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gazetilha em verso

A palavra “gazetilha” (do cast., gacetilla: “periódico”) tem várias aceções em português. Na sua origem, correspondia à secção que coligia as notícias mais importantes do dia. Nela se destacavam notícias de interesse geral, notas teatrais e um ou outro caso de polícia. Em periódicos destinados a um público mais popular, a gazetilha reportava muitas vezes dramas quotidianos, crimes passionais e tragédias diárias. Rivalizava, na sua função de cativar e entreter os leitores, com o “folhetim”. Sendo um espaço flexível de géneros textuais multiformes e híbridos, passou a designar ora a rubrica de breves sobre curiosidades do quotidiano, ora uma modalidade simultaneamente literária e jornalística, composta normalmente em verso, mas com formas estróficas variáveis, que trata, num modo jocoso, de assuntos ligeiros. É sobre este último conceito que vamos ensaiar uma abordagem. Vazado na tradição do epigrama crítico e humorístico, este género textual, muito em voga na imprensa portuguesa desde a segunda metade do séc. XIX até à primeira metade do séc. XX e caído entretanto em desuso, reaparece por vezes, como exercício de estilo revivalista, na imprensa regional ou local. Trata-se de uma forma poética geralmente cultivada por um homem – a uma mulher não ficaria bem essa prática discursiva, o que não quer dizer que não houvesse alguma a escrever sob identidade encoberta – com predicados de moralista que costuma optar, atendendo a um princípio de cautela, por assinar com pseudónimo ou com enigmáticos monogramas. Na imprensa madeirense (Imprensa), tanto quanto nos é dado saber, praticou-se a “gazetilha” em verso até à déc. de 60 do séc. XX , nomeadamente com uma rubrica de Jaime Vieira dos Santos, sob o pseudónimo de Observador, no Jornal da Madeira (Jornal da Madeira). Do ponto de vista de sua intenção e conteúdo, a gazetilha visa comentar com humorismo factos da atualidade e costumes locais, esboçar um tipo de perfil típico, reconhecível, ou dar conta de um evento social ou de hábitos domésticos (p. ex., um baile, uma quadra festiva, uma ida a banhos, cenas caseiras). Na prática, trata-se de fazer troça de um alvo (indivíduo, situação ou assunto jornalístico) e de fazer rir o público leitor, dando-lhe por vezes a entender mais do que realmente está sendo dito. Ao certo, com este tipo de composição em verso, pretende-se rir da sociedade e da vida, despreocupadamente. Por entre a sátira, a ironia, a rábula e a anedota, os temas e o registo estilístico cruzam-se no processo de sua estruturação estética e significativa. Este tipo de composição de sabor chistoso costuma comportar as seguintes características: versos ligeiros com expressões do quotidiano, despretensiosos e aparentemente espontâneos; tom leve e engraçado, cheio de bom humor e oportunidade. A título de exemplo da forma e do espírito da “gazetilha”, reproduzimos um excerto da composição “Há Males…”, de Daniel da Costa (1897-1971) (Costa, Daniel da): Ninguém me anime ou conforte, / julgando isto uma desgraça, / pois acho até imensa graça, / que na mais bela das ilhas, / por escrever gazetilhas, / a um poeta se dê caça. (COSTA, 1988, 190). Esta escrita tende a articular o saber popular e a cultura erudita, a cultivar o arejado das ideias e o apropriado das observações; atende a um certo rigor da métrica e ao conceituoso da frase. Não raro, apresenta no final da composição um remate espirituoso. Tida pela tradição académica como uma forma poética de inspiração vulgar, considerada por outros uma “difícil modalidade literária”, segundo a expressão do visconde do Porto da Cruz (1953, p. 66), este comentário jocoso exibido em versos foi praticado na Madeira por alguns gazetilhistas reputados, designadamente Francisco António Ferreira (1870-1912), Daniel da Costa, Jaime Vieira dos Santos (1903-1981), Gonçalves Preto (1907-1971) (Preto, Pedro Gonçalves) e João França (1908-1996). A este elenco poderíamos acrescentar, na perspetiva de um jornal falado, poetas populares, designadamente Manuel Gonçalves (c. 1858-1927), mais conhecido como o “Feiticeiro do Norte”, a julgar pelo seu folheto “As Raparigas dos Bordados”, e o “Pedrada”, esse músico excêntrico do Funchal do primeiro quartel do séc. XX, a que faz referência o visconde do Porto da Cruz no seu estudo sobre a História Literária da Madeira, sem, todavia, apresentar uma amostra de versos desse autor. Bibliog.: CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; COSTA, Daniel da, Asas Quebradas, Funchal, SRTCE-DRAC, 1988 [1.ª ed., Lisboa, 1950]; FRANÇA, João, Cântico da Terra Ilhoa, pref. de Fátima Pita Dionísio, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 2008; MARINO, Luís, A Musa Insular, Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1959; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, vol. III, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1953. Thierry Proença dos Santos (atualizado a 07.07.2016)

mesa do centenário /ou grupo do centenário e V centenário da descoberta da madeira

  Grupo de tertúlia literária fundado por João dos Reis Gomes na déc. de 10 do séc. XX, e que perdurou até 1940. O Grupo do Centenário ou Mesa do Centenário, mais conhecido por Cenáculo, surge durante a preparação das bases do programa comemorativo do V Centenário da Descoberta da Madeira. Neste sentido, a Mesa do Centenário reenvia, igualmente, para o grupo de intelectuais madeirenses que se reuniu, no dia 2 de agosto de 1922, no teatro Dr. Manuel de Arriaga (posterior teatro municipal Baltazar Dias) para formar uma comissão, com o intuito de promover os festejos dos 500 anos do descobrimento da Madeira. Pertenciam ao Cenáculo, personalidades de suma importância da sociedade e cultura madeirenses do séc. XX, que influenciaram decisivamente o meio cultural e artístico. O prestígio social, os cargos importantes que ocuparam na sociedade, nas áreas do ensino, da comunicação, do campo militar, da religião e do funcionalismo público e privado foram determinantes para a longevidade e notoriedade do grupo de tertúlia. Presidia e liderava o Cenáculo o distinto militar, escritor, professor do liceu e diretor da escola industrial e comercial do Funchal, João dos Reis Gomes. Do grupo também faziam parte intelectuais como o historiador e padre Fernando Augusto da Silva, um dos autores do Elucidário Madeirense; Alberto Artur Sarmento, professor de ciências e investigador da história insular; Adolfo de Figueiredo, crítico de teatro e antigo diretor da Alfândega; o médico António Rodrigues dos Santos; Rui de Bettencourt da Câmara, jurista e genealogista; Emanuel Ribeiro, professor do ensino técnico das belas artes; Azevedo Ramos; Alfredo César de Oliveira, vogal do município do Funchal e antigo empregado do banco Rocha Machado; Adolfo de Noronha; o médico João Francisco de Almada; o professor Alfredo Miguéis; Elmano Vieira, jornalista e escritor; o escultor Francisco Franco e o seu irmão Henrique Franco; Luís Pinheiro, crítico literário e funcionário da Alfândega; Baptista dos Santos; Fernando Câmara, poeta e decorador; Francisco Bento de Gouveia; o jornalista Soares de Andrade; o musicólogo Dário Flores; Assis Esperança; ou o poeta Jaime Câmara. Segundo César Pestana, o grupo era caracterizado como profundamente conservador, religioso e com espírito rígido, embora liberal e eclético, sendo que, numa sociedade profundamente católica, seria previsível a marginalização dos livres-pensadores ou ateus. O Cenáculo era constituído hierarquicamente por três categorias de membros: os efetivos, os correspondentes e os honorários. Como sócios honorários, fizeram parte personalidades de grande prestígio regional, nacional e internacional, nomeadamente a atriz Maria Matos, Amintas de Lima, poeta e cônsul do Brasil na cidade do Funchal, e o governador do distrito e guarda-mor da Saúde, João Ferreira. O grupo reuniu-se, primeiramente, na redação do Heraldo da Madeira, jornal de que foi diretor João dos Reis Gomes, entre 1905 e 1915. Assumida a direção, em 1916, do Diário da Madeira, o Cenáculo passou a reunir-se diariamente, durante a noite, numa sala privada no hotel Golden Gate. Neste contexto, a imprensa constituiu um meio de propaganda cultural fundamental, em que se destacaram os periódicos Heraldo da Madeira e o Diário da Madeira, órgãos de comunicação oficial da tertúlia. Era nestes jornais que o relato da tertúlia e dos debates vinha a público. O grupo foi criticado por alguns intelectuais, como César Pestana (“os processos literários estacionaram, permaneceram imutáveis, vivendo-se ainda sob o influxo do velho academicismo dogmático e inerte. […] prevalecem ainda uma literatura e uma crítica de constrangimento, que o próprio meio favorece – consequência e reflexo do velho conformismo académico de que o ‘Cenáculo’ foi expressão acabada” (Id., Ibid., 22)) e o visconde do Porto da Cruz, sendo que este último tentou entrar, por diversas vezes, no Cenáculo (“daquele famoso centro intelectual, conhecido por ‘Cenáculo’ e que pelo protocolo e pelo acacianismo de que se rodeou caiu no ridículo” (PORTO DA CRUZ, 1953, III)). As reuniões eram inacessíveis ao público, sendo apenas para os frequentadores admitidos pelo círculo. O grupo era seleto, guiado pela sobriedade e por uma disciplina austera e académica. Os seus elementos debatiam a literatura, os novos autores, arte e os problemas da cidade do Funchal, chegando mesmo a serem consultados pelas autoridades autárquicas sobre aspectos ligados à estética da cidade. Nos últimos anos do Cenáculo, a tertúlia, ainda presidida por João dos Reis Gomes, realizava-se, todas as tardes, no café Apolo. Para além de presidir o grupo de tertúlia literária Mesa do Centenário/Cenáculo, João dos Reis Gomes, madeirense ilustre, lançou, coordenou e promoveu o programa das festas comemorativas do V Centenário da Descoberta da Madeira, revestidas de grande esplendor e magnificência, entre 29 de dezembro de 1922 e 4 de janeiro de 1923. O programa provisório das festas comemorativas foi publicado no Diário da Madeira, órgão oficioso da celebração, em 1919. Por conseguinte, o grupo organizador das comemorações, intitulado “Mesa do Centenário”, reuniu-se no dia 2 de agosto de 1922, no teatro Dr. Manuel de Arriaga, com o intuito de formar várias comissões. As reuniões seguintes foram realizadas numa das salas da Alfândega do Funchal, sob permissão do diretor, Adolfo de Figueiredo, também ele integrado na comissão executiva das festividades. No palácio de S. Lourenço, sob a presidência do governador civil, Eduardo da Rocha Sarsfield, ficou instalada a comissão executiva para organizar e dirigir as celebrações. Foram instituídas 18 comissões para coordenar as festividades do Centenário: a comissão de honra, a comissão executiva, a comissão técnica e diretiva, a comissão angariadora de fundos, a comissão de propaganda e publicidade, a comissão de obras, a comissão do grande cortejo histórico, a comissão de solenidades religiosas, a comissão teatral, a comissão do baile, a comissão de ornamentações públicas, a comissão de turismo e receção de forasteiros, a comissão de concertos e festas musicais, a comissão de exposição industrial e feira, a comissão bibliográfica e de produtos da escola industrial, a comissão de festejos desportivos, a comissão de festejos náuticos e a comissão de jogos hípicos e cavalhadas. Ligados a estas comissões estavam distintas e ilustres personalidades madeirenses do panorama cultural, industrial, comercial, militar e religioso, nomeadamente: o bispo do Funchal, António Manuel Pereira Ribeiro, o presidente da Junta Geral e senador pela Madeira, Vasco Gonçalves Marques, Adolfo Sarmento de Figueiredo, Alberto Artur Sarmento, o jornalista e escritor Ciríaco de Brito Nóbrega, Fernando Augusto da Silva, Fernando Tolentino da Costa, João dos Reis Gomes, Leandro António Rego, Cândido Pereira, Emanuel Ribeiro, o jornalista e escritor Elmano Vieira, o poeta Jaime Câmara, o jornalista e escritor José Cruz Baptista Santos, Carlos W. Frazão Sardinha, o enólogo João Higino Ferraz, o banqueiro Henrique Augusto Vieira de Castro, Edmundo da Conceição Lomelino, Francisco Bento de Gouveia, o proprietário da firma vinícola F. F. Ferraz, Francisco Figueira Ferraz, Manuel Gregório Pestana Júnior, Álvaro dos Reis Gomes e Fernando Lomelino. Para além da organização destas comissões, foi nomeado Amintas de Lima, cônsul do Brasil, como representante do corpo consular na Madeira nesta festividade solene, no âmbito da divulgação e propaganda das festas no estrangeiro. Os países com representação consular na Madeira que aderiram ao programa festivo foram os seguintes: Brasil, EUA, Inglaterra, Itália, Alemanha, Argentina, Espanha, Bolívia, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Suécia, Uruguai, Libéria, Guatemala, Haiti, Venezuela e Roménia. Celebrar e eternizar na memória de todos os portugueses, especialmente os madeirenses, o V Centenário do Descobrimento da Madeira era de suma importância, na medida em que marcou o início da glória das descobertas e da expansão marítima lusitana, colocando a Madeira como ponto geográfico de destaque na odisseia portuguesa. Foi publicado no Diário da Madeira que as festas do V Centenário eram um contributo para o reconhecimento de uma eterna dívida ao navegador português, a “a síntese mais bela”, um “coro evocador do passado” e a “gratidão pelo feito que foi a origem de nós próprios” (DM, 4 ago. 1922, 2). Por conseguinte, foi elaborado um programa de festas ousado que trouxe à ilha milhares de turistas e fez do Funchal uma capital dinamizadora da cultura portuguesa. Devido à elevada ocupação do Reid’s Palace Hotel, foram reabertas as dependências do antigo Reid’s Carmo Hotel para fazer face aos pedidos de alojamento. O programa elaborado por J. Reis Gomes previa: a receção do alcaide de Santa Cruz de Tenerife, Andrés Orosco Baptista, do coronel da guarnição de Tenerife, Galdador Garcia y Rodriguez, e de alguns habitantes tenerifenhos no Palácio do Governo Civil, no da Junta Geral e no da Câmara Municipal do Funchal; um baile estilo séc. XV na Qt. Pavão, no qual se dançava e trajava de acordo com a época dos descobrimentos; uma serenata na Pontinha com embarcações ornamentadas de acordo com a época histórica; espetáculo pirotécnico e iluminação festiva nas principais ruas da cidade, circunscrevendo igualmente a Pontinha e a fortaleza do ilhéu; três sessões, no teatro Dr. Manuel de Arriaga, da peça Guiomar Teixeira, adaptação do romance histórico da autoria de João dos Reis Gomes, cuja ação privilegia a época dos descobrimentos; apresentação da maquete, lançamento e bênção da primeira pedra para o monumento de João Gonçalves Zarco, da autoria do escultor madeirense Francisco Franco, situado no eixo da Av. Zarco e da Av. Dr. Manuel de Arriaga (apenas inaugurado em maio de 1934); Te Deum na igreja da sé, cerimónia solene celebrada pelo bispo da Diocese do Funchal, D. António Manuel Pereira Ribeiro, contando com a presença do P.e José Marques Jardim, dos cónegos Manuel Mendes Teixeira e Manuel Miranda e das restantes entidades oficiais do concelho; uma romaria ao túmulo do navegador e 1.º capitão donatário do Funchal, João Gonçalves Zarco, situado na igreja de S.ta Clara; a realização de jogos hípicos medievais e desportivos no campo do Almirante Reis; exposição agrícola, industrial e artesanal madeirense (vinho, açúcar, lagares, engenhos, tecidos, bordados, obras em vimes) na Pç. do Marquês de Pombal (posterior Av. do Mar); exposição retrospetiva de objetos históricos e culturais na escola industrial António Augusto de Aguiar, na R. João Tavira; encerramento dos festejos com um cortejo histórico imponente composto por carros alegóricos. No âmbito destas comemorações, foram planeadas duas publicações, nomeadamente um opúsculo comemorativo intitulado V Centenário do Descobrimento da Madeira, da autoria de diversos colaboradores, como Jordão Henriques, Carlos Azevedo de Meneses, Luís de Ornelas Pinto Coelho, Manuel Ribeiro e João dos Reis Gomes, com a coordenação de Fernando Augusto da Silva, e a publicação do grande projeto que foi o Elucidário Madeirense, uma obra de pendor enciclopédico que reúne um manancial de informações infindável sobre a Madeira, abarcando diversas áreas do conhecimento, com a coordenação de Fernando Augusto da Silva e de Carlos Azevedo de Meneses. No opúsculo comemorativo reuniram-se excertos dos poemas épicos Insulana, de Manuel Tomás, e Zargueida, de Francisco de Paula Medina e Vasconcelos; estâncias em que Luís Vaz de Camões menciona a Madeira; poemas de Luís de Ornelas Pinto Coelho; artigos sobre indústrias, etnografia, agricultura, geologia, fauna e flora madeirenses; composições de Manuel Ribeiro, Ramos Coelho, Antonino Pestana, Pestana Reis, Eduardo Pereira e Jaime Câmara. De carácter nacional, a comemoração do V Centenário do Descobrimento da Madeira suscitou interesse internacional por parte de regiões e países como as ilhas Canárias, a Inglaterra e a América do Norte. No âmbito das festividades e consequente visita de milhares de turistas, foram propostas várias obras de melhoramento no Funchal, tais como a limpeza e reparação das ruas e das ribeiras, saneamento, calcetamento, obras e fomento de algumas indústrias locais, a fim de exibir a cidade condignamente. Aliás, foram diversas as empresas mais conhecidas e que fazem parte da história da Madeira que contribuíram com valores de subscrição para as festas do V Centenário, sendo elas: Blandy Brothers & C.ª (10.000$00), The Western Telegraph Company Ld. (10.000$00), Hinton & Sons (7.500$00), Read, Castro & C.ª (5.000$00), Rocha Machado & C.ª (5.000$00), Leacock & C.ª (5.000$00), Madeira Embroidery & C.ª (2.500$00), Cossart Gordon & C.ª (2.000$00). O valor total das subscrições atingiu os 107.301$00. Foram diversos os eventos culturais e desportivos que abrilhantaram as comemorações, homenageando a Ilha pelo seu contributo histórico-cultural enquanto território português. Realizaram-se desafios de futebol entre as equipas do Clube Desportivo Nacional, Clube Sport Marítimo e o Clube Desportivo de Tenerife, uma parada desportiva com a representação de todos os clubes filiados na Associação de Futebol do Funchal, um campeonato de tiro aos pratos e pombos, no cais do Reid’s Hotel e Garden-Party, um torneio de esgrima, no casino Pavão, uma gincana com números pedestres e de veículos e jogos hípicos, no campo do Almirante Reis. O final de ano madeirense foi abrilhantado pelas festas do V Centenário, tendo sido adquiridos foguetões e fogos aquáticos à empresa Manuel da Silva & Filho, de Viana do Castelo, e reforçada a iluminação e a decoração de rua e de edifícios. No âmbito das festividades, a banda do regimento da infantaria 27 foi aumentada. Nas festas também participaram o grupo musical Passos de Freitas e o Orfeão Madeirense, sob direção de Manuel dos Passos de Freitas, atuando no Monte Palace Hotel, numa festa em honra dos excursionistas de Tenerife. Aos vizinhos tenerifenhos foram oferecidos um lanche no Terreiro da Luta e um chá no Monte, por Henrique Vieira de Castro, e um jantar pelo cônsul de Espanha. Para além de exibições musicais nas ruas do Funchal por artistas madeirenses, foram convidados, a propósito da visita dos excursionistas tenerifenhos, o Quarteto Tenerifenho, composto pelos artistas Matilde Martin, Jorge Sansón, Luíz de Armas e Victoria Carvajal, que atuou brilhantemente em concertos no teatro Dr. Manuel de Arriaga, interpretando óperas e temas de compositores clássicos conhecidos, tais como: Giuseppe Verdi (“Simon Boccanegra”), Richard Wagner (“Tannhauser”), Jules Massenet (“Manon”), Frédéric Chopin (“Polonesa em Si Bemol Maior” e “Valsa Op. 62”), Teobaldo Power (“Cantos Canários”) e Wolfgang Amadeus Mozart (“Don Giovanni”), José Serrano (“La Canción del Olvido”), Alvarez (“La Pandereta”), Charles Gounod (“Fausto”), Isaac Albéniz (“Sevilla”), Gioachino Rossini (“Il Barbieri di Siviglia”), António Gomes (“Salvator Rosa”), Ambroise Thomas (“Hamlet”), Sergei Rachmaninoff (“Prelúdio N.º 5”), Amadeo Vives (“Maruxa”). Também no teatro Dr. Manuel de Arriaga foram realizadas três récitas de gala da peça Guiomar Teixeira (romance histórico, 1912), de João dos Reis Gomes. Guiomar Teixeira, obra inspirada na novela histórica Tristão das Damas (1909), composta por quatro atos e cinco quadros, juntou, em simultâneo, à encenação da peça teatral a projeção do filme de curta-metragem O Cerco de Safi (rodado na Madeira, em 1913, sob direção de André Valldaura) no momento da ação de uma batalha entre cristãos e muçulmanos no Norte de África, método inovador para a época de J. Reis Gomes. O romance desenrola-se no início do séc. XVI, com personagens que fazem parte da história da Madeira, nomeadamente Cristóvão Colombo, Tristão Vaz Teixeira, João Gonçalves da Câmara e João Esmeraldo. Num primeiro plano, os atores comentam, dentro da fortaleza de Safi, a batalha que é projetada num segundo plano. O processo de montagem laboratorial do filme foi executado pela companhia cinematográfica francesa Pathé-Frères. Na peça, participaram como atores personalidades ilustres da sociedade madeirense, tais como Álvaro dos Reis Gomes, Amélia Faria Sarmento, António Trigo, Carmen Henriques, César Santos, Deolinda Trigo, Ema Trigo, Fialho de Almeida, Francisco Bettencourt, Henrique Tristão Bettencourt da Câmara, Isabel de Oliveira, Joaquim de Menezes Alves, Jorge Ferreira, José da Câmara Lomelino, José Jardim, José Mégre, Leandro Camacho, João dos Reis Gomes, José Calisto Ferreira, Maria Dulce Reis Gomes, Maria Sales, Raul Dória e Sofia de Figueiredo. Os trajes da época, os adereços, a cenografia e o décor para a peça foram desenhados por Cândido Pereira, e a execução do cenário esteve a cargo dos artistas Gayo e Ripoli, de Madrid. A peça foi um dos pontos altos da cultura madeirense e das festas do Cinquentenário da Descoberta da Madeira. A exposição retrospetiva na escola industrial António Augusto de Aguiar expôs a histórica janela da residência de Cristóvão Colombo, um retrato de João Gonçalves Zarco e de personalidades da história madeirense, cartografia relativa ao arquipélago, bibliografia relativa à história, aspectos dos costumes e da cultura madeirense, trabalhos de professores de desenho, de composição artística e de desenho ornamental. O grande cortejo histórico encerrou as festas do V Centenário da Descoberta da Madeira, no dia 4 de janeiro de 1923, e contou com a participação de todas as entidades oficiais do concelho, que seguiram em romaria. O cortejo incluiu os imponentes carros alegóricos de carácter histórico desenhados por Cândido Pereira e Emanuel Ribeiro: o carro da descoberta de Gonçalves Zarco, representado por uma majestosa caravela ao estilo do séc. XV (construída e doada pela empresa Arsenal do Cabrestante, de João de Araújo), com 4 m de comprimento e ornamentada com figuras segurando tridentes e tocadores de búzio e com os cestos de gávea dos mastros adornados com escudos heráldicos; o carro do infante D. Henrique, em estilo gótico, que transportou duas estátuas alegóricas que representavam a história e a navegação, os bustos de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, trabalho escultórico de José Pereira, professor da escola industrial Afonso Domingues; o carro das nações, oferecido pelo corpo consular, ostentando os escudos dos países com representação oficial na ilha; os carros alegóricos dos desportos e das indústrias de bordados, açúcar, vinho e vimes, ofertados pelas respetivas indústrias. O itinerário do cortejo histórico estabelecido privilegiou as principais artérias da cidade do Funchal: R. Gago Coutinho (R. da Praia), Av. Zarco, Av. Dr. Manuel de Arriaga (troço a sul), R. Capitão Tenente Carvalho de Araújo (Aljube), R. do Comércio (Ferreiros), R. dos Netos, R. de S. Pedro, R. do Dr. Sequeira, R. do Dr. Vieira (Carreira), R. da Ribeira de S. João, R. de S. Lázaro, R. Serpa Pinto, R. Hermenegildo Capelo, Av. Dr. Manuel de Arriaga (troço a norte), Av. Zarco e Av. Gago Coutinho, finalizando no Arco Triunfal dos Descobridores, construído propositadamente para o cortejo histórico. Por conseguinte, o V Centenário da Descoberta da Madeira, como marco histórico, contribuiu diretamente para o surgimento da Mesa do Centenário/Cenáculo, como tertúlia literária, e para projetos como a publicação do importante opúsculo comemorativo V Centenário do Descobrimento da Madeira e do Elucidário Madeirense, que eternizaram através da escrita a súmula do conhecimento sobre a ilha da Madeira. Bibliog.: CARITA, Rui e MELO, Luís Francisco de Sousa, 100 Anos do Teatro Municipal Baltazar Dias (1888-1988), Funchal, Eco do Funchal/CMF, 1988; Correio da Madeira, 28 jul. 1922; 26 ago. 1922; 23 set. 1922; 27 set. 1922; 1 out. 1922; 5 out. 1922; Diário da Madeira, 4 ago. 1922; 12 set. 1922; 24 set. 1922; 29 out. 1922; 12 nov. 1922; 22 nov. 1922; 3 dez. 1922; 10 dez. 1922; 12 dez. 1922; 17 dez. 1922; 21 dez. 1922; 22 dez. 1922; 30 dez. 1922; 3 jan. 1923; 4 jan. 1923; 5 jan. 1923; 7 jan. 1923; GOUVEIA, Horácio Bento de, “Funchal de Ontem, Funchal de Hoje”, DN, Funchal, 21 ago. 1982, pp. 5 e 11; PESTANA, César, “O Cenáculo: Academias e Tertúlias Literárias da Madeira”, Das Artes e da História da Madeira, vol. XVIII, n.º 38, 1968, pp. 21-23; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, vol. III (1910-1952), Funchal, CMF, 1953; SILVA, Fernando Augusto da (coord.), Publicação Comemorativa do V Centenário do Descobrimento da Madeira, Funchal, Comissão de Propaganda e Publicidade do Centenário, 1922; Id. e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. III, Funchal, DRAC, 1998; VIEIRA, G. Brazão, “Páginas de Memórias: Um Grande Vulto que a Morte Levou: João dos Reis Gomes”, Das Artes e da História da Madeira, vol. I, n.º 2, 1950, pp. 17-19. Fernanda de Castro (atualizado a 05.02.2017)

homem, maria aurora carvalho

Jornalista, professora, escritora e produtora cultural, nasceu no Sátão, a 13 de novembro de 1937, e morreu no Funchal, a 11 de junho de 2010. De seu nome completo Aurora Augusta Figueiredo Carvalho Homem – Maria Aurora é o seu nome artístico –, foi uma das mais marcantes e populares figuras da cultura madeirense do seu tempo, uma voz crítica dos costumes e dos acontecimentos da época e uma incansável promotora do livro e da leitura. Filha de Amadeu de Carvalho Homem, secretário da Câmara Municipal de Sátão, e de Cidalina Figueiredo Carvalho Homem, professora primária, viveu a sua primeira infância numa aldeia nos arredores da vila natal até que, em 1949, após a morte do avô, médico localmente conceituado, a família se mudou para Trancoso e, mais tarde, em 1952, para São Pedro do Sul, por motivos profissionais dos pais. Nos seus primeiros doze anos de vida, a família residiu numa quinta na Abrunhosa do Ladário. Foi na casa de uma típica família abastada da Beira Alta, regularmente visitada por bispos, padres e outros ilustres homens da terra, que iniciou a sua escolaridade com um professor particular. Frequentou depois o Colégio Português de Viseu e, mais tarde, o Liceu Nacional daquela cidade, onde viria a ser presidente da Juventude Escolar Católica. Após a conclusão do liceu, ponderou prosseguir estudos na área do direito, mas acabou por ingressar em românicas na Universidade de Coimbra, onde militou na Juventude Universitária Católica. Ainda na universidade, venceu o primeiro prémio de conto “Via Latina” em 1959, forjando assim um elo com a escrita que se revelaria duradouro. No decorrer das suas viagens, conheceu o madeirense Humberto Morna Gomes, com quem viria a casar em 1960, estabelecendo-se, desta feita, o seu vínculo à ilha. Após um período de residência na Alemanha, veio para Lisboa, onde trabalhou no Banco de Angola e, seguidamente, para a Emissora Nacional, apresentando programas radiofónicos da sua autoria ou escritos por outros. Na segunda metade dos anos sessenta, iniciou a sua colaboração com a RTP como apresentadora do programa infantil “Girassol”, que lhe valeu, em 1969, o prémio de melhor apresentadora de televisão da Casa da Imprensa. Seguiram-se “As férias terminaram”, “Dói-dói” e “Minuto Zero”. Na década de setenta, envereda, sem deixar de animar programas para a Emissora Nacional, pelo jornalismo profissional em A Capital, e depois no Diário de Lisboa. Chegou a colaborar, ainda, com as revistas Flama e Gente, tendo também sido redatora-chefe do jornal A Nossa Terra de Cascais. O ano de 1974 constitui uma viragem marcante na vida de Maria Aurora Carvalho Homem, já que seria esse o ano da mudança da família para a ilha da Madeira, numa tentativa, que viria a revelar-se frustrada, de salvar o casamento. No ano seguinte, não evita o divórcio, mas decide ficar na Madeira com os três filhos, Nuno Morna, Maria Manuela Morna Gomes e Ângela Morna Gomes. Nesse período, inicia a sua vida profissional no Funchal como professora de português e francês no Liceu Nacional. Na comunicação social, passa a colaborar com o Diário de Notícias da Madeira (DNM), através da rubrica “Rodízio” em que debate temas controversos como o ensino no pós-25 de abril e a condição da mulher portuguesa. Faz rádio no emissor regional da Emissora Nacional (futura RDPM), participando no “Suplemento do domingo”, realizado por Gualdino Avelino Rodrigues, de duas horas semanais, que incluía o programa por ela conduzido: “Quem somos, quem seremos amanhã”. Torna-se numa das figuras da boémia literária dos estabelecimentos noturnos da zona velha do Funchal (1975-1985). Na década de oitenta, diversifica as suas atividades. Passa a exercer funções de assessoria para o Serviço de Atividades Culturais da Câmara Municipal do Funchal (CMF), no âmbito das quais organizou recitais de poesia (ao longo desse decénio) e a Feira do Livro até ao ano de 2006. Sob a sua coordenação e a direção de Fernando Nascimento, é lançada a revista Margem, publicação associada a temáticas culturais, literárias e artísticas da ilha da Madeira (1981-1983). Pertence, por uns tempos, ao Teatro Experimental do Funchal. Organiza, em 1982, o primeiro Festival de Cantares da Madeira. Prossegue a sua colaboração com a RDPM em vários programas, entre os quais se destacam: “Teia de Palavras”, “Vamos Fazer de Conta”, “Rádio da Minha Rua”, “Terra, Mar, Gente”, “Viva a Festa”, “Conversas sobre Palavras” e, já na década de 90, “Discurso Direto” e “Na Crista da Onda”. Como será seu apanágio, sempre que pode, apoia a produção literária na região, com intervenções públicas, incentivos ou prefácios. Rodeia-se de pessoas ligadas à criação e à comunicação, ao ensino e à investigação, ao empresariado e à política.   [caption id="attachment_846" align="aligncenter" width="500"] Fig. 1: Salão Nobre Virgílio Pereira do Teatro Municipal Baltazar Dias, 31-03- 2006. Fonte: foto de Rui Camacho.[/caption] Em 1984, chega à televisão regional com o programa “A Terra e o Povo”, uma série de 11 episódios que lhe permitirá percorrer a ilha, fazendo a divulgação das tradições locais. Este é o primeiro dos programas que viriam a reputá-la como incansável mediadora da cultura do arquipélago da Madeira. Na senda dessa experiência bem-sucedida, apresenta, em 1988, o programa “Arraiais Madeirenses”. A partir desse mesmo ano, vai estar no ar, até meados da década 90, “Letra Dura e Arte Fina”, um programa de entrevistas e pequenas reportagens que proporciona alguma visibilidade aos criadores das artes e letras residentes na ilha, com a colaboração de Ana Margarida Falcão. Esse magazine cultural chega a ser retransmitido em diferido pela RTP2 e RTPI. Em 2002, há de conduzir um outro programa do género, “Pé de Página”. Após um curso de guionismo, ensaia-se na ficção televisiva, em 1991, para a RTPM, com a série “Página Quatro”, inspirado no quotidiano da redação de um jornal e realizado por João Paulo Valente. Em 1993, escreve o guião teledramático de cinco episódios, Homens de Passagem, realizado por António Plácido e exibido na RTPM, cujo enredo permitiria dar a conhecer diferentes ambiências do arquipélago madeirense. Embora se tratasse de uma experiência marcante para os atores e técnicos nela envolvidos, esta produção regional revelou, em abono da verdade, algumas limitações. O ano de 1997 assinala a estreia do seu primeiro programa televisivo dedicado à diáspora madeirense, “Recados das Ilhas” (em parceria com a RTPI), que estaria no ar durante dois anos. Entretanto, em 1999, apresenta o documentário “A Madeira e os Descobrimentos”. Em junho de 1999, desloca-se aos EUA para fazer uma transmissão de “Recados das Ilhas” a partir de Rhode Island, causando forte impacto no seio da comunidade portuguesa aí residente. Com a entrada dos Açores, o programa passa a chamar-se “Atlântida”, indo para o ar a 6 de novembro de 1999. Através de contactos telefónicos em direto, a apresentadora aproxima os telespetadores, longe da sua terra natal e das suas famílias, estreitando laços, reavivando memórias e emoções. A crescente popularidade do formato televisivo e de Maria Aurora viriam a motivar a sua deslocação ao Canadá, à Venezuela, ao Reino Unido e à África do Sul, a fim de contactar diretamente com as comunidades portuguesas e daí transmitir o programa, focando as coletividades e as diversas atividades culturais por elas desenvolvidas nos países onde se estabeleceram. Em novembro de 2004, no âmbito das celebrações do 5.º aniversário do “Atlântida”, a RTPM promoveu um espetáculo de homenagem a Maria Aurora. A 6 de novembro de 2009, para assinalar os dez anos do programa, foi para o ar um “Atlântida” especial, emitido em direto para a RTPM, a RTPA e a RTPI. [caption id="attachment_849" align="alignright" width="483"] Fig. 2: Jardim da Serra, 10-07-2009. Fonte: foto Arquivo RTPM.[/caption] A par do programa “Atlântida”, Maria Aurora faz várias emissões especiais, em diretos, desde festas religiosas, tais como a S.ª do Monte, o Sr. Bom Jesus da Ponta Delgada ou a S.ª do Livramento, até à Noite do Mercado. Em 2005, lança “Nome: Mulher”, um programa de debate composto por um painel exclusivamente feminino (com Ana Margarida Falcão, Violante Matos, Ilse Berardo e Diana Esteves Cardoso); assume-se como um programa reivindicativo, que pretende dar voz pública às mulheres num espaço ainda fortemente dominado por painéis masculinos. Em 2007, inaugura a série documental “Ilha dos Amores”, em que revisita grandes histórias de amor associadas à Madeira. Em 2007-2008, apresenta o programa mensal de auditório “Funchal, 500 anos – teu nome sabe-me a Funcho”, com o propósito de revelar a identidade das dez freguesias do concelho. Em 2009, com o programa “Espaço Cidadania”, aborda a vida de organizações cívicas e culturais e, com a emissão “Cá Nada”, debate com Thierry Santos regionalismos linguísticos da Madeira. Fragilizada por uma doença prolongada, seria a 20 de março de 2010 que apresentaria pela última vez o programa “Atlântida”. Porém, o sucesso do formato era já tal, que o programa ainda hoje vai para o ar quinzenalmente, alternando com os Açores, continuando a ligar a diáspora às ilhas. Mas a comunicação social em geral, e a televisão em particular, não é o seu único campo de intervenção. Na passagem dos anos 80 para 90, diversifica as suas atividades: exercício de cidadania, promoção cultural e escrita literária. Em 1989, vai fazer parte, com José António Gonçalves, José de Sainz-Trueva, Carlos Nogueira Fino e Irene Lucília, entre outros, da comissão instaladora da Associação de Escritores da Madeira. Nessa altura, Maria Aurora, Irene Lucília, José de Sainz-Trueva, Carlos Nogueira Fino, Nelson Veríssimo e Ana Margarida Falcão passam a reunir-se regularmente em jantares na casa de uns e de outros. Nestas tertúlias, comenta-se a vida cultural madeirense e discutem-se alguns projetos dos seus membros. Poemas e contos da sua lavra irão constar de várias coletâneas de literatura. Em 2001, o grupo de amigos viria a incompatibilizar-se com a direção da Associação, então presidida por José António Gonçalves, e consequentemente a afastar-se dela. No âmbito da sua colaboração com o Departamento de Cultura da CMF, dá início, nos anos 90, à segunda série da revista Margem (1995-2011), institui o prémio literário Edmundo Bettencourt (1995-2010) e organiza várias edições do Colóquio Internacional do Funchal (1997-2006). Nesse enquadramento, coordenou ainda, entre 2001 e 2007, a coleção “Autores da Madeira”, da editora portuense Campo das Letras, entretanto extinta, totalizando catorze títulos, entre antologia, poesia, ensaio, crónica e ficção. No primeiro semestre de 2005, volta a colaborar com o DNM, publicando crónicas na coluna intitulada “Marca de água”. Nesse mesmo ano, inicia com o jovem editor Manuel Reis uma parceria que perdurará até à sua morte e um pouco mais para lá. A partir daí, toda a sua obra virá a lume com a chancela da Ausência, da 7 dias 6 noites ou da Exodus. Ainda em 2005, cria condições para lançar a associação cultural Fantocheiros da Madeira e contribui com textos teatrais da sua autoria (inéditos) para o seu repertório: Uma Aventura nas Desertas, Uma Estrelinha Dorminhoca, Pai Natal a toda a Velocidade e À Descoberta da Madeira. No que diz respeito à sua atividade literária, estreia-se em 1982 com um livro de poesia. Mas é nas décadas de 1990 e de 2000 que a sua obra se evidenciará, com a edição de variados títulos de géneros diferentes: letras de canções dispersas em publicações, antologias de poesia, de conto, de crónica e o livro para a infância constituem veículos privilegiados da sua escrita. Na poesia, dá a estampa Raízes do Silêncio e Ilha a Duas Vozes, em parceria com João Carlos Abreu. Em 1994, sai do prelo Cintilações, um álbum de aguarelas de João Lemos Gomes e textos poéticos de Maria Aurora, oferecendo ao leitor uma experiência sensorial proveniente da fruição simultânea da imagem e da palavra numa simbiose intencional ainda que subjetiva do olhar/sentir de cada um. Esta obra seria seguida por Uma Voz de Muda Espera: Monografia Sentimental, um vaguear saudoso pelas memórias dos lugares e das gentes de São Pedro do Sul, onde passou parte da adolescência. Em 2003, estreia-se na poesia de cariz erótico com o opúsculo 12 Textos de Desejo. Seguir-se-lhe-ão Antes que a Noite Caia, com ilustrações de Luísa Spínola, e Discurso Amoroso, com desenhos de Francisco Simões. A sua produção contística também é muito apreciada. Publica A Santa do Calhau, Para Ouvir Albinoni, e, finalmente, Leila. Na sua veia narrativa, oscila entre a crítica de costumes e a experiência de vida, investindo no campo sensorial e no mundo dos afetos. A sua voz tem um grande poder sugestivo: cria, com poucas palavras, perfis, ambientes e situações, cenas curtas, quase cinematográficas e de desfecho irónico. A escrita de Maria Aurora Homem surge de um intrincado entrelaçar de leitura, experiências e observações em que os lugares reais se cruzam com os da memória afetiva, resultando numa mescla de reminiscência e imaginação, cujo rasto deixa perscrutar as mentalidades do período retratado, fazendo por vezes eco da vida da autora, desde a infância até à idade adulta, num tom confessional. Em cenários que se estendem da Beira Alta até à Madeira, passando pela Holanda ou por Marrocos, e apesar das dissonâncias espácio-temporais, o leitor é confrontado com uma variação do mesmo tema: a ilustração de vidas no feminino. Maria Aurora presta testemunho da vida das mulheres e verte, com rara sensibilidade, para as suas composições o sentir-se mulher, contribuindo para a construção de uma identidade feminina centrada na autodescoberta do corpo e do desejo. Na crónica, destaca-se Discurs(ilha)ndo, uma recolha de textos publicados no DNM, nos anos 90, que cobre uma vasta temática, desde a atualidade até às tradições locais ou mesmo sentimentos mais íntimos, pondo, com frequência, a tónica no incómodo tom interventivo/reivindicativo que a caracterizou e com o qual granjeou admiradores, mas também algumas inimizades. No que se refere à ficção infantil – dirigida ao grupo de leitores situados, sensivelmente, entre os sete e os doze anos – lança, em 1989, Vamos Cantar Histórias…, com a chancela da CMF. Nele se destaca o eixo temático do diálogo com o diferente e o marginal e a relação interartes: escrita, pautas musicais e desenho. Sai do prelo, em 1991, Juju, a Tartaruga, com ilustração de Maurício Fernandes. Dando início, em 2005, a uma parceria com o jovem editor Manuel Reis, reedita Juju, a Tartaruga e, nesse mesmo ano, publica Loma, o Lobo Marinho. Em 2007, saem do prelo Zina, a Baleia Azul e Maria e a Estrela-do-Mar. Todos versam sobre a vida selvagem marinha e a condição total da natureza. Ainda nesta linha da preservação do ambiente e da defesa da biodiversidade do arquipélago da Madeira surgem, em 2008, A Fada Ofélia e o Véu da Noiva e, em 2010, A Fada Íris e a Floresta Mágica. Tendo a história da Madeira por fundo, publica em 2008 A Cidade do Funcho, A Primeira Viagem de João Gonçalves da Câmara. As paisagens da Madeira estão em foco em Pedro Pesquito e a Câmara dos Lobos e Marta, Xispas e a Gruta Misteriosa. Numa tónica diferente, mas sem se afastar do património natural, histórico e cultural da Madeira, publica dois títulos relacionados com as tradições associadas às celebrações natalícias na ilha, Uma Escadinha para o Menino Jesus e O Anjo Tobias e a Rochinha do Natal. Finalmente, numa edição póstuma, foi dado a lume em 2011 o livro Maria e o Surf: Surfando no Jardim do Mar, com texto não inteiramente concluído, que apela, por um lado, à importância de regras de ouro para uma boa relação entre pais e filhos e, por outro, ao incentivo de hábitos de cidadania. Boa parte desta bibliografia tem como ilustrador João Nelson Pestana Henriques. Alguns desses livros serão recomendados pelo Plano Nacional de Leitura. Para além da sua crescente popularidade junto de várias comunidades portuguesas, também as entidades oficiais, locais e nacionais, reconheceriam o diversificado trabalho de Maria Aurora Carvalho Homem. Em 1988, recebe a menção honrosa Leacock e vê-se laureada com o prémio Baltazar Dias, atribuído pelo GRM e pela CMF pelo seu programa “Letra Dura & Arte Fina”. A 8 de junho de 2007, o presidente da República confere-lhe o grau de comendador da ordem do Infante D. Henrique. A CMF atribui-lhe a medalha de mérito municipal (grau ouro), a título póstumo, em 21 de agosto de 2010. Em 2014, por iniciativa da edilidade funchalense, foi homenageada no decorrer da Feira do Livro do Funchal através da colocação de uma placa com um poema da sua autoria no jardim municipal do Funchal; foi ainda instituído o Prémio Municipal Maria Aurora – Igualdade de Género, atribuído pela primeira vez em 2015. Obras de Maria Aurora Carvalho Homem: Raízes do Silêncio (1982); Ilha a Duas Vozes (1988); Vamos Cantar Histórias… (1989); Juju, a Tartaruga (1991); A Santa do Calhau (1992); Cintilações (1994); Para Ouvir Albinoni (1995); Uma Voz de Muda Espera: Monografia Sentimental (1995); Discurs(ilha)ndo (1999); 12 Textos de Desejo (2003); Loma, o Lobo Marinho (2005); Antes que a Noite Caia (2005); Leila (2005); Discurso Amoroso (2006); Zina, a Baleia Azul (2007); Maria e a Estrela-do-Mar (2007); A Fada Ofélia e o Véu da Noiva (2008); A Cidade do Funcho, A Primeira Viagem de João Gonçalves da Câmara (2008); Uma Escadinha para o Menino Jesus (2008); O Anjo Tobias e a Rochinha do Natal (2009); Pedro Pesquito e a Câmara dos Lobos (2009); Marta, Xispas e a Gruta Misteriosa (2010); A Fada Íris e a Floresta Mágica (2010); Maria e o Surf: Surfando no Jardim do Mar (2011); inéditos: Uma Aventura nas Desertas; Uma Estrelinha Dorminhoca; Pai Natal a toda a Velocidade; À Descoberta da Madeira; Bibliog.: ALBUQUERQUE, Miguel, “Maria Aurora”, DN da Madeira, 12 de junho 2010, p. 27; BRANCO, Dulcina, entrevista na Revista Saber, novembro 2004, pp. 65-67; COELHO, Leonor Martins, “Maria Aurora e os Livros para a Infância”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 149-157; CORREIA, João Roberto Gonçalves, A RTP Madeira: um Marco Cultural entre 1972 e 2012, Dissertação de Mestrado em Gestão Cultural apresentada à Universidade da Madeira, Madeira, 2013; FALCÃO, Ana Margarida e PIMENTEL, Diana, “Apresentação de Leila, de Maria Aurora Carvalho Homem”, Margem 2, n.º 19, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 2005, pp. 60-63; FOURNIER, António, “’Capri, c’est fini’: a doença como metáfora e a ilha como bálsamo em Maria Aurora Homem” in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 167-172; GONÇALVES, Raquel, “Camarada Maria Aurora” [entrevista], DN da Madeira/Revista, 3 a 9 de julho 2005, pp. 8-15; GOUVEIA, Odília, “Maria Aurora acarinhada na terra que a adotou”, Jornal da Madeira, 7 de novembro 2004, p. 25; LOPES, Carla Fernanda Martins Costelha, Representações do feminino na contística de Maria Aurora Carvalho Homem, Dissertação de Mestrado em Estudos Linguísticos e Culturais apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 2015; MARINHO, Maria de Fátima, “Desencanto: A propósito de A Santa do Calhau de Maria Aurora Carvalho Homem”, Islenha, n.º 13, Funchal, DRAC, 1993, pp. 21-24; MENDONÇA, Bernardo, [entrevista], Expresso, 26 de novembro 2005, única, pp. 89-94; MENDONÇA, Duarte Miguel Barcelos, “Maria Aurora, o Rosto da Madeira no Mundo”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 83-87; MONIZ, Ana Isabel, “Escrever a Vida: Para Ouvir Albinoni de Maria Aurora Carvalho Homem”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 163-165; ROCHA, Luís, “Maria Aurora: Continuo a ser uma mulher de esquerda” [entrevista], DN da Madeira/Revista, 5 de março 2002, p. 26; ROCHA, Luís, “Madeira perde uma grande dinamizadora cultural”, DN da Madeira, 12 de junho 2010, p. 26; RODRIGUES, Ana Salgueiro, “Olhando sobre a Margem: notas de uma revista cultural (Funchal, 1981-2008)”, Margem 2, n.º 25, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, dezembro 2008, pp. 141-161; RODRIGUES, Ernesto, “Fogo e Água”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 203-205; SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010; VERÍSSIMO, Nelson, “A Santa do Calhau”, DN, Revista, Funchal, 29 de novembro 1992; Id., “Cintilações”, DN, Revista, Funchal, 5 de fevereiro 1995. Carla Fernanda Martins Costelha Lopes (atualizado a 18.03.2016)

folclore

Podemos localizar no séc. XIX o início do interesse pela representação de aspetos da vida tradicional da Madeira. As primeiras referências que se conhecem dão conta da sua presença em eventos pontuais, como festas ou visitas de entidades cuja importância justificava dar a conhecer um pouco das tradições regionais. Embora de forma pouco precisa, refere-se a apresentação de bailes de camponeses, ou “a la moda”. Como executantes, são identificados grupos de rurais provenientes de São Martinho, então uma freguesia claramente fora dos limites da cidade. Para alguns eventos de caráter mais citadino, ensaiavam-se grupos de crianças para executar essas peças inspiradas na tradição. A primeira referência conhecida diz respeito à feira realizada em junho de 1850, na Praça Académica (FERNANDES, 1999, 5), em que um grupo de treze camponeses de São Martinho apresentou o baile “a la moda”. O evento repetiu-se durante dez anos e este tipo de representação folclórica foi comum, a julgar pelas referências em periódicos da época. A visita do rei D. Carlos à Madeira, em junho de 1901, foi um marco de grande importância, não só para a ilha, que, até então, nunca recebera qualquer monarca português, mas também para a valorização da tradição local. De facto, entre os numerosos festejos que acompanharam toda a estadia real, houve uma récita de gala no atual Teatro Municipal do Funchal (então denominado de D. Maria Pia), que terminou com um arraial madeirense. Este constou da apresentação de diversos “quadros”, que incluíam danças e cantares. Uns dias depois, a pedido do rei, os participantes foram fotografados, devidamente trajados, na Quinta Vigia. Desta vez, não se tratava de populações rurais trazidas ao Funchal para mostrar a sua genuinidade, mas de elementos da “melhor” sociedade funchalense, que foram ensaiados para o efeito. Duas fotografias foram inseridas no livro alusivo à visita real (NÓBREGA, 1901) e aí podemos ver, na que tem o título “Arraial Madeirense”, cerca de 50 elementos trajados da forma que constituiu o paradigma do traje dos grupos folclóricos madeirenses durante quase todo o séc. XX. Apenas se deverá assinalar que alguns dos elementos masculinos estão de chapéu, ausente do traje dos grupos folclóricos, não sendo ainda generalizado o uso da carapuça. Deste modo sumário se poderá fazer a caraterização do folclore regional até à déc. de 20 do séc. XX: iniciativas pontuais para eventos ocasionais e sem qualquer tentativa de continuidade. [caption id="attachment_2865" align="aligncenter" width="529"] Participantes na récita de gala, fotografados na Quinta Vigia, 1901.[/caption] A partir dos anos 30, as coisas vão começando a alterar-se progressivamente. O turismo vai assumindo um papel cada vez mais definido e a atração de visitantes passa também pela exibição de aspetos da vida tradicional regional. Foi também uma época em que se tornaram mais frequentes os eventos comemorativos, pontuais ou regulares, criando assim uma procura mais estável. Foi o caso, entre outros, das festas das vindimas e de fim do ano ou da visita presidencial de Óscar Carmona, em 1938. Assim, os grupos que se formam para a receção aos forasteiros vão tendendo a perdurar, embora com caráter informal e geralmente dependentes de um responsável, erudito local ou carola. Na imprensa da época vão surgindo referências recorrentes a grupos de diversas localidades da ilha, como os dos Canhas, Louros, Arco da Calheta, Ponta do Sol, etc. Com o tempo, alguns destes acabaram por desaparecer ou deram origem a outros já com um caráter mais formal. Aqui deverá referir-se o trabalho de Carlos Santos, sucessivamente responsável por diversos grupos. O primeiro referenciado será o grupo Os Folcloristas, com sede nos Louros, São Gonçalo, e ativo em finais dos anos 30. Pouco depois, esse grupo seria extinto e seria criado o Grupo Folclórico e Cultural de Carlos Santos. O seu responsável viria a ser convidado, uns anos depois, para assumir a direção artística do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, fundado em 1948. Este é o panorama dominante de uma década. O momento de viragem que viria a alterar a realidade do folclore madeirense e criar novos paradigmas que prevaleceriam durante meio século foi a fundação do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha. Estando prevista a participação portuguesa no Concurso Internacional de Danças e Canções Populares, a ter lugar em Madrid, em junho de 1949, houve uma tentativa de estimular a organização de grupos que pudessem ser escolhidos para a representação nacional. Na Camacha, o presidente da Casa do Povo, Dr. António Nóbrega, abraçou a ideia e conseguiu concretizar o projeto. Formou-se um grupo de rapazes e raparigas da freguesia e foi convidado para assumir a sua direção artística Carlos Santos, como atrás se refere. A deslocação a Madrid foi um êxito, traduzido na obtenção do segundo lugar na competição para ranchos mistos. O brilhante desempenho do grupo assegurou-lhe logo sucessivos convites para participação em outros festivais de folclore e, localmente, transformou-o no exemplo a seguir por todos aqueles que quisessem afirmar-se no folclore regional. Assim, uma pequena brochura editada pela Delegação de Turismo da Madeira, em 1965 (DELEGAÇÃO DE TURISMO, 1965), pode bem servir para delinear os traços assumidos como definidores dos grupos folclóricos madeirenses. O trabalho começa por listar e brevemente caraterizar os bailes, referindo: o baile corrido, das camacheiras, da Ponta do Sol, chama-rita, pesado, das romarias, “a la moda”, da mourisca e da viuvinha. Em seguida, aborda com mais pormenor dois grupos: o da Camacha e o Grupo do Livramento. Para o primeiro, lista os bailes do seu reportório, que são os acima referidos mais o baile dos Canhas, da Madeira e Meia Volta (Porto Santo). Em listagem separada, refere as suas canções, que são quase todas de trabalho (borracheiros, ceifas, malha do trigo, berço, cava ou fiandeira), a que se juntam apenas a de reis e a mourisca, embora deixando em aberto o possível alargamento da listagem através de um “etc.”. Num registo bastante diferente, é apresentado o grupo denominado, em título, Grupo Folclórico e Cultural do Concelho do Funchal – Carlos Santos, e, no texto, denominado simplesmente Grupo do Livramento. Tal como foi afirmado durante muito tempo, sem qualquer forma de investigação cuidada a servir de base a tal construção, este trabalho inclui uma passagem bem elucidativa da visão explicativa das caraterísticas do folclore madeirense que dominava na época: “Sabendo-se que a Ilha foi colonizada e povoada com gente oriunda do Minho e Algarve e ainda da Galiza, França, Itália, berberes mouros, mulatos e pretos da Argélia, Marrocos e das terras que os portugueses iam então, constantemente descobrindo e conquistando em África e até na Ásia e Oceânia, não admira, pois, que os madeirenses descendam de raças diversas, que introduziram na Ilha, seus usos, costumes e índoles próprias de mistura com seus cantares e bailados que exibiam perante os sesmeiros e os morgados locais, em atitude obediente, dócil e até servil” (DELEGAÇÃO DE TURISMO, 1965, 15 e 17). O traje é descrito da uma forma simples, com referência à saia até aos pés, listada, com as cores vermelho, azul e amarelo; corpete azul, bordado a oiro em bicos; romeira vermelha em bicos, carapuça azul e botas chãs regionais. Camisa branca de linho, de meia manga. Os elementos masculinos trajavam camisa branca de linho regional, calça branca, cinta branca; botas de cano e carapuça azul. Refere-se que o grupo é composto por quatro formações. Para uma delas, o Serrano, refere-se um traje diferente, confecionado com lã regional, sendo as saias vermelhas com barras de cor horizontais na base, além do uso, pelos homens, da calça, colete e barrete de orelhas de seriguilha. Sintetizando a situação prevalecente até ao início dos anos 90, podemos dizer que os grupos trajavam de modo uniforme, seguindo todos o padrão definido pelo da Camacha. O seu reportório era composto, essencialmente, por bailes em ritmo de bailinho, com alguma mourisca ou pouco mais. As cantigas de trabalho podiam ter alguma presença, um tanto marginal. As cantigas religiosas limitavam-se, praticamente, aos reis. Primavam por uma ausência quase total os romances, as cantigas narrativas, a maioria dos cantos de trabalho e a charamba. [caption id="attachment_2871" align="aligncenter" width="434"] Grupo Folclórico do Caniçal.[/caption] O evento que veio a transformar a situação de forma radical foi o VII Estágio de Formação e Reciclagem de Diretores e Ensaiadores de Grupos de Folclore, organizado pelo Gabinete de Etnografia e Folclore do INATEL, entre 17 e 29 de setembro de 1990. Teve lugar no Centro de Férias do INATEL, no Santo da Serra, e contou com um vasto leque de preletores coordenado por Tomaz Ribas, o responsável por aquele gabinete. O leque de temas abordados foi muito vasto, incluindo áreas como a etnografia, o artesanato, a música tradicional, a literatura oral, as danças, os jogos, o traje, aa organização de grupos, a metodologia de recolhas etnográficas, etc. Foram cerca de duas semanas de trabalho e debates, que ajudaram a alterar profundamente a visão que os responsáveis pelos grupos folclóricos tinham sobre a cultura tradicional e o papel dos seus grupos na sua recolha, estudo e divulgação. Muitos destes temas nunca tinham anteriormente sido abordados na Região por reconhecidos especialistas em ações dirigidas aos grupos folclóricos. Aquele que poderá ser o aspeto em que mais rapidamente se concretizaram as novas ideias é o do traje dos grupos. Num breve espaço de tempo, desapareceu a uniformidade dos grupos, passando muitos deles a apresentar uma grande diversidade. Esta resultou de uma revalorização de peças que a população mais idosa guardava nas suas arcas e, para certos grupos, de um trabalho de pesquisa em testamentos do séc. XVIII, de modo a tentar reconstituir a indumentária da época, trabalho esse complementado com consulta de gravuras da época elaboradas por visitantes estrangeiros, principalmente britânicos. A concretização das novas ideias trazidas beneficiou de um palco privilegiado de experimentação com a realização, desde meados dos anos 80, do Festival de Folclore de Santana, inicialmente com a denominação de Festival Regional, passando a 24 Horas a Bailar, depois alterada para 48 Horas. Esta iniciativa, de responsabilidade dos Serviços de Extensão Rural, procurava estimular todos os grupos pertencentes às Casas do Povo da Região a participar; cada um apresentava duas peças do seu reportório. O facto de todos os grupos se encontrarem no mesmo palco fez com que fosse muito importante a diversidade de números apresentados. Então, com a necessidade de ser original associada à valorização de certos elementos do cancioneiro até então desprezados, muitos dos grupos iniciaram um trabalho de procura de novas canções para o seu reportório. Daqui decorreu um amplo trabalho de recolha da tradição musical, embora a falta de preparação desses elementos tenha resultado, em certos casos, na apresentação em Santana de canções ou bailes sem qualquer valor tradicional. A necessidade de evidenciar originalidades onde não as havia não foi contrabalançada com uma ação pedagógica e avaliadora por parte das entidades responsáveis, pelo que a segunda metade dos anos 90 assistiu a uma fase de certa degradação da qualidade média dos grupos folclóricos, estimulada por uma procura, intensa mas pouco criteriosa, por parte do setor turístico, que levou alguns a optar pela prioridade dada à obtenção de recursos financeiros. Com a criação da AFERAM (Associação de Folclore e Etnografia da Região Autónoma da Madeira), em 1995, com uma progressiva estruturação ao longo dos anos seguintes, abriram-se as portas para aumentar o nível de informação dos elementos dos grupos folclóricos, fomentando ações de formação, debates e estudos que poderão colocar o folclore regional numa via de estabilidade e crescente qualidade e exigências. [caption id="attachment_2868" align="aligncenter" width="493"] Grupo Folclórico da Camacha.[/caption] Bibliog.: DELEGAÇÃO DE TURISMO DA MADEIRA, A Madeira e o seu Folclore, Madeira, D.T., 1965; FERNANDES, Danilo, O folclore em Eventos Sociais entre 1850 e 1948. Factos e Evidências, Funchal, Grupo Folclórico e Etnográfico da Boa Nova, 1999; FREITAS, Manuel Pedro S., “Grupos Musicais Madeirenses entre 1850 e 1974”, in MORAIS, Manuel (coord.), A Madeira e a Música: Estudos (c. 1500-c. 1974), Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 anos, 2008, pp. 401-513; NÓBREGA, Cyriaco de Brito, A visita de suas Majestades os Reis de Portugal ao Archipelago Madeirense: Narração das Festas, Funchal, Typografia Esperança, 1901; SARDINHA, Vítor, Maria Ascensão e o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, s.l., Associação Cultural Encontros da Eira, 2008. Jorge Torres (atualizado a 07.07.2016)

ferreira, pe manuel juvenal pita

[caption id="attachment_3090" align="alignleft" width="204"] Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira_1935[/caption] Nasceu na freguesia de Câmara de Lobos, a 16 de abril de 1912, e faleceu no Funchal, a 9 de outubro de 1963. Era filho de Francisco Ferreira e de Filomena Celeste Pita Ferreira. Foi sacerdote, professor, escritor e um estudioso da história e da cultura popular e religiosa madeirense. Teve uma intensa vida clerical, exercendo funções eclesiásticas em várias freguesias, na Madeira e em Porto Santo. Foi ordenado sacerdote a 25 de agosto de 1935 e, cerca de um mês depois, foi nomeado capelão da Catedral do Funchal, escrivão do Juízo Eclesiástico e professor do Seminário. No ano seguinte, assumiu o cargo de secretário interino da Câmara Eclesiástica. Cumpriu, ainda, funções de capelão na Capela de N.ª S.ª da Conceição em Câmara de Lobos e no Asilo da Mendicidade. Em 1938, desempenhou o múnus de coadjutor da Ribeira Brava, sendo transferido, a 26 de outubro de 1940, para S. Vicente, onde executou as mesmas funções. Em 1941, foi incumbido de praticar o sacerdócio na ilha de Porto Santo, regressando à Madeira em fevereiro de 1945, tendo sido nomeado pároco de S. Gonçalo, freguesia onde permaneceu até à data do seu falecimento, aos 51 anos. Pita Ferreira desenvolveu uma profícua atividade na literatura católica, editando catecismos para o ensino da religião às crianças; foi nomeado diretor do Secretariado Diocesano de Catequese em reconhecimento da sua colaboração nesta área. Acumulou, ainda, as funções de professor de história sacra e pastoral no Seminário Maior Diocesano e foi membro da Comissão Conservadora do Museu de Arte Sacra da Diocese do Funchal. Revelou interesse pela preservação do património artístico madeirense, dando o seu contributo na realização de duas exposições de bens culturais da Igreja. Em 1951, esteve envolvido na organização da Exposição de Ourivesaria Sacra, patente no Convento de S.ta Clara do Funchal, e em 1954, no mesmo local, fez parte da comissão executiva da Exposição de esculturas religiosas. Dessas exposições, resultaram dois catálogos, que elaborou em coautoria com Luís Peter Clode, numa edição da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Publicou vários trabalhos de investigação, em volume, e também na revista Das Artes e da História da Madeira, fazendo emergir a sua faceta de historiador, embora, segundo fontes da época, não estivesse empenhado em fazer história, mas apenas em esclarecer acontecimentos que considerava obscuros. Nestes textos, Pita Ferreira apresentou algumas notas para a história da ilha da Madeira, da descoberta e do início do povoamento, e realizou um vasto estudo histórico sobre a freguesia de Santa Cruz, focalizado, essencialmente, nos elementos religiosos daquela localidade. Destacou também a Igreja Paroquial de S. Gonçalo, inventariando as suas peças de ourivesaria e o tríptico (Descida da Cruz) da Igreja da Ribeira Brava. Descreveu diversos aspetos relacionados com a história da Sé do Funchal, a sua arquitetura e os seus elementos artísticos (ourivesaria, pinturas e esculturas), e realizou estudos sobre artistas e ourives que criaram obras de arte sacra na Madeira entre os sécs. XVI e XVIII. No que diz respeito ao folclore do arquipélago, Pita Ferreira foi um estudioso das tradições madeirenses, dirigindo o seu interesse especialmente para a época do Natal. Em 1953, publicou na revista Das Artes e da História da Madeira um texto sob o título de “A oração dos simples: estudo etnográfico”, no qual observa a simplicidade das orações do povo relativas à quadra natalícia. Três anos depois, deu à estampa O Natal na Madeira: Estudo Folclórico, em que retrata como era celebrado o Natal no seu tempo em várias freguesias da ilha. Quer observando o modo de viver do povo, quer recolhendo elementos etnográficos, próprios daquela época festiva, quer, ainda, reunindo partituras musicais e orações populares, o padre madeirense fixou as tradições populares nas suas festas, cantigas, músicas e jogos, numa simbiose entre o profano e o religioso. No livro, apresenta também alguns quadros dos costumes do povo, desde os preparativos para o Natal até às Missas do Parto, ao ritual da matança do porco, à Noite do Pão, à armação da “lapinha” (presépio), à Missa do Galo, à culinária e doçaria do Natal, às oitavas e às comemorações dos dias dos Reis Magos e de S.to Amaro que eram vividos de forma intensa e davam um colorido especial ao seu viver. Além de textos publicados na revista Das Artes e da História da Madeira, no Jornal da Madeira e no boletim Arquivo Histórico da Madeira, e dos catálogos que elaborou em coautoria com Peter Clode, o P.e Manuel Juvenal Pita Ferreira deixou uma vasta obra literária de teor religioso, histórico, didático-pedagógico e etnográfico, consolidando o seu nome entre os grandes vultos da cultura contemporânea madeirense. O reconhecimento público pela sua vida e obra surgiu em 1964, tendo sido atribuído o nome de largo P. Pita Ferreira ao largo fronteiriço à igreja de S. Gonçalo, no Funchal. A placa toponímica foi colocada no dia 15 de outubro, homenageando o seu dinamismo que foi crucial para o início das obras da residência paroquial, em 1946, e da igreja matriz, em 1947. No mesmo ano, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos deliberou atribuir a denominação de rua P.e Manuel Juvenal Pita Ferreira à parte já terraplenada e aberta ao trânsito da estrada de ligação entre Câmara de Lobos e Estreito de Câmara de Lobos, construção iniciada a 1958 e concluída em finais dos anos 70. A decisão, tomada a 11 de novembro de 1964, só se concretizou dois anos mais tarde, no dia 26 de agosto, realizando-se uma sessão solene pública nos paços do concelho, seguida da cerimónia de descerramento da placa toponímica. Obras do P.e Manuel Juvenal Pita Ferreira: “A oração dos simples: estudo etnográfico”, Das Artes e da História da Madeira (1953); A Santa Missa: diálogo para formar as crianças da catequese no espírito com que hão-de assistir ao Santo Sacrifício da Missa (1955); O Natal na Madeira: Estudo Folclórico (1956); O mais belo presente da primeira comunhão (1957); Notas para a história da Ilha da Madeira (1957); O arquipélago da Madeira, terra do senhor infante: de 1420-1460 (1959); As "notas para a história da Ilha da Madeira" no pelourinho (1959); O Infante D. Henrique e a Descoberta e Povoamento da Ilha da Madeira (1960); Curso de iniciação catequística (1960); “Artistas Madeirenses”, Das Artes e da História da Madeira (1960); A santa missa (1961); Curso de iniciação catequista (1962); A Relação de Francisco Alcoforado (1962); Achegas para a história do Arquipélago (1962); A Sé do Funchal (1963); em coautoria com Luiz Peter Clode, Património Artístico da Ilha da Madeira: Catálogo Ilustrado da Exposição de Ourivesaria Sacra realizada no Convento de Santa Clara do Funchal em 1951 (1951) e Exposição de esculturas religiosas no convento de Santa Clara (1954). Bibliog.: ARAGÃO, António de Freitas e VIEIRA, Gilda França, Madeira Investigação Bibliográfica, vol. II, Funchal, DRAC-CACH, 1984; FIGUEIREDO, Fernando et alii, Crónica madeirense: (1900-2006), Porto, Campo das Letras, 2007; [não assinado], “Morreu um historiador madeirense”, DN, n.º 28924, 10/10/1963, pp. 1, 5 e 7; Id., “Morreu o Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira”, Jornal da Madeira, n.º 9715, 10/10/1963, pp. 1, 7 e 8; Id., “Padre Pita Ferreira”, Diário da Madeira, n.º 9034, 12/10/1963, pp. 1 e 5; Id., “Padre Pita Ferreira”, Das Artes e da História da Madeira, n.º 34, vol. VI, 1964, p. 39; Id.,, “Homenagem a três filhos ilustres do Concelho de Câmara de Lobos”, Jornal da Madeira, n.º 10724, 27/08/1966, pp. 1, 7 e 8; SILVA, P.e Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3.ª ed., 3 vols., Funchal, SREC, 1921-1984. Sílvia G. Gomes (atualizado a 07.07.2016)

câmara, jaime sanches

Nasceu no Funchal, na R. das Cruzes, freguesia de São Pedro, a 13 de março de 1881, e faleceu na mesma cidade, a 24 de dezembro de 1946. Era filho de António José Câmara e de Helena Celisa Gomes Câmara, e casou com Maria Alice Spranger Conceição Rodrigues. Passou a sua vida na Madeira, onde trabalhou como ajudante de conservador do Registo Predial, exercendo também funções como presidente da assembleia geral da Associação de Socorros Mútuos 4 de Setembro de 1862 e vice-presidente da direção do Club Sports da Madeira. Poeta e jornalista, Jaime Câmara era, na opinião dos seus contemporâneos, um homem de caráter inquieto e com um núcleo limitado de amigos. Chegou mesmo a envolver-se em polémicas com outras personalidades do meio funchalense da época, estando no centro de contendas com o jornalista Ciríaco de Brito Nóbrega (Nóbrega, Ciríaco de Brito e) e com o escritor Gastão de Nóbrega Pereira, depois de ter publicado Sátira (1910) e Versos Humorísticos (1914). Também se desentendeu com Armando Pinto Correia (Correia, Armando Eduardo Pinto), por este ter publicado no Diário de Notícias da Madeira uma crítica literária a Fructos (1920), o seu então recente livro de poemas. A apreciação não terá agradado ao autor, dando origem a querelas entre os dois intelectuais. Entre novembro e dezembro de 1920, Pinto Correia fez sair cinco missivas naquele periódico, nas quais criticou veemente o poeta, refutadas num artigo assinado com o pseudónimo Urraca Gomes e com a publicação, no ano seguinte, de Carta em Prosa. A polémica não ficaria por aqui, chegando a resposta dois meses depois deste último texto, com o opúsculo Um Poeta em Frangalhos, no qual o alferes aviltava publicamente o autor da Carta. Jaime Câmara participou em tertúlias do restrito grupo Artistas Independentes (1918-1933), que se reunia no café Golden Gate, do qual também faziam parte os irmãos e artistas Henrique e Francisco Franco (Franco, Francisco), o pintor Alfredo Migueis (Migueis, Alfredo Vital), o naturalista Adolfo de Noronha e o médico João Francisco de Almada, mas acabou por se afastar devido a discrepâncias com os companheiros. Nas letras, dedicou-se essencialmente à poesia, género predominante na sua produção literária, tendo publicado na imprensa e em volume. Usando a ilha da Madeira como musa para compor grande parte das suas criações, estreou-se em 1907, com o livro Poema Antigo. Mais tarde, deu à estampa Fructos (1920), Estela (1926) e Poemêtos da Ilha: Insulares (1929). É o autor dos versos intitulados “Suave Responso”, que figuram no Monumento aos Mortos na Manhã de 3 de Dezembro de 1916, uma obra do escultor Francisco Franco, inaugurada a 3 de dezembro de 1917 no antigo cemitério das Angústias, à R. Imperatriz D. Amélia, e transferida em 1946 para o cemitério de N.ª S.ª das Angústias. Em 1921, no Teatro Dr. Manuel de Arriaga, foram declamados os seus poemas “A Sombra”, numa festa de homenagem à atriz Maria Matos e “Último Dia na Madeira”, na despedida da companhia de teatro Maria Matos-Mendonça de Carvalho. Em 1922, por ocasião das comemorações centenárias do descobrimento do arquipélago, Jaime Câmara colaborou, junto com outros intelectuais madeirenses, no opúsculo intitulado V Centenário do Descobrimento da Madeira, da responsabilidade da Comissão de Propaganda e Publicidade, com a coordenação do P.e Fernando Augusto da Silva. Escreveu as peças de teatro Júnia: Episódio de Tragédia (1918), alusiva aos tempos do império romano, com música de César Santos e ilustrações de Alfredo Miguéis, que foi representada no Teatro Funchalense, e Auto dos Vilões. Nesta última, o poeta, inspirado na Madeira quinhentista, criou um original auto de Natal, cuja ação se desenrola em volta do presépio. A obra, composta em linguagem arcaica, mas de enredo simples, revela quadros de vida do povo madeirense, o seu falar pitoresco, os seus cantares, as suas festas e o seu forte espírito religioso. Estão, assim, reunidos na peça, elementos do folclore da Madeira, dos tempos da descoberta e do povoamento, que o autor recriou e contribuiu para preservar. Na verdade, as suas composições literárias revelam interesse pela Madeira e pelo seu povo, destacando-se, neste sentido, os Ensaios de Etnografia (1931); as crónicas De San Lourenço: Prosas do Estio e do Outono (1932) e Senhora da Luz: Subsídios Etnográficos (1938), textos de teor etnográfico, nos quais Jaime Câmara retratou o povo ilhéu. Nestas narrativas, percorreu diferentes lugares do arquipélago, do campo à cidade, descrevendo paisagens e dando a conhecer alguns costumes e tradições, como as comemorações dos santos populares (S.to António, S. João e S. Pedro), entre outros festejos e arraiais típicos, realizados em diferentes épocas do ano. Nos textos sobre a vida na cidade, fez uma breve descrição de ruas do Funchal, a origem dos seus nomes, os serviços e os estabelecimentos comerciais ali existentes, a vida intelectual, o futebol, o teatro e o cinema, e demais aspetos da vida social e cultural do meio urbano. Estes escritos permitem conhecer vivências da população da Madeira em épocas passadas e contribuem para preservar uma parte da identidade cultural madeirense, firmando o nome do seu autor entre os intelectuais que trabalharam em prol da cultura do arquipélago. Na sua atividade jornalística, dirigiu de 1908 a 1910, com António Feliciano Rodrigues (Rodrigues, António Feliciano), os três primeiros volumes do Almanach de Lembranças Madeirense, nos quais publicou poemas, biografias, informações diversas sobre a ilha e textos de teor etnográfico. Colaborou na imprensa madeirense, nomeadamente, no Heraldo da Madeira, no Diário de Notícias, no Diário Popular e no Diário da Madeira. Na imprensa nacional, foi colaborador nas revistas Ilustração Portuguesa, Renascença, Instituto e no Almanaque Bertrand. Foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Santiago da Espada pelo Estado português e era sócio do Instituto de Coimbra. Obras de Jaime Câmara: Poema Antigo (1907); Almanach de Lembranças Madeirense (1908-1910) (com António Feliciano Rodrigues); Sátira (1910); Versos Humorísticos (1914); Júnia: Episódio de Tragédia (1918); Fructos (1920); Carta em Prosa (1921); Auto dos Vilões (1923); Estela (1926); Poemêtos da Ilha: Insulares (1929); Ensaios de Etnografia (1931); De San Lourenço: Prosas do Estio e do Outono (1932); Senhora da Luz: Subsídios Etnográficos (1938). Bibliog.: ARAGÃO, António de Freitas e VIEIRA, Gilda França, Madeira: Investigação Bibliográfica, vol. 2, Funchal, DRAC, Centro de Apoio de Ciências Históricas, 1984; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; Diário de Notícias, Funchal, Empresa do Diário de Notícias, 1920-1922; FIGUEIREDO, Fernando et al., Crónica Madeirense (1900-2006), Porto, Campo das Letras, 2007; GOUVEIA, Horácio Bento de, “Um Poeta Esquecido: Jaime Câmara”, Diário de Notícias, 13 dez. 1964, pp. 3-6; MARINO, Luís, Musa Insular, Funchal, Editorial Eco do Funchal, [1969]; “Jayme Câmara”, Diário de Notícias, 25 dez. 1946, p. 8; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, vol. 3, Funchal, CMF, 1953; id., “Das Letras, das Sciencias e das Artes”, Independência, n.º 3, 24 jun. 1928, p. 2; SILVA, Fernando Augusto da e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., 3 vols., Funchal, SRTC, 1998. Sílvia G. Gomes (atualizado a 07.07.2016)