igrejas neopentecostais

21 Dec 2016 por "Carlos"

As igrejas neopentecostais resultam de um desdobramento da tradição pentecostal encetada no início do séc. XX. Trata-se de manifestações cristãs contemporâneas que creem na atualidade dos dons do Espírito Santo concedidos aos apóstolos no Pentecostes e, em consequência disso, proclamam a restauração ou renovação da experiência carismática. Porém, não raramente são percecionadas como igrejas pós-pentecostais (SIEPIERSKI, 1997) isi-pentecostais ou pseudo-pentecostais (CAVALCANTI, 2008). Não se pretendendo neste âmbito discutir e definir os conceitos e as fronteiras diferenciadoras das «gerações» e teologias pentecostais, a designação «igrejas neopentecostais» pretende tão-só nomear uma «nova via» do cristianismo pentecostal. Neste sentido, lembramos aqui, sumariamente, as origens, as semelhanças e algumas divergências que geraram roturas com os grupos predecessores.

O movimento pentecostal começou por surgir entre as comunidades metodistas americanas do chamado «movimento de santidade», que proclamava a regeneração e o despertamento dos crentes. Em 1906, na cidade de Los Angeles, pelo testemunho de um pequeno grupo acerca do batismo no Espírito Santo mediante a experiência da glossolalia (prática de falar línguas desconhecidas e estranhas), o movimento prosperou, expandiu-se mundialmente e foi popularizado pelo Avivamento da Rua Azusa (SYNAN, 2009). No entanto, alguns também vêm nele um protesto contra o racionalismo moderno, a formalidade e a apatia espiritual das igrejas históricas (REIS, 2006). Do mesmo modo, as novas comunidades pentecostais emergem de um processo de avivamento espiritual onde, em resposta ao menor fervor dos pioneiros pentecostais, o apelo, tanto à renovação e aprofundamento da experiência carismática (HINN, 1990), como ao uso do poder que existe em proferir a Palavra de Deus (HAGIN, 2000), assume um lugar privilegiado. Concomitantemente às congéneres pentecostais, as igrejas neopentecostais caracterizam-se por uma forte ênfase na celebração do Pentecostes. Além da proclamação da experiência dos apóstolos descrita no livro dos Atos dos Apóstolos, estas igrejas creem que este evento e as profecias contidas nos livros de Isaías e de Joel e do testemunho de João Batista nos Evangelhos cumprem-se em nossos dias. Se, por um lado, partilham a matriz cristã protestante na contestação do papel da autoridade doutrinal da tradição na Igreja Católica, da infabilidade papal e do dogma mariano. Em contrapartida, o seu pentecostalismo não deixa de ser entendido como uma adaptação à cosmovisão do cristianismo católico mediante “uma sacramentalidade de substituição, cheia de atos rituais e simbólicos” (SANTOS, 2000, 54). As igrejas neopentecostais também herdam das igrejas pentecostais uma interpretação comum da atualidade da ação do Espirito Santo (pneumatologia) traduzida em experiências de línguas, profecias, visões e sonhos. Em contraponto, esta relação individual tem sido contestada, tanto pelo perigo das orientações extra bíblicas (VIEIRA, 1995), como pelo facto de a Bíblia deixar de ser a única regra de fé e prática. Todavia, embora doutrinariamente estejam mais próximas do cristianismo pentecostal no que respeita à relação direta e pessoal do crente com Deus, em matéria eclesiástica, e ao contrário do regime de governo congregacional (não hierárquico) típico dos pentecostais, a forma de organização neopentecostal está mais próxima do governo episcopal (hierárquico). Um outro aspeto de diferenciação a sublinhar é o facto de as igrejas neopentecostais serem frequentemente conhecidas pelas ênfases na doutrina da prosperidade (HAGIN, 2001; TADEU 2008) e nas práticas de exorcismo e cura exorcistas e taumatúrgicas (TADEU, 2001; Id., 2014). Para além da discussão doutrinária, o neopentecostalismo trata de entender a fé como uma atitude positiva que visa responder aos dilemas do sofrimento humano, nomeadamente a pobreza e a doença.

Em consequência do fluxo de imigração sentido na Madeira desde o final do séc. XX, nomeadamente de origem brasileira, assistiu-se à profusão de novas comunidades cristãs carismáticas. Entre as igrejas neopentecostais estabelecidas na Região identificámos, não necessariamente por ordem cronológica, a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus Pentecostal, a Igreja Comunidade Evangélica da Ilha da Madeira, a Igreja Cristãos do Evangelho Pleno, a Igreja Nova Apostólica, a Congregação Cristã e ainda comunidades de carácter nacional tais como a Igreja Maná, a catedral de Vida e a Associação Cristã do Renovo (inicialmente fundada na ilha da Madeira sob a designação Igreja Zoe). Tendo em conta a escassez de fontes de arquivo e historiográficas, bem como a ausência de uma instituição ou entidade agregadora e representativa, cremos que o número de comunidades existentes possa ser substancialmente superior às 11 supracitadas. É ainda de referir que o crescimento numérico das comunidades neopentecostais caracteriza-se por ser rápido mas irregular. Embora possamos aferir um número significativo de igrejas e a facilidade com que são fundadas novas comunidades a partir da fragmentação de outras, verifica-se, por outro lado, a falta de consistência de alguns grupos que rapidamente se dissolvem. Todavia, trata-se de um desfecho que não pode deixar de ser compreendido à luz da partida de muitos imigrantes brasileiros devido à escassez de trabalho na ilha e da abertura de novas comunidades similares e consequente «transferência» de membros.

Apesar da realidade neopentecostal insular revelar uma pluralidade de igrejas várias e distintas, essa multiplicidade caracteriza-se pela recorrência a um tema comum: a afirmação da sua identidade e a legitimação da sua experiência cristã num dos dogmas fundadores do paleocristianismo, o Pentecostes. Como sublinhámos, pese embora as dificuldades impostas pela escassez de fontes para a elaboração de uma reflexão que substancie as várias realidades enumeradas, sublinhamos a necessidade de futuras investigações que terão de suplantar este desafio metodológico.

Bibliog.: CAVALCANTI, R., «Pseudo-Pentecostais: Nem Evangélicos, Nem Protestantes», Revista Ultimato, n.º 314, set.-out. 2008 [ed. online: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/314/pseudo-pentecostais-nem-evangelicos-nem-protestantes]; HAGIN, Kenneth E.,  A Palavra de Deus, um Remédio Infalível, Rio de Janeiro, Graça Editorial, 2000; Id., Chaves Bíblicas para a Prosperidade Financeira, Rio de Janeiro, Graça Editorial, 2001; Id., A Autoridade do Crente, Rio de Janeiro, Graça Editorial, 2002; HINN, Benny, Bom dia Espírito Santo, São Paulo, Bompastor, 1990; SANTOS, Luís Aguiar, «O protestantismo em Portugal (sécs. XIX-XX): Linhas de Força da sua História e Historiografia», Lusitânia Sacra, Lisboa, Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa, 2.ª série, n.º 12, 2000, pp. 37-64; SIEPIERSKI, Paulo, «Pós-Pentecostalismo e Política no Brasil», Estudos Teológicos, vol. 37, 1997, pp. 47-61; SYNAN, V.,  O século do Espirito Santo, São Paulo, Editora Vida, 2009; REIS, Luís, «1.º Centenário do Movimento Pentecostal Moderno», Novas de Alegria, n.º 759, abr. 2006, pp 32-33; TADEU, Jorge, Cura Divina: Como Receber e Manter, Lisboa, Publicações Maná, 2001; Id., Acerca de finanças, Lisboa, Publicações Maná, 2008; Id., Como Lutar Contra o Diabo, Lisboa, Publicações Maná, 2014; VIEIRA, Jaime Torres, O Mito da Saúde e Prosperidade, Lisboa, NIFRA, 1995.

Simão Daniel Cristóvão Fonseca

(atualizado a 27.11.2015)

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