria capela levantada já nos inícios do séc. XVIII. Esta devoção era, em Portugal e no Brasil, geralmente dos escravos forros, havendo uma imagem deste frade na capela do Corpo Santo, mas não se conhecendo qualquer documentação a esse respeito para o Funchal. À volta dos claustros ainda existiam mais capelas, a começar pela levantada no chamado “capítulo velho” por Simão Acciauoli, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, “que é de excelente pintura”, no dizer do cronista, que só teve idêntica referência para a pintura do retábulo-mor. No “capítulo novo” ficava a capela da Virgem Santíssima e, anteriormente, dos mártires de Marrocos, que, segundo a tradição, teriam passado depois para a capela do Espírito Santo, instituída por Maria de Bettencourt. Nesta capela tinham os religiosos “a sua aula, decentemente ornada”, e igualmente muitas “sepulturas nobres, cujos donos dizem os seus letreiros”. No andar superior ainda existiam mais capelas, como a de N.a S.ra da Estrela e, com especial destaque, “outra que chamam” de N.a S.ra da Escada, ou do Poço, com “imagem de muita devoção” (Id., Ibid., 241), curiosamente uma imagem, muito provavelmente flamenga, em pedra, o que, até por razões de transporte, não é comum. Na passagem dos claustros para a portaria ainda ficava a capela de N.a S.ra da Piedade, acerca da qual havia crentes que afirmaram “que a viram chorar” e, na sua sequência, a capela de S. Caetano. Na portaria havia a capela do Senhor Crucificado e, da parte de fora, outra capela de S. João Batista, “cuja imagem se tirou do mar, misteriosamente”. Igualmente da porta de fora da portaria e pegada com esta estava a capela de N.a S.ra de Jerusalém, “edificada com as próprias medidas do Santo Sepulcro”, seguindo-se logo outra capela da Virgem da Piedade, “onde concorre a todas as horas muita gente”. O mesmo se passava com a capela das Almas, que lhe ficava contígua, sendo “as suas paredes interiores cobertas artificiosamente de ossos e caveiras organizados” (Id., Ibid.). A capela dos Ossos dos Franciscanos do Funchal resistiu à reconstrução dos finais do séc. XVIII, sendo referida na Viagem à Cochinchina do botânico e pintor sir John Barrow (1764-1848), em 1792 e 1793, sendo inclusivamente representada em litografia colorida na edição de 1806 (BARROW, 1806, 37A). Apresenta retábulo ao gosto dos finais do séc. XVII e inícios do séc. XVIII, com pintura de S. Miguel das Almas e duas grandes imagens sobre a mesa do altar, uma das quais parece ser de S. Sebastião. As paredes e o teto encontravam-se totalmente revestidos de caveiras enquadradas por ossos longos, talvez tíbias ou perónios, sobre lambril pintado ou revestido a azulejos. A vida do Convento de S. Francisco foi de alguma forma contida na vigência do bispo jacobeu D. Fr. Manuel Coutinho (1673-1742), freire da Ordem de Cristo, que chegou ao Funchal a 22 de junho de 1725, não se registando nesse episcopado especiais problemas. Dos poucos livros deste Convento que chegaram aos nossos dias consta o Livro das Patentes, iniciado em 1732 por Fr. Jorge dos Serafins, que fora examinador e definidor das custódias açorianas franciscanas e então custódio provincial da de S. Tiago Menor da ilha da Madeira. Das várias provisões lançadas pelo custódio provincial, a primeira aborda o inteiro cumprimento da celebração das missas a que os Franciscanos se encontravam obrigados, incluindo as do dia de finados, no qual deveriam dizer missa “pelas benditas almas do Purgatório”, assunto que os “reverendos prelados locais, respeitando a indigência dos conventos”, descuravam, inclusivamente deixando que alguns clérigos pobres cobrassem dinheiro pelas mesmas, em nome individual da alma encomendada, o que se proibia terminantemente a partir do dia 1 de novembro seguinte, pois essas missas eram em nome “das almas de todos os finados defuntos” (ANTT, Conventos, Convento de São Francisco do Funchal, liv. 1, fl. 7). A segunda provisão aborda o inveterado costume de muitos Franciscanos divulgarem “fora de portas” o que se passava no Convento, tal como as possíveis culpas de uns e de outros. O assunto já teria ido a capítulo e, em “nome do crédito dos religiosos desta Santa Custódia”, Fr. Jorge dos Serafins ameaçava com “pena de excomunhão maior, ipso facto incurrenda” todo aquele que revelasse a seculares, a religiosos de outra Ordem e a religiosas “defeito algum de seus irmãos” de que se pudesse atribuir culpa grave. Nessa sequência, advertia igualmente os padres pregadores e confessores que deveriam renovar as suas patentes 15 dias antes de as mesmas findarem, ou seja, no final do ano. As patentes deveriam ser entregues ao seu secretário, o P.e Fr. João de Santa Rosa, para serem avaliadas, o mesmo se passando com os novos padres que, no último capítulo, tinham sido instituídos “confessores de seculares”, e que até ao final de dezembro se deveriam pôr “expeditos para fazerem o seu exame”. Tendo tido conhecimento da falta de inúmeros livros nas várias livrarias dos Conventos da custódia, assunto que lembrara aos vários responsáveis e sobre o qual inclusivamente o Santo Padre já se pronunciara, listava vários dos livros em falta e voltava a ameaçar com pena de excomunhão os infratores (Id., Ibid., fol. 8). Com o novo bispo do Funchal, D. Fr. João do Nascimento (c. 1690-1753), que chegou à Ilha a 5 de setembro de 1741, a situação de início ainda teve outra cobertura, pois o prelado era Franciscano e vinha acompanhado de dois padres pregadores, igualmente “frades menores”, para o ajudarem na sua missão: Fr. Lourenço de Santa Maria e Fr. João do Sacramento. O novo bispo e os padres pregadores recolheram-se durante 12 dias no Convento de S. Francisco do Funchal, pelo que D. Fr. João do Nascimento só tomou posse da Diocese a 17 desse mês. De imediato, fez publicar uma carta pastoral, tal como fizera o seu antecessor, especialmente dedicada à “reforma dos costumes, à extirpação de abusos, restauração, perfeição e esplendor do culto divino”, assim como outra, dirigida ao cabido da Sé, introduzindo algumas modificações nos serviços do culto ali realizados (APEF, cx. 122, doc. 3, fls. 21v.-22v.). Ao longo do seu episcopado, no entanto, reacenderam-se alguns problemas, com situações que já vinham do anterior, como a demência do P.e Fr. João de São José Ferraz, cuja interdição foi solicitada pelo procurador-geral da custódia da ilha da Madeira, o P.e Fr. José da Conceição, em 1748, ou os incidentes relacionados com a expulsão da ilha de dois franciscanos, Fr. João de São José e Fr. José do Rosário, em 1755. Por vezes, era ao contrário, como em 1753, quando o custódio provincial, então Fr. José de Santa Maria, solicitou aos visitadores da mesma custódia no continente que obrigassem três religiosos do Funchal, que se encontravam em Lisboa, a regressar ao Convento, dado já ter expirado há muito o prazo da licença que lhes fora concedida. O controlo das instâncias superiores apertou-se ao longo do séc. XVIII, acusando os visitadores quase sempre os Franciscanos de “relaxados”, quer na forma como se comportavam dentro do Convento, quer em relação às eleições, aos seus deveres, etc., como se queixa em carta do Funchal, de 28 de maio de 1753, o visitador Fr. José da Natividade ao ministro Diogo de Mendonça Corte Real, enviando, inclusivamente, uma representação do custódio provincial Fr. José de Santa Maria (AHU, Conselho Ultramarino, Madeira, doc. 13). Os problemas envolviam mesmo a atividade exterior dos Franciscanos, como se queixa depois o Gov. João António de Sá Pereira (1719-1804), futuro barão de Alverca, em ofício de 21 de novembro de 1768, a respeito de um caso contrabando de tabaco, envolvendo o guardião do Convento, Fr. António de São Guilherme. O Convento de S. Francisco do Funchal, no entanto, ultrapassou sempre os pontuais problemas em que se foram envolvendo alguns dos seus membros, pois manteve-se, até à sua extinção, graças à capacidade de intervenção dos Franciscanos e à força das suas Confrarias, como um dos mais importantes centros de decisão políticos e económicos da Madeira. Assim, embora o gabinete pombalino tenha decretado a restrição de entradas nos conventos, com a subida ao trono de D. Maria I, em março de 1777, e o afastamento do marquês de Pombal, logo se envidaram esforços para ultrapassar a situação, sendo autorizada a entrada de 12 noviços por ano no Convento de S. Francisco do Funchal. Em carta datada do Convento do Funchal, de 8 de junho de 1777, o vigário custódio provincial Fr. Manuel de São José acusava a receção da autorização régia e agradecia. O Convento devia ter por essa data cerca de 100 religiosos, entre padres professos, leigos e noviços. A documentação das suas Confrarias, na maior parte, não chegou aos nossos dias, mas mesmo numa altura de franca recessão desse tipo de atividades, como no consulado pombalino, sucederam-se as iniciativas desse género. Por petição de 23 de março de 1765, e.g., o morgado João José de Bettencourt de Vasconcelos (1715-1766), familiar do Santo Ofício e administrador da capela de S. João Batista da igreja de S. Francisco, encabeçava uma lista dos principais proprietários madeirenses para fundarem uma nova Confraria de Nossa Senhora dos Anjos, Mãe dos Homens, e de S. José, Rei dos Homens. A petição era dirigida a Fr. António da Encarnação, vigário custódio da província, e incluía inúmeros eclesiásticos, como os padres doutores António José de Vasconcelos, João Henriques de Aragão e Manuel José da Rosa, Domingos João Alves da Silva Barreto, o Cap. António Vogado Teles de Meneses e os importantes comerciantes Pedro Jorge Monteiro, José João Veríssimo e José Fayan, entre outros. Os estatutos da Confraria seriam aprovados a 15 de fevereiro de 1767, e, tendo já falecido o promotor, era eleito como prefeito da mesma o então governador e capitão-general José Correia de Sá, enviado à Madeira para a extinção da Companhia de Jesus, que assina juntamente com o secretário António João Spínola de Macedo, para além dos outros membros da mesa. O documento é ainda reconhecido a 5 de março seguinte, pelo tabelião de notas Bartolomeu Fernandes e por Domingos Afonso Barroso, provedor da Fazenda. A aprovação do Rei D. José ocorreu a 27 de outubro seguinte e foi registada no Funchal a 23 de abril de 1769, tendo sido eleito para prefeito o então governador e capitão-general João António de Sá Pereira, servindo de secretário o padre genealogista José Francisco de Carvalhal Esmeraldo e Câmara, filho do morgado Aires de Ornelas de Vasconcelos e depois fidalgo-capelão, por nomeação de 5 de fevereiro de 1782. Armas de Mouzinho de Albuquerque. Arquivo Rui Carita A importância das Confrarias do Convento de S. Francisco está ainda patente na confraria de N.ª S.ra da Soledade, que, nos finais do séc. XVIII, assumiu a tradição de integrar sempre como irmãos o governador da Madeira e a mulher, quando o acompanhava, elaborando artísticas folhas aguareladas com as armas dos mesmos. A tradição manteve-se até à extinção do Convento, sendo a última folha dedicada ao prefeito liberal e governador militar Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque (1792-1846) – e D. Ana de Mascarenhas de Ataíde –, que, a 14 de março de 1835, entrou como “irmão protetor e presidente da confraria”, “prometendo não só guardar as obrigações do Compromisso, mas também promover o aumento Espiritual, e temporal da mesma Confraria” (ARM, Governo Civil, liv. 235, fl. 71). Seria Mouzinho de Albuquerque, no entanto, como prefeito da província, poucos meses depois, em agosto desse ano, a determinar as instruções para a extinção do Convento e, logicamente, da Confraria da Soledade. Os elementos chegados até nós não nos permitem uma avaliação mínima da vida económica dos Franciscanos do Funchal. Os livros das Confrarias são muito escassos e os de “receita e despesa” quase inexistentes. A vida do Convento não se afastava, no entanto, da dos conventos de S. Bernardino de Câmara de Lobos ou da Piedade de Santa Cruz, mas era mais complexa, dado o maior número de frades e, também, dada a sociedade urbana e a classe social que serviam e onde se inseriam. Existem dois livros de sacristia de “Registos de Missa” que dão uma pálida ideia do movimento do Convento, que celebrava semanalmente, nos finais do séc. XVIII, quase 100 missas, enquanto S. Bernardino, na mesma época, e.g., celebrava entre 20 e 30, embora os preços fossem semelhantes: na generalidade, entre $200 e $300 réis a missa. Na primeira semana do mês de agosto de 1797, v.g., celebraram-se 85 missas, sendo 7 pelas obrigações do Convento, 19 pelas obras pias, 34 pelas capelas, 5 pelas Confrarias e 2 pelos frades. Houve ainda uma celebrada na Festa do Ilhéu, provavelmente a festa de Nossa Senhora da Conceição, e que deve ter custado 1$500 réis, dado envolver a deslocação, e 15 missas dos “ofícios de frade e de grade”, que é possível que correspondam às missas em que é dada a comunhão aos fiéis na grade. Somente foram contabilizadas 14 a $200 réis, sendo as restantes das obrigações gerais do Convento, rendendo o conjunto 4$300 réis. Celebraram missa nessa semana 23 religiosos, incluindo o custódio provincial, o guardião, “o mais digno”, etc., tendo o domingo 20 missas, o maior número, rondando as 10 a 12 nos restantes dias da semana (ANTT, Convento de São Francisco do Funchal, liv. 2, fl. 1). Na semana seguinte, a segunda semana de agosto de 1797, os números foram semelhantes, celebrando-se 95 missas, com um “noturno das Almas”, obrigação do Convento, em princípio, porque não contabilizado, rendendo nove missas a $300 réis e outras seis a $200, num montante de 3$900 réis (Ibid., fl. 1v.). Na terceira semana, celebraram-se 79 missas, uma com “com festa na Fortaleza”, que deve ser a de S. Lourenço e que deve ter rendido $800 réis, embora tenha havido outra, não especificada, que rendeu 450, contabilizando-se, com mais cinco missas a $300, duas a $250 e nove a $200, 5$050 réis (Ibid., fl. 2). Nos inícios do séc. XIX, os preços subiram em relação ao século anterior, passando as missas a render entre $300 e $500 réis, pelo que, embora não havendo um significativo decréscimo no número geral das mesmas, deu-se um franco aumento do montante global cobrado. Na quarta semana de julho de 1809, e.g., celebraram-se 87 missas, entre as quais umas de obrigação do Convento e 52 de grade, 1 a 1$000 réis e 51 a $400 réis, somando 21$400 réis, montante muito acima do cobrado semanalmente nos finais do século anterior. Para os anos seguintes, existem informações gerais da vida económica do Convento, entre 1809 e 1832, correspondendo, assim, sensivelmente à fase final da vida do Convento. A descrição do tipo de missas é mais sucinta, deixando de se referir as missas das Confrarias, provavelmente incluídas nas capelas, e aumentando o preço das mesmas, cobrando-se no mínimo 400 réis por missa. Os totais semanais passaram a rondar os 20$000 réis e, por mês, as missas renderam à sacristia quantias acima dos 80$000 réis. Para estes anos, as despesas gerais do Convento não se afastam especialmente, e.g., das do de S. Bernardino de Câmara de Lobos. No mês de julho de 1809, o Convento teve uma receita de 360$800 e uma despesa de 287$720. O Convento já vinha com um saldo positivo do ano anterior, “de alsas”, como se dizia, de 1808$236, ficando então com 1881$316, como certificam o guardião, Fr. Matias de S. Boaventura, o síndico, Pedro de Santa Ana, os discretos Fr. Manuel da Piedade, Fr. Januário das Chagas de São Francisco, Fr. António de São Joaquim e Fr. António de N.ª S.ª das Dores (Ibid., liv. 5, fl. 2). Tal como nos restantes conventos franciscanos masculinos, as principais receitas vinham das missas e cerimónias realizadas fora do Convento e da venda de hábitos de burel e hábitos de saial, com o pormenor de tanto se terem vendido os de saial para enterro de homens, como os de burel para enterro de mulheres, o que até então não se tinha verificado. Os preços também são muito mais altos que os praticados em S. Bernardino nos finais do século anterior: entre 3$000 a 6$000 réis, em S. Francisco, não incluindo, em princípio, acompanhamento. Por “um hábito de burel e três religiosos, a seiscentos réis cada, para Sabina, da freguesia de São Martinho”, e.g., só cobraram 4$800 réis, e por um hábito de saial para João Paulo Medina, sem referir acompanhamento, cobraram 6$000. Os Franciscanos cobraram 9$400 réis “por merecido” dos religiosos que tinham ido à festa da Visitação na misericórdia do Funchal, 18$000 pela novena e procissão do Carmo e mais 10$000 pelas matinas da dita festa. Nas despesas desse mês entrou essencialmente a aquisição de carne de vaca, que custou mais de 100$000 réis, tal como peixe, bacalhau, azeite, manteiga, queijos, toucinho, presunto, azeitonas, sal, milho, semilhas, couves, feijão, chá, açúcar, etc. Algumas aquisições vinham de fora, como as cebolas, compradas no Caniço, que tiveram um acréscimo de 2$000 réis, “pelo frete, carreto e pagamento do moço que tirou as cebolas do Caniço”. Nesse mês também se adquiriu cerveja e sabão, tal como se pagou $400 réis para amolar as navalhas de barba do irmão leigo Fr. José das Mercês. Também se adquiriram umas rodas para o relógio, que custaram 1$000 réis, tal como se pagou $400 pela montagem das mesmas e ao moço António de Aguiar seis meses e 20 dias, a 3$000 réis por mês, o que somou 20$000 (Ibid., liv. 5, fls. 1v.-2). A partir dos inícios do séc. XVIII, com a oficialização da custódia, tinha passado a Fazenda Real a tomar a seu cargo a manutenção destes edifícios e a assumir a reconstrução do Convento de S. Francisco do Funchal, dado o templo primitivo ser considerado acanhado e modesto. As obras do Convento tiveram início por volta de 1750, data do reenvio para o Funchal da planta efetuada pelo mestre das obras reais Domingos Rodrigues Martins (c. 1710-1781), já devidamente corrigida, para o que D. João V tinha atribuído a valiosa esmola de 20.000 cruzados (ANTT, Provedoria e Junta…, liv. 973, fl. 112v.). O edifício teria então passado por várias ampliações, até para suportar a população de 100 religiosos, com admissão de 12 noviços em cada ano, autorizada a partir de junho de 1777. Em julho de 1780, deve-se ter inaugurado uma parte da construção, dado ter-se exumado, em 1880, uma inscrição alusiva a D. Maria I, ao Papa Pio VI e ao P.e Fr. Bernardo. A inscrição teria sido depositada no arquivo municipal, mas, segundo os autores do Elucidário, algumas décadas depois tinha desaparecido. No entanto, entre agosto e setembro já não havia dinheiro para continuar as obras, pedindo o principal do Convento a deslocação ao Brasil de dois irmãos leigos, para ali recolherem esmolas, certificando o velho mestre das obras reais, Domingos Rodrigues Martins, a 19 de outubro desse ano, para a corte de Lisboa, que as obras ainda continuavam. No ano seguinte, voltou a haver pedidos de subsídios para as obras, requerendo os Franciscanos inclusivamente o edifício do extinto Colégio dos Jesuítas, dadas as obras e os vários cursos que lecionavam então em S. Francisco, motivando a troca de cartas entre o secretário de Estado Martinho de Melo e Castro e o bispo do Funchal D. Gaspar Afonso da Costa Brandão (1710-1784), em 9 de agosto e 6 de novembro de 1781. Nesta sequência, igualmente requereu Fr. Manuel de São Boaventura “as sobras do subsídio literário e do almoxarifado” do Funchal, para se continuar a construção do novo Convento (AHU, Conselho Ultramarino, Madeira, docs. 588 e 599). A 10 de fevereiro de 1782, as obras passaram por novas alterações; o mestre das obras reais José António Vila Vicêncio (c. 1720-1794) refere alterações de custo. Face às dificuldades de obtenção de pedra, as obras e correriam o risco de parar, pois o pedreiro de Câmara de Lobos encarregado de a fornecer faltara ao ajuste. Alvitra-se, então, o trabalho das companhias de ordenança no retirar da pedra da pedreira, entendido como uma esmola das mesmas para os Franciscanos, o que foi autorizado pelo governador a 30 de agosto desse ano (ABM, Governo Civil, liv. 520, fl. 104). O Convento esteve assim em obras durante todo o final do séc. XVIII, possivelmente sob uma desastrosa administração, pelo que nunca chegou a ser acabada a enorme igreja, até à extinção dos conventos nos meados do séc. XIX, o que levou à sua demolição. Em 1834, no âmbito da reforma geral eclesiástica empreendida pelo ministro e secretário de Estado Joaquim António de Aguiar, que ficou conhecido como “mata-frades”, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo decreto de 30 de maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas. A extinção do Convento de S. Francisco do Funchal foi acionada pelo prefeito Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, em agosto de 1835, em articulação com Diogo Teles de Meneses (1788-1872), provedor da Alfândega (ABM, Alfândega do Funchal, liv. 675), tendo decorrido sem especiais dificuldades e quase sem qualquer interferência da autoridade religiosa. O Convento de S. Francisco do Funchal foi desocupado por forças militares a 9 de agosto de 1834 e, pouco mais de 15 dias depois, a 27 de agosto, o prefeito mandava o provedor da Alfândega do Funchal tomar conta do edifício. Dado não terem ocorrido problemas, nesse mesmo dia 27 de agosto, o prefeito enviava para o provedor do concelho do Funchal, Manuel de Santana e Vasconcelos (1798-1851), instruções precisas sobre a execução do decreto de 30 de maio sobre a extinção dos conventos, para que tal se efetuasse nos restantes conventos do concelho do Funchal. As instruções determinavam que se deveria fazer o inventário dos bens do Convento em causa, entregando-se ao representante do cabido da Sé do Funchal as alfaias religiosas, os paramentos, “ornatos dos templos e utensílios de culto”. As imagens e as cruzes, porém, deveriam permanecer onde estivessem. As igrejas deveriam ser fechadas, ficando as chaves à disposição do prefeito, mas na posse do provedor do concelho, que elaboraria, entretanto, uma relação dos religiosos de cada convento. No espaço de um mês, os religiosos deveriam apresentar-se na prefeitura, com uma relação testemunhável, para que se verificasse se teriam direito à pensão anual para a sua sustentação, prevista no artigo 4.º do decreto de 30 de maio anterior. Luís Mouzinho de Albuquerque recomendava que a diligência deveria ser feita com “a mais escrupulosa atenção”, em que tudo fosse praticado com a maior “circunspeção, prudência e urbanidade”, para que de maneira alguma houvesse lugar a “escândalos dos povos ou pretexto à maledicência” (VERÍSSIMO, 2002, 69-77). As imagens e muitas das pinturas, entretanto, foram transferidas para outros locais, como a imagem do Senhor do Milagre do Convento de S. Francisco, que teria falado algumas vezes com Helena Gonçalves da Câmara – razão pela qual recebeu essa designação –, e que foi transferida para a Sé, inclusivamente com o diadema e o lampadário de prata, a 11 de março de 1835, assim como outras alfaias, pelo menos entre 1848 e 1850, na vigência do governador civil José Silvestre Ribeiro (1807-1891), para a igreja do Colégio do Funchal, que nesses anos foi reabilitada e entregue à Diocese. A transferência das pinturas e imagens que ainda restavam nas instalações do Convento para a igreja do antigo Colégio dos Jesuítas deve datar de fevereiro de 1847, tendo sido acordada entre o governador e o bispo D. José Xavier de Cerveira e Sousa (1797-1862), quando se preparou a instalação, em S. Francisco, do Asilo de Mendicidade do Funchal, com cerca de 400 indigentes, cuja administração foi entregue ao prelado e cuja inauguração se fez a 27 de março desse ano (MENESES, 1848, 25-30 e 50-54). Algumas das telas existentes nesta igreja, como parte da coleção mariana da sacristia, senão mesmo toda, a tela dos mártires de Marrocos, a de Nossa Senhora do Pópulo, etc., pertenceram, por certo, ao Convento de S. Francisco, pois não fazem parte dos sucessivos inventários do Colégio, podendo a tela de N.ª S.ra da Porciúncula ter vindo da capela do Hospício da Ribeira Brava ou também de S. Francisco. O mesmo deve ter acontecido com algumas imagens, como a de S. Luís, Rei de França, em barro, aparentemente de produção regional, que se encontra na sacristia do Colégio, e o conjunto de imagens de roca, que se encontram no Museu de Arte Sacra do Funchal. O mesmo se teria passado com o conjunto de bustos relicários dos mártires de Marrocos, que foram descobertos quase emparedados na torre do Colégio e que igualmente transitaram para aquele Museu. Outra parte do espólio do Convento de S. Francisco transitou para o Convento de S.ta Clara, como foi o caso dos dois grandes painéis de azulejos de S. Francisco e de S.ta Clara, de oficinas de Lisboa (1740-1760), posteriormente remontados na portaria daquele Convento. No coro de baixo de S.ta Clara, algumas das pinturas que decoram as paredes laterais, segundo a tradição, terão vindo também de S. Francisco. A maioria das pratas, entretanto, fora arrecadada na Alfândega, e, em 28 de maio de 1836, elas seguiram para a Casa da Moeda de Lisboa, onde o antigo prefeito da Madeira fora provedor. Sem especial explicação, somente em virtude da portaria de 9 de junho de 1886, os livros do Convento de S. Francisco foram entregues à repartição da Fazenda do Funchal, sendo posteriormente incorporados na Torre do Tombo, juntamente com os da Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal, mas não os que estavam no Governo Civil, que passaram, depois, ao Arquivo Regional da Madeira, nem a biblioteca, que deve ter recolhido ao paço episcopal e ao Seminário, peregrinando e perdendo-se pelos vários locais por que quer o paço, quer o seminário foram passando, assim se explicando que quase nada da importante documentação bibliográfica ali guardada tenha chegado até nós. O edifício foi logo disputado pelos novos poderes liberais instituídos, como a Câmara Municipal do Funchal, que o requereu e o recebeu por decreto de 7 de novembro de 1844, para construção, nesse espaço, de um amplo edifício destinado à instalação da nova Câmara Municipal e dos tribunais judiciais, mas a situação de instabilidade política retardou o projeto. O concurso público para apresentação de um projeto só se veio a realizar em 1864 e, a 11 de março de 1866, saía da Sé do Funchal “um luzido cortejo” presidido pelo bispo do Funchal, D. Patrício Xavier de Moura (1859-1872), que fora bispo de Cabo Verde, cortejo onde se incorporaram as autoridades superiores do distrito, procedendo ao lançamento da primeira pedra do novo conjunto de edifícios, que não passou da primeira pedra (SILVA e MENESES, 1998, I, 313). [caption id="attachment_14397" align="alignleft" width="199"] Convento de São Francisco. Arquivo Rui Carita.[/caption] [caption id="attachment_14394" align="alignleft" width="226"] Demolição do Convento de São Francisco[/caption] Nos anos seguintes, os edifícios do velho Convento arruinavam-se progressivamente, mas só devem ter sido demolidos nos inícios da déc. de 70, pois restam algumas fotografias do conjunto, ainda parcialmente de pé. Nos anos seguintes, parte da cerca foi dando origem aos novos arruamentos, depois as ruas Hermenegildo Capelo, Serpa Pinto e Conselheiro José Silvestre Ribeiro, e, por volta de 1880, ao jardim municipal e ao teatro municipal. Do conjunto edificado parecem só restar o brasão de armas nacionais e franciscanas, no canto sudeste do jardim, e o chafariz da cerca do Convento, que nos inícios do séc. XIX já estava na vizinha praça da Constituição, então passeio público, servindo de base ao conjunto do largo do Chafariz, cuja pilastra superior parece ter sido encomendada para o monumento à Constituição de 1820 – chegando ao Funchal depois da abolição da mesma, nunca chegou a ser montada no monumento, cuja base também já havia sido demolida. Rui Carita (atualizado a 01.03.2017)
leal, alfredo ayres de freitas
Nasceu no Funchal a 26 de maio de 1874 e faleceu a 5 de janeiro de 1935, com 60 anos, na casa onde morava, no Lombo da Boa Vista, freguesia de Santa Maria Maior. Era filho do comendador Alfredo de Freitas Leal Moniz de Meneses, que serviu como moço fidalgo na Casa Real e foi também professor do Liceu do Funchal, e de Ana Rita Maria Josefa de Castro e Almeida Pimentel de Siqueira e Abreu de Freitas Leal, natural de Goa. Em 1923, casou-se com Ana de Melo Breyner de Freitas Leal, filha de Francisco de Melo Breyner, 3.º conde de Mafra, e de Amélia Ferreira, oriunda da África Oriental, com quem teve quatro filhos: Maria Eugénia, Manuel João, Francisco Valentim e António Aires Melo Breyner Leal. Estudou no Beaumont College, um colégio jesuíta de Londres frequentado pela alta aristocracia britânica, onde mostrou a sua inteligência e o gosto pela literatura e pela arte. É de salientar que Alfredo de Freitas Leal e Pedro Paulo de Freitas-Branco, que também frequentava o colégio, ganharam o primeiro prémio em Literatura e em História de Inglaterra, tendo alcançado as mais altas classificações nestas disciplinas. Após concluir os seus estudos secundários no referido colégio, voltou a Portugal e matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, concluindo o curso de Direito com distinção. Não se adaptando ao meio da Madeira, decidiu partir para Lourenço Marques, onde permaneceu muito tempo e constituiu família. Tanto no Funchal como no ultramar, foi um distinto advogado, sendo os seus serviços muito admirados e solicitados. Distingue-se, na sua geração, como um dos intelectuais mais inteligentes e cultos. Dizia-se que era um autêntico gentleman, visto que falava a língua inglesa fluentemente e que era detentor de uma notável cultura. Para além disso, esteve próximo de algumas das mais destacadas figuras da literatura, como o prestigiado poeta Eugénio de Castro, com quem nunca deixou de manter relações, e António Nobre, com quem frequentou as tertúlias de literatos e artistas então muito frequentes em Coimbra. Apreciador de arte e possuidor de um notável sentido estético, foi um crítico forte e incisivo. Colaborou na imprensa, nomeadamente em revistas da União Sul-Africana, ocupando-se sempre de temas relacionados com arte. Foi também autor do livro Coimbra dos Noventa e Outras Impressões, que se encontra na Biblioteca Municipal do Funchal. Neste seu livro, publicado em Lisboa pela Livraria Editora Guimarães e C.ª em 1931, rememora admiravelmente os seus tempos universitários, com o estilo, elegância e pendor crítico que habitualmente incutia aos seus textos. Tinha ainda o projeto de publicar um livro de crítica a motivos e obras de arte, porém a morte não lho permitiu. Deixou vários escritos que foi reunindo na Madeira e em Lourenço Marques, Moçambique. Obras de Alfredo Ayres de Freitas Leal: Coimbra dos Noventa e Outras Impressões (1931). António José Borges (atualizado a 11.02.2017)
leacock, edmund erskine
Edmund Erskine Leacock foi um grande industrial e proprietário. Nasceu no sítio da Casa Branca, freguesia de São Martinho, concelho do Funchal, a 28 de novembro de 1891, no seio de uma família britânica que se estabeleceu na ilha da Madeira no séc. XVIII, ligada ao trato do açúcar e do vinho. Era filho de John Milberne Leacock (1847-1915) e de Mary Silence Erskine (?-1945), e neto, pela parte paterna, de Thomas Slapp Leacock e, pela via materna, de David Holland Erskine, que fora cônsul britânico na Madeira. Depois de ter estudado no Wellington College, em Berkshire, Inglaterra, e de ter servido no Exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, ocupando o posto de tenente na infantaria ligeira de Yorkshire, estabeleceu-se no Funchal. Casou-se duas vezes, tendo tido três filhos. Do primeiro casamento, com Muriel Hobhouse Hebblethwaite, teve John Trelawny Leacock, nascido a 14 de março de 1917, em Londres, que foi oficial da aviação britânica, falecido a 14 de julho de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial; e Mary Patricia Erskine Rigby (?-1988), apelido resultante do casamento com Hugh John Macbeth Rigby, em 1946. Das segundas núpcias, com Eileen Vina Addie, teve William Addie Erskine Leackock, nascido a 23 de maio de 1941, no Funchal, e que, em 1968, viria a assumir os negócios da família, falecendo a 9 de maio de 2010. Edmund contribuiu para o desenvolvimento da indústria e do comércio insular. Foi, juntamente com seu irmão Julian Philip Leacock, diretor da importante e conceituada firma Leackock & C.ª Lda. Além do vinho Madeira, estendeu os seus negócios aos bordados, aos fertilizantes, ao tabaco e ao comércio automóvel, e estabeleceu ligações com inúmeras firmas, designadamente: Leacock Bordados; Leacock Adubos; Edmund Leacock, Lda.; Madeira Auto Car, Lda.; British Country Club; Empresa Madeirense de Tabacos, Lda.; e Sociedade de Automóveis da Madeira, Lda. No centro da cidade do Funchal (terrenos das ruas 5 de junho e Conde de Canavial) fez levantar um importante quarteirão fabril, projetado pelo arquiteto Edmundo Tavares, em 1938, para albergar os armazéns, escritórios e oficinas da empresa Leacock & C.ª Lda. Faleceu em Londres, Inglaterra, a 8 de dezembro de 1977, aos 86 anos, tendo os seus restos mortais chegado ao Funchal, por via aérea, na noite de 11 de dezembro, acompanhados pela esposa, Eileen, e pelo filho, William. O funeral teve lugar a 12 de dezembro, pelas 11.30 h, no cemitério britânico. Em sinal de pesar, as inúmeras firmas a que estivera ligado mantiveram as portas fechadas desde o dia 9 de dezembro até às 13.00 h do dia 12. Ricardo Pessa de Oliveira (atualizado a 11.02.2017)
laboratório de genética humana
O Laboratório de Genética Humana (LGH) é uma unidade de investigação, na área da genética humana, da Universidade da Madeira. Foi fundado em 2001, com o objetivo de dotar a Região de um laboratório no qual fosse possível a realização de testes genéticos para apoio à população madeirense. Desde a sua criação, o laboratório foi dirigido pelo seu fundador, o Prof. Doutor António Brehm, investigador e docente na Universidade da Madeira. A partir desta data, passou a ser possível realizar na Madeira muitos testes genéticos que eram realizados apenas em território continental. É o caso dos testes de paternidade, dos testes para a deteção de anomalias genéticas e de testes de patologias diversas. O LGH tem duas linhas de atuação: investigação e prestação de serviços. Assim, como resultado de um protocolo estabelecido com o Instituto Nacional de Medicina Legal, o LGH presta serviços na área de genética forense e, em articulação com o serviço de saúde da Região Autónoma da Madeira, nomeadamente com o Hospital Central do Funchal (Hospitais) realiza testes genéticos para diagnóstico precoce de malformações congénitas em fetos humanos com apenas 10 semanas de gestação. Ana Londral (atualizado a 11.02.2017)
israel, menasseh ben
Rabino, impressor, diplomata e autor de um relevante conjunto de obras em torno da exegese dos textos sagrados hebraicos, Menasseh Ben Israel, nascido Manoel Dias Soeiro, em 1604, descendia de uma família de cristãos-novos portugueses. O seu pai, Joseph Ben Israel, converso ao judaísmo uma vez estabelecida a família em Amesterdão, foi por várias vezes preso pelo Tribunal do Santo Ofício. Juntamente com a mulher, Rachel Soeiro, Joseph terá conseguido escapar secretamente às malhas inquisitoriais, viajando de Portugal até à cidade portuária francesa de La Rochelle, de onde, na companhia dos filhos, partiu para a Holanda. As origens portuguesas da família parecem, pois, indiscutíveis. Porém, diferentes fontes, da autoria de Menasseh, dão conta de uma divergência quanto ao seu local de nascimento. Com efeito, no seu registo de casamento, datado de 1623, Menasseh Ben Israel declarava que procedia de La Rochelle. Já em Orígen de los Americanos […] (1650), chama “pátria” a Lisboa (ISRAEL, 1881, 97). Cecil Roth, divulgador da hipótese de que o autor terá nascido na ilha da Madeira, na biografia que lhe dedica, A Life of Menasseh Ben Israel: Rabbi, Printer, and Diplomat (1945), chama a atenção para o facto de Ben Israel, na versão hebraica da referida obra, se referir a Lisboa como cidade-natal do seu pai, em passagem correspondente. Além disso, um documento da Inquisição publicado por Maximiano Lemos, em 1909, apresenta uma chave quanto à sua proveniência madeirense. Atente-se, pois, no depoimento de Duarte Guterres Estoque, datado de 14 de novembro de 1639, presente no documento em causa, o Caderno 19 da Inquisição de Lisboa, fólio 21: “Disse mais que haveria oito ou nove anos pouco mais ou menos na dita cidade de Amesterdão na sinagoga dos judeus viu ele denunciante a um cristão-novo o qual estava na dita sinagoga com uma toalha branca sinal com que costumam estar os judeus na dita sinagoga e que falando com o dito judeu português lhe disse que se chamava Manoel Dias Soeiro e que era natural da ilha da Madeira e depois soubera de outras pessoas que o dito cristão-novo se chamava do dito nome e que era natural da dita ilha, o qual em hebraico se chamava na dita cidade Menasseh Ben Israel e que era público rabino e professor da lei de Moisés o qual disse a ele declarante que tinha mandados dois caixões de livros que tinha composto a Espanha um caixão e ao Brasil outro e que o livro se intitula Reconciliações de la Sagrada Escritura” (LEMOS, 1909, 361). Partindo desta referência, Roth delineia o percurso da família Dias-Soeiro da seguinte forma: partem de Lisboa para se refugiarem na Madeira e, posteriormente, deslocam-se a La Rochelle, onde se estabelecem temporariamente, passando a Amesterdão ainda durante a infância de Menasseh Ben Israel, que, por essa altura, tinha dois irmãos, Efraim e Ester. Reunindo todo um conjunto de figuras eminentes das letras, da política e da finança, a recém-formada comunidade judaica de Amesterdão compõe-se, na sua génese, por homens e mulheres de origem portuguesa e espanhola nascidos e criados como cristãos. Com um passado marcado pelo cativeiro da Inquisição, muitos encontram na Holanda o ambiente de tolerância propício ao refúgio. O português e o espanhol são usados não só em reuniões de negócios, mas também nos exercícios religiosos. Dentre os instrutores de Menasseh Ben Israel, destaca-se um importante nome da filosofia e exegese talmúdica, rabi Isaac Uziel, nascido em Fez. Com apenas 13 anos, Menasseh torna-se membro da Santa Irmandade de Talmud Torah, fundada em 1616. Neste contexto, tem as suas primeiras experiências como orador e começa a desenhar-se a sua carreira como escritor, compondo, para começar, uma gramática de hebraico (Safah Berurah). Cedo vê reconhecidos os seus talentos de estudioso. Assim, após a morte de Uziel, sucede-lhe na qualidade de professor de Talmud e vem também a ser ordenado rabino, ainda antes de completar 20 anos. Pouco depois, casa-se com Rachel Abrabanel, cuja família procedia de Guimarães e reclamava parentesco com D. Isaac Abrabanel, filósofo e homem de finanças de D. João II e dos Reis Católicos, pai de Leão Hebreu, autor dos Diálogos de Amor (1535). Menasseh e Rachel tiveram três filhos, Gracia, Joseph e Samuel. Com a finalidade de prover ao sustento da família, estabelece-se como impressor, a partir de 1626. Manterá esta atividade durante cerca de 30 anos. Do seu prelo saem diferentes obras judaicas, desde livros de orações a textos clássicos, como a Mishna. Entre outros títulos, publicou o clássico de filosofia Emunot Vede’ot, de Saadia Gaon, bem como o tratado messiânico do já referido Isaac Abrabanel, Ma’yene ha-Yeshu’ah. A partir da déc. de 30 do séc. XVII, assumem relevo, por outro lado, as publicações originais da autoria de Menasseh Ben Israel. Uma das suas mais significativas obras intitula-se Conciliador, o de la Conveniencia de los Lugares de la S. Escriptura, que Repugnantes entre si Parecen. Com vários tomos, publicados entre 1632-1651, tal como o título indica, neste texto o autor pretendeu efetivar uma conciliação entre passagens do Velho Testamento aparentemente divergentes. Graças à ilustração do escolasticismo judaico junto dos intelectuais não-judeus, levada a cabo em Conciliador […], Ben Israel ficou célebre no círculo de intelectuais da Holanda e dos países vizinhos, cuja proximidade vem a desempenhar um importante papel na sua vida. Estabelece, pois, a partir daqui, relações de amizade com vários teólogos e filósofos cristãos, como Gerhard Johann Vossius, Huig Grotius, Samuel Bochart e Simon Bischop, e igualmente, entre outros, com o místico da Silésia, Abraham von Frankenburg, discípulo de Jacob Boehme. Aquele terá dirigido correspondência a Menasseh, na déc. de 40, evidenciando a sua apreensão em torno da vinda do Messias, expectativa que estava na ordem das preocupações dos intelectuais contemporâneos. Na esfera portuguesa, são assinaláveis as relações entre Israel e o P.e António Vieira, em 1646 e 1647, aquando das missões diplomáticas do jesuíta ao Noroeste Europeu, sob a égide de D. João IV. Vieira teve um contacto próximo com os refugiados marranos e chegou a assistir a um sermão pregado por Israel. A convergência entre o pensamento de um e outro autor foi já alvo de abordagem por parte de vários estudiosos. Christopher Lund refere o espírito de conciliação, similar ao de Conciliador […], que perpassa obras como História do Futuro e Chave dos Profetas, de António Vieira. Aponta também, no seio dos intercâmbios teológicos judeu-cristãos na Holanda e em Inglaterra, que o pensamento de Menasseh e de Vieira se terá tornado cada vez mais estreitamente sinónimo no que toca à iminência, urgência e vantagem de uma reconciliação entre judeus e cristãos num Quinto Império, expectativa que preside à elaboração de dois significativos textos de ambos: Esperança de Israel (1650) e Esperanças de Portugal (1659), respetivamente. Na déc. de 40, Menasseh torna-se professor da academia Talmud Torah, onde todas as crianças da comunidade recebiam instrução. Assim, não parece destituída de sentido a hipótese de ter sido mestre de Bento de Espinosa, outra figura célebre da comunidade sefardita de Amesterdão. Sobre a atividade de estudioso de Menasseh Ben Israel, Cecil Roth põe em relevo não só o facto de ter contribuído para dignificar e popularizar os estudos judaicos entre os não-judeus, mas também o de a exposição sistematizada da teologia judaica por si levada a efeito ter servido de base ao movimento de recuperação e estudo crítico da literatura, cultura e tradições judaicas que tem lugar no séc. XIX, o chamado Jüdische Wissenchaft. É sobretudo no plano da erudição e da antologia que a obra do autor assume relevo, de acordo com Roth. Com efeito, sobressaem, da sua pena, publicações como Humas de Parasioth y Aftharoth (1627), tradução para o espanhol dos textos do Pentateuco e dos Profetas, e Thesouro dos Dinim (1645-1647), em português, que se apresenta como uma sistematização da lei judaica para orientação dos marranos recém-conversos ao judaísmo, passando por itens de observação religiosa, como a oração, os deveres morais, jejuns e festas e preparação da comida. Ainda na déc. de 30, vêm a lume De la Ressureccion de los Muertos, Libros III (1636) e De Termino Vitae (1639). No primeiro, como se indica no título em frontispício, o autor teve o propósito de provar a imortalidade da alma e a ressurreição dos mortos. No segundo, faz uma apologia do livre-arbítrio face à ideia de predestinação, operando, em suma, uma afirmação da liberdade humana perante o seu destino, noções que assumem centralidade no seio do debate teológico nas Províncias Unidas, durante o séc. XVII. Já em Piedra Gloriosa o de la Estatua de Nebuchadnesar (1655), a sua última obra, o autor oferece uma interpretação do sonho de Nabucodonosor, segundo o comentário do profeta Daniel. Sustenta, aqui, a vinda do Messias (a “pedra gloriosa”) e a eminência do seu império temporal sobre as restantes quatro monarquias assinaladas (babilónios, persas, gregos e romanos), concluindo com uma exaltação da eternidade e perdurabilidade do povo de Israel (ISRAEL, 1655, 259). Trata-se de uma obra para a qual o pintor Rembrandt, amigo e retratista de Ben Israel, realizou quatro estampas. Antes ainda, em 1650, publicara a já referida Orígen de los Americanos, Hlarsy Hvqm, esto es Esperanza de Israel, obra igualmente relevante do ponto de vista de uma parénese do retorno do povo israelita à Terra Santa, inerente ao messianismo judaico. Neste texto, partindo do relato de um viajante ao continente americano – Antonio de Montezinos, ou Aharon Levi, que chega a Amesterdão em 1644 –, Menasseh Ben Israel procura demonstrar a migração de parte das 10 tribos de Israel para a América. Este judeu de religião, e português de nação, também ele, em tempos, preso pela Inquisição, alegava (e jurou perante o tribunal rabínico) ter contactado com povos, na região das Índias Ocidentais, cujos hábitos e práticas se assemelhavam muito às do judaísmo. Tomando a sua narrativa como credível, Ben Israel procura conferir fundamento ao relato de Montezinos através da citação de autores judeus (Abraham Aben Ezra, Levi Ben Guerson, etc.) e não-judeus (Platão, Baronio, Beroso, Arias Montano, Malvenda, etc.). As conclusões finais do livro traduzem de forma clara a perspetiva defendida pelo autor: as Índias Ocidentais foram antigamente habitadas por descendentes da casa de Israel, que desde a Tartária passaram pelo estreito de Anian, ou da China, e ainda vivem ocultos em partes desconhecidas da América, preservando a sua religião. Dispersadas as 10 tribos por várias partes do mundo, Ben Israel sustenta o seu recolhimento futuro nas províncias de Assíria e Egipto, donde passarão a Jerusalém. Segundo o autor, estas tribos reunir-se-ão num reino sob o governo de um só príncipe, o Messias, filho de David, “y nunca mas seran expulsas de sus tierras” (ISRAEL, 1881, 114-115). Menasseh Ben Israel responde, desta maneira, aos anseios messiânicos dos seus contemporâneos. Em termos práticos, a sua ação diplomática a favor do perseguido povo judaico traduziu-se numa procura de resultados concretos. Em 1655, viaja até Inglaterra com a finalidade de obter permissão para que os judeus possam estabelecer-se neste país, sem restrição ao direito de praticar a sua religião. Em última instância, e de acordo com as profecias bíblicas em Daniel 12, 7 e Deuteronómio 28, 64, apenas quando as 10 tribos estiverem definitivamente espalhadas pelo mundo a restauração da casa de Israel pode ter lugar. Aparentemente, faltava então o estabelecimento em Inglaterra do francês Angle-Terre, o “limite da terra” (cf. ROTH, 1945, 206-207). Fundamentos místicos à parte, Menasseh submete um pedido de readmissão dos judeus a Cromwell. Depois de inúmeros debates decorridos no seio do Conselho de Estado, não consegue obter o estabelecimento da comunidade de acordo com as condições que pretende. Desapontado, regressa dois anos depois à Holanda, na sequência do falecimento do seu filho Samuel, em setembro de 1657. Dois meses depois, no dia 20 de novembro, o pai segue o filho, falecendo em Middelburg. Os esforços iniciados por Menasseh Ben Israel revelaram-se, anos mais tarde, proveitosos, sendo que a comunidade judaica inglesa conseguiu de Carlos II um alvará de proteção, em 1664. Finalmente, em 1698, o Act for Suppressing Blasphemy reconheceu legalidade à prática do judaísmo em Inglaterra. Obras de Menasseh Ben Israel: Safah Berurah (s.d.); Humas de Parasioth y Aftharoth (1627); Conciliador, o de la Conveniencia de los Lugares de la S. Escriptura, que Repugnantes entre si Parecen (1632-1651); De la Ressureccion de los Muertos, Libros III (1636); De Termino Vitae (1639); Thesouro dos Dinim (1645-1647); Orígen de los Americanos, Hlarsy Hvqm, esto es Esperanza de Israel. Publicado en Amsterdam 5410 (1650) (1650); Even Yeqarah. Piedra Gloriosa o de la Estatua de Nebuchadnesar. Con Muchas y Diversas Authoridades de la Sagrada Escritura y Antiguos Sabios (1655). Marta Marecos Duarte (atualizado a 03.02.2017)