carros de bois
O alcantilado da paisagem madeirense não permitiu a fácil utilização de veículos com rodas, salvo em algumas zonas rurais, pelo que houve necessidade de recorrer a outros meios de transporte, designadamente, a carros de bois, cujo barulho, produzido pela pesada estrutura, granjeou ao veículo a designação de “carro chião”. Desde as primeiras décadas do povoamento que temos referências à utilização de animais de carga, em princípio bovinos, chegando-se a proibir, em 1481, a passagem dos habitantes do Funchal sobre as frágeis pontes “em cima de besta ou com besta”, quando as ribeiras não estivessem cheias de água (ARM, Câmara..., Vereações, 1481, fl. 28). Portanto, de verão ou se as ribeiras corriam bonançosas, as bestas só podiam passar a vau, pelo leito, e as pontes guardavam-se apenas para a passagem dos peões.
O médico e naturalista inglês Hans Sloane (1660-1753), que visitou a Madeira nos finais do séc. XVII e publicou as suas impressões de viagem em A Voyage to the Islands Madeira, Barbados [...], em Londres, no ano de 1687, descrevia assim os transportes: “transportam tudo numa corsa puxada por bois, sendo este o único meio de transporte pelo facto desta terra ser tão acidentada e íngreme, com ruas estreitas que não permitem outro meio de transporte” (apud ARAGÃO, 1981, 161).
Os carros de bois que popularizaram internacionalmente o Funchal, ao longo do séc. XIX, devem ter nascido de simples atrelados, do tipo corsa, aos quais foi sendo adaptada, progressivamente, uma caixa com bancos, de modo a que servissem para o transporte de passageiros. A caixa com bancos duplos colocados frontalmente, dotada de portinholas laterais, coberta por toldo e suspensa em molas, deve ter-se constituído entre as décs. de 30 e 40 do séc. XIX, não tendo sofrido especiais adaptações até à sua extinção, nos inícios da déc. de 80 do séc. XX.
Já Maria Banks Woodley Ridell (1772-1808), que visitou pela primeira vez o Funchal em 1778, referiu que não se usavam carruagens na cidade, deslocando-se os habitantes em redes e palanquins, e que, em vez de carroças, usavam corsas puxados por bois (SILVA, 1994, 63). As dificuldades da orografia, em princípio, não permitiam a livre utilização das liteiras, objeto comum na Europa e mesmo no Brasil e de que só temos referência na Madeira com o bispo D. José da Costa Torres (1741-1813), através de uma liteira hoje existente no museu de Arte Sacra, e com o visconde do ribeiro real (1841-1902), através de uma outra que está no museu quinta das cruzes, ainda havendo um terceiro exemplar neste museu que desconhecemos se foi utilizado na Madeira. Ao contrário das liteiras, as redes e palanquins, dado o seu exotismo, vieram a tornar-se o transporte favorito dos turistas até aos meados do séc. XX.
As litografias do séc. XIX representam continuamente a utilização de corsas ou zorras, aparecendo mesmo com bastante frequência o transporte de um só homem, de pé, sobre uma tábua puxada pachorrentamente por um bovino (DILLON, 1850). As fotografias, a partir de 1870, registam o mesmo costume, com a utilização da corsa puxada por bois ou, mais raramente, por mulas a transportar os mais diversos materiais, sobretudo pipas de vinho, registando-se mesmo a designação de “corsão” para as maiores. Nos inícios do séc. XX registam-se até praças para este tipo de transporte, uma das quais na antiga R. dos Profetas, perto do antigo mercado e da casa da Luz (CALDEIRA, 1964, 69).
Mais tarde, este tipo de transporte com bois terá sido adaptado para deslocar passageiros, na parte baixa do Funchal e recorrendo a carreiros nas descidas mais abruptas, internacionalmente popularizadas pelos carros de cesto do Monte, já representados por Isabella de frança (1795-1880) em 1853 (FRANÇA, 1970, 52 e 53, 62 e 63). A análise da Madeira de meados do séc. XIX pode ser feita pelos olhos desta curiosa e perspicaz inglesa, que esteve na ilha entre 1853 e 1854, registando cuidadosamente as suas impressões de viagem, muito provavelmente para as vir a editar, o que só veio a acontecer bastante depois. Casada tardiamente, aos 57 anos, com o morgado e comerciante de origem madeirense José Henrique de frança (1802-1886), já nascido em Londres, o casal viajou à Madeira para vender as propriedades que aquele ainda mantinha na ilha. Na sua chegada ao Funchal, a 3 de agosto, descreve o carro de bois em que foram até ao hotel da R. da Carreira, comparando-o aos baloiços usados nas feiras inglesas e montados sobre um trenó, com almofadas e cortinas, e tirado por dois destes “bonitos bois pequeninos da terra”, de pelo castanho-escuro. Os animais não iam mais do que a passo, usavam chocalhos ao pescoço e o condutor fazia-os avançar gritando sempre, repreendendo, lisonjeando, “reproduzindo todo o género de extraordinários ruídos” e dizendo todo o caminho, a curtos intervalos: “Cá para mim, boi”, “Cá para mim, Esperto”, ou “moreno”, ou “bonito”, três adjetivos pelos quais os tratam. Descreve também que um rapaz corria diante dos bois, com um trapo que molhava em cada levada ou poço e atirava para debaixo do carro, a fim de o fazer deslizar melhor, elemento a que se chamava ainda, quase nos finais do séc. XX, “candeeiro”, cuja função era não só a de afastar os transeuntes, mas também a de passar um pano embebido em água ou sebo no empedrado, para facilitar o deslizamento (ibid., 52).
Escreve igualmente que “a ideia de adaptar estes trenós ao serviço de pessoas representa um melhoramento moderno, pois o conjunto foi introduzido há quatro ou cinco anos por um major Bulkeley. Anteriormente, o único transporte usado por senhoras e doentes era o palanquim, suportado por dois homens”. Acrescenta ainda que as zorras puxadas por bois empregavam-se desde o início do povoamento da ilha, o que é verdade, dado haver determinações camarárias desde os finais do séc. XV sobre a sua circulação no Funchal, “todavia, ainda não tinham pensado em transformá-las num carro de passageiros” (ibid.). Ora tal não corresponde à verdade, pois o transporte de passageiros em carros de bois já é mencionado em 1778, por Maria Ridell, como aliás anotaram Santos Simões e Cabral do Nascimento, com base, entre outros, no diário do jovem americano Edward Watkinson Wells, A Trip to Madeira, escrito entre dezembro de 1836 e maio de 1837, quando tinha 16 anos de idade, texto de que existia cópia na biblioteca da Associação Comercial do Funchal, na chamada “English Rooms” e hoje na biblioteca do Dr. Frederico de Freitas (ibid., 52 e 81).
A informação de Isabella de frança deve ter tido origem na leitura do álbum de Edward Vernon harcourt, A Sketch of Madeira, publicado em Londres, em 1851, onde aparece o desenho de um carro de bois simplificado, e depois nas informações da comunidade britânica com que contactou. A novidade introduzida por Bulkeley terá consistido no dispositivo de molas e nos assentos, na adoção do toldo e das almofadas, mas não na transformação do carro de bois em transporte público, pois essa é muito anterior.
No dia 23 de agosto, Isabella descreve ainda a sua primeira saída, motivada pelo convite para jantar na quinta do cônsul inglês George Stoddart (Stoddart, George). A impressão inicialmente registada foi a estranheza “de ir vestida de gala num transporte como o carro de bois” (ibid., 62). No entanto, a paisagem da subida ao Monte deslumbrou-a, como a viriam a deslumbrar as restantes.
A divulgação da fotografia nos anos seguintes, acrescida da sua comercialização e divulgação através de bilhetes-postais, difundiram universalmente o exotismo deste transporte típico da ilha, tornando-o quase uma imagem de marca do destino Madeira, a tal ponto que, estendendo-se o mercado turístico britânico às vizinhas ilhas Canárias, o carro de bois madeirense também ali apareceu em bilhetes-postais. Nos inícios do séc. XX, o pintor austríaco Max Römer (1878-1960) também contribuiu para a sua divulgação, juntando o encantador colorido das suas aguarelas à graça do jovem “candeeiro”.
Este tipo de transporte, embora com procura turística, não resistiu, no entanto, às necessidades de higienização da cidade do Funchal, incompatíveis com a circulação de bovídeos nas principias artérias da baixa citadina, sendo extinto nos inícios da déc. de 80 do séc. XX.
Bibliog.: manuscrita: ARM, Câmara Municipal do Funchal, Vereações, 1481; impressa: ARAGÃO, António (coord. e notas), A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, SREC, DRAC, 1981; CALDEIRA, Abel Marques, O Funchal no Primeiro Quartel do século XX: 1900-1925, Funchal, [Tip. da Emp. Madeirense Editora], 1964; CAMACHO, Rui e PAULINO, Francisco Faria (ed. lit.), O Funchal na Obra de Max Römer: 1922/1960, Funchal, Funchal 500 Anos, 2008; CARITA, Rui, História da Madeira, vol. 7, Funchal, SRE e UMa, 2008; Id., “Os Carros de Bois na Madeira. Um Pouco de História”, Diário de Notícias, Funchal, 25 nov. 1990, p. 9; CARITA, Rui e MELLO, Luís de Sousa, Associação Comercial e Industrial do Funchal: Esboço Histórico (1836-1933), Funchal, Edicarte, 2003; DILLON, Frank e PICKEN, T., Scketches in the Island of Madeira, London, Day and Son Lith, 1850; FRANÇA, Isabella de, Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal, 1853-1854, anot. Cabral do Nascimento e João dos Santos Simões, Funchal, JGDAF, 1970; harcourt, Edward Vernon, A Sketch of Madeira, Containing Information for the Traveller, or Invalid Visitor, London, John Murray, 1851; SILVA, António Ribeiro Marques da, Apontamentos sobre o Quotidiano Madeirense (1750-1900), Lisboa, Caminho, 1994; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., ed. fac-simile, Funchal, SRTC, 1998.
Rui Carita
(atualizado a 11.07.2016)