silva, ângelo augusto da

03 Oct 2017 por "Maria"

[caption id="attachment_2706" align="alignleft" width="225"]Angelo Augusto da Silva Fig. 1 – Fotografia do reitor Ângelo Augusto da Silva. Fonte: Acervo do Liceu Jaime Moniz.[/caption]

Nasceu na freguesia de S. Vicente, madeira, a 20 de novembro de 1896, filho de Francisco Augusto da Silva, professor das escolas de ensino normal e primária superior do Funchal, e de Maria Olímpia de Sousa. Após frequentar a escola primária, em 1905, inscreveu-se no 1.º ano do curso dos liceus, concluindo a 7.ª classe de Ciências o ano letivo de 1911-1912. De seguida, partiu para o continente e matriculou-se no curso de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Concluiu o bacharelato com a defesa da tese As Noções Gerais do ensino da Matemática.

Participou na Primeira Guerra Mundial, como alferes miliciano de Artilharia, integrado na 3.ª bateria do Corpo Expedicionário Português, entre setembro de 1917 e 25 de junho de 1918, tendo manifestado em campanha uma grande aptidão e uma incansável resistência física, a par de uma grande força de vontade e de espírito de sacrifício no desempenho dos seus deveres. Através dos atestados de comportamento em campanha, que constam do arquivo pessoal de Maria Favila Vieira da Cunha Paredes, sabe-se que a sua unidade – que era composta por 2 oficiais e 23 praças, encontrando-se adjunta a uma bateria inglesa – foi atacada com grande violência por granadas de gazes asfixiantes, desde as 23.00 h do dia 24 de junho até à 01.00 h do dia 25, tendo morrido 13 homens e 1 oficial, que sucumbiria já em Portugal, em virtude das lesões pulmonares graves que contraiu. Ângelo Augusto da Silva ficou gravemente ferido, quase cego e com queimaduras graves, e foi transferido para um hospital inglês, onde teve uma prolongada convalescença.

O testemunho de um tenente-coronel de Artilharia elucida-nos sobre o estado de saúde do alferes miliciano depois deste ataque: “Visitei este oficial no hospital n.º 2 de Ambleteuse, tendo-o encontrado em condições que poucas esperanças me deixaram de que pudesse viver, inquiri os oficiais médicos de serviço do seu estado e do que pensavam a respeito da doença, obtive por resposta que, se o alferes Ângelo Silva pudesse resistir às várias infeções provenientes daquele ataque de gases não deixaria de sofrer por toda a vida as consequências, principalmente nos órgãos respiratórios” (Arquivo pessoal de Maria Favila Vieira Cunha Paredes, “Atestados de Comportamento…”, 11 jan. 1918) O episódio deixou-lhe a capacidade de visão reduzida a 50 %, tendo de procurar especialistas, nomeadamente em Barcelona, para o tratarem.

Entretanto, frequentou a Escola Normal Superior de Lisboa, destinada a preparar professores para o magistério dos liceus, e realizou o exame de Estado para a obtenção do estatuto de professor do 8.º grupo – matemática – do ensino liceal.

Entre 24 de outubro de 1919 e 9 de janeiro de 1921, prestou serviço na categoria de professor provisório e agregado, tendo lecionado no liceu de Viana do Castelo e sido nomeado, em 27 de dezembro de 1920, professor agregado do 8.º grupo do Liceu José Estevão, na cidade de Aveiro. Por despacho de 3 de março de 1923, transitou, já como professor efetivo do referido grupo, para o Liceu de Jaime Moniz, no Funchal, tendo sido eleito, por unanimidade, em 27 de junho do mesmo ano, vogal efetivo do conselho administrativo da referida escola.

Na sessão do conselho escolar realizada, no dia 20 de outubro, o reitor interino afirmou que tinha tido conhecimento da nomeação de Ângelo Augusto da Silva para reitor efetivo daquele liceu. O conselho de professores emitiu um parecer unânime e convidou-o a assumir, de imediato, as funções de reitor, e o reitor interino congratulou-se por entregar o seu cargo a um professor que, pelas suas distintas qualidades profissionais e de carácter, honraria a instituição. Por sua vez, Ângelo Augusto da Silva, ao usar da palavra, começou por agradecer as elogiosas referências e afirmou que era estranho, em absoluto, à sua nomeação para reitor, que não tinha o menor desejo de assumir tais funções, e que não se considerava suficientemente competente para tal cargo. Tomando a seguir a palavra, o Prof. Pestana Júnior enalteceu as qualidades institucionais e morais do novo reitor e afirmou que este era “the right man in the right place (o homem certo no local certo” (ABM, Liceu Jaime Moniz, “Atas…” fls. 25 e 26). Após estes elogios, Ângelo Augusto da Silva resolveu aceitar o cargo.

Um mês depois, a 27 de novembro de 1923, Ângelo Augusto da Silva comunicou que tinha tido conhecimento da nomeação de Alberto Jardim para reitor efetivo e, apesar de instado pelos colegas a permanecer no cargo, recusou-se.

Em janeiro de 1925, numa fase agonizante do regime republicano, Ângelo Augusto da Silva voltou, novamente, a ser chamado para exercer a função de reitor. Desta vez, permaneceu no cargo durante quase dois anos, tendo pedido a demissão em julho de 1926, alegando que as suas ideias sobre a missão e os deveres do professorado eram muito particulares, tendo exigências com que alguns não concordavam; que, por isso, não conseguia, ao mesmo tempo, fazer cumprir a lei, manter a paz da sua consciência e conservar a unidade do corpo docente. Em 1930, foi novamente nomeado reitor, e desta vez exerceu o cargo durante 36 anos consecutivos até ser aposentado.

Em 1932, pouco tempo depois de tomar posse, enviou um relatório às entidades competentes, denunciando a situação calamitosa em que se encontrava o edifício onde funcionava o liceu – o antigo Paço Episcopal –, argumentando que este não apresentava as condições recomendadas para um estabelecimento de educação: a sua localização numa rua movimentada onde havia muito barulho, a falta de luz em várias salas e corredores, a pequena dimensão da quase totalidade das salas, a distribuição das aulas, dos gabinetes e do recreio por cinco pavimentos diferentes, o estado de ruína dos sobrados e dos tetos, a falta de um ginásio e de um campo de jogos e, finalmente, o número insuficiente de salas para o crescente número de alunos indicavam, claramente, a urgência de instalar a instituição de ensino num novo edifício.

Insatisfeito e tendo sempre em mente a defesa da qualidade do ensino, Ângelo Augusto da Silva reuniu o corpo docente com o objetivo de sensibilizar, através da imprensa, a opinião pública para a necessidade imperiosa de se construir um edifício de raiz, e promoveu uma campanha direcionada para as várias entidades oficiais. Organizou um questionário relativo às condições pedagógicas e higiénicas do edifício, tendo uma comissão (constituída pelo inspetor de saúde, pelo delegado de saúde e pelo médico escolar) visitado demoradamente todas as dependências do liceu para poder, com conhecimento de causa, dar resposta a todas as questões daquele inquérito. A comissão de médicos classificou o imóvel como “impróprio, sendo urgente a mudança para um edifício devidamente adequado a tal fim, sob pena de graves prejuízos para a saúde dos professores e alunos” (SILVA, 1932, 33).

Acompanhando o sentir da comissão de médicos, a Junta de Higiene do Concelho do Funchal, emitiu um parecer semelhante. A Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal (JGDAF), confrontada com esta situação, encarregou, em 1933, uma comissão (constituída por Ângelo Augusto da Silva, pelo diretor das obras públicas da JGDAF, o Eng.º Abel Vieira, e pelo médico escolar do Liceu, o Dr. William Clode) de indicar terrenos para a construção do novo edifício. A comissão reuniu-se a 26 de setembro e deliberou que fosse indicado o reitor para a presidência e, para secretário, o chefe de secretaria; aprovou que se agregasse àquela comissão um vogal da comissão administrativa da JGDAF e o Arqt. Edmundo Tavares, e que se efetuasse uma visita aos terrenos a estudar; finalmente, deliberou que se publicasse nos jornais um anúncio, solicitando às pessoas que possuíssem e quisessem vender terrenos com mais de 12.000 m2 que apresentassem as suas propostas na reitoria.

A cedência à JGDAF, pelo Estado, do terreno que pertencera ao Hospital Militar, em 13 de dezembro de 1936, pelo decreto n.º 26.983, para a construção de um edifício de raiz representou um passo de gigante para a concretização do sonho. As obras começaram em julho de 1940.

O anuário do Liceu Jaime Moniz, publicado em 1942-1943, sob a égide do reitor, informa que os serviços escolares foram instalados nos primeiros dias de outubro desse ano. De acordo com o referido anuário, Ângelo Augusto da Silva, ao presidir à abertura da sessão solene, no dia 7 de outubro, no velho Paço da R. do Bispo, afirmou que essa sessão seria o último ato liceal naquela casa, pois no dia seguinte todas as aulas começariam a funcionar no edifício mandado construir pela JGDAF. Disse ainda que, à alegria de ver realizada uma antiga aspiração, se misturava em todos os espíritos uma certa saudade, pois no velho Liceu, durante muitos anos, os professores e os alunos tinham trabalhado e gastado as suas melhores horas. Por outro lado, o sacrifício que o novo edifício representara para a população da madeira – onde as escolas primárias, oficiais e particulares, não eram suficientes para metade das crianças então existentes – impunha a mestres e a estudantes o dever moral de trabalharem ainda com mais vontade e entusiasmo, na ânsia de poderem ser verdadeiramente úteis, direta ou indiretamente, à nação e às classes desprotegidas daquela terra.

Na qualidade de vogal da JGDAF, Ângelo da Silva apresentou, a 30 de outubro de 1942, um relatório sobre a situação do ensino primário na madeira. Nas suas conclusões, aprovadas na sessão de 2 de julho de 1947, procurou salientar a vasta obra levada a efeito no campo educativo como reflexo da eficiente ação governativa e do clima de paz e de boas contas que o novo regime havia estabelecido. Afirmou ainda que, não obstante a importância das verbas despendidas pela JGDAF na educação, era ainda extraordinariamente grande a percentagem de analfabetos na madeira.

O relatório foi editado pela JGDAF em 1947, sob o título: Como Resolver na madeira o Problema do ensino Primário?. Neste opúsculo de 48 páginas, o autor procurou apresentar uma análise do ensino primário não só nas escolas do Funchal, mas nas de toda a Ilha. Lamentava que, no distrito do Funchal, apenas 39% das crianças estivessem matriculadas, enquanto 61% se encontravam excluídas do direito de aprender, embora em idade escolar; incentivava os governantes a lutarem para que o nível das classes mais desamparadas se elevasse com a maior rapidez possível, a fim de que a educação chegasse a todos. Observava que os 295 professores e regentes em exercício de funções eram manifestamente insuficientes, e que as escolas existentes eram poucas para a totalidade das crianças entre os 7 e os 12 anos, concluindo que este era o aspeto mais característico e mais desolador do ensino oficial das primeiras letras no arquipélago da madeira.

Esta luta para melhorar a qualidade de literacia do povo madeirense teve um fim feliz: no dia 1 de setembro de 1943, com a publicação do dec.-lei n.º 33.019, foi criada a Escola de Magistério Primário do Funchal, uma escola especializada na formação de professores.

A criação desta escola não representou um grande encargo para a JGDAF, pois passou a funcionar nas instalações do Liceu, sendo constituída pelos professores do referido estabelecimento, à exceção dos das disciplinas de Didática especial e de Legislação Administrativa, tendo o reitor como diretor; Ângelo Augusto da Silva exerceu as funções de diretor da Escola de Magistério Primário de 1943 a 1966, com a regência de algumas disciplinas de natureza pedagógica. Uma comunicação do subsecretário de Estado regista o carácter e a forma como exercia as suas funções: “Patenteia-se neste relatório o meticuloso cuidado com que a escola do Magistério Primário do Funchal procura servir a causa da educação e do ensino no Funchal, pelo que me parece dever manifestar ao respetivo diretor o apreço pela obra realizada” (ABM, Processo Individual…, of. n.º 6, 22 mar. 1956).

Para além da docência, Ângelo Silva exerceu diversos cargos, tais como: delegado provincial da Mocidade Portuguesa da madeira, vogal da comissão executiva da JGDAF, presidente da comissão do Museu das Cruzes, e membro do conselho diretivo da Sociedade de Concertos da madeira. Foi igualmente o primeiro delegado na madeira da Cáritas Portuguesa, que, numa época de crise e de carências de todo o género, teve um papel relevante no apoio à distribuição e ao fornecimento de alimentos em favor das pessoas que deles necessitavam. Como vogal da JGDAF, reuniu apoios para as obras de adaptação do forte de Machico, com o objetivo de este ser utilizado, durante o verão, para o lazer e o repouso das crianças carenciadas da creche de Santa Clara. Conseguiu apoios políticos e financeiros para a aquisição do Abrigo de Nossa Senhora de Fátima, tendo em vista o acolhimento, a educação moral e a integração na sociedade de raparigas que não tinham o devido apoio familiar, através da aprendizagem de lavores, da leitura, da escrita e de contas.

[caption id="attachment_2703" align="alignright" width="300"]Ângelo Augusto da Silva Fig. 2 – Fotografia de sessão solene de abertura do ano letivo de 1964/1965: entrega de prémios aos alunos. Fonte: Colç. Perestrellos Photographos (fotografia do Museu Vicentes).[/caption]

Da sua autoria foram editados, pela JGDAF, entre outros, os Anuários do Liceu do Funchal entre 1931 a 1963, e Inquéritos sobre a Inspeção do ensino Secundário em França.

Pelo trabalho que desempenhou ao longo da sua vida, quer no campo da educação e do ensino, quer como um cidadão atento e ativo, foi-lhe atribuído o grau de comendador da Ordem de Instrução Pública.

Faleceu no dia 24 de janeiro de 1987, com 91 anos.

 

Obras de Ângelo Augusto da Silva: As Noções Gerais do ensino da Matemática; O Liceu de Jaime Moniz (1946); Como Resolver na madeira o Problema do ensino Primário? (1947); Anuários do Liceu do Funchal (1931-1963); Inquéritos sobre a Inspeção do ensino Secundário em França.

Bibliog: manuscrita: ABM, Liceu Jaime Moniz, livs. 10, 39, 40, 41, 42 e 43; Ibid., Liceu Jaime Moniz, mç. 37; Ibid., Liceu Jaime Moniz, “Atas do Conselho Escolar do Liceu Central do Funchal”, 17 maio 1910 a 20 out. 1923; Ibid., Processo Individual do Reitor A. A. da Silva, of. n.º 6, 22 mar. 1956, do subsecretário de Estado; Arquivo pessoal de Maria Favila Vieira Cunha Paredes, “Atestados de Comportamento em Campanha do Alferes Ângelo Augusto da Silva”, 11 jan. 1918; impressa: CLODE, Luís Peter, Registo Biobibliográfico de Madeirenses – Séculos xix e xx, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; LUME, Filomena e FLORENÇA, Teresa, “Escolas de Habilitação para o Magistério Primário da madeira (1900-1982)”, in PINTASSILGO, J. (coord.), Escolas de Formação de Professores em Portugal, Lisboa, Colibri, 2012, pp. 287-337; SILVA, Ângelo Augusto da, Anuário do Liceu Jaime Moniz 1931-1967, Funchal, Livraria popular, 1932-1968; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, Funchal, SRE, 1978.

Jorge Moreira de Sousa

(atualizado a 11.02.2017)

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