folclore

23 Dec 2016 por "Maria"

Podemos localizar no séc. XIX o início do interesse pela representação de aspetos da vida tradicional da Madeira. As primeiras referências que se conhecem dão conta da sua presença em eventos pontuais, como festas ou visitas de entidades cuja importância justificava dar a conhecer um pouco das tradições regionais. Embora de forma pouco precisa, refere-se a apresentação de bailes de camponeses, ou “a la moda”. Como executantes, são identificados grupos de rurais provenientes de São Martinho, então uma freguesia claramente fora dos limites da cidade. Para alguns eventos de caráter mais citadino, ensaiavam-se grupos de crianças para executar essas peças inspiradas na tradição. A primeira referência conhecida diz respeito à feira realizada em junho de 1850, na Praça Académica (FERNANDES, 1999, 5), em que um grupo de treze camponeses de São Martinho apresentou o baile “a la moda”. O evento repetiu-se durante dez anos e este tipo de representação folclórica foi comum, a julgar pelas referências em periódicos da época.

A visita do rei D. Carlos à Madeira, em junho de 1901, foi um marco de grande importância, não só para a ilha, que, até então, nunca recebera qualquer monarca português, mas também para a valorização da tradição local. De facto, entre os numerosos festejos que acompanharam toda a estadia real, houve uma récita de gala no atual Teatro Municipal do Funchal (então denominado de D. Maria Pia), que terminou com um arraial madeirense. Este constou da apresentação de diversos “quadros”, que incluíam danças e cantares. Uns dias depois, a pedido do rei, os participantes foram fotografados, devidamente trajados, na Quinta Vigia. Desta vez, não se tratava de populações rurais trazidas ao Funchal para mostrar a sua genuinidade, mas de elementos da “melhor” sociedade funchalense, que foram ensaiados para o efeito. Duas fotografias foram inseridas no livro alusivo à visita real (NÓBREGA, 1901) e aí podemos ver, na que tem o título “Arraial Madeirense”, cerca de 50 elementos trajados da forma que constituiu o paradigma do traje dos grupos folclóricos madeirenses durante quase todo o séc. XX. Apenas se deverá assinalar que alguns dos elementos masculinos estão de chapéu, ausente do traje dos grupos folclóricos, não sendo ainda generalizado o uso da carapuça. Deste modo sumário se poderá fazer a caraterização do folclore regional até à déc. de 20 do séc. XX: iniciativas pontuais para eventos ocasionais e sem qualquer tentativa de continuidade.

[caption id="attachment_2865" align="aligncenter" width="529"]foto1 (1) Participantes na récita de gala, fotografados na Quinta Vigia, 1901.[/caption]

A partir dos anos 30, as coisas vão começando a alterar-se progressivamente. O turismo vai assumindo um papel cada vez mais definido e a atração de visitantes passa também pela exibição de aspetos da vida tradicional regional. Foi também uma época em que se tornaram mais frequentes os eventos comemorativos, pontuais ou regulares, criando assim uma procura mais estável. Foi o caso, entre outros, das festas das vindimas e de fim do ano ou da visita presidencial de Óscar Carmona, em 1938. Assim, os grupos que se formam para a receção aos forasteiros vão tendendo a perdurar, embora com caráter informal e geralmente dependentes de um responsável, erudito local ou carola.

Na imprensa da época vão surgindo referências recorrentes a grupos de diversas localidades da ilha, como os dos Canhas, Louros, Arco da Calheta, Ponta do Sol, etc. Com o tempo, alguns destes acabaram por desaparecer ou deram origem a outros já com um caráter mais formal. Aqui deverá referir-se o trabalho de Carlos Santos, sucessivamente responsável por diversos grupos. O primeiro referenciado será o grupo Os Folcloristas, com sede nos Louros, São Gonçalo, e ativo em finais dos anos 30. Pouco depois, esse grupo seria extinto e seria criado o Grupo Folclórico e Cultural de Carlos Santos. O seu responsável viria a ser convidado, uns anos depois, para assumir a direção artística do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, fundado em 1948. Este é o panorama dominante de uma década.

O momento de viragem que viria a alterar a realidade do folclore madeirense e criar novos paradigmas que prevaleceriam durante meio século foi a fundação do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha. Estando prevista a participação portuguesa no Concurso Internacional de Danças e Canções Populares, a ter lugar em Madrid, em junho de 1949, houve uma tentativa de estimular a organização de grupos que pudessem ser escolhidos para a representação nacional. Na Camacha, o presidente da Casa do Povo, Dr. António Nóbrega, abraçou a ideia e conseguiu concretizar o projeto. Formou-se um grupo de rapazes e raparigas da freguesia e foi convidado para assumir a sua direção artística Carlos Santos, como atrás se refere. A deslocação a Madrid foi um êxito, traduzido na obtenção do segundo lugar na competição para ranchos mistos. O brilhante desempenho do grupo assegurou-lhe logo sucessivos convites para participação em outros festivais de folclore e, localmente, transformou-o no exemplo a seguir por todos aqueles que quisessem afirmar-se no folclore regional. Assim, uma pequena brochura editada pela Delegação de Turismo da Madeira, em 1965 (DELEGAÇÃO DE TURISMO, 1965), pode bem servir para delinear os traços assumidos como definidores dos grupos folclóricos madeirenses. O trabalho começa por listar e brevemente caraterizar os bailes, referindo: o baile corrido, das camacheiras, da Ponta do Sol, chama-rita, pesado, das romarias, “a la moda”, da mourisca e da viuvinha. Em seguida, aborda com mais pormenor dois grupos: o da Camacha e o Grupo do Livramento. Para o primeiro, lista os bailes do seu reportório, que são os acima referidos mais o baile dos Canhas, da Madeira e Meia Volta (porto santo). Em listagem separada, refere as suas canções, que são quase todas de trabalho (borracheiros, ceifas, malha do trigo, berço, cava ou fiandeira), a que se juntam apenas a de reis e a mourisca, embora deixando em aberto o possível alargamento da listagem através de um “etc.”.

Num registo bastante diferente, é apresentado o grupo denominado, em título, Grupo Folclórico e Cultural do Concelho do Funchal – Carlos Santos, e, no texto, denominado simplesmente Grupo do Livramento. Tal como foi afirmado durante muito tempo, sem qualquer forma de investigação cuidada a servir de base a tal construção, este trabalho inclui uma passagem bem elucidativa da visão explicativa das caraterísticas do folclore madeirense que dominava na época: “Sabendo-se que a Ilha foi colonizada e povoada com gente oriunda do Minho e Algarve e ainda da Galiza, França, Itália, berberes mouros, mulatos e pretos da Argélia, Marrocos e das terras que os portugueses iam então, constantemente descobrindo e conquistando em África e até na Ásia e Oceânia, não admira, pois, que os madeirenses descendam de raças diversas, que introduziram na Ilha, seus usos, costumes e índoles próprias de mistura com seus cantares e bailados que exibiam perante os sesmeiros e os morgados locais, em atitude obediente, dócil e até servil” (DELEGAÇÃO DE TURISMO, 1965, 15 e 17). O traje é descrito da uma forma simples, com referência à saia até aos pés, listada, com as cores vermelho, azul e amarelo; corpete azul, bordado a oiro em bicos; romeira vermelha em bicos, carapuça azul e botas chãs regionais. Camisa branca de linho, de meia manga. Os elementos masculinos trajavam camisa branca de linho regional, calça branca, cinta branca; botas de cano e carapuça azul. Refere-se que o grupo é composto por quatro formações. Para uma delas, o Serrano, refere-se um traje diferente, confecionado com lã regional, sendo as saias vermelhas com barras de cor horizontais na base, além do uso, pelos homens, da calça, colete e barrete de orelhas de seriguilha. Sintetizando a situação prevalecente até ao início dos anos 90, podemos dizer que os grupos trajavam de modo uniforme, seguindo todos o padrão definido pelo da Camacha. O seu reportório era composto, essencialmente, por bailes em ritmo de bailinho, com alguma mourisca ou pouco mais. As cantigas de trabalho podiam ter alguma presença, um tanto marginal. As cantigas religiosas limitavam-se, praticamente, aos reis. Primavam por uma ausência quase total os romances, as cantigas narrativas, a maioria dos cantos de trabalho e a charamba.

[caption id="attachment_2871" align="aligncenter" width="434"]foto3 Grupo Folclórico do Caniçal.[/caption]

O evento que veio a transformar a situação de forma radical foi o VII Estágio de Formação e Reciclagem de Diretores e Ensaiadores de Grupos de Folclore, organizado pelo Gabinete de Etnografia e Folclore do INATEL, entre 17 e 29 de setembro de 1990. Teve lugar no Centro de Férias do INATEL, no Santo da Serra, e contou com um vasto leque de preletores coordenado por Tomaz Ribas, o responsável por aquele gabinete. O leque de temas abordados foi muito vasto, incluindo áreas como a etnografia, o artesanato, a música tradicional, a literatura oral, as danças, os jogos, o traje, aa organização de grupos, a metodologia de recolhas etnográficas, etc. Foram cerca de duas semanas de trabalho e debates, que ajudaram a alterar profundamente a visão que os responsáveis pelos grupos folclóricos tinham sobre a Cultura tradicional e o papel dos seus grupos na sua recolha, estudo e divulgação. Muitos destes temas nunca tinham anteriormente sido abordados na Região por reconhecidos especialistas em ações dirigidas aos grupos folclóricos. Aquele que poderá ser o aspeto em que mais rapidamente se concretizaram as novas ideias é o do traje dos grupos. Num breve espaço de tempo, desapareceu a uniformidade dos grupos, passando muitos deles a apresentar uma grande diversidade. Esta resultou de uma revalorização de peças que a população mais idosa guardava nas suas arcas e, para certos grupos, de um trabalho de pesquisa em testamentos do séc. XVIII, de modo a tentar reconstituir a indumentária da época, trabalho esse complementado com consulta de gravuras da época elaboradas por visitantes estrangeiros, principalmente britânicos.

A concretização das novas ideias trazidas beneficiou de um palco privilegiado de experimentação com a realização, desde meados dos anos 80, do Festival de Folclore de santana, inicialmente com a denominação de Festival Regional, passando a 24 Horas a Bailar, depois alterada para 48 Horas. Esta iniciativa, de responsabilidade dos Serviços de Extensão Rural, procurava estimular todos os grupos pertencentes às Casas do Povo da Região a participar; cada um apresentava duas peças do seu reportório. O facto de todos os grupos se encontrarem no mesmo palco fez com que fosse muito importante a diversidade de números apresentados. Então, com a necessidade de ser original associada à valorização de certos elementos do cancioneiro até então desprezados, muitos dos grupos iniciaram um trabalho de procura de novas canções para o seu reportório. Daqui decorreu um amplo trabalho de recolha da tradição musical, embora a falta de preparação desses elementos tenha resultado, em certos casos, na apresentação em santana de canções ou bailes sem qualquer valor tradicional. A necessidade de evidenciar originalidades onde não as havia não foi contrabalançada com uma ação pedagógica e avaliadora por parte das entidades responsáveis, pelo que a segunda metade dos anos 90 assistiu a uma fase de certa degradação da qualidade média dos grupos folclóricos, estimulada por uma procura, intensa mas pouco criteriosa, por parte do setor turístico, que levou alguns a optar pela prioridade dada à obtenção de recursos financeiros.

Com a criação da AFERAM (Associação de Folclore e Etnografia da região autónoma da Madeira), em 1995, com uma progressiva estruturação ao longo dos anos seguintes, abriram-se as portas para aumentar o nível de informação dos elementos dos grupos folclóricos, fomentando ações de formação, debates e estudos que poderão colocar o folclore regional numa via de estabilidade e crescente qualidade e exigências.

[caption id="attachment_2868" align="aligncenter" width="493"]foto2 Grupo Folclórico da Camacha.[/caption]

Bibliog.: DELEGAÇÃO DE TURISMO DA MADEIRA, A Madeira e o seu Folclore, Madeira, D.T., 1965; FERNANDES, Danilo, O folclore em Eventos Sociais entre 1850 e 1948. Factos e Evidências, Funchal, Grupo Folclórico e Etnográfico da Boa Nova, 1999; FREITAS, Manuel Pedro S., “Grupos Musicais Madeirenses entre 1850 e 1974”, in MORAIS, Manuel (coord.), A Madeira e a música: Estudos (c. 1500-c. 1974), Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 anos, 2008, pp. 401-513; NÓBREGA, Cyriaco de Brito, A visita de suas Majestades os Reis de Portugal ao Archipelago Madeirense: Narração das Festas, Funchal, Typografia Esperança, 1901; SARDINHA, Vítor, Maria Ascensão e o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, s.l., Associação Cultural Encontros da Eira, 2008.

Jorge Torres

(atualizado a 07.07.2016)

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