camacha (grupo folclórico da casa do povo da)

30 Jan 2017 por "Maria"

O Grupo de Folclore da Casa do Povo da Camacha surgiu, em finais dos anos quarenta, dentro de um contexto de aparecimento de grupos relativamente efémeros, resultado de uma necessidade crescente sentida na Região a partir da década anterior. A procura de animações tradicionais para festas cíclicas, como a Festa das Vindimas ou Fim do Ano, ou para incluir na receção a figuras de importância política, foi estimulando a formação dos referidos grupos. Assim, também alguns grupos se formaram na freguesia da Camacha. Um deles, dirigido por António Martins Júnior, tornou-se bastante conhecido, chegando a ser convidado a integrar-se na Casa do Povo. No entanto, este grupo não teve continuidade e, em finais de 1948, o então Presidente da Assembleia Geral da Casa do Povo, Alfredo Ferreira de Nóbrega lança a ideia da formação de um grupo folclórico. Estando prevista a participação portuguesa no Concurso Internacional de Danças e Canções Populares, a ter lugar em Madrid, em junho de 1949, houve uma tentativa de estimular a organização de grupos em diferentes pontos, para que pudesse ser escolhido uma representação nacional com um lote diversificado de componentes.

O primeiro convite para responsável pelo grupo foi endereçado a António Martins Júnior, que recusou por não se considerar habilitado para tal. Para diretor artístico deste grupo foi então convidado Carlos Santos. Era jornalista, um amante da música e tinha já publicado diversos artigos e dois livros sobre o folclore madeirense: Tocares e cantares da ilha: estudo do folclore da Madeira (1937) e Trovas e bailados da ilha: estudo do folclore musical da Madeira (1942), para além de ter criado no Funchal um grupo folclórico cujas atuações foram alvo de referências muito elogiosas na imprensa da época.

Feita na freguesia uma campanha de angariação de novos elementos, que se juntaram a alguns músicos locais já com alguma experiência, iniciaram-se uns meses de duros ensaios. Sintoma claro das mentalidades da época, a angariação dos elementos femininos solteiros nem sempre foi muito fácil, pelas preocupações com as saídas de casa para os ensaios ao final do dia ou a convivência com rapazes. Para o traje dos componentes, Carlos Santos recorreu a algum do material do seu anterior grupo bem como a peças confecionadas por encomenda. A componente musical inicial foi assegurada por componentes de um grupo pré-existente na localidade, o Grupo Bandolinístico da Camacha.

A deslocação a Madrid constitui um marco importante da sua história. Integrado num conjunto de grupos de todo o país, desde o Minho e Trás-os-Montes ao Algarve e Madeira, a sua participação no Concurso Internacional de Canções e Danças Populares foi recompensada com o prémio para o segundo lugar da classificação para ranchos mistos. Como resultado desta atuação na capital espanhola, a projeção internacional do grupo foi imediata e foram surgindo convites para eventos em diversos países, nem todos aceites pelas dificuldades e custos de deslocação. No entanto, algumas viagens merecem destaque nestes anos iniciais. Em primeiro lugar, uma digressão a Biarritz, em março e abril de 1951, com apresentações também em Lisboa e Madrid. Quatro anos depois, teve lugar a deslocação a Llangollen, no País de Gales, para participar num Festival Internacional de música. Mais uma vez, a receção do público foi muito calorosa, cimentando o prestígio do grupo.

Ao longo dos tempos, a profusão de convites e deslocações tem sido apanágio deste grupo, que rapidamente se tornou o mais emblemático de quantos existiam na Madeira. Em diversas ocasiões, foi convidado a deslocar-se junto das principais comunidades madeirenses pelo mundo, como Venezuela, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá ou Reino Unido. Integrado em ações de promoção turística já esteve na Holanda, Suécia, Finlândia, Itália ou Áustria. Também foram frequentes os convites para apresentação em certames de promoção da Região no Continente, além de eventos de receção de visitantes ilustres. Por último, podem referir-se numerosos festivais de folclore em Espanha, França, Suíça, Bélgica, Polónia, Estónia, União Soviética ou Martinica.

Após a demissão de Carlos Santos do seu cargo de diretor artístico, foi António Martins que assumiu o posto de ensaiador do grupo. Existe alguma divergência de fontes relativamente à data em que isto sucedeu, que terá sido entre finais de 1953 e 1955. O segundo responsável pelo grupo manteve-se no cargo até à sua partida para a África do Sul em 1956, sendo substituído então por António Policarpo de Freitas e Maria Ascensão Fernandes Teixeira. Com o falecimento do primeiro, foi o cargo assumido por esta durante perto de trinta anos, até ao ano 2000. Nos últimos anos, foi partilhando a tarefa com outros elementos do grupo, como Adriana Rodrigues Martins, Elsa Nóbrega Sá ou Daniela Sousa.

Após o seu abandono de funções, passou a haver uma divisão de responsabilidades pela preparação dos elementos. Por um lado, os ensaios de bailadores são tarefa de André Avelino Sousa, partilhada sucessivamente com Paula Alexandra Martins ou Daniela Rodrigues de Sousa. Os músicos têm estado sob a orientação de João Abel Nóbrega, em conjunto com outros elementos, como José de Nóbrega Gonçalves, Cristiana Rodrigues Sousa ou Paulo Adriano Cardoso Gonçalves e João Abel Nóbrega.

O reportório do Grupo da Camacha sempre foi constituído por um conjunto de peças escolhidas para dar uma visão alargada da realidade do folclore regional. No entanto, os seus registos fonográficos permitem verificar uma diferente visão do papel dum grupo folclórico ao longo dos tempos. Nas suas primeiras gravações, predominam os bailes, com um reduzido leque de cantigas de trabalho ou outras. Entre os primeiros, merece referência particular o registo de uma versão do Baile da Meia Volta porto-santense, caso único em grupos da ilha da Madeira. Nas gravações efetuadas nos anos mais recentes, encontramos, para além do desaparecimento do peso preponderante destes géneros, a incorporação de cantigas associadas às festividades do Espírito Santo, romances tradicionais, cantigas narrativas, jogos cantados, etc.

Esta maior diversidade de reportório gravado está em paralelo com o facto de ter sido assumido que a função de um grupo folclórico não se limita ao ensaio e apresentação de um conjunto de cantigas e danças tradicionais escolhido à partida. O seu âmbito de atuação tem-se alargado: elementos do grupo efetuaram recolhas de danças, canções, romances e cantigas narrativas, nos anos oitenta e noventa; a época da Quaresma tem sido, desde os anos noventa, o período escolhido para, no Largo da Achada, proporcionar aos mais jovens o contacto com muitos jogos tradicionais em risco de desaparecimento da memória viva. No ano de 2015, teve lugar a XXIII edição do evento; também nos anos noventa, foi feita uma reconstituição do ciclo do trigo, desde a preparação da terra até ao pão, filmada em todas as suas fases; elementos do grupo participam em festividades cíclicas como o Espírito Santo, os cantares do Dia de Reis ou a Missa de natal, etc. Por último, de dois em dois anos, no mês de agosto, é organizado um festival de folclore, com o nome de «Gala de Folclore 'Maria Ascensão'», que se integra no evento anual Festival Arte Camacha.

Discografia principal do grupo: 1996, Baile das camacheiras, Edição Bis-Bis, BB9607-1 CD; 1998, Brinco d' oito, Edição Bis-Bis, BB9814-1 CD; 2008, O baile da Camacha. A origem e a história, Edição Tradisom, TRAD056 (reedição das primeiras gravações do grupo, editadas em discos de vinil); 2013, Chama-Rita da Camacha, Edição Açor, EMTCD187/13. NB: Para além do material reeditado em 2008, existe ainda um LP vinil editado pela empresa Imavox, sem data, com o título Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha. Com estas doze faixas, fica completo o essencial do material gravado pelo Grupo. No entanto, a sua discografia completa inclui muitas faixas integradas em coletâneas do mais diverso tipo, incluindo, pelo menos, uma edição na Venezuela.

Bibliog.: FERNANDES, Danilo, O folclore em eventos sociais entre 1850 e 1948. Factos e evidências, Funchal, Grupo Folclórico e Etnográfico da Boa Nova, 1999; M.T., Folclore português em Madrid. A presença e o triunfo das Casas do Povo no Concurso Internacional de Canções e Danças Populares, Mensário das Casas do Povo, 37, julho de 1949 pp. 12-13; SARDINHA, Vítor, Maria Ascensão e o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, Funchal, Associação Cultural Encontros da Eira, 2008; NB: serviram ainda como fonte para a elaboração do texto dados constantes do arquivo do Grupo, como atas de reuniões do Grupo ou outros documentos, gentilmente facultados pelo seu atual presidente, Avelino Sousa, bem como as fotografias ilustrativas.

Jorge Torres

(atualizado a 28.07.2016)

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